{"id":294,"date":"2011-05-12T12:56:00","date_gmt":"2011-05-12T15:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=294"},"modified":"2017-11-19T23:05:18","modified_gmt":"2017-11-20T02:05:18","slug":"as-nupcias-alquimicas-de-um-mago-e-seu-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/05\/as-nupcias-alquimicas-de-um-mago-e-seu-publico\/","title":{"rendered":"As N\u00fapcias Alqu\u00edmicas de um Mago e seu P\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>Entre as muitas coisas pol\u00eamicas que me encasquetam a cabe\u00e7a a respeito de temas liter\u00e1rios reside uma em particular que me tem inquietado muito: o significado de Paulo Coelho para a literatura de um modo geral e para o mercado editorial de forma mais espec\u00edfica. Acredito que o mago tenha se tornado uma personalidade que ningu\u00e9m pode ignorar, sob pena de ser ignorante. Podemos am\u00e1-lo ou odi\u00e1-lo, mas n\u00e3o podemos mais fingir que ele n\u00e3o existe. Infelizmente, muita gente finge. E muita coisa n\u00e3o se compreende a respeito do enigma que ele representa.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, devo dizer que minha opini\u00e3o sobre a qualidade liter\u00e1ria do que ele escreve <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/08\/lendo-paulo-coelho\/\">\u00e9 conhecida<\/a>. Eu simplesmente n\u00e3o vejo nenhum valor em nada do que ele at\u00e9 hoje escreveu e penso que enquanto escritor ele \u00e9 um excelente mago. E acrescento que sou inteiramente c\u00e9tico quanto a magias. Preciso come\u00e7ar dizendo isso para que os desavisados incapazes de boa interpreta\u00e7\u00e3o de texto n\u00e3o venham a pensar que eu estou aqui defendendo esse embromador.<\/p>\n<p>De certa forma, por\u00e9m, odiar Paulo Coelho \u00e9 t\u00e3o in\u00fatil quanto am\u00e1-lo: uma e outra atitude n\u00e3o muda nenhum fato a respeito do autor e seus livros e ambas s\u00e3o irrelevantes para o p\u00fablico cativo do tipo de literatura a que o mago se dedica. Desta forma, a relev\u00e2ncia a que me refiro n\u00e3o est\u00e1 no autor e nem em sua obra, mas no curioso fen\u00f4meno editorial em que ele se transformou. Estudar a biografia de Paulo Coelho e observar como ele veio a se tornar o que ele hoje \u00e9. Quando pensamos em todos os paradigmas quebrados por Paulo Coelho, fica evidente que ele representa algo diferente no universo liter\u00e1rio (n\u00e3o nos cabe julgar se bom ou ruim) e que a sua posi\u00e7\u00e3o no mercado editorial \u00e9 digna de nota.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Os comentaristas brasileiros tendem a ser unanimemente cr\u00edticos quanto \u00e0 obra do mago, reservando-lhe os mais ferozes adjetivos. Eu mesmo me insiro nesses, tendo-lhe acusado at\u00e9 mesmo de ter um dom\u00ednio insuficiente da l\u00edngua portuguesa e de desconhecer t\u00e9cnicas narrativas b\u00e1sicas. Poucos s\u00e3o os comentaristas eruditos que se acercam dele sem pesadas pedras nas m\u00e3os (eu mesmo levei todas as que pude carregar e ainda tinha uma sacola cheia \u00e0 tiracolo). Um dos que olharam para Paulo Coelho de forma mais leve e neutra foi o escritor iraniano Arash Hejazi, cujo texto <a href=\"http:\/\/arashhejazi.com\/en\/2009\/06\/alchemy-of-the-alchemist\/\"><em>The Alchemy of the Alchemist<\/em><\/a> tece alguns coment\u00e1rios dignos de nota.<\/p>\n<p>Hejazi come\u00e7a lembrando quem era Paulo Coelho em 1988, antes do sucesso d<em>O Alquimista<\/em>: <q>um autor ent\u00e3o desconhecido, vivendo no Brasil, um pa\u00eds que n\u00e3o tinha uma tradi\u00e7\u00e3o relevante de tradu\u00e7\u00f5es de sua literatura para outras l\u00ednguas.<\/q>. Poucos de n\u00f3s nos lembramos disso quando colhemos calhaus por a\u00ed para atirar nos outros. Paulo Coelho se tornou um <em>best-seller<\/em> internacional vencendo uma s\u00e9rie de barreiras que ningu\u00e9m antes dele tinha vencido. Ser\u00e1 que n\u00e3o nos interessa saber como ele fez?<\/p>\n<p>Paulo Coelho tornou-se desde ent\u00e3o um dos autores vivos mais traduzidos do mundo e embora seus livros nem sempre estejam entre os mais vendidos em todos os pa\u00edses, em todos eles vendem suficientemente bem para serem um investimento rent\u00e1vel para seus editores e se em n\u00fameros absolutos. Isto se torna ainda mais significativo se considerarmos que na grande maioria dos pa\u00edses do mundo as obras traduzidas vendem menos do que as obras produzidas localmente (o Brasil \u00e9 uma curiosa exce\u00e7\u00e3o a tal regra, com os <em>best-sellers<\/em> internacionais roubando mercado dos autores nacionais). Al\u00e9m do mais, alguns dos pa\u00edses nos quais Paulo Coelho se tornou um fen\u00f4meno de vendas (como Fran\u00e7a, Estados Unidos, Alemanha, Turquia, Ir\u00e3, It\u00e1lia, Gr\u00e3 Bretanha e Espanha) possuem literaturas fortes e variadas e o mercado editorial de pelo menos dois desses pa\u00edses (Gr\u00e3 Bretanha e Estados Unidos) \u00e9 bastante fechado a autores estrangeiros, a n\u00e3o ser que algum fator externo (como um Pr\u00eamio Nobel ou a invas\u00e3o de seu pa\u00eds pelos Estados Unidos) atraia interesse.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que Paulo Coelho nasceu em algo que poderia ser considerado um &#8220;ber\u00e7o de ouro&#8221;, uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia alta no Rio de Janeiro. Gra\u00e7as \u00e0s posses de sua fam\u00edlia e aos contatos que ele mesmo construiu no mundo art\u00edstico, o autor come\u00e7ou muito cedo a travar contatos com gente como Raul Seixas e Christina Oiticica (mais tarde sua mulher), ganhando visibilidade no cen\u00e1rio cultural brasileiro. Certamente o nome que ele construiu na qualidade de parceiro de Raul lhe foi de grande ajuda resolveu migrar para a literatura.<\/p>\n<p>Estas amizades tiveram tamb\u00e9m um papel preponderante no in\u00edcio da divulga\u00e7\u00e3o internacional d<em>O Alquimista<\/em>: foram conhecidos de Paulo Coelho que se dispuseram a trabalhar quase gratuitamente para traduzir, agenciar ou at\u00e9 publicar no exterior aquele que viria a ser o primeiro sucesso do mago. Houve at\u00e9 o caso de uma f\u00e3, filha de um editor, que rompeu com o neg\u00f3cio do pai e fundou a sua pr\u00f3pria editora para publicar o livro depois que seu pai se recusara a faz\u00ea-lo por julgar o livro muito ruim. De uma forma que at\u00e9 parece sobrenatural, todos esses acontecimentos se encadeiam e levam ao sucesso de uma forma totalmente inesperada, e at\u00e9 contr\u00e1ria ao modo como normalmente funciona o mercado editorial.<\/p>\n<p>Hejazi ressalta que o sucesso de Paulo Coelho foi frontalmente em contradi\u00e7\u00e3o com os princ\u00edpios t\u00e1citos que regem o mercado: um autor obscuro, de um pa\u00eds perif\u00e9rico no contexto internacional, escrevendo em uma l\u00edngua que sequer est\u00e1 entre as dez mais traduzidas, um livro que n\u00e3o recorre ao exotismo local  estilo macumba para turista, um livro que n\u00e3o teve nunca sequer uma p\u00e1gina favor\u00e1vel de cr\u00edtica em qualquer ve\u00edculo de imprensa, um livro que n\u00e3o foi transformado em filme de sucesso e que nunca teve qualquer grande campanha de publicidade. Al\u00e9m disso Paulo Coelho nunca contratou agentes a peso de ouro e n\u00e3o escolheu um t\u00edtulo de impacto, desenvolvido de acordo com regras semi\u00f3ticas precisas. Sem qualquer dessas caracter\u00edsticas que o mercado editorial aconselha como &#8220;essenciais&#8221; aos livros de sucesso, ainda assim o mago conseguiu &#8220;chegar l\u00e1&#8221;, vendendo mais que os livros de muita gente que fez tudo &#8220;certo&#8221;.<\/p>\n<p>Evidentemente, esse sucesso remando contra a mar\u00e9 n\u00e3o pode ser ruim para os interesses dos demais autores. Quando o mercado editorial desenvolve uma &#8220;f\u00f3rmula&#8221; (tal como a descrita por Hejazi) e passa a martelar dentro desta &#8220;f\u00f4rma&#8221; as obras que pretende publicar, isto significa que numerosas obras, inclusive algumas de boa qualidade, ser\u00e3o rejeitadas e destinadas ao esquecimento n\u00e3o por seu valor, mas por simplesmente n\u00e3o se adequarem aos preconceitos dos editores. N\u00e3o custa lembrar que outro grande fen\u00f4meno, J.K. Rowling, ouviu sete vezes o n\u00e3o de editores a quem enviou seu livro. Rowling chegou a ouvir que escrever n\u00e3o era para ela.<\/p>\n<p>Mas existe algo especial a respeito do sucesso d<em>O Alquimista<\/em>: todos os envolvidos em sua tradu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o foram pessoas que gostaram tanto do livro que resolveram empenhar-se pessoalmente em public\u00e1-lo, expondo-se em nome disso. O livro foi lido e foi gostado e a partir de ent\u00e3o foi transformado em um projeto pessoal por tradutores e editores. Isto, claro, depois que o pr\u00f3prio Paulo Coelho investira seu pr\u00f3prio patrim\u00f4nio em sua edi\u00e7\u00e3o e dedicara-se a vend\u00ea-lo, praticamente como um mascate, nos eventos culturais de que participava.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 por dentro j\u00e1 n\u00e3o importa tanto. Como dizia McLuhan, em uma frase que se tornou praticamente um meme: <q>O meio \u00e9 a mensagem<\/q>. Paulo Coelho n\u00e3o \u00e9 um autor relevante pelo que escreve, mas pelo fato de ter conseguido ser um sucesso mesmo contrariando a todas as regras &#8220;infal\u00edveis&#8221; do mercado editorial. Nesse sentido, o mago nos inspira a acreditar no pr\u00f3prio trabalho, em vez de acreditarmos na opini\u00e3o muitas vezes preconceituosa de algum editor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre as muitas coisas pol\u00eamicas que me encasquetam a cabe\u00e7a a respeito de temas liter\u00e1rios reside uma em particular que me tem inquietado muito: o significado de Paulo Coelho para a literatura de um modo geral e para o mercado editorial de forma mais espec\u00edfica. Acredito que o mago tenha se tornado uma personalidade que ningu\u00e9m pode ignorar, sob pena de ser ignorante. Podemos am\u00e1-lo ou odi\u00e1-lo, mas n\u00e3o podemos mais fingir que ele n\u00e3o existe. Infelizmente, muita gente finge. 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