{"id":2942,"date":"2016-06-16T21:54:42","date_gmt":"2016-06-17T00:54:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2942"},"modified":"2020-06-15T23:02:30","modified_gmt":"2020-06-16T02:02:30","slug":"o-editor-superstar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/06\/o-editor-superstar\/","title":{"rendered":"O Editor Superstar"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta semana o jornal <em>O Globo<\/em> publicou mat\u00e9ria sobre Gordon Lish, editor americano que em certa \u00e9poca editou a <em>Esquire<\/em>. A mat\u00e9ria \u00e9 extremamente interessante para amadores como eu, mas para profissionais tamb\u00e9m. Acredito que h\u00e1 muita reflex\u00e3o produtiva que se pode fazer a partir do <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/livros\/editor-americano-gordon-lish-critica-literatura-atual-editores-nao-editam-mais-19480842#ixzz4BJIbSzf5\">conte\u00fado<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.newyorker.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/gordon-lish-580.jpg\" alt=\"\" width=\"310\" height=\"310\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A primeira impress\u00e3o que o texto me deixou foi profundamente negativa, um sentimento de verdadeira repulsa. Afinal, o tipo de rela\u00e7\u00e3o entre editor e autor que \u00e9 defendido por Lish (e pelo autor da reportagem) n\u00e3o parece nada saud\u00e1vel e nem literariamente \u00edntegro. H\u00e1 uma quest\u00e3o mais profunda do que a mera qualidade que precisa ser considerada nesse caso: as rela\u00e7\u00f5es de poder entre autores e editores, seus limites \u00e9ticos e implica\u00e7\u00f5es disso para as esferas conc\u00eantricas do fazer liter\u00e1rio e da experi\u00eancia da leitura. Nas palavras do jornalista que o entrevistou, o trabalho de Lish assim flu\u00eda:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Com o aval do autor, Lish chegava a cortar 60% dos contos, mudava t\u00edtulos e reescrevia finais. Antes um escritor obscuro, Carver ficou grato a Lish pelo sucesso repentino. Mas come\u00e7ou a se incomodar com as interven\u00e7\u00f5es e, no terceiro livro, limitou a participa\u00e7\u00e3o do editor.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Com o aval do autor&#8221; \u00e9 o primeiro problema. Sabemos pelos par\u00e1grafos anteriores que Lish se tornara o editor de uma influente revista que publicava fic\u00e7\u00e3o, enquanto (Raymond) Carver ficara para tr\u00e1s, colaborando em revistas liter\u00e1rias menores. Pergunto ao amigo leitor: se um antigo amigo seu que se tornou editor de uma revista influente lhe convidasse para publicar e impusesse as condi\u00e7\u00f5es que Lish impunha, voc\u00ea recusaria? Devido \u00e0 discrep\u00e2ncia na rela\u00e7\u00e3o de poder entre Lish e Carver, o &#8220;aval&#8221; dado pelo segundo \u00e0s interven\u00e7\u00f5es do primeiro n\u00e3o pode ser considerado como concedido de livre e espont\u00e2nea vontade: \u00e9 claro que Carver n\u00e3o poderia recusar. Recusar as condi\u00e7\u00f5es de Lish significava renunciar \u00e0 possibilidade de ser publicado por uma revista influente, significava condenar-se a continuar nas publica\u00e7\u00f5es regionais, poderia at\u00e9 mesmo significar sua inscri\u00e7\u00e3o em alguma lista negra, pois o editor, ressentido, talvez, pela forma da recusa, poderia difundir a imagem do convidado como uma pessoa irasc\u00edvel, &#8220;sem humildade&#8221; e inflex\u00edvel. Qualidades que dificilmente contariam em favor de Carver quando ele tentasse outras oportunidades. Esse \u00e9 o poder que Lish exercia sobre Carver e os demais, <em>sem que estes pudessem recusar<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante \u00e0 de uma pessoa de fam\u00edlia pobre que se v\u00ea assediada por algu\u00e9m de fam\u00edlia rica. Recusar significa continuar no seu meio, namorar outra pessoa do mesmo n\u00edvel social, n\u00e3o ter acesso ao <em>high society<\/em>. H\u00e1 toda uma gama de oportunidades que uma tal rela\u00e7\u00e3o pode ensejar, para quem est\u00e1 disposto a ceder sexualmente diante da perspectiva de subir na vida. Carter certamente aceitou que seu texto fosse estuprado segundo os conceitos liter\u00e1rios de Lish para ter a chance de subir. N\u00e3o existe &#8220;aval&#8221; algum a\u00ed nessa rela\u00e7\u00e3o, o que existe \u00e9 a submiss\u00e3o do autor ao poderoso editor, aceitando ser martelado dentro da forma at\u00e9 se tornar aquilo que o outro acha que ele deve ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudar t\u00edtulos \u00e9 uma coisa comum na literatura, e eu n\u00e3o acho que seja algo normalmente significativo. Os autores mesmos costumam mudar frequentemente os t\u00edtulos de suas obras (eu mesmo tenho alguns contos que j\u00e1 tiveram mais de dois t\u00edtulos diferentes). Cortar at\u00e9 60% de uma obra pode parecer dr\u00e1stico, mas \u00e9 certamente necess\u00e1rio cortar-se alguma coisa. H\u00e1 obras que claramente padecem de excessos gordurosos que prejudicam a leitura. Agora mesmo estou traduzindo uma obra que se beneficiaria muito do trabalho de Lish. Talvez n\u00e3o cortando 60%, mas no m\u00ednimo um quarto do texto mereceria ser amputado. O problema \u00e9 que estas interven\u00e7\u00f5es, todas juntas, e ainda com o acr\u00e9scimo da altera\u00e7\u00e3o dos finais, significam um n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o editoral que descaracteriza a obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte do sucesso de Lish se deve ao fato de que ele, de fato, parecia ter muito bom gosto e muito bom faro. O problema \u00e9 que poder e bom gosto n\u00e3o costumam andar de m\u00e3os dadas. <em>Nem sempre os editores s\u00e3o competentes como Lish, ou trabalham seguindo os ventos certos<\/em>. Colocar tanto poder na m\u00e3o do editor significa expor o autor ao risco de sua obra ser mutilada terrivelmente nas m\u00e3os de algu\u00e9m que tem muito poder, mas n\u00e3o necessariamente muito talento. Ali\u00e1s, a hist\u00f3ria da literatura tem mais casos de obras corrompidas pelas patas pesadas de editores insens\u00edveis (e insensatos) do que diamantes brutos lapidados nas m\u00e3os de ourives aptos como Lish.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso creio que o trabalho de Lish, independentemente de seus resultados, \u00e9 mais nefasto do que positivo. O seu sucesso cria justificativas para que outros o sigam. Mas o fato de muitos irem pela mesma estrada n\u00e3o significa que todos, ou mesmo a maioria, compreendem-na e seguem-na sabendo aonde v\u00e3o. Prevejo que, por causa desta entrevista de Lish, os editores brasileiros v\u00e3o ficar ainda mais \u00e0 vontade para enfiar seus dedos gulosos nas entranhas das obras que lhes forem submetidas para avalia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o o far\u00e3o com conhecimento de causa, mas para emularem o &#8220;mito&#8221; de Lish. Impor\u00e3o modifica\u00e7\u00f5es por imita\u00e7\u00e3o do exemplo (e todo e qualquer exemplo que venha dos EUA ser\u00e1 seguido pelas mentes colonizadas do subtr\u00f3pico) e pelo g\u00e1udio exerc\u00edcio do poder, justificado pela imagem do antigo editor da Esquire.<\/p>\n\n\n\n<p>Preocupa-me sobremaneira a maneira liberal com que Lish afirma que mudava os finais dos contos. Claro que h\u00e1 casos em que um autor, especialmente iniciante, produzir\u00e1 finais decepcionantes para os seus contos, e que \u00e9 trabalho de um bom editor detectar essas debilidades e sugerir onde mudar. Por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 em toda a entrevista de Lish nenhuma sugest\u00e3o, remota que seja, de que esse trabalho fosse feito de maneira interativa. O que Lish se jacta de ter feito era mesmo intrometer-se no texto original e produzir ele mesmo as mudan\u00e7as, impondo-as ao autor:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Muito dessa fama se deve a seu trabalho com Raymond Carver, considerado um dos maiores contistas do s\u00e9culo XX e um mestre do minimalismo \u2014 estilo em parte <strong>manufaturado<\/strong> por Lish, que <strong>reescrevia e cortava p\u00e1ginas inteiras<\/strong> do autor.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Fica claro neste texto que as obras de Raymond Carver que Lish publicou n\u00e3o s\u00e3o, de fato, dele. Foram &#8220;manufaturadas&#8221; por Lish a partir dos originais de Carver, atrav\u00e9s de um processo de <em>reescrita<\/em> e de corte de &#8220;p\u00e1ginas inteiras&#8221;. N\u00e3o me parece que esse trabalho fosse resultado de Carver seguir sugest\u00f5es dadas por Lish, mas que o pr\u00f3prio Lish retrabalhava os textos originais de Carver, dando-lhes uma outra cara, que era a sua, de Lish, n\u00e3o a do autor.<\/p>\n\n\n\n<p>Carver &#8220;ficou grato&#8221; a Lish pelo sucesso repentino que obteve, e dificilmente algu\u00e9m n\u00e3o ficaria. Por\u00e9m \u00e9 preciso que perguntemos se essa gratid\u00e3o era plena ou se era, na verdade, um sentimento agridoce, e tamb\u00e9m at\u00e9 que ponto Carver ainda se reconheceria nos textos que Lish publicou sob seu nome. Cabe-nos ainda perguntar se, de fato, esses textos merecem ainda ser considerados como de autoria de Carver, ou se deveriam ser atribu\u00eddos a uma co-autoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da <em>gratid\u00e3o<\/em> inicial, Carver come\u00e7ou a se incomodar com as interven\u00e7\u00f5es de Lish, e a partir de seu terceiro livro limitou a participa\u00e7\u00e3o do editor, de que resultou uma mudan\u00e7a de estilo que foi sentida pela cr\u00edtica liter\u00e1ria americana. Isso nos permite pressupor que a gratid\u00e3o inicial de Carver n\u00e3o podia ser sincera: o autor certamente usufru\u00eda de uma fama resultante da atua\u00e7\u00e3o de Gordon Lish, mas enfrentava um conflito interno em rela\u00e7\u00e3o ao produto desta colabora\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que conquistou um espa\u00e7o pr\u00f3prio na literatura, o autor procurou se alforriar da m\u00e3o pesada do editor.<\/p>\n\n\n\n<p>Este me parece um movimento bastante natural, e revela as rela\u00e7\u00f5es de poder subjacentes \u00e0 intera\u00e7\u00e3o dos dois: \u00e0 medida que Carver adquire poder, procura us\u00e1-lo para assumir o controle da pr\u00f3pria literatura, anteriormente <em>sequestrada<\/em> pelas imposi\u00e7\u00f5es do editor. Se a palavra parece forte demais, justifico-a:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Em 2009, <strong>depois de longa pol\u00eamica com Lish<\/strong>, a vi\u00fava do escritor, Tess Gallagher, publicou a vers\u00e3o original de seu segundo livro, com o t\u00edtulo \u201cIniciantes\u201d, revelando um Carver mais expansivo e sentimental.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Este par\u00e1grafo deixa claro que a influ\u00eancia de Lish sobre Carver continuou mesmo depois da morte do autor. Tanto assim que a vi\u00fava, e suposta herdeira do esp\u00f3lio liter\u00e1rio dele, precisou travar uma &#8220;longa pol\u00eamica&#8221; com o editor para conseguir publicar uma vers\u00e3o do segundo livro de Carver produzida a partir dos manuscritos originais, anteriores \u00e0s interven\u00e7\u00f5es de Lish. Evidentemente a pol\u00eamica se deveu ao risco que tal empreendimento oferecia \u00e0 imagem m\u00edtica do editor. Caso o livro publicado pela vi\u00fava fosse bem considerado pela cr\u00edtica, o que n\u00e3o sabemos se ocorreu, visto que a mat\u00e9ria s\u00f3 nos d\u00e1 o lado de Lish, o editor corria o risco de ver suas &#8220;interven\u00e7\u00f5es&#8221; reconsideradas pela cr\u00edtica liter\u00e1ria de uma forma negativa. Temia que seus &#8220;melhoramentos&#8221; dos textos alheios (feitos com m\u00e3o grande e a liberalidade que s\u00f3 experimenta aquele que amputa o que n\u00e3o lhe pertence) acabasse vista como uma esp\u00e9cie de estupro liter\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que transparece do texto como um todo \u00e9 que Gordon Lish se vangloria de feitos que est\u00e3o um pouco al\u00e9m do limite da \u00e9tica profissional e que transpiram arrog\u00e2ncia e abuso de poder. Independente da qualidade das obras que ele publicou, seu m\u00e9todo \u00e9 desrespeitoso para com os escritores e, de fato, serve-lhe mais para construir a auto-imagem. Caso o amigo leitor duvide do ego enorme do ex editor, o pr\u00f3prio par\u00e1grafo de abertura da mat\u00e9ria \u00e9 suficiente para atest\u00e1-lo em cart\u00f3rio e com firma reconhecida:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Houve um tempo em que Gordon Lish era conhecido como Capit\u00e3o Fic\u00e7\u00e3o. <strong>O apelido foi inventado por ele mesmo<\/strong>, nos anos 1970, quando se tornou editor da revista \u201cEsquire\u201d&#8230;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Pessoas normais n\u00e3o se d\u00e3o apelidos grandiloquentes e somente pessoas muito poderosas e influentes conseguem que um s\u00e9quito de sicofantas adotem o apelido que elas pr\u00f3prias escolheram para si. Pelo que declarou \u00e0 mat\u00e9ria, fica claro que Lish realmente se via como uma esp\u00e9cie de her\u00f3i predestinado, a quem era concedido o direito divino de pegar a obra alheia e martelar como lhe conviesse. Voc\u00ea ainda acredita que havia algum &#8220;aval&#8221; do autor diante disso ou que esses autores realmente se sentiam &#8220;gratos&#8221; por serem publicados desta maneira?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana o jornal O Globo publicou mat\u00e9ria sobre Gordon Lish, editor americano que em certa \u00e9poca editou a Esquire. A mat\u00e9ria \u00e9 extremamente interessante para amadores como eu, mas para profissionais tamb\u00e9m. Acredito que h\u00e1 muita reflex\u00e3o produtiva que se pode fazer a partir do conte\u00fado. A primeira impress\u00e3o que o texto me deixou foi profundamente negativa, um sentimento de verdadeira repulsa. 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