{"id":2769,"date":"2015-12-11T22:53:55","date_gmt":"2015-12-12T01:53:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2769"},"modified":"2017-11-02T14:08:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:05","slug":"tratamento-de-recuperacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/12\/tratamento-de-recuperacao\/","title":{"rendered":"Tratamento de Recupera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Despertou-me o sil\u00eancio. A noite parecia cortada ao meio, sangrando ainda, quando meus olhos se arreganharam para as trevas. Havia um sil\u00eancio espesso empo\u00e7ado no quarto, o suor secava e me causava frio, na calma intensa da madrugada eu ouvi meu cora\u00e7\u00e3o bater t\u00e3o levemente que me senti ainda falecido, como se a minha alma mesma ainda revoasse por alturas poss\u00edveis. Mas n\u00e3o, eu estava ancorado \u00e0 cama e \u00e0 carne. Tentei me virar, mas a dor do movimento foi demais para minha pouca vontade. Quis ficar t\u00e3o im\u00f3vel quanto imposs\u00edvel, senti minhas pernas pouco a pouco esticando, meus m\u00fasculos totais relaxando.<\/p>\n<p>Por um instante brev\u00edssimo meus olhos ca\u00edram de novo, mas eu n\u00e3o sei quanto durou. De fato fazia pouca diferen\u00e7a em tamanha escurid\u00e3o. De repente eu me senti caindo como um tijolo, o colch\u00e3o sacudiu com o meu peso, meus m\u00fasculos moles e meus membros se desenrolaram como cordas.<\/p>\n<p>Havia algu\u00e9m no quarto? Ou somente um inseto violinista? Deslizei pelo len\u00e7ol at\u00e9 a beira da cama, minhas in\u00fateis pernas ainda dormindo. Meu pesco\u00e7o pendeu fora do colch\u00e3o, ouvi o sangue espremido em minhas veias, rugindo em meus ouvidos.<\/p>\n<p>Arrependido do movimento, chamei por algu\u00e9m. Ningu\u00e9m pareceu ouvir. O sil\u00eancio n\u00e3o desistiu de mim. Mas estava chovendo quando dormi? Ou n\u00e3o estava. Voltei a me deitar. Com algum custo me apoiei na parede e me sentei, passei a massagear minhas coxas e canelas, voltei a senti-las. Devia ter dormido muito, muito mesmo, para elas estarem t\u00e3o amortecidas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o senti um arrepio cavalar na espinha, como se algu\u00e9m sussurrasse t\u00e3o perto de mim que eu ouvisse o bafo e a respira\u00e7\u00e3o como uma coisa s\u00f3, distante e ainda silenciosa, apesar de aud\u00edvel e assustadora.<\/p>\n<p>Praguejei que a tomada da luz ficasse perto da porta, t\u00e3o longe da cama. Por sorte deixara o celular perto do travesseiro, para que o despertador me acordasse com mais facilidade. Tateei pelo len\u00e7ol amarrotado e meio desencaixado de seu lugar, o maldito aparelho poderia ter se enfiado numa dobra do universo e ido parar em qualquer outro lugar.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o me acossava, j\u00e1 podia sentir o calor de uma presen\u00e7a escura, no quarto totalmente negro, na noite absurdamente quieta, a calada completa que se diz n\u00e3o haver mais. Meus dedos trope\u00e7aram em algo. O formato e o peso eram certos. Apertei o bot\u00e3o lateral, a luz da tela n\u00e3o acendeu. Apertei de novo, e de novo, freneticamente. A luz n\u00e3o acendeu apesar de a bateria ter estado cheia no momento em que me deitara.<\/p>\n<p>Olhei em volta, olhos arregalados, \u00e0 espera de me acostumar com o breu e conseguir ver alguma coisa, ainda que furtivamente. Quarenta pavorosos segundos com aquela sensa\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a t\u00e3o perto e meus in\u00fateis olhos, coalhados de medo, n\u00e3o conseguiam penetrar a parede preta da noite.<\/p>\n<p>Senti que minhas pernas j\u00e1 n\u00e3o dormiam tanto. Inclinei-me para a frente como o agente que desvia magicamente de uma bala do inimigo e, por calcular mal a minha posi\u00e7\u00e3o, dei de cara com o ch\u00e3o em vez de encontrar o p\u00e9 da cama. Levantei com rapidez para acertar a nuca no puxador da gaveta do guarda-roupa.<\/p>\n<p>Praguejei de novo, esfregando a nunca com uma m\u00e3o enquanto a outra tentava descobrir se meu nariz sangrava ou n\u00e3o. Com esfor\u00e7o me levantei e me sentei na beira da cama. A sensa\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a parecia desaparecida. O quarto deveria estar vazio\u2026  a menos que\u2026<\/p>\n<p>De p\u00e9, finalmente, abri os bra\u00e7os e comecei a tatear em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta. Dei numa parede. Virei-me \u00e0 dire\u00e7\u00e3o oposta e finalmente encontrei a penteadeira. Maldita La\u00eds! Mudou a posi\u00e7\u00e3o dos m\u00f3veis enquanto eu dormia! Encontrei a parede ao lado da penteadeira e rastejei meus dedos por ela, com cuidado para nada derrubar, e finalmente achei a porta, ao lado dela o interruptor.<\/p>\n<p>Olhei em volta novamente. N\u00e3o sentia mais a presen\u00e7a. Mas tinha um receio curioso de acionar a luz e descobrir o que haveria no quarto, se algo havia. Mas logo deixei de lado tudo isso de medo e frescura e acionei o interruptor, com tanta for\u00e7a at\u00e9, que ele entrou em curto-circuito: nada se acendeu nem fagulhou e tampouco soou.<\/p>\n<p>Meu estoque de palavr\u00f5es j\u00e1 estava bem curto, por isso me desinteressei de xingar e sa\u00ed do quarto, procurando o interruptor da sala. Dei uma topada numa mesinha de centro que eu poderia jurar que n\u00e3o estava l\u00e1 antes que eu dormisse e finalmente achei a porta de casa, ao lado dela o interruptor duplo. Acionei-o repetidas vezes, mas as trevas n\u00e3o foram sequer atenuadas, e nada ouvi.<\/p>\n<p>Ao menos do lado de fora haveria luar, alguma coisa de luz se filtraria mesmo entre as mais grossas nuvens. A porta estava, por\u00e9m, trancada. Se aquela era a minha casa, no entanto, eu saberia onde estavam as chaves.<\/p>\n<p>Do lado oposto havia o corredor que conduzia a cozinha. Tateei por ele. \u00c0 esquerda estava a entrada da biblioteca e a subida para o segundo piso, \u00e0 direita o banheiro social. Na parede da cozinha, ao lado da porta que dava para o corredor, encontrei o porta-chaves. O chaveiro familiar, com a semente falsa confeccionada em couro e madeira.<\/p>\n<p>Voltei pelo corredor, cheguei \u00e0 sala, tateei a porta, achei a fechadura e com alguma dificuldade a abri.<\/p>\n<p>Do lado de fora havia trevas totais. Nenhum sil\u00eancio menor que o da morte poderia ser t\u00e3o completo. Encostei a porta por tr\u00e1s de mim e ouvi, pela primeira vez, algum ru\u00eddo que n\u00e3o me assustou: patas. Algo gordo e feliz correu pela ard\u00f3sia da garagem e veio lamber minhas pernas. O toque familiar de Peludo me acalmou um pouco, me amarrou de novo \u00e0 sanidade. Eu estava em casa, afinal, era apenas uma noite silenciosa durante um apag\u00e3o. Nada diferente disso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me deparei com a parede.<\/p>\n<p>Lisa, fria, limpa, mais alta do que eu. Seguia em torno de toda a casa, conforme verifiquei. Esta descoberta me desnorteou de novo. Que merda era aquela, afinal. O ar come\u00e7ou a me faltar, a sensa\u00e7\u00e3o de que a minha casa, a minha vida, at\u00e9 o meu cachorro, tudo tinha sido posto dentro de uma inef\u00e1vel caixa que me bloqueava toda luz e quase todo som. Mas havia algo al\u00e9m de meu bicho comigo: eu sentira em meu quarto, talvez isso me acordara.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me lembrei de algumas partes.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o bastante simples. Seda\u00e7\u00e3o e anestesia raquidiana. A extra\u00e7\u00e3o n\u00e3o dura mais do que vinte ou trinta minutos. A sonda \u00e9 retirada praticamente sem traumas. Para seu maior conforto, ser\u00e1 mantido sedado at\u00e9 a retirada dela. Depois ter\u00e1 alta. Vida normal. \u00c9 apenas um c\u00e1lculo.\u201d<\/p>\n<p>Deitado na sala de cirurgia, contemplando os instrumentos que bipavam, os enfermeiros contando piadas de futebol, o m\u00e9dico lavando as m\u00e3os em uma generosa pia de \u00e1lcool puro e lembrando a excelente cerveja artesanal que experimentara em um lugar que mal conseguia ouvir, pois a seda\u00e7\u00e3o j\u00e1 come\u00e7ava.<\/p>\n<p>\u201cEu s\u00f3 n\u00e3o entendi, doutor\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cPsiu.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEle j\u00e1 est\u00e1 dormindo, veja. Eu s\u00f3 n\u00e3o entendo como um c\u00e1lculo renal se mexeria dentro do paciente daquele je\u2026\u201d<\/p>\n<p>Eu estava despertando de uma seda\u00e7\u00e3o prolongada.<\/p>\n<p>Corri as m\u00e3os pelo corpo, por debaixo do pijama, n\u00e3o encontrei cicatriz. Mas tampouco ouvi o pulsar estranho ou senti a dolorosa movimenta\u00e7\u00e3o em meu abdome.<\/p>\n<p>Ouvi um ru\u00eddo ent\u00e3o. Novo, diferente, inexplic\u00e1vel. Alto tamb\u00e9m, e monstruoso, prolongado.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 imaginava estar cego, uma faca luminosa cortou a pretid\u00e3o daquela caixa como se removessem uma tampa. O rasgo amarelo alaranjado parecia revelar um c\u00e9u vespertino bonito. Levei as m\u00e3os aos olhos, incr\u00e9dulo, e percebi, para meu espanto, que estavam cobertos por uma grossa remela que os selava quase. A custo eles tentavam se abrir e eu dolorosamente arranquei cavacos daquela subst\u00e2ncia asquerosa, at\u00e9 eles finalmente conseguirem arregalar-se para a linda nuvem rosada que boiava pelo c\u00e9u amarelo.<\/p>\n<p>Estava em casa.<\/p>\n<p>A casa \u00e9 que n\u00e3o estava em casa.<\/p>\n<p>Meu c\u00e3o estava mais magro, mas parecia bem. A coisa rastejava at\u00e9 mim. Era, meu deus, os restos de um homem, usando um jaleco verde de m\u00e9dico. Lembrei da sensa\u00e7\u00e3o estranha dentro de mim, agora ausente. Eles haviam tocado um mist\u00e9rio, ousado o que n\u00e3o podiam. Tive pena do pobre m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Ele abriu uma chaga pustulenta e sussurrou atrav\u00e9s de uma garganta dolorida:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o era um c\u00e1lculo, voc\u00ea sabia! Maldito!\u201d<\/p>\n<p>Eu sabia? Sabia?<\/p>\n<p>O c\u00e9u amarelo foi cortado pelas asas alaranjadas de uma passarosidade. Que logo mergulhou sobre o quintal da casa. Refugiei-me dentro, o pobre m\u00e9dico n\u00e3o teve como. Mas foi uma miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Agora vou dormir, sonhando em acordar de novo em minha vida.<\/p>\n<p>E se eu tiver outra crise, n\u00e3o me operem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Despertou-me o sil\u00eancio. A noite parecia cortada ao meio, sangrando ainda, quando meus olhos se arreganharam para as trevas. Havia um sil\u00eancio espesso empo\u00e7ado no quarto, o suor secava e me causava frio, na calma intensa da madrugada eu ouvi meu cora\u00e7\u00e3o bater t\u00e3o levemente que me senti ainda falecido, como se a minha alma mesma ainda revoasse por alturas poss\u00edveis. Mas n\u00e3o, eu estava ancorado \u00e0 cama e \u00e0 carne. Tentei me virar, mas a dor do movimento foi demais para minha pouca vontade. 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