{"id":2802,"date":"2016-02-10T08:41:34","date_gmt":"2016-02-10T11:41:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2802"},"modified":"2017-11-02T14:08:04","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:04","slug":"a-alienacao-no-processo-criativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/02\/a-alienacao-no-processo-criativo\/","title":{"rendered":"A Aliena\u00e7\u00e3o no Processo Criativo"},"content":{"rendered":"<p>Os autores, especialmente os mais jovens, mas n\u00e3o somente eles, costumam reagir com certa amargura quando o tema &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 colocado em discuss\u00e3o. A ideia de que o conceito sequer exista ou possa ser aplicado \u00e0 literatura lhes parece ofensiva, como se alguns autores quisessem colocar-se em um pedestal moral &#8212; o que nunca \u00e9 simp\u00e1tico. Essa rea\u00e7\u00e3o instintiva ao conceito de aliena\u00e7\u00e3o reflete uma dificuldade para refletir sobre o pr\u00f3prio fazer liter\u00e1rio, que \u00e9, em grande parte, causada pela generalizada ignor\u00e2ncia daqueles que querem escrever a respeito dos aspectos te\u00f3ricos e t\u00e9cnicos do fazer liter\u00e1rio. Em suma: como o autor sequer sabe o que \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o e de que formas ela deve ser abordada, ele se deixa contaminar por preconceitos e ilus\u00f5es que o levam a atirar no mensageiro &#8212; ou seja, naquele autor que tenta trazer o tema ao debate.<\/p>\n<p>Para que alguns autores n\u00e3o fiquem pensando que debater sobre aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de menosprez\u00e1-los e outros n\u00e3o se sintam de alguma forma &#8220;melhores&#8221; por apenas mencionarem o tema, vou tentar, neste artigo, levar o debate \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, partindo das defini\u00e7\u00f5es mais b\u00e1sicas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Lembrando que isso n\u00e3o quer dizer que voc\u00ea n\u00e3o possa escrever ou consumir coisas do exterior. A hist\u00f3ria \u00e9 sua, a prefer\u00eancia \u00e9 sua e voc\u00ea escreve, l\u00ea ou assiste a merda que quiser.<sup id=\"fnref:meg\"><a href=\"#fn:meg\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esses garotos precisam parar para pensar que uma proposta de debate \u00e9 um convite a pensar, n\u00e3o uma censura. Se voc\u00ea se sente intimidado pelos outros estarem pensando, \u00e9 porque voc\u00ea provavelmente n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>E \u00e9 parede de texto, sim. N\u00e3o t\u00e1 a fim de ler, vai assistir meia hora de Big Brother e n\u00e3o encha a minha paci\u00eancia.<\/p>\n<h3>Conceitos Originais<\/h3>\n<p>Comecemos por um conselho: descarte o dicion\u00e1rio. Normalmente o dicion\u00e1rio \u00e9 uma ferramenta \u00fatil para o escritor, ao permitir-lhe conhecer melhor os sentidos das palavras que emprega. Por\u00e9m, ele deixa de ser \u00fatil em duas situa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Quando o autor passa a acreditar que pode us\u00e1-lo como <em>fonte<\/em> de vocabul\u00e1rio<\/li>\n<li>Quando se torna necess\u00e1rio abordar com mais profundidade os aspectos te\u00f3ricos da literatura.<\/li>\n<\/ul>\n<p>No primeiro caso o dicion\u00e1rio \u00e9 desaconselh\u00e1vel porque ele apresenta as palavras sem contexto, n\u00e3o oferecendo um conhecimento org\u00e2nico delas.  Autores que catam palavras em dicion\u00e1rios n\u00e3o conseguem utiliz\u00e1-las com propriedade e facilmente caem no rid\u00edculo ou na ostenta\u00e7\u00e3o vazia. No segundo, o dicion\u00e1rio \u00e9 perigoso porque, pela sua pr\u00f3pria natureza, ele \u00e9 for\u00e7ado a oferecer defini\u00e7\u00f5es curtas e superficiais; que podem ser \u00fateis para uma refer\u00eancia r\u00e1pida, mas n\u00e3o proporcionam a profundidade de que se precisa para realmente <em>entender<\/em> um conceito al\u00e9m do \u00f3bvio.<\/p>\n<h3>A Aliena\u00e7\u00e3o Segundo Marx<\/h3>\n<p>O termo aliena\u00e7\u00e3o deriva de Karl Marx &#8212; e talvez por isso seja t\u00e3o criticado e rejeitado nesses tempos de debate pol\u00edtico t\u00e3o carregado. Por\u00e9m, a discord\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia do autor n\u00e3o tem a mais remota import\u00e2ncia como julgamento da validade dos conceitos que ele prop\u00f5e. Julgar em bloco a obra de algu\u00e9m a partir um posicionamento pol\u00edtico \u00e9 burrice (e aqui, sim, eu <em>pretendo<\/em> ofender).<\/p>\n<p>Para Marx, a aliena\u00e7\u00e3o seria a separa\u00e7\u00e3o entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho. Ela pode ser entendida melhor quando analisamos, por exemplo, a situa\u00e7\u00e3o de um oper\u00e1rio em uma f\u00e1brica. Os bens produzidos ali n\u00e3o pertencem a nenhum trabalhador em particular, ou mesmo ao conjunto dos trabalhadores. Tudo o que a f\u00e1brica produz pertence ao seu propriet\u00e1rio. Esta situa\u00e7\u00e3o ocorre porque os trabalhadores apenas alugam a sua for\u00e7a de trabalho, mas os bens de capital (m\u00e1quinas, pr\u00e9dios, etc.), estes chamados por Marx de &#8220;meios de produ\u00e7\u00e3o&#8221;, pertencem ao dono da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Observe que o conceito de aliena\u00e7\u00e3o em Marx \u00e9 absolutamente incontroverso: a menos que voc\u00ea queira afirmar que, sim, os trabalhadores s\u00e3o donos do que produzem, n\u00e3o lhe resta alternativa sen\u00e3o aceitar que \u00e9 caracter\u00edstica do capitalismo que o trabalhador n\u00e3o possua e nem controle o resultado de seu trabalho. Voc\u00ea pode, por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas, afirmar que essa falta de controle n\u00e3o \u00e9 relevante, que ela n\u00e3o necessariamente seja injusta ou retire do trabalhador a sua autonomia, mas a separa\u00e7\u00e3o em si, a &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221;, \u00e9 um fato real.<\/p>\n<p>Caso voc\u00ea n\u00e3o seja capaz de admitir a realidade do conceito acima explicado, recomendo fortemente que n\u00e3o leia o resto, pois o artigo tende a lev\u00e1-lo para cada vez mais longe do seguro cercadinho intelectual em que vive.<\/p>\n<h3>Outras Formas de Aliena\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Al\u00e9m da aliena\u00e7\u00e3o enquanto conceito econ\u00f4mico, proposto por Marx, temos outros dois conceitos an\u00e1logos, a &#8220;aliena\u00e7\u00e3o mental&#8221; e a &#8220;aliena\u00e7\u00e3o cultural&#8221;.<\/p>\n<p>Do primeiro, que \u00e9 quase t\u00e3o antigo quanto Marx, talvez at\u00e9 mais, quase nada falaremos pois ele n\u00e3o interessa tanto a esse artigo, que \u00e9 sobre aliena\u00e7\u00e3o <em>cultural<\/em>. Sobre ele, basta dizer que, assim como a aliena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica implica na transfer\u00eancia a outrem do controle e\/ou da propriedade do produto do pr\u00f3prio trabalho, a aliena\u00e7\u00e3o mental implica na transfer\u00eancia do controle sobre a pr\u00f3pria mente a uma for\u00e7a externa. No caso, a medicina e os tratamentos que esta prop\u00f5e para remediar a afli\u00e7\u00e3o do paciente.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o cultural, por sua vez, seria a separa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria identidade, tornando-o incapaz de uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com o mundo. Sobre ela \u00e9 que falaremos mais a seguir.<\/p>\n<h3>A Aliena\u00e7\u00e3o N\u00e3o Significa Falta de Car\u00e1ter<\/h3>\n<p>\u00c9 muito importante dizer, neste ponto j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o prematuro, que debater aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma forma de menosprezo. Eu n\u00e3o poderia ter escrito isso antes, sem explicar os conceitos de aliena\u00e7\u00e3o, porque existe uma opini\u00e3o preconceituosa, <em>principalmente entre os que se julgam <strong>n\u00e3o alienados<\/strong><\/em>, de que ser ou n\u00e3o alienado \u00e9 algo que pode ser objeto de algum tipo de ju\u00edzo de valor. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Ser alienado n\u00e3o \u00e9 ser intelectual nem moralmente inferior, \u00e9 simplesmente n\u00e3o ter autonomia, \u00e9 ter uma rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um &#8220;outro&#8221; (<em>alies<\/em>, em latim) que efetivamente det\u00e9m o poder que lhe \u00e9 negado pelo sistema. N\u00e3o ser alienado n\u00e3o significa ser &#8220;melhor&#8221; ou &#8220;maior&#8221; porque n\u00e3o existe tal criatura iluminada: no sistema capitalista <strong>somos todos em alguma medida alienados<\/strong>. O que nos diferencia \u00e9 nossa atitude perante o status quo.<\/p>\n<h3>Como Ocorreu a Aliena\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Marx acreditava, e eu concordo com ele, que a aliena\u00e7\u00e3o ocorreu como consequ\u00eancia do desenvolvimento dos sistemas de produ\u00e7\u00e3o em massa. Antes disso, o trabalhador (qualquer trabalhador, posto que o literato \u00e9 um &#8220;oper\u00e1rio das letras&#8221; tanto quanto o pe\u00e3o de f\u00e1brica \u00e9 um &#8220;oper\u00e1rio das m\u00e1quinas&#8221;) controlava n\u00e3o somente a posse do produto de seu trabalho mas tamb\u00e9m, <em>e isso \u00e9 importante<\/em>, o ritmo da produ\u00e7\u00e3o e a qualidade do que se produzia.<\/p>\n<p>No entanto, o crescimento populacional e a necessidade de oferecer mercadorias em quantidade maior e a pre\u00e7o menor para atender a toda essa gente significaram uma press\u00e3o para a economia de escala. Inicialmente os artes\u00e3os individuais se organizaram em guildas, que posteriormente se transformaram em oficinas coletivas, em manufaturas e, por fim, em f\u00e1bricas. Os membros das guildas eram teoricamente iguais (inclusive na posse das ferramentas), os participantes de uma oficina coletiva ainda eram iguais (ainda que as ferramentas fossem compradas de forma centralizada, a partir de suas contribui\u00e7\u00f5es individuais), os empregados das manufaturas j\u00e1 n\u00e3o estavam em condi\u00e7\u00f5es de igualdade (porque j\u00e1 obedeciam ao ritmo e \u00e0s especifica\u00e7\u00f5es determinadas pelo propriet\u00e1rio da oficina) e os trabalhadores das f\u00e1bricas, por fim, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o nada iguais porque nada controlam, sequer podem ir ao banheiro sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o mental, obviamente, n\u00e3o decorre de nenhuma mudan\u00e7a econ\u00f4mica, ainda que, em muitos casos, a situa\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica leve alguns indiv\u00edduos ao desespero e \u00e0 loucura. Mas a aliena\u00e7\u00e3o cultural decorre de um processo semelhante ao da econ\u00f4mica, e \u00e9 por isso que este \u00e9 um conceito mais facilmente an\u00e1logo ao original.<\/p>\n<h3>Aprofundando o Conceito<\/h3>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o cultural pode ser entendida como a ruptura da identidade do indiv\u00edduo, causada por uma situa\u00e7\u00e3o na qual ele \u00e9 for\u00e7ado a deixar de se ver como parte da pr\u00f3pria comunidade. \u00c9 um fen\u00f4meno relativamente recente, que pode ser entendido como resultante da chamada &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Marshall McLuhan, a globaliza\u00e7\u00e3o teria o potencial de criar uma esfera cultural (a &#8220;aldeia global&#8221;) que existiria \u00e0 parte das culturas individuais. Indiv\u00edduos por demais imersos na &#8220;aldeia global&#8221; se afastariam de suas identidades originais e se tornariam &#8220;cidad\u00e3os do mundo&#8221;. Ocorre que, diferentemente do que McLuhan acreditava, algo ingenuamente, a aldeia global \u00e9 um espa\u00e7o de exerc\u00edcio da hegemonia cultural de alguns povos sobre outros. Nela n\u00e3o somos todos igualmente cidad\u00e3os. Para a maioria das pessoas, aquelas especialmente origin\u00e1rias dos chamados &#8220;pa\u00edses perif\u00e9ricos&#8221;, o ingresso na &#8220;aldeia global&#8221; somente pode ocorrer mediante a ado\u00e7\u00e3o unilateral de valores diferentes daqueles pertencentes \u00e0 sua cultura original. A &#8220;aldeia global&#8221; n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o interessada em voc\u00ea quanto voc\u00ea est\u00e1 interessado nela.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica entre voc\u00ea, indiv\u00edduo, e a &#8220;aldeia global&#8221; \u00e9 a causadora da aliena\u00e7\u00e3o, pois voc\u00ea, para ser aceito como &#8220;cidad\u00e3o do mundo&#8221;, deve remover de si, mesmo que transitoriamente, nos momentos em que estiver interagindo com os demais &#8220;alde\u00f5es&#8221;, os tra\u00e7os que lhe s\u00e3o origin\u00e1rios e peculiares. Em busca da aprova\u00e7\u00e3o do &#8220;outro&#8221; representado pela coletividade da &#8220;aldeia global&#8221;, voc\u00ea se adapta e deixa, mesmo que somente em apar\u00eancia, de ser quem era.<\/p>\n<p>Nesse processo voc\u00ea transfere o controle de sua pr\u00f3pria identidade para um ente externo. Para ser aceito voc\u00ea precisa deixar de ser quem \u00e9. Se n\u00e3o gostam de seu cabelo, mude-o ou pinte-o. Se n\u00e3o gostam de sua l\u00edngua, aprenda outra. Se n\u00e3o gostam de sua roupa, adote outra. O &#8220;voc\u00ea&#8221; que transita na aldeia global \u00e9 um outro ser, constru\u00eddo a partir dos valores e percep\u00e7\u00f5es de outras pessoas a respeito do que seria o verdadeiro cidad\u00e3o global. Este outro ser n\u00e3o \u00e9 realmente voc\u00ea, mas um &#8220;voc\u00ea&#8221; entre aspas.<\/p>\n<p>Percebe que, se consideramos que a palavra &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; deriva de uma raiz latina que significa &#8220;outro&#8221;, esta &#8220;outrifica\u00e7\u00e3o&#8221; que o leva a criar um &#8220;voc\u00ea&#8221; globalizado \u00e9 um processo alienante. <strong>A ess\u00eancia da aliena\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 essa constru\u00e7\u00e3o de uma identidade ditada pela globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, que se sobrep\u00f5e \u00e0 identidade original sua.<\/p>\n<h3>Estrat\u00e9gias de Nega\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Antes de prosseguir, \u00e9 preciso entender que ningu\u00e9m gosta de ser chamado de &#8220;alienado&#8221;, por mais que o conceito tenha a inten\u00e7\u00e3o de ser meramente descritivo, em vez de ofensivo. Por causa disso surgiram muitos argumentos de nega\u00e7\u00e3o utilizados para desqualificar a acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4>Exotismo<\/h4>\n<p>Este argumento se baseia na longa tradi\u00e7\u00e3o de exotismo existente na literatura ocidental. Desde praticamente o per\u00edodo medieval a literatura de viagens, primeira manifesta\u00e7\u00e3o do ex\u00f3tico, alimentou a imagina\u00e7\u00e3o europeia. Ser\u00edamos herdeiros desta tradi\u00e7\u00e3o, na qual um franc\u00eas (Bizet) escreve uma \u00f3pera sobre a Espanha (Carmem), um austr\u00edaco (Mozart) escreve outra sobre a It\u00e1lia (Don Giovanni), um ingl\u00eas (Rudyard Kipling) escreve sobre a \u00cdndia (toda a sua obra) e um brasileiro (J\u00falio C\u00e9sar de Mello e Souza, o Malba Tahan) escreve sobre a Ar\u00e1bia.<\/p>\n<p>Ocorre que o exotismo, embora contenha certos elementos comuns \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o, <em>n\u00e3o \u00e9 uma forma de aliena\u00e7\u00e3o<\/em>. O exotismo \u00e9 uma busca pela novidade em outra cultura, por um ato de vontade do autor, que escolhe seu tema a partir de um fasc\u00ednio pessoal. O exotismo tamb\u00e9m \u00e9 assim\u00e9trico, mas no sentido justamente contr\u00e1rio: trata-se de uma cultura que se julga superior ou igual que est\u00e1 contemplando outra cultura sob um prisma de admira\u00e7\u00e3o genu\u00edna.<\/p>\n<p>Uma produ\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica pode ter duas formas: aquela que se baseia em forte pesquisa bibliogr\u00e1fica e de campo, e resulta em uma obra que n\u00e3o somente reflete, mas homenageia, a cultura alvo, e aquela que se baseia em uma idealiza\u00e7\u00e3o a partir de elementos de f\u00e1cil acesso.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Escrever bem sobre um local onde voc\u00ea n\u00e3o vive \u00e9 absurdamente dif\u00edcil. Se hoje eu decidir escrever sobre a Espanha, eu estou fodido, mesmo sabendo mais ou menos como a Espanha funciona.<sup id=\"fnref:roliveira3\"><a href=\"#fn:roliveira3\" rel=\"footnote\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o seria o contr\u00e1rio: uma cultura em posi\u00e7\u00e3o subalterna contempla outra como modelo por uma falta de resson\u00e2ncia com a pr\u00f3pria identidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Eu por exemplo, n\u00e3o gosto daqui e n\u00e3o me sinto confort\u00e1vel escrevendo sobre coisas daqui, por isso n\u00e3o o fa\u00e7o. Isso n\u00e3o quer dizer que eu sou um adorador da cultura americana e &#8220;Brasil lixo, pa\u00eds bom mesmo s\u00e3o os EUA&#8221;&#8230; \u00c9 conveni\u00eancia mesmo.<sup id=\"fnref:roliveira\"><a href=\"#fn:roliveira\" rel=\"footnote\">3<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<h4>Globaliza\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<blockquote>\n<p>Uma coisa que acho curiosa: H\u00e1 todo um discurso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existem mais fronteiras etc. mas quando o coleguinha vai escrever \u00e9 sempre EUA-Inglaterra-Fran\u00e7a, mas principalmente os cen\u00e1rios de Hollywood pasteurizados. O.K., as fronteiras foram abolidas e voc\u00ea s\u00f3 se esconde embaixo da asa dos filmes pop de cinema?<sup id=\"fnref:adur\"><a href=\"#fn:adur\" rel=\"footnote\">4<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 foi dito, se baseia na ideologia da &#8220;aldeia global&#8221; de McLuhan. Ocorre que nem todos os cidad\u00e3os dessa entidade est\u00e3o em igualdade. Alguns se encontram em posi\u00e7\u00f5es culturalmente dominantes, por serem parte de culturas amplamente difundidas (e mesmo entre eles existem os que se sentem alienados do discurso dominante) e outros est\u00e3o em posi\u00e7\u00f5es subalternizadas, por serem partes de cultura que se relacionam de forma assim\u00e9trica com o centro.<\/p>\n<p>Dito de forma mais simples: a ideologia, os valores e a cultura da aldeia global s\u00e3o constru\u00eddos de forma desproporcional, privilegiando algumas culturas (ocidental, algo-sax\u00f4nica) em detrimento das demais.<\/p>\n<p>Falar em aliena\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 reconhecer isto e buscar um posicionamento.<\/p>\n<h4>Liberdade criativa<\/h4>\n<p>Para alguns jovens autores, a pr\u00f3pria proposta da &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; como um problema \u00e9 uma tentativa de cassar-lhes a liberdade criativa, tal como esta resposta:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o entendo a raz\u00e3o de postagens como este que vem imbu\u00eddos de &#8220;verdades definitivas&#8221;. Porque n\u00f3s vivemos no Brasil, mas antes de mais nada somos terr\u00e1queos, podemos escrever sobre qualquer aspecto e lugar do nosso planeta que \u00e9 v\u00e1lido. Autores estrangeiros tamb\u00e9m escrevem sobre o Brasil, por exemplo, e n\u00e3o os vejo sendo criticados por isso &#8212; pelo contr\u00e1rio. Agora, ser tachado de alienado porque os personagens da hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o cariocas ou porque a hist\u00f3ria n\u00e3o se passa na Amaz\u00f4nia, isso sim acho aliena\u00e7\u00e3o: o mundo \u00e9 grande, tem muita hist\u00f3ria pairando por a\u00ed. Se voc\u00ea encontrou uma bela hist\u00f3ria que se passa no Par\u00e1, lindo! Se por um acaso o cen\u00e1rio perfeito for no M\u00e9xico, por que n\u00e3o? Ah, gente, a vida \u00e9 curta para sermos t\u00e3o limitados.<sup id=\"fnref:flipeixoto\"><a href=\"#fn:flipeixoto\" rel=\"footnote\">5<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Este \u00e9 um questionamento significativo, que precisa ser melhor abordado. Por um lado, existe a quest\u00e3o do <a href=\"#exotismo-nacional\">exotismo brasileiro<\/a>, que merece uma se\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, por outro, faz-se refer\u00eancia ao <a href=\"#exotismo\">exotismo<\/a> propriamente dito e, por fim, a ideia de que a liberdade criativa cancela o aspecto alienante. N\u00e3o se trata disso. A verdadeira liberdade criativa <strong>realmente existe<\/strong> quando o autor \u00e9 livre para escrever sobre o Brasil, o M\u00e9xico, Marte, a B\u00f3snia-Herzegovina ou Verd\u00faria. Mas ela n\u00e3o existe de fato quando uma parcela importante dos novos autores escreve sobre um cen\u00e1rio anglo-sax\u00f4nico semelhante ao propagado pela cultura pop. Deixa de ser liberdade e passa a ser condicionamento.<\/p>\n<blockquote>\n<p>S\u00f3 queria acrescentar que, baseado na cita\u00e7\u00e3o da postagem, ser alienado, no sentido de n\u00e3o procurar um mundo aut\u00eantico ou de ter vergonha de sua realidade, n\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim.<br \/>\n  Toda arte de vanguarda \u00e9 de certo modo alienada, n\u00e3o?<sup id=\"fnref:jojr\"><a href=\"#fn:jojr\" rel=\"footnote\">6<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando a ideia de aliena\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 proposta em um contexto de debate sobre literatura, o que se quer n\u00e3o \u00e9 ridicularizar o que algu\u00e9m em particular esteja escrevendo, mas convidar os autores a refletirem sobre os valores que perpetuam e sobre a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a cultura que consomem. Ver nisso uma censura \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de avers\u00e3o \u00e0 intelectualidade. Tampouco se quer negar o valor da obra de arte alienada enquanto arte. O que se questiona \u00e9 se a arte deve ir al\u00e9m da arte ou limitar-se ao aspecto t\u00e9cnico, entre outras coisas, como, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica entre a arte alienada e os modelos que copia.<\/p>\n<h4>Superioridade intelectual<\/h4>\n<p>Para outros, a proposi\u00e7\u00e3o do conceito de &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; revelaria um posicionamento de superioridade, seria uma forma de &#8220;arrotar grandeza&#8221; ou &#8220;cagar regras&#8221;, ou mesmo falta de humildade. Da mesma forma que a nega\u00e7\u00e3o anterior, esta se baseia no irracionalismo e na anti-intelectualidade (posi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o combinam com um produtor de cultura).<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, superioridade n\u00e3o se reivindica, se demonstra. Quando uma pessoa evidencia possuir mais forma\u00e7\u00e3o, conhecimento e t\u00e9cnica, ela n\u00e3o est\u00e1 &#8220;se fazendo de superior&#8221;, ela efetivamente o \u00e9.  A falta de humildade n\u00e3o est\u00e1 em qualquer tipo de afirma\u00e7\u00e3o embasada, mas est\u00e1 em rejeitar o di\u00e1logo com aqueles que t\u00eam algo a ensinar.<\/p>\n<p>Mesmo porque, conforme dito l\u00e1 no in\u00edcio, o conceito de aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi criado para humilhar ningu\u00e9m, mas para descrever um fato das rela\u00e7\u00f5es humanas. Citar este fato n\u00e3o \u00e9 uma forma de se mostrar superior, mas um convite a uma tentativa de entender melhor o mundo e nosso lugar nele. Uma vez mais: rejeitar este convite \u00e9 fechar-se \u00e0 reflex\u00e3o.<\/p>\n<h4>Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 \u00edndio para ser nacionalista<\/h4>\n<p>Este argumento \u00e9 um ataque pessoal abusivo (<em>ad hominem<\/em>) do tipo compartilhamento da culpa (<em>tu quoque<\/em>). Encontrar este tipo de argumento em um debate costuma ser muito desagrad\u00e1vel, porque geralmente significa que a pessoa que o usa abandonou completamente a pretens\u00e3o de racionalidade argumentativa e passou para a agress\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 de que somente os \u00edndios seriam realmente nacionais e n\u00f3s, por sermos descendentes de colonos, n\u00e3o temos o direito a uma identidade, que precisamos permanecer presos a uma l\u00f3gica colonizadora. Normalmente eu n\u00e3o transcreveria um argumento do tipo, porque n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9rito a se reconhecer em quem o emprega, mas h\u00e1 vezes em que a argumenta\u00e7\u00e3o vem bem disfar\u00e7ada, quase se podendo ignorar a fal\u00e1cia:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O ponto da Globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade mesmo. Bem como, a meu ver, \u00e9 importante salientar a miscigena\u00e7\u00e3o. Acredito que s\u00f3 os \u00edndios &#8212; e olha l\u00e1 &#8212; s\u00e3o brasileiros de fato puros. Todos n\u00f3s temos ra\u00edzes ancestrais em outros pa\u00edses, ao redor do globo.<sup id=\"fnref:flipeixoto2\"><a href=\"#fn:flipeixoto2\" rel=\"footnote\">7<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A refuta\u00e7\u00e3o mais simples deste &#8220;argumento&#8221; \u00e9 que a identidade cultural n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o racial, mas uma forma do indiv\u00edduo construir a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Al\u00e9m disso, a aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manifesta exclusivamente naquilo que vulgarmente se chama &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o cultural&#8221;, mas, de uma forma mais relevante, na perda de uma capacidade cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao mundo. Desta forma, este ataque pessoal pode ser, tamb\u00e9m, entendido como um desvio de algo (fal\u00e1cia do espantalho).<\/p>\n<h4>Gosto n\u00e3o se discute<\/h4>\n<p>Este \u00e9 um dos anti-argumentos mais utilizados para negar o valor da cr\u00edtica liter\u00e1ria. Baseia-se na presun\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 e nem pode haver crit\u00e9rios objetivos para avaliar uma obra de arte e, portanto, a cr\u00edtica se exerce como uma forma de censura ou preconceito, que \u00e9 preciso abolir.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o teria dito melhor que isso:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando uma quantidade enorme de escritores escreve dessa forma bizarra, h\u00e1 um padr\u00e3o. Logo: h\u00e1 um condicionamento, uma padroniza\u00e7\u00e3o da subjetividade.<\/p>\n<p>Significa que voc\u00ea n\u00e3o se conhece a si mesmo.<br \/>\n  Significa que voc\u00ea n\u00e3o tem gosto pr\u00f3prio.<br \/>\n  Significa que sua subjetividade \u00e9 adestrada.<br \/>\n  Significa que \u00e9 alienado,<br \/>\n  Pensamento e vontades de quem acha que &#8220;decidiu gostar&#8221;,<br \/>\n  mas n\u00e3o: s\u00e3o parte de um adestramento geral de postura.<sup id=\"fnref:jps1\"><a href=\"#fn:jps1\" rel=\"footnote\">8<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O gosto \u00e9 livre, realmente. A cr\u00edtica n\u00e3o tem o poder de demover as pessoas de gostarem do que gostam &#8212; e nem tem esse objetivo. Vociferar contra a cr\u00edtica por expressar a sua opini\u00e3o \u00e9 um comportamento bizarro. Assim como voc\u00ea tem o direito de gostar do que gosta, o cr\u00edtico tem o direito de <strong>n\u00e3o<\/strong> gostar. Se a sua experi\u00eancia de gostar \u00e9 de alguma forma afetada pelo fato de algu\u00e9m n\u00e3o gostar, ent\u00e3o h\u00e1 algo muito estranho em sua rela\u00e7\u00e3o com as coisas de que gosta.<\/p>\n<h3>A Aliena\u00e7\u00e3o como Problema<\/h3>\n<p>O indiv\u00edduo que somente existe como um constructo ditado pela expectativa dos outros sobre o que ele deveria ser \u00e9 um indiv\u00edduo que n\u00e3o \u00e9 mais capaz de fazer escolhas informadas, ele escolhe, em vez disso, aquilo que lhe dar\u00e1 mais aceita\u00e7\u00e3o perante o outro. T\u00e3o grave \u00e9 essa perda de autonomia (&#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221;) que o indiv\u00edduo gradualmente se afasta da pr\u00f3pria cultura e se sente mais pr\u00f3ximo da cultura global, ainda que subalternizado, visto que nela ele n\u00e3o tem o poder de escolher a pr\u00f3pria identidade, mas apenas a obriga\u00e7\u00e3o de se adequar a um papel previamente determinado.<\/p>\n<p>O problema que existe na aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante \u00f3bvio: ela significa um genoc\u00eddio cultural quando ela avan\u00e7a significativamente no seio da sociedade. \u00c0 medida que as pessoas adotam essa personalidade global, perdem suas especificidades. Isto, em si, n\u00e3o seria grande problema se junto com essas especificidades n\u00e3o fosse tamb\u00e9m perdida a capacidade de autorreflex\u00e3o e autorreconhecimento.<\/p>\n<p>A perda destas capacidades significa que o indiv\u00edduo se torna <em>instrumento<\/em> de um ente externo, pessoas, governos, culturas, memes. O indiv\u00edduo culturalmente alienado n\u00e3o \u00e9 um cidad\u00e3o de seu pr\u00f3prio pa\u00eds e nem um membro pleno de sua pr\u00f3pria comunidade, mas um quinta-coluna de um sistema externo.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel falar em aliena\u00e7\u00e3o sem recair no aspecto pol\u00edtico, visto que o termo traz em seu bojo a ideia da luta de classes, apenas transposta para outro contexto. Este contexto, por sua vez, deriva de outra elabora\u00e7\u00e3o neomarxista: a divis\u00e3o internacional do trabalho.<\/p>\n<p>O autor, enquanto membro de uma coletividade cultural e pol\u00edtica, n\u00e3o tem como fugir a um posicionamento pol\u00edtico face \u00e0 realidade da aliena\u00e7\u00e3o. Ele deve enfrent\u00e1-la ou deve aceitar-se submisso.<\/p>\n<p>Importante ressaltar que o enfrentamento n\u00e3o precisa se fazer por um ato pol\u00edtico ou mesmo por uma valoriza\u00e7\u00e3o nacionalista. Dificilmente algu\u00e9m chamaria Jorge Luis Borges de um autor alienado, e no entanto as suas obras possuem uma universalidade que muitas vezes escapa aos limites da sociedade argentina. Borges n\u00e3o escreveu uma literatura nacional argentina, mas foi um argentino que escreveu uma literatura universal. Al\u00e9m disso, conservador e at\u00e9 reacion\u00e1rio que era, nunca teria usado termos como &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221;. Ainda assim, \u00e9 um exemplo de posicionamento poss\u00edvel face ao fen\u00f4meno da aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Basicamente o que se quer dizer \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o precisa sonhar em entrar no trem da civiliza\u00e7\u00e3o para viajar de terceira classe.<\/p>\n<h3>Abordando a Aliena\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Se o alienado \u00e9 v\u00edtima, n\u00e3o vil\u00e3o, seria injusto declar\u00e1-lo como o inimigo. Se a &#8220;aldeia global&#8221; \u00e9 um fato dado, precisamos de uma estrat\u00e9gia para coexistir com ela e, possivelmente, fazer uso dela para negar os efeitos mais profundos da aliena\u00e7\u00e3o. Seria impr\u00e1tico sonhar, como os comunistas, com a tomada revolucion\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Isto faz ainda menos sentido na cultura do que na economia.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Gostei muito de ler as reflex\u00f5es de voc\u00eas. Com certeza ser\u00e3o respeitosamente ignoradas em meus textos.<sup id=\"fnref:lrocha\"><a href=\"#fn:lrocha\" rel=\"footnote\">9<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Existem somente tr\u00eas poss\u00edveis posi\u00e7\u00f5es diante do fato dado da aliena\u00e7\u00e3o cultural:<\/p>\n<h4>Nega\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<blockquote>\n<p>&#8220;Toda vez que leio ou ou\u00e7o a palavra &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221;, me lembro de que a desaliena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aliena, e quantos est\u00e3o alienados na ideia de n\u00e3o serem\/estarem alienados. Enfim, tudo \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o, ou como diria o outro s\u00e1bio: &#8216;tudo \u00e9 vaidade'&#8221;.<sup id=\"fnref:banast\"><a href=\"#fn:banast\" rel=\"footnote\">10<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ilus\u00e3o de que a aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe ou n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel qualquer resist\u00eancia. Render-se \u00e9 o caminho de menor esfor\u00e7o.<\/p>\n<h4>Ades\u00e3o<\/h4>\n<p>Aqui temos a aceita\u00e7\u00e3o de que a aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 algo desej\u00e1vel, o que s\u00f3 se explica por um grau avan\u00e7ado de aliena\u00e7\u00e3o, no qual o autor nunca chegou a ter real consci\u00eancia de si, e de tal forma que a sua pr\u00f3pria identidade j\u00e1 \u00e9 alienada de sua cultura. Ou, alternativamente, que o autor se sente mais amea\u00e7ado pelo questionamento do que por sua posi\u00e7\u00e3o subalternizada.<\/p>\n<h4>Rea\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necessariamente uma postura revolucion\u00e1ria, mesmo porque seria besteira imaginar a literatura como uma ferramenta de luta popular, mesmo que voc\u00ea seja um comunista comedor de criancinhas. A rea\u00e7\u00e3o diante da aliena\u00e7\u00e3o pode ser de v\u00e1rias formas, inclusive a mais bem sucedida delas \u00e9 a busca de brechas no sistema atrav\u00e9s das quais inserir debates reais e temas perif\u00e9ricos, como uma cunha no consenso globalizado, o que significar\u00e1 a nossa contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 aldeia global &#8212; como o fez Jorge Luis Borges. Felizmente, a aldeia global n\u00e3o \u00e9 refrat\u00e1ria a novas contribui\u00e7\u00f5es, apenas imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De fato pode ser mais produtivo agir assim do que abra\u00e7ar o aspecto nacional, produzindo que j\u00e1 se chamou &#8220;macumba para turista&#8221;.<\/p>\n<h3>Exotismo Nacional<\/h3>\n<p>Quando falamos em &#8220;macumba para turista&#8221; estamos nos referindo \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais que apelam para o senso ex\u00f3tico de consumidores estrangeiros. \u00c9 uma estiliza\u00e7\u00e3o do nacional segundo um filtro alienado. Uma obra baseada na cultura nacional, mas assim baseada apenas porque o autor achou que seria conveniente conforme o mercado liter\u00e1rio <em>\u00e9 t\u00e3o alienada quanto qualquer novelinha ambientada em New York<\/em>.<\/p>\n<p>O conceito de aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o se confunde com nacionalismo (\u00e9 preciso repetir v\u00e1rias vezes, e ainda assim haver\u00e1 quem martele isso). Reagir \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 escrever sobre pretos velhos e cangaceiros, \u00e9 tentar oferecer a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura em vez de apenas regurgitar o que a cultura pop nos envia.<\/p>\n<h3>Proposta<\/h3>\n<p>Tal como, nas palavras de Marx, &#8220;o trabalhador nada tem a perder sen\u00e3o as suas correntes&#8221;, o autor alienado, ao se propor a reagir, nada tem a perder sen\u00e3o a ilus\u00e3o da criatividade, que \u00e9 o grande grilh\u00e3o que escraviza a todos n\u00f3s. A ilus\u00e3o da criatividade significa o pensamento ing\u00eanuo segundo o qual o que n\u00f3s criamos \u00e9 original, novo e interessa \u00e0 aldeia global. A ilus\u00e3o de criatividade vai de bra\u00e7os dados com a expectativa de aceita\u00e7\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Uma vez arrancando de n\u00f3s estas ilus\u00f5es, passemos a produzir uma literatura mais reflexiva, mais baseada em quest\u00f5es reais (ainda que situada em reinos de fantasia) e mais culturalmente enriquecedora.<\/p>\n<p>E paremos, principalmente, de criar tribos e partidos em torno de coisas secund\u00e1rias. A literatura j\u00e1 \u00e9 um desafio suficientemente grande para todos n\u00f3s, n\u00e3o precisamos, S\u00edsifos que j\u00e1 somos, escolher pedras maiores ou morros mais \u00edngremes para empurr\u00e1-las at\u00e9 em cima.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o produtiva e de uma posi\u00e7\u00e3o mutuamente respeitosa, mesmo quando for preciso mandar algu\u00e9m \u00e0quele lugar, devemos buscar criar um espa\u00e7o nosso na aldeia global. \u00c9 poss\u00edvel. At\u00e9 a Isl\u00e2ndia, com menos de 300.000 habitantes, est\u00e1 conseguindo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que sejamos, coletivamente, t\u00e3o in\u00fateis a pontos de sermos menos relevantes que a Isl\u00e2ndia.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Eu tenho outra teoria para quem prefere escrever sobre o exterior: \u00e9 mais f\u00e1cil e mais comest\u00edvel. N\u00e3o que eu critique isso. Mas \u00e9 uma zona de conforto, sim. Escrever sobre o Brasil pode ser um grande desafio para algumas pessoas passivo-culturais que esperam a cultura chegar at\u00e9 elas, e sabemos que a cultura americana \u00e9 mais eficiente nesse quesito.<sup id=\"fnref:lrocha2\"><a href=\"#fn:lrocha2\" rel=\"footnote\">11<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o conseguiremos ser melhores que a Isl\u00e2ndia se n\u00e3o superarmos a ingenuidade. Se n\u00e3o reconhecermos que a aldeia global nos condiciona e nos massacra e que precisamos encontrar caminhos para, diante de tantas morda\u00e7as, dizer, gritar, ou mesmo apenas murmurar, aquilo que <em>precisamos<\/em> dizer.<\/p>\n<h3>Agradecimentos e Notas<\/h3>\n<p>Todas as cita\u00e7\u00f5es usadas foram submetidas a corre\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica e gramatical, bem como adaptadas ao padr\u00e3o de linguagem deste texto, a fim de n\u00e3o ridicularizarem seus autores. Eventuais altera\u00e7\u00f5es n\u00e3o tiveram, por\u00e9m, o objetivo de deturpar a inten\u00e7\u00e3o do autor. Se voc\u00ea foi citado e acha que o texto n\u00e3o faz jus ao que pretendeu dizer, por favor deixe um coment\u00e1rio com a sua reclama\u00e7\u00e3o e eu mudarei o texto de forma a satisfaz\u00ea-lo.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:meg\">\n<p>Megumi Xing&#160;<a href=\"#fnref:meg\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:roliveira3\">\n<p>Rodrigo Oliveira&#160;<a href=\"#fnref:roliveira3\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:roliveira\">\n<p>Rodrigo Oliveira&#160;<a href=\"#fnref:roliveira\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:adur\">\n<p>Arthur Duarte&#160;<a href=\"#fnref:adur\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:flipeixoto\">\n<p>Felipe Henrique Peixoto&#160;<a href=\"#fnref:flipeixoto\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:jojr\">\n<p>Joel Machado J\u00fanior&#160;<a href=\"#fnref:jojr\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:flipeixoto2\">\n<p>Felipe Henrique Peixoto&#160;<a href=\"#fnref:flipeixoto2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:jps1\">\n<p>Jo\u00e3o Paulo da S\u00edria&#160;<a href=\"#fnref:jps1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:lrocha\">\n<p>Lucas Rocha&#160;<a href=\"#fnref:lrocha\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:banast\">\n<p>Bruno Ferreira Anast\u00e1cio&#160;<a href=\"#fnref:banast\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:lrocha2\">\n<p>Lucas Rocha&#160;<a href=\"#fnref:lrocha2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os autores, especialmente os mais jovens, mas n\u00e3o somente eles, costumam reagir com certa amargura quando o tema &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 colocado em discuss\u00e3o. A ideia de que o conceito sequer exista ou possa ser aplicado \u00e0 literatura lhes parece ofensiva, como se alguns autores quisessem colocar-se em um pedestal moral &#8212; o que nunca \u00e9 simp\u00e1tico. Essa rea\u00e7\u00e3o instintiva ao conceito de aliena\u00e7\u00e3o reflete uma dificuldade para refletir sobre o pr\u00f3prio fazer liter\u00e1rio, que \u00e9, em grande parte, causada pela generalizada ignor\u00e2ncia daqueles que querem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[13,49,55,40,23,114],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2802"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2802"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2802\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5242,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2802\/revisions\/5242"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}