{"id":292,"date":"2011-05-20T21:54:00","date_gmt":"2011-05-21T00:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=292"},"modified":"2017-11-02T14:09:13","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:13","slug":"manezim-o-laconico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/05\/manezim-o-laconico\/","title":{"rendered":"Man\u00e9zim, o Lac\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<p>Man\u00e9zim era a maior preocupa\u00e7\u00e3o dos pais. J\u00e1 tinha quatro ano o moleque e n\u00e3o falava nada ainda, s\u00f3 ficava quieto no seu canto com os brinquedos. Mas ele tinha um jeito assim estranho de olhar. Mirava nas pessoas os seus oinhos e abria um pouco a boca, como se tivesse bebendo o que falavam. Mas naquele tempo a gente pobre da ro\u00e7a n\u00e3o tinha muito recurso de m\u00e9dico, ent\u00e3o o tempo ia passando e Man\u00e9zim n\u00e3o falava e a fam\u00edlia s\u00f3 se preocupava.<\/p>\n<p>Era um dia qualquer, nem feriado nem domingo. Tava todo mundo almo\u00e7ando em volta da mesa, com se fazia antigamente, antes da televis\u00e3o. Man\u00e9zim comia distra\u00eddo, olhando pros destro\u00e7os da galinha frita na travessa, talvez pensando que um dia antes a coitada ciscava distra\u00edda no quintal. O irm\u00e3o mais velho, guloso como ele s\u00f3, j\u00e1 tinha terminado seu prato e pedia mais:<\/p>\n<p>&#8212; M\u00e3e, me d\u00e1 mais dois ovo cozido.<\/p>\n<p>Man\u00e9zim ent\u00e3o, pro espanto da fam\u00edlia, interrompeu seu sil\u00eancio que vinha desde o nascimento para falar uma palavra solit\u00e1ria:<\/p>\n<p>&#8212; &#8220;Ovos&#8221;.<\/p>\n<p>O pai engasgou com a asa da galinha e a m\u00e3e deixou cair o garfo que espetava um ovo. Todo mundo levantou e foi pegar no menino, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho, oc\u00ea falou.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, Rosa, que o moleque n\u00e3o \u00e9 retardado n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Esse bostinha come\u00e7a a falar j\u00e1 me corrigindo!<\/p>\n<p>Foi tanto falat\u00f3rio que Man\u00e9zim foi se encolhendo na cadeira, com os olhinhos arregalados. At\u00e9 que a m\u00e3e, percebendo que ele j\u00e1 tava demorando a falar outra palavra, tratou de provocar:<\/p>\n<p>&#8212; Vai, meu filho, fala para mim!<\/p>\n<p>Man\u00e9zim olhou em volta a fam\u00edlia toda reunida espiando o que ele fazia. Pensou e falou:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o falo mais.<\/p>\n<p>E mais n\u00e3o falou. Por fim, cansado daquilo tudo, o pai resolveu tomar provid\u00eancias. Vendeu um novilho e foi \u00e0 cidade levando o garoto para uma consulta com um pediatra. O doutor examinou o garoto durante um bom tempo, mas por fim declarou-se impotente para resolver o problema:<\/p>\n<p>&#8212; Acredito que os senhores n\u00e3o tenham muito com que se preocupar. A capacidade cognitiva de seu filho n\u00e3o me parece afetada, ele apenas \u00e9 lac\u00f4nico.<\/p>\n<p>&#8212; Isso tem cura, doutor.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico sorriu, e tentou tranquilizar o preocupado pai.<\/p>\n<p>&#8212; Acredito que deve melhorar com o tempo, sem precisar de rem\u00e9dio. Mas ele parece n\u00e3o gostar muito mesmo de falar, embora entenda tudo que dizemos. De toda forma, volte daqui a alguns meses para acompanharmos como vai o menino.<\/p>\n<p>Naquela tarde um arrasado pai chegou em casa, muito preocupado, e trancou-se no quarto com a esposa.<\/p>\n<p>&#8212; E ent\u00e3o, Man\u00e9l, o que tem o moleque?<\/p>\n<p>&#8212; Parece, Rosa, que n\u00f3s temos um filho lac\u00f4nico.<\/p>\n<p>Rosa ficou mortificada. V\u00e1rios fios de cabelo brancos devem ter nascido em sua cabe\u00e7a naquela tarde.<\/p>\n<p>&#8212; \u00d3 meu Deus! O que vai ser de nosso meninim?<\/p>\n<p>&#8212; Temos que ser fortes, Rosa. Pelo menos o doutor falou que melhora com o tempo.<\/p>\n<p><!-- at\u00e9 os seis anos, quando entrou para a escola e se encantou pelas letras.-Encantou-se tanto, ali\u00e1s, que n\u00e3o se contentou com as vinte e tr\u00eas que a professora lhe ensinou: inventou outras mais, com os formatos mais diferentes. \n\nA professora, claro, n\u00e3o entendia aqueles garranchos e achava que Man\u00e9zim n\u00e3o aprendia. Mas n\u00e3o era verdade: ele n\u00e3o apenas aprendera a ler como inventara um jeito de escrever gastando menos caderno, usando as suas dezenas de letras diferentes para encurtar palavras grandes. Com o tempo descobriu que podia usar palavras curtas para abreviar partes de outras palavras grandes e antes de terminar a segunda s\u00e9rie ele j\u00e1 conseguia o prod\u00edgio de copiar os textos do livro gastando um quinto do espa\u00e7o dos outros. \n\nQuando a professora percebeu que ele conseguia ler o que escrevia, entendeu--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Man\u00e9zim era a maior preocupa\u00e7\u00e3o dos pais. J\u00e1 tinha quatro ano o moleque e n\u00e3o falava nada ainda, s\u00f3 ficava quieto no seu canto com os brinquedos. Mas ele tinha um jeito assim estranho de olhar. Mirava nas pessoas os seus oinhos e abria um pouco a boca, como se tivesse bebendo o que falavam. Mas naquele tempo a gente pobre da ro\u00e7a n\u00e3o tinha muito recurso de m\u00e9dico, ent\u00e3o o tempo ia passando e Man\u00e9zim n\u00e3o falava e a fam\u00edlia s\u00f3 se preocupava. 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