{"id":287,"date":"2011-05-29T10:45:00","date_gmt":"2011-05-29T13:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=287"},"modified":"2017-11-02T14:09:12","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:12","slug":"memento-mori","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/05\/memento-mori\/","title":{"rendered":"Memento Mori"},"content":{"rendered":"<p>Eu tenho um arm\u00e1rio cheio de vidas que eu n\u00e3o vivi. Cada uma delas daria um romance. Lembro da noite em que poderia ter ido \u00e0 pra\u00e7a com os amigos, mas fui ver o futebol. Lembro de quando ganharia uma camisa do Botafogo de um primo meu para deixar de torcer para o Atl\u00e9tico. Lembro do relacionamento que nunca come\u00e7ou. Cada um desses in\u00fameros acontecimentos daria in\u00edcio a um futuro que eu n\u00e3o vivi. V\u00e1rios deles poderiam ser melhores, nenhum deles foi poss\u00edvel, qualquer um deles poderia ter me levado a um lugar diferente deste a que cheguei, melhor ou pior.<\/p>\n<p>Eu tenho um por\u00e3o repleto de erros que cometi. Cada um deles justificaria que eu fugisse. Lembro de palavras que disse na hora errada e que me fizeram ouvir coisas que me esquentaram as orelhas. Lembro de enganos que mataram esperan\u00e7as. Lembro de acidentes que quase me mataram porque simplesmente entrei na curva errada. Lembro de ter feito tanta coisa de que me arrependo que h\u00e1 dias que eu abro a porta de casa me perguntando se quero mesmo sair \u00e0 rua e correr o risco de topar l\u00e1 fora com uma das pessoas que testemunharam minhas vergonhas. <\/p>\n<p>Eu tenho um \u00e1lbum cheio de fotografias faltando. De cada uma delas resta uma sombra no encardido da p\u00e1gina envelhecida. Fotografias que me roubaram, outras que eu presenteei, muitas que eu perdi. Cada uma delas \u00e9 a lembran\u00e7a de algu\u00e9m que n\u00e3o existe mais, que saiu de perto de mim, que eu expulsei, que eu nunca mais vi.  Cada ano que passa, dos anos passados restam menos imagens. Esse meu \u00e1lbum vazio tem uma melancolia indescrita, demarcada, fria. Todas essas pessoas que \u00e0s vezes passam em bolsos alheios, que vivem em lugares aonde n\u00e3o vou nunca mais. <\/p>\n<p>Quando me dou conta de tudo isso, percebo o quanto sou aleat\u00f3rio, prec\u00e1rio. Ainda que eu tenha seguido sempre uma estrada estreita, de barrancos altos, encontrei nela muitos cruzamentos, e nenhum retorno. Eu n\u00e3o sei rir muito bem, talvez tenha sabido um dia. Hoje em dia tudo me parece t\u00e3o for\u00e7ado, t\u00e3o dif\u00edcil. Rio antes de terminar a piada, de pressa. Rio r\u00e1pido demais, n\u00e3o acompanho o fio da gra\u00e7a. N\u00e3o tenho mais par\u00e2metros disso. Meu riso se perdeu com algumas das fotografias que n\u00e3o tenho mais, foi oprimido por algum dos erros que me envergonharam, algo assim.<\/p>\n<p>Atingi um grau de solid\u00e3o. Vou sempre isolado dentro de um vazio, como um amendoim em sua casca. Hoje me sinto o capit\u00e3o de um barco solit\u00e1rio, que persegue o fim de um rio calmo. A fatalidade da foz j\u00e1 me enerva, porque o rio est\u00e1 largo e fundo, f\u00e1cil de afogar-me. Ningu\u00e9m nadar\u00e1 at\u00e9 aqui, n\u00e3o h\u00e1 ancoradouro e n\u00e3o adianta remar na correnteza. As pessoas na margem ouvem o meu riso na neblina que me cerca e acham que eu sou um fantasma. <\/p>\n<p>Eu tenho um arm\u00e1rio cheio de vidas que n\u00e3o vivi, tenho um \u00e1lbum cheio de fotografias faltando e tenho um por\u00e3o repleto dos erros que cometi. Poderia ter sido diferente de quem sou, melhor ou pior. Lembro todas essas pessoas que partiram, muitas para lugares aonde n\u00e3o vou mais. H\u00e1 dias em que me pergunto se quero mesmo sair de casa. Quando me dou conta de tudo isso, percebo o quanto sou aleat\u00f3rio, ainda que tenha seguido sempre uma estrada estreita e de barrancos altos. A fatalidade da foz j\u00e1 me enerva, porque o rio est\u00e1 largo e fundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho um arm\u00e1rio cheio de vidas que eu n\u00e3o vivi. Cada uma delas daria um romance. Lembro da noite em que poderia ter ido \u00e0 pra\u00e7a com os amigos, mas fui ver o futebol. Lembro de quando ganharia uma camisa do Botafogo de um primo meu para deixar de torcer para o Atl\u00e9tico. Lembro do relacionamento que nunca come\u00e7ou. Cada um desses in\u00fameros acontecimentos daria in\u00edcio a um futuro que eu n\u00e3o vivi. 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