{"id":2960,"date":"2016-06-26T18:25:54","date_gmt":"2016-06-26T21:25:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2960"},"modified":"2017-11-02T14:08:02","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:02","slug":"notas-da-traducao-de-a-terra-da-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/06\/notas-da-traducao-de-a-terra-da-noite\/","title":{"rendered":"Notas da Tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;A Terra da Noite&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Texto introdut\u00f3rio que pretendo incluir na publica\u00e7\u00e3o de minha tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;A Terra da Noite&#8221;, de William Hope Hodgson, que estou por terminar.<\/div>\n<p>Esta \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para &#8220;A Terra da Noite&#8221;.  N\u00e3o \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o literal, embora n\u00e3o chegue a ser uma &#8220;recontagem&#8221; como as antigas publica\u00e7\u00f5es de cl\u00e1ssicos da literatura feitas pela Ediouro.  H\u00e1 um prov\u00e9rbio italiano segundo o qual os tradutores s\u00e3o necessariamente traidores, seja da forma seja do esp\u00edrito do original com que trabalham.  <em>Traduttore, traditore<\/em> e o que resta ao tradutor \u00e9 escolher <em>o que<\/em> ele se conformar\u00e1 em trair.<\/p>\n<p>Alguns optar\u00e3o por buscar a fidelidade poss\u00edvel \u00e0 forma do original, mesmo que isto requeira abundantes notas de rodap\u00e9 para explicar o que \u00e9 intraduz\u00edvel.  Outros optar\u00e3o pela transmiss\u00e3o do sentido do original quanto seja poss\u00edvel, mesmo que tenham de optar por parafrasear o original.  Ao traduzir uma express\u00e3o idiom\u00e1tica como <em>it&#8217;s raining cats and dogs<\/em> o primeiro tradutor escrever\u00e1 &#8220;est\u00e1 a chover gatos e c\u00e3es&#8221; e por\u00e1 uma nota de rodap\u00e9 explicando que esta \u00e9 uma forma de se dizer que est\u00e1 chovendo a c\u00e2ntaros ou que chove canivetes abertos e facas de ponta.  O segundo tradutor simplesmente escrever\u00e1 algumas destas express\u00f5es idiom\u00e1ticas equivalentes.<\/p>\n<p>Ambas as op\u00e7\u00f5es t\u00eam seu valor.  Atrav\u00e9s da tradu\u00e7\u00e3o literal a l\u00edngua se enriquece, e um dos objetivos da tradu\u00e7\u00e3o de obras originalmente em idioma estrangeiro \u00e9 exatamente o enriquecimento da l\u00edngua p\u00e1tria.  Atrav\u00e9s da tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o literal, por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel produzir um trabalho mais acess\u00edvel ao p\u00fablico em geral.  Como em quase tudo, o ideal \u00e9 manter o equil\u00edbrio entre os extremos, nem produzindo uma tradu\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e erudita que n\u00e3o traz prazer \u00e0 leitura e nem de outra forma criando uma par\u00e1frase que apenas d\u00e1 ao leitor uma vaga ideia do que o original realmente \u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;A Terra da Noite&#8221; \u00e9 um romance que apresenta desafios significativos para a tradu\u00e7\u00e3o &#8212; e possivelmente esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais encontrava-se ainda in\u00e9dita em portugu\u00eas.  Entre estes desafios sobressaem-se o tamanho, com mais de cento e noventa mil palavras, resultando em um livro com mais de seiscentas p\u00e1ginas, mas tamb\u00e9m a linguagem em que a obra foi vazada.  O tamanho apenas requer volume de trabalho, mas a linguagem requer uma escolha em que \u00e9 imposs\u00edvel satisfazer a todos.<\/p>\n<p>William Hope Hodgson pretendeu que a linguagem de &#8220;A Terra da Noite&#8221; espelhasse a linguagem de seu personagem-narrador, um homem do s\u00e9culo XVII que tivera uma vis\u00e3o do futuro e que, no fim da vida, a escreve para publica\u00e7\u00e3o.  Com esse intuito, Hodgson, imitou o estilo da B\u00edblia do Rei Jaime, que ele supunha ser o grande modelo da prosa do in\u00edcio do s\u00e9culo XVII.  Como \u00e9 sabido por todos que t\u00eam o costume da leitura da B\u00edblia, a linguagem ali empregada se utiliza de certas estruturas e artif\u00edcios que n\u00e3o s\u00e3o comuns na linguagem corrente.  Os tradutores da B\u00edblia n\u00e3o t\u00eam a liberdade de livremente recriarem o original conforme o seu entendimento, porque se espera que o texto reflita o mais fielmente poss\u00edvel o conte\u00fado original.  Disso resulta a filtragem para a tradu\u00e7\u00e3o de diversas caracter\u00edsticas sint\u00e1ticas e orat\u00f3rias do original, <em>inclusive de seus v\u00edcios de linguagem<\/em> (pois, especialmente no Novo Testamento, algumas partes da B\u00edblia empregam uma linguagem &#8220;dura&#8221;, caracter\u00edstica de estrangeiros mal acostumados ao idioma em que escrevem).  Al\u00e9m disso, certas escolhas sint\u00e1ticas feitas em fun\u00e7\u00e3o da oralidade do original antes de ser fixado ou da inexist\u00eancia de pontua\u00e7\u00e3o nas antigas escritas deixam de fazer sentido em l\u00ednguas modernas, tal como o emprego frequente da conjun\u00e7\u00e3o &#8220;e&#8221; para marcar o in\u00edcio de frases (mais caracter\u00edstico do Novo Testamento) e circunl\u00f3quios repetitivos (muito caracter\u00edsticos dos livros prof\u00e9ticos do Antigo Testamento, originalmente compostos para serem declamados como poemas).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de optar por tal estrutura narrativa calcada na B\u00edblia, Hodgson procurou, tamb\u00e9m, empregar um vocabul\u00e1rio &#8220;datado&#8221;  para passar uma melhor impress\u00e3o de antiguidade.  Isso inclui conjuga\u00e7\u00f5es verbais arcaicas como <em>did be<\/em> em vez de <em>was<\/em>, algumas delas pouco usuais mesmo na \u00e9poca em que a B\u00edblia do Rei Jaime foi publicada.  E nem falemos aqui do sucesso (apenas relativo) que o autor teve em sua tentativa de emular a prosa do s\u00e9culo XVII.  Apenas digamos que Howard Phillips Lovecraft, em obras como &#8220;O Caso de Charles Dexter Ward&#8221;, consegue ser muito mais convincente, inclusive sem tornar o seu texto t\u00e3o penoso de ler quanto o de Hodgson.<\/p>\n<p>Somente estas caracter\u00edsticas j\u00e1 seriam suficientes para causar certa repulsa ao leitor moderno, por\u00e9m a pouca familiaridade de Hodgson com o ingl\u00eas isabelino (ele que vivia no final da Era Vitoriana) causa uma camada adicional de dificuldade: o estilo da linguagem \u00e9 contorcido e artificial, com raros momentos de brilho.  Esta \u00e9, em suma, a grande dificuldade que o tradutor enfrenta ao tentar verter esta obra.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o pela literalidade transplantar\u00e1 para o portugu\u00eas todos os v\u00edcios de um original que \u00e9 unanimemente considerado pela cr\u00edtica como uma &#8220;obra-prima defeituosa&#8221;, mas a op\u00e7\u00e3o pela par\u00e1frase diluir\u00e1 o esp\u00edrito e o impacto de um original que, apesar de seus problemas de execu\u00e7\u00e3o, ainda \u00e9 uma obra que funciona espetacularmente em seu prop\u00f3sito &#8212; e em parte isto ocorre <em>porque a escolha de Hodgson d\u00e1 uma dimens\u00e3o adicional \u00e0 obra<\/em>.  N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel simplesmente desconsiderar os aspectos formais do original, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel manter-se servil a eles.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, o p\u00fablico potencial para este livro certamente o rejeitaria se fosse feita uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica muito fiel.  Parte deste p\u00fablico a rejeitaria por ser excessivamente erudita, pois muitos dos leitores de fantasia e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ainda s\u00e3o jovens, que mal come\u00e7am a inteirar-se da grande literatura, e n\u00e3o t\u00eam a bagagem necess\u00e1ria para acompanhar um texto denso demais.  Outra parte, talvez maior, deste p\u00fablico, rejeitaria uma tal tradu\u00e7\u00e3o porque, em ess\u00eancia, a literatura de fantasia e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, <em>pela sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o e pela sua hist\u00f3ria<\/em>, \u00e9 uma literatura mais leve e mais popular, com um sentido muito forte de entretenimento como meio.  Aqueles que poderiam se interessar por uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica certamente n\u00e3o se interessariam por esta obra, uma vez que se trata de um autor de import\u00e2ncia muito secund\u00e1ria para a literatura inglesa, ou ent\u00e3o leriam o original.<\/p>\n<p>Pelos motivos acima citados, <em>esta \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel<\/em> para &#8220;A Terra da Noite&#8221; e espero que meus leitores, inclusive e especialmente os mais eruditos, me perdoem as escolhas que tive de fazer, <em>especialmente as mais controversas e desastradas<\/em>.  Uma primeira tentativa sempre vem in\u00e7ada de erros e acertos parciais, que se pode corrigir nas edi\u00e7\u00f5es e tentativas seguintes.<\/p>\n<p>Assim, produzi uma tradu\u00e7\u00e3o que, em vez de tentar agradar a todos, <em>tenta a todos desagradar o m\u00ednimo poss\u00edvel<\/em>.  E onde falhar o meu prop\u00f3sito, que a for\u00e7a criativa do original cative o leitor e o conven\u00e7a a me perdoar pelas falhas inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Boa leitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto introdut\u00f3rio que pretendo incluir na publica\u00e7\u00e3o de minha tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;A Terra da Noite&#8221;, de William Hope Hodgson, que estou por terminar. Esta \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para &#8220;A Terra da Noite&#8221;. N\u00e3o \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o literal, embora n\u00e3o chegue a ser uma &#8220;recontagem&#8221; como as antigas publica\u00e7\u00f5es de cl\u00e1ssicos da literatura feitas pela Ediouro. H\u00e1 um prov\u00e9rbio italiano segundo o qual os tradutores s\u00e3o necessariamente traidores, seja da forma seja do esp\u00edrito do original com que trabalham. 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