{"id":2737,"date":"2015-10-20T19:24:27","date_gmt":"2015-10-20T22:24:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2737"},"modified":"2017-11-02T14:08:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:05","slug":"tres-grandes-enganos-sobre-debates-literarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/10\/tres-grandes-enganos-sobre-debates-literarios\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas Grandes Enganos Sobre Debates Liter\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p>Com agradecimentos a Osmarco Vallad\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Invariavelmente os debates sobre literatura nas redes sociais s\u00e3o contaminados por fal\u00e1cias e por atitudes infantis, que impedem que opini\u00f5es discordantes convivam amigavelmente. Este artigo analisa tr\u00eas destas grandes fal\u00e1cias, apontadas pelo escritor Osmarco Vallad\u00e3o, em uma postagem do grupo \u201cEscritores Ajudando Outros Escritores\u201d e uma quarta que eu mesmo detectei no mesmo t\u00f3pico do debate.<\/p>\n<h3>1. Criticar a obra tamb\u00e9m significa criticar o seu autor.<\/h3>\n<p>Quando eu era adolescente, um dos medos que me apavoravam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura era que as pessoas pegassem os meus escritos, les\u00adsem e achassem que <em>eram<\/em> pensamentos meus postos em papel. Acredito que boa parte dos mais jovens sentem algo parecido se est\u00e3o come\u00e7ando, por isso eles n\u00e3o apenas sentem medo pare\u00adcido como transferem esse medo aos autores de que gostam. Trata-se da ideia (equivocada, como quase toda ideia popular) de que h\u00e1 uma identidade entre o autor e a obra. Da\u00ed se imaginar que o autor \u00e9 pessoalmente atingido quando sua obra recebe algum tipo de cr\u00edtica, especialmente se a cr\u00edtica pegar pesado.<\/p>\n<p>Este pensamento n\u00e3o est\u00e1 exclusivamente nos leitores, n\u00e3o se estende somente at\u00e9 os jovens autores: h\u00e1 autores profissionais que ainda est\u00e3o impregnados disso \u2014 especialmente em um pa\u00eds como o nosso, no qual <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/02\/a-falta-que-faz-a-profissionalizacao\">profissionalismo e amadorismo se confundem ainda<\/a>. Mas a popularidade n\u00e3o muda a sua falsidade: n\u00e3o deveria haver essa identifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o extrema e t\u00e3o idealista entre o autor e sua obra. Ou ser\u00edamos for\u00e7ados a pensar que autores de romances policiais precisam ser policiais, que poetas rom\u00e2nticos precisam ser ing\u00eanuos, que autores de terror precisam ser s\u00e1dicos ou paranoicos ou que autores de com\u00e9dias precisam ser engra\u00e7ados em sua vida pessoal. N\u00e3o s\u00e3o, n\u00e3o precisam ser.<\/p>\n<p>Claro que todos devem ser orgulhar do que produzem, mas quando somos apresentados aos defeitos e limita\u00e7\u00f5es do que fazemos, isso n\u00e3o deveria implicar em uma d\u00favida quanto aos nossos defeitos e limita\u00e7\u00f5es enquanto pessoas. Um p\u00e9ssimo autor ainda pode ser um cara legal e um calhorda pode ser um \u00f3timo escritor. Quanto menos acreditarmos na identifica\u00e7\u00e3o m\u00edstica entre autor e obra, melhor para o autor e melhor para o debate liter\u00e1rio.<\/p>\n<h3>2. Criticar a obra tamb\u00e9m significa criticar o seu leitor.<\/h3>\n<p>Se \u00e9 pelo menos compreens\u00edvel que <em>o autor<\/em> se sinta atingido pela cr\u00edtica, \u00e9 um tanto estranho que o leitor o seja. A leitura de uma obra deveria ser um mero ato de consumo, com o ocasional efeito transformados que o contato com o conhecimento nos traz: <em>n\u00e3o deveria surgir nenhum tipo de rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia entre o leitor e a obra que l\u00ea<\/em>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo assim, \u00e9 comum que os leitores se sintam atingidos. Se eu digo que acredito que \u201c50 Tons de Cinza\u201d \u00e9 um livro idiota os leitores se sentem chamados de idiotas. Como se pessoas normais (\u201cn\u00e3o-idiotas\u201d) n\u00e3o pudessem fazer coisas idiotas por divers\u00e3o. Eu, por exemplo, gosto de ouvir hard-rock oitentista mesmo sabendo que aquilo ali j\u00e1 era considerado lixo naquela \u00e9poca. \u00c9 um lixo melhor do que o que se considera hoje como tal, mas, ainda assim, era lixo. Gostar de lixo faz parte da forma\u00e7\u00e3o de toda pessoa normal. Ningu\u00e9m se cria somente com o bom e o melhor tal como ningu\u00e9m se cria, rico que seja, comendo caviar em toda refei\u00e7\u00e3o. Existe um custo na qualidade, um custo n\u00e3o apenas monet\u00e1rio mas tamb\u00e9m intelectual. Quando lemos um livro dif\u00edcil e exigente nos sentimos um tanto exauridos e podemos querer o conforto de umas leituras leves por uns tempos, at\u00e9 mesmo algumas leituras tolas. |Isso n\u00e3o nos torna menos espertos. O que realmente nos torna idiotas \u00e9 quando assumimos a defesa de uma obra ou de um autor apenas porque nos sentimos associados a uma obra que idolatramos. Isso sim \u00e9 vergonhoso.<\/p>\n<h3>3. Criticar a obra \u00e9 exercer uma censura do gosto alheio.<\/h3>\n<p>Talvez fosse did\u00e1tico pegar a juventude de hoje e fazer com que ela vivesse, de verdade, por algumas semanas em uma ditadura cheia de censura como a nossa \u201cditabranda\u201d de 1964. Talvez assim parassem de usar em v\u00e3o o termo \u201ccensura\u201d para se referir a qualquer atitude ou opini\u00e3o com que n\u00e3o concordam.<\/p>\n<p>Na verdade, \u201ccensura\u201d \u00e9 a que pretendem exercer aqueles que ten\u00adtam deslegitimar o direito de expressar cr\u00edtica sobre aquilo de que gostam. Projetinhos de ditadores s\u00e3o estes que n\u00e3o suportam que existam pessoas que pensem diferente.<\/p>\n<p>Afinal, ningu\u00e9m precisa se sentir proibido de ler um autor que recebe uma cr\u00edtica. No m\u00e1ximo, deveria se sentir convidado a refletir sobre o teor da cr\u00edtica, para aceitar ou n\u00e3o as teses defendi\u00addas por quem criticou. O problema de se convidar \u00e0 reflex\u00e3o pessoas que n\u00e3o gostam de refletir \u00e9 que elas encaram esse desafio intelectual como uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a de seus conceitos. Uma viola\u00e7\u00e3o de sua zona de conforto.<\/p>\n<p>Se eu digo que acho \u201cO Alquimista\u201d um livro mal escrito os f\u00e3s de Paulo Coelho surtam dizendo que eu estou tentando censurar o seu gosto, <em>como se houvesse alguma opress\u00e3o sobre a maioria<\/em>. A censura nunca \u00e9 exercida contra o pensamento dominante, mas sempre contra o pensamento <em>desviante<\/em>. Aqueles que est\u00e3o surfando a onda da prefer\u00eancia popular no momento n\u00e3o est\u00e3o sofrendo sen\u00e3o a censura que os controladores da cultura popular exercem sobre os que produzem vis\u00f5es culturais minorit\u00e1rias.<\/p>\n<h3>4. Qualquer crit\u00e9rio valorativo \u00e9 uma forma de opress\u00e3o.<\/h3>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas do pensamento p\u00f3s-moderno aplicado \u00e0 literatura (e \u00e0s artes em geral) \u00e9 o de que a liberdade absoluta de express\u00e3o \u00e9 um valor em si e que a busca de crit\u00e9rios valorativos \u00e9 um retorno ao academicismo \u2014 uma forma de opress\u00e3o, portanto. Na opini\u00e3o destas pobres almas, a liberdade consiste na aus\u00eancia de regras. Como na literatura isso \u00e9 bem mais dif\u00edcil de aplicar (qual o equivalente liter\u00e1rio a esguichar tinta aleatoriamente em um quadro ou colocar uma cadeira presa no teto?), eles se contentam em defender que a express\u00e3o encontrada pelo autor deve ser aceita pelo seu valor nominal, sem que pretendamos enquadr\u00e1-la em crit\u00e9rios \u201carbitr\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Aqui temos dois erros fundamentais: o primeiro \u00e9 a cren\u00e7a na <em>necess\u00e1ria<\/em> arbitrariedade dos crit\u00e9rios da cr\u00edtica liter\u00e1ria (ou de qualquer cr\u00edtica) e o segundo \u00e9 a ideia de que o autor possui uma legitimidade para avaliar a pr\u00f3pria obra que o cr\u00edtico n\u00e3o det\u00e9m.<\/p>\n<p>Digo que \u00e9 um erro a cren\u00e7a na \u201cnecess\u00e1ria\u201d arbitrariedade dos cri\u00adt\u00e9rios porque este \u00e9 um prejulgamento generalizante. Dizer que um crit\u00e9rio \u00e9 arbitr\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 absurdo, dizer que qual\u00adquer crit\u00e9rio (existente ou que venha a ser criado) sempre ser\u00e1 arbitr\u00e1rio \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o obscurantista, \u00e9 um argumento pela ignor\u00e2ncia, um non plus ultra intelectual. E \u00e9 tamb\u00e9m uma fuga ao debate, pois quem assim pensa se exime do \u00f4nus de criar um crit\u00e9rio alternativo ao que est\u00e1 criticando.<\/p>\n<p>Digo que \u00e9 um erro atribuir excessiva legitimidade ao autor por dois motivos: 1) \u00e9 uma forma de, a\u00ed sim, exercer censura, limitando as interpreta\u00e7\u00f5es de uma obra \u00e0quelas que o autor determinar como poss\u00edveis e 2) parte-se do princ\u00edpio de que o autor expressa apenas ideais conscientes, nunca cometendo nem atos falhos e nem posteriormente mudando de ideia a respeito do que escreveu em uma fase anterior da vida. Na pr\u00e1tica, negar legitimidade \u00e0 cr\u00edtica e entreg\u00e1-la, toda, na m\u00e3o do autor equivale a impedir totalmente o debate sobre a obra, que deixa, assim, de ser uma cria\u00e7\u00e3o interativa e passa a ser uma express\u00e3o un\u00edvoca da vontade de quem a escreveu.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, como at\u00e9 mesmo se v\u00ea no grande mercado de fanfics e obras derivadas, \u00e9 extremamente natural que as pessoas tenham interpreta\u00e7\u00f5es diferentes \u2014 por que somente o cr\u00edtico n\u00e3o poderia ter as suas? Como se ao escolher o que ler\u00e1, este leitor confuso que tem tais ideias n\u00e3o estivesse exercendo um crit\u00e9rio valorativo todo seu, embora assistem\u00e1tico.<\/p>\n<h3>Conclus\u00f5es<\/h3>\n<p>Na pr\u00e1tica o que este debate produz \u00e9 apenas obscuridade e m\u00e1rti\u00adres. Suprime-se o jogo limpo das ideias em nome de idealismos bes\u00adtas que apenas nos emburrecem coletivamente. E quando confron\u00adta\u00addos com os limites, de conhecimento e de capacidade intelectual, os defensores destas ideias se \u201cimolam\u201d saindo dos grupos, dele\u00adtando seus perfis ou entrando em modo berserkr para que sejam expul\u00adsos pelos moderadores.<\/p>\n<p>Seria interessante que as pessoas encarassem os livros de uma forma mais casual e menos religiosa, e aceitassem conversar sobre eles de forma madura. Aceitando, inclusive, que ler livros idiotas \u00e9 uma fase e pode ser um momento na vida do mais intelectual dos indi\u00adv\u00ed\u00adduos e que, portanto, h\u00e1 espa\u00e7o para toda forma de literatura, embora o espa\u00e7o da \u201cboa\u201d literatura tenda a ser menor porque a massa n\u00e3o alcan\u00e7a a prateleira de cima.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o deveria, a massa, querer quebrar a prateleira e queimar o que tem nela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com agradecimentos a Osmarco Vallad\u00e3o. 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