{"id":2921,"date":"2016-05-25T21:47:05","date_gmt":"2016-05-26T00:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2921"},"modified":"2017-11-02T14:08:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:03","slug":"chega-de-historias-machistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/05\/chega-de-historias-machistas\/","title":{"rendered":"Chega de Hist\u00f3rias Machistas"},"content":{"rendered":"<p>Estamos em pleno s\u00e9culo XXI e certas modas parecem n\u00e3o desaparecer de jeito nenhum, o machismo sendo uma delas. Mesmo na literatura, onde supostamente deveria imperar um tipo de artista mais cr\u00edtico e mais h\u00e1bil no manuseio de abstratos, o machismo segue dando as cartas.<\/p>\n<h3>A Jornada do Her\u00f3i e o Machismo<\/h3>\n<p>Uma das formas pelas quais ocorre a perpetua\u00e7\u00e3o do machismo na literatura \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o servil da &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221; como um modelo padr\u00e3o para toda hist\u00f3ria. Acontece que este \u00e9 um modelo essencialmente machista, que perpetua um modelo de sociedade condenado a desaparecer, ou que deveria desaparecer. Condicionar a maioria da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria a um tal modelo arcaico \u00e9 ajudar a pisar no freio da evolu\u00e7\u00e3o mental e social da humanidade. &#8220;Mas&#8221;, pensar\u00e1 o pequeno burgu\u00eas, &#8220;se posso ganhar dinheiro assim, ent\u00e3o que a humanidade retroceda \u00e0 caverna no fim, <em>apr\u00e9s moi, le d\u00e9luge<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias machistas s\u00e3o t\u00f3xicas. N\u00e3o somente por serem parte da opress\u00e3o da mulher <em>e do feminino<\/em>, mas tamb\u00e9m porque o tipo de machismo tacanho e patriarcal que est\u00e1 na base dos mitos antigos (nos quais, por suas vez, se baseia a &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221;) \u00e9 t\u00f3xico para o homem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O patriarcado \u00e9 uma linha de montagem de opress\u00e3o cultural e social, um engenho de moer indiv\u00edduos e produzir pe\u00e7as para a m\u00e1quina social. A opress\u00e3o da mulher n\u00e3o decorre, no patriarcado, de um desejo m\u00f3rbido de suprimir a uma metade da humanidade, mas de imperativos sociais que dependem do controle dos corpos e do sexo. O machismo \u00e9 uma ideologia inserida no contexto do patriarcado que tem um papel de opressor da mulher, mas, <em>tamb\u00e9m<\/em>, de condicionante do homem e de sua <em>performance<\/em> diante de seus pares.<\/p>\n<p>A literatura machista perpetua uma ideologia de silenciamento da mulher <em>e de opress\u00e3o do homem<\/em>. Deveria ser do interesse comum a todos os indiv\u00edduos superar a fase do machismo, a fim de que todos possam expressar-se livremente.<\/p>\n<p>Na literatura de fic\u00e7\u00e3o, existem v\u00e1rias caracter\u00edsticas que perpetuam valores ideol\u00f3gicos machistas e opressores. Este artigo coleciona alguns.<\/p>\n<h3>O Mito do Homem Autossuficiente<\/h3>\n<p>Arist\u00f3teles inicia seu tratado sobre a Pol\u00edtica dizendo que &#8220;o homem \u00e9 um animal pol\u00edtico&#8221;, no sentido de participante de uma sociedade e, portanto, atuante na din\u00e2mica de sua evolu\u00e7\u00e3o. O patriarcalismo e o tradicionalismo, por\u00e9m, est\u00e3o obcecados com a individualidade triunfante sobre a p\u00f3lis. A excepcionalidade \u00e9 apresentada como norma, mesmo sendo inating\u00edvel pela ampla maioria. Este ideologia \u00e9 perigosa, e n\u00e3o somente por insuflar o inconformismo dos oprimidos, que costuma descambar em viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m porque ela \u00e9 a base sobre a qual se constr\u00f3i a figura do tirano, homem excepcional por excel\u00eancia, que triunfa sobre a sociedade e dobra o estado \u00e0 sua vontade.<\/p>\n<p>Na literatura, \u00e9 ainda muito comum a apresenta\u00e7\u00e3o do her\u00f3i n\u00e3o apenas como um indiv\u00edduo circunstancialmente solit\u00e1rio, mas como algu\u00e9m solit\u00e1rio por defini\u00e7\u00e3o. A solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de uma fraqueza, uma inadequa\u00e7\u00e3o, uma situa\u00e7\u00e3o de momento, uma injusti\u00e7a ou um estado transit\u00f3rio, ela \u00e9 <em>buscada<\/em> pelo her\u00f3i como um estado ideal de ser. Rela\u00e7\u00f5es afetivas inexistem, intera\u00e7\u00f5es com o sexo oposto se resumem ao sexo ocasional (\u00e0s vezes violento), intera\u00e7\u00f5es com o mesmo sexo, quando n\u00e3o baseadas em viol\u00eancia (competi\u00e7\u00e3o pelo posto de macho alfa), descamba para o sexo homossexual violento (o estupro como ferramenta de humilha\u00e7\u00e3o do fisicamente fraco e de autoafirma\u00e7\u00e3o do forte).<\/p>\n<p>O her\u00f3i solit\u00e1rio vive \u00e0 margem da sociedade ou percorre suas sarjetas e becos, sempre \u00e0 sombra. A ideia \u00e9 a de que o verdadeiro her\u00f3i, o homem-homem, <em>n\u00e3o precisa<\/em> de ningu\u00e9m. Mais do que <em>self-made<\/em>, ele \u00e9 um homem autossuficiente e, empregando o termo segundo sua etimologia grega, <em>autom\u00e1tico<\/em> (aquele que se move por si pr\u00f3prio). O her\u00f3i solit\u00e1rio pode ser um \u00f3rf\u00e3o ou um vi\u00favo, ou pode ser algu\u00e9m que originalmente tinha fam\u00edlia e conex\u00f5es, mas as teve destru\u00eddas ou as perdeu. Ao longo da hist\u00f3ria ele interage com muitos outros indiv\u00edduos, eventualmente se conecta afetivamente com alguns, mas no fim da hist\u00f3ria ele necessariamente morre ou se afasta. Caso se afaste, este abandono das conex\u00f5es \u00e9 frequentemente um ato de desprendimento, que demonstra for\u00e7a moral. Caso morra, \u00e9 comum que a morte seja um sacrif\u00edcio em prol daqueles com quem se conectou, ou ent\u00e3o uma consequ\u00eancia de ter sido &#8220;debilitado&#8221; pela conex\u00e3o afetiva, <em>feminilizante<\/em>.<\/p>\n<p>Este mito \u00e9 nocivo \u00e0 sociedade porque ele estimula os homens a <em>n\u00e3o buscar ajuda<\/em> quando necess\u00e1ria, ou quando poderia diminuir seu estresse. O homem-homem solit\u00e1rio se martiriza sozinho porque procurar ajuda n\u00e3o \u00e9 o que o her\u00f3i faria, e a sociedade machista glorifica o her\u00f3i.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nocivo apenas ao indiv\u00edduo-homem que se ferra na tentativa de mostrar uma autossufici\u00eancia sem sentido, mas para a sociedade, que perde um indiv\u00edduo saud\u00e1vel antes do tempo (pela morte ou pela perda da sa\u00fade) ou que tem de conviver com um padr\u00e3o mais baixo de comportamento social e de qualidade no trabalho porque os seus indiv\u00edduos mais determinados est\u00e3o cheios da ideia de que &#8220;fazer sozinho&#8221; d\u00e1 mais gl\u00f3ria.<\/p>\n<h3>O Complexo de \u00c9dipo e outros ainda mais complexos<\/h3>\n<p>O her\u00f3i costuma ser solit\u00e1rio tamb\u00e9m porque a fam\u00edlia, quando a tem, \u00e9 uma entidade disfuncional, quase a ponto de ser doentia, que serve mais como uma ferramenta para expuls\u00e1-lo da sociedade do que uma base para apoi\u00e1-lo. N\u00e3o deixa de ser verdade que as fam\u00edlias muitas vezes agem de forma totalmente est\u00fapida, torpedeando os sonhos dos jovens de formas at\u00e9 cru\u00e9is. Mas a regra \u00e9 que a fam\u00edlia tenha raz\u00e3o ou simplesmente esteja a pedir um pouco mais de prud\u00eancia, enquanto o jovem, munido da autoconfian\u00e7a que s\u00f3 a ignor\u00e2ncia proporciona, deseja lan\u00e7ar-se de peito aberto, voar como \u00cdcaro at\u00e9 ficar alto demais e derreter suas asas.<\/p>\n<p>Nos mitos machistas que imperam entre n\u00f3s, o papel da mulher \u00e9 normalmente o de &#8220;m\u00e3e compreensiva&#8221; ou de &#8220;madrasta megera&#8221;. O papel do pai \u00e9 o de uma for\u00e7a trovejante da natureza, capaz de viol\u00eancia f\u00edsica e verbal, mas tamb\u00e9m de uma extraordin\u00e1ria insensibilidade emocional.<\/p>\n<p>Tudo isto ajuda o her\u00f3i a &#8220;matar o pai&#8221; (metaforicamente) e deixar o recinto do lar para executar sua aventura. Caso sobreviva, ele &#8220;conquista a m\u00e3e&#8221; (metaforicamente tamb\u00e9m), em um momento no qual o pai j\u00e1 est\u00e1 ausente (seja por sua morte, seja porque o conflito resultante da sa\u00edda do her\u00f3i destruiu o casamento).<\/p>\n<p>Este mito \u00e9 nocivo porque prejudica a igualdade de direitos entre homens e mulheres, ao estereotipar o pai como um ser naturalmente incapaz de cuidar bem dos filhos. Ao mostrar os progenitores com papeis opostos (ainda que complementares), o mito de \u00c9dipo cria a tens\u00e3o da escolha entre duas incompletudes quando o filho se v\u00ea impossibilitado de ter ambos os pais.<\/p>\n<h3>Perdedores e Vencedores<\/h3>\n<p>Uma consequ\u00eancia da ideologia do machismo \u00e9 que no mundo necessariamente h\u00e1 vencedores e perdedores. Ser bem sucedido \u00e9 algo que sempre ocorre \u00e0s custas de outros. O her\u00f3i triunfa matando inimigos e perdendo aliados ao longo do caminho. Nas boas hist\u00f3rias essa vit\u00f3ria chega manchada de sangue e os deuses a punem. Mas gradualmente o mito do machismo superou a fase moral do mito e transformou a viol\u00eancia da conquista em algo est\u00e9tico. A viol\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o mais existe para chocar, ela \u00e9 uma prova da excepcionalidade do her\u00f3i. Somente um her\u00f3i especial consegue cometer tantas enormidades e n\u00e3o somente sobreviver fisicamente \u00edntegro, mas tamb\u00e9m mentalmente s\u00e3o. O perdedor, o fraco, pode ser aquele que morre ou que \u00e9 abatido apenas espiritualmente, pela enormidade de seus crimes.<\/p>\n<p>Neste ponto, o mito machista transforma o her\u00f3i em um monstro moral. &#8220;Rambo&#8221;, por exemplo, triunfa \u00e0 custa de sangue inocente, produzindo retalia\u00e7\u00f5es exageradas para agress\u00f5es cometidas por pessoas sem no\u00e7\u00e3o (como no primeiro filme) ou levando o assassinato a um n\u00edvel est\u00e9tico (segundo e terceiro filmes). Exemplos semelhantes abundam, desde que Dirty Harry chegou \u00e0s telas.<\/p>\n<p>Uma sociedade machista nada mais \u00e9 do que uma guerra sem quartel de todo homem contra todo homem para ver quem ganha mais dinheiro, acumula mais coisas e &#8220;come&#8221; mais mulheres. Aqueles que se recusam a tal papel s\u00e3o tidos como incapazes de exerc\u00ea-lo. Aqueles que falham nesse papel s\u00e3o os &#8220;perdedores&#8221;, os fracos.<\/p>\n<p>O perdedor \u00e9 apresentado com trejeitos e atributos femininos, como o corpo fl\u00e1cido (s\u00edmbolo imemorial da fragilidade feminina) e\/ou gordo (idem, desde a V\u00eanus de Willendorf) e socialmente inepto.<\/p>\n<p>Em parte este mito transita em um terreno comum com a literatura de autoajuda, que se baseia em ensinar ao indiv\u00edduo que as suas car\u00eancias resultam de sua incapacidade, e n\u00e3o da injusti\u00e7a inerente \u00e0 sociedade ou de fatores externos quaisquer.<\/p>\n<h3>O Homem sempre est\u00e1 dispon\u00edvel<\/h3>\n<p>A solid\u00e3o do her\u00f3i se completa com a maneira casual com que se envolve sexualmente. O verdadeiro her\u00f3i tem uma pot\u00eancia sexual sobrenatural, que n\u00e3o apenas lhe permite &#8220;comer&#8221; uma s\u00e9rie absurda de mulheres (tal como H\u00e9rcules, que, em poucos dias, engravidou as <em>cinquenta<\/em> filhas do rei Thespius) como tamb\u00e9m parece estar sempre pronto a copular quando uma mulher o chama, a menos que esta mulher seja fisicamente detest\u00e1vel (e raramente uma tal mulher aparece diante do her\u00f3i com desejos sexuais, ou, se o faz, \u00e9 uma bruxa que se transmuta em jovem bela).<\/p>\n<p>A absoluta disponibilidade sexual do her\u00f3i equivale a uma atitude desabrida em rela\u00e7\u00e3o ao sexo, que deixa de ser visto como algo consensual e significativo, e passa a ser apenas um meio de se avan\u00e7ar a hist\u00f3ria, ou de faz\u00ea-la parar onde necess\u00e1rio seja. O her\u00f3i n\u00e3o consente, ele est\u00e1 <em>obrigado<\/em> a &#8220;comer&#8221; toda mulher que o deseje. Caso n\u00e3o o fa\u00e7a (e \u00e0s vezes tamb\u00e9m quando o faz) esta mulher se torna sua inimiga, para vingar o &#8220;desprezo&#8221;.<\/p>\n<p>Nem \u00e9 preciso dizer o quanto este estere\u00f3tipo serve para manter viva a imagem do homem como um bo\u00e7al de p\u00eanis ereto, pronto a introduzi-lo em qualquer mulher descuidada ou interessada. Nada pode ser mais negativo para a constru\u00e7\u00e3o da identidade masculina quanto essa idealiza\u00e7\u00e3o da promiscuidade como o estado natural do homem, ainda mais porque, para espelhar isso em uma est\u00fapida busca de &#8220;igualdade&#8221;, existe um setor do feminismo que prega a mesma atitude por parte das mulheres &#8220;liberadas&#8221;. Como se criar mais um problema fosse uma maneira de resolver o problema original.<\/p>\n<h3>As caracter\u00edsticas femininas n\u00e3o t\u00eam valor<\/h3>\n<p>A mulher, para se tornar heroica, n\u00e3o pode ser realmente feminina, ou mesmo diferente, em vez disso, ela precisa masculinizar-se, ou, como seria melhor dizer &#8220;machificar-se&#8221; (posto que o estere\u00f3tipo machista na literatura n\u00e3o \u00e9 propriamente &#8220;masculino&#8221;, mas machista).<\/p>\n<p>A mulher heroica \u00e9 uma mulher-macho, n\u00e3o \u00e9 uma mulher dotada de valores e habilidades capazes de vencer. Ela precisa abandonar a delicadeza e, principalmente, a sensibilidade, tal como a personagem de Demi Moore em G.I. Jane.<\/p>\n<p>Ter uma hero\u00edna assim n\u00e3o ajuda a diminuir o machismo da literatura, em vez disso, serve para corrobor\u00e1-lo, ao refor\u00e7ar que a mulher s\u00f3 pode ter valor se assemelhar-se ao papel do macho alfa. Na pr\u00e1tica, isto implica em incorporar a mulher \u00e0 competi\u00e7\u00e3o desenfreada pela lideran\u00e7a do bando, criando uma &#8220;guerra dos sexos&#8221; artificial.<\/p>\n<p>Por sua vez, o homem que n\u00e3o corresponde ao padr\u00e3o do macho \u00e9 associado a caracter\u00edsticas femininas ou afeminadas, o que equivale a neutraliz\u00e1-lo no papel de personagem meramente c\u00f4mico ou de vil\u00e3o caricatural.<\/p>\n<h3>Conclus\u00f5es<\/h3>\n<p>Este texto \u00e9 um brev\u00edssimo bosquejo sobre as intersec\u00e7\u00f5es entre a &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221; e a difus\u00e3o da ideologia machista mais visceral. N\u00e3o pretendi aqui dar um aprofundamento, de que talvez eu nem seja capaz, mas apenas conclamar ao debate. Futuramente posso reelaborar o tema com maior desenvolvimento, dependendo de como ele for recebido e de que sentidos o debate seguir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em pleno s\u00e9culo XXI e certas modas parecem n\u00e3o desaparecer de jeito nenhum, o machismo sendo uma delas. Mesmo na literatura, onde supostamente deveria imperar um tipo de artista mais cr\u00edtico e mais h\u00e1bil no manuseio de abstratos, o machismo segue dando as cartas. A Jornada do Her\u00f3i e o Machismo Uma das formas pelas quais ocorre a perpetua\u00e7\u00e3o do machismo na literatura \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o servil da &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221; como um modelo padr\u00e3o para toda hist\u00f3ria. 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