{"id":285,"date":"2011-06-03T00:17:00","date_gmt":"2011-06-03T03:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=285"},"modified":"2017-11-02T14:09:12","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:12","slug":"metade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/06\/metade\/","title":{"rendered":"Metade"},"content":{"rendered":"<p>Ele a acorda com um sussurro no ouvido. Est\u00e1 nervoso e cochicha baixo, como se temesse tudo. Ele a acalma, antes que grite, e diz cheio de medo:<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um barulho na cozinha, amor. Est\u00e1 ouvindo? Fale mais baixo, pode ser algu\u00e9m que nos ou\u00e7a. Est\u00e1 ouvindo agora? Ent\u00e3o fique bem quietinha a\u00ed, s\u00f3 escute. H\u00e1 um barulho na cozinha, amor.&#8221;<\/p>\n<p>O sil\u00eancio se adensa, o ar parece aparado. O sil\u00eancio assobia no ouvido, como uma broca girat\u00f3ria penetrando at\u00e9 o c\u00e9rebro, um chiado de est\u00e1tica, como se a alma estivesse fora do ar.<\/p>\n<p>Quem quer que esteja na cozinha percebeu que est\u00e1 sendo percebido e parou com o ru\u00eddo. O marido continua deitado, imperceptivelmente puxando as cobertas para o peito, no escuro.<\/p>\n<p>&#8220;Parece que&#8230; ouvi alguma coisa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Tem algu\u00e9m l\u00e1 na cozinha, querida&#8221;.<\/p>\n<p>Os segundos gotejam grossos, todas as paredes parecem apertar o espa\u00e7o, como os dedos de uma m\u00e3o monstruosa e implac\u00e1vel, no escuro.<\/p>\n<p>&#8220;Vai l\u00e1 ver o que \u00e9?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 louca!? Pode ser um&#8230; bandido&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ou pode n\u00e3o ser nada. Vai l\u00e1 ver o que \u00e9, ou n\u00e3o vamos conseguir dormir mais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mas&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Vai l\u00e1, homem. Honre esse tro\u00e7o que tem no meio das pernas&#8221;.<\/p>\n<p>O marido deu de ombros, derrotado, conformado. N\u00e3o adiantava mesmo discutir naquela hora. Cabia-lhe, como macho da casa, enfrentar o desconhecido. Igualdade de direitos, ningu\u00e9m lembra na hora do perigo.<\/p>\n<p>Levantou-se como de um t\u00famulo. Sair de dentro do calor das cobertas foi ag\u00f4nico. Ca\u00e7ou os chinelos, mas acabou mancando, descal\u00e7o, pelo piso, deixando cada p\u00e9 tocar o taco com remorso, e saudades do calor da cama.<\/p>\n<p>Abriu a porta preparado para dar de cara com um machado e render o esp\u00edrito. N\u00e3o havia nada al\u00e9m daquela escurid\u00e3o horr\u00edvel no corredor. Poderia haver ali qualquer coisa, desde aranhas gigantescas at\u00e9 ninjas assassinos, de olhos fechados, escondendo o brilho de uma adaga na dobra de um quimono negro.<\/p>\n<p>Normalmente acionaria o interruptor e uma festa de luz encharcaria tudo, revelando os segredos do breu absoluto. Mas n\u00e3o ousava fazer isso, n\u00e3o. Poderia haver mesmo algum ninja. Poderia haver um ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>Deu dois passos. Pesados como pilares de pr\u00e9dios. Plantou os dedos no ch\u00e3o, quase marcando a madeira com um belisc\u00e3o. Respirava r\u00edspido, apertado no peito, tentando conservar o sil\u00eancio. Se houvesse alguma coisa ali no escuro, j\u00e1 estaria sob mira, ou sendo calculado em calorias.<\/p>\n<p>O corredor se alongava desde a porta do quarto, passando pela cozinha. Espichou o pesco\u00e7o para ver al\u00e9m da esquina. N\u00e3o havia nenhuma altera\u00e7\u00e3o no pano preto de sua vis\u00e3o. Maldita noite de lua nova. Maldito sono leve que lhe tra\u00edra daquela forma. Por que o bendito ladr\u00e3o n\u00e3o era mais cuidadoso? Que levasse o faqueiro de prata, presente de casamento, mas que o levasse sem fazer barulho.<\/p>\n<p>Abriu os ouvidos tudo quanto p\u00f4de: nenhuma lastim\u00e1vel nota interrompia a uniformidade do sil\u00eancio. Somente l\u00e1 fora, na rua, raros carros passavam. Maldita noite de ter\u00e7a feira.<\/p>\n<p>Por fim criou coragem. N\u00e3o haveria caranguejeiras gigantescas, nem ninjas furtivos, nem ladr\u00e3o. Acionou o interruptor e deixou que a luz o enxaguasse de seus medos: na cozinha irretocavelmente limpa n\u00e3o havia nenhum tra\u00e7o de movimento estranho. Nem presente nem passado.<\/p>\n<p>Respirando mais leve, encostou-se \u00e0 parede. Como era medroso. Pobre coitado! N\u00e3o havia tar\u00e2ntulas nos cantos, nem executores encomendados, nem arrombadores desastrados.<\/p>\n<p>Tratou de dissipar os medos restantes acendendo as luzes dos outros c\u00f4modos do apartamento. Todos vazios, arrumados, silenciosos. Nenhum livro fora de lugar na estante. Nenhuma gota de sangue em nenhum tapete. Nenhuma faca esquecida \u00e0 vista. Nenhum vivente que justificasse que se sonho tivesse sido espantado.<\/p>\n<p>Voltou \u00e0 cozinha, encheu um copo com \u00e1gua do filtro e bebeu de um gole, \u00e1vido, vitorioso. &#8220;Meu Deus, como sou medroso&#8221;. Voltou ao quarto confiante, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a para si mesmo enquanto se recriminava.<\/p>\n<p>Abriu a porta sorridente. &#8220;Querida, n\u00e3o era nada&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Era o nada. Que estava na cama ao seu lado. N\u00e3o havia ningu\u00e9m ali tampouco. Sob a luz morta da l\u00e2mpada fluorescente as cortinas n\u00e3o esbo\u00e7avam nenhum movimento. Metade da cama, intocada, lhe contava que algo realmente estava errado. Nele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele a acorda com um sussurro no ouvido. Est\u00e1 nervoso e cochicha baixo, como se temesse tudo. Ele a acalma, antes que grite, e diz cheio de medo: &#8220;H\u00e1 um barulho na cozinha, amor. Est\u00e1 ouvindo? Fale mais baixo, pode ser algu\u00e9m que nos ou\u00e7a. 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