{"id":2967,"date":"2016-07-03T02:24:36","date_gmt":"2016-07-03T05:24:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2967"},"modified":"2017-11-02T14:08:01","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:01","slug":"livros-para-morrer-antes-de-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/07\/livros-para-morrer-antes-de-ler\/","title":{"rendered":"Livros Para Morrer Antes de Ler?"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Este livro \u00e9 daqueles que quando voc\u00ea larga n\u00e3o consegue mais pegar. <br \/>&mdash; Mill\u00f4r Fernandes<\/div>\n<p>A Revista Bula <a href=\"http:\/\/www.revistabula.com\/6836-20-livros-para-morrer-antes-de-ler\">publicou uma lista<\/a> de vinte obras que o autor considera t\u00e3o ruins que \u00e9 melhor morrer antes de ler.  Trata-se de uma invers\u00e3o do comum, que seria uma lista de coisas a se fazer <em>antes de morrer<\/em>.<\/p>\n<p>Embora eu discorde de alguns elementos da lista e n\u00e3o conhe\u00e7a alguns outros, tenho a minha pr\u00f3pria lista de obras que j\u00e1 tentei ler e decidi que a vida \u00e9 muito curta para eu passar algum tempo lendo-as.<\/p>\n<p>Segue a minha lista:<\/p>\n<dl>\n<dt>Guerra dos Tronos (a s\u00e9rie), de George R. R. Martin.<\/dt>\n<dd>Quanto mais informa\u00e7\u00f5es tenho sobre os desenvolvimentos da hist\u00f3ria, menos vontade eu tenho de retomar a leitura (que eu parei por volta do segundo cap\u00edtulo, h\u00e1 muito tempo).  Esta \u00e9 uma s\u00e9rie que me parece a ep\u00edtome da decad\u00eancia da literatura moderna: um novel\u00e3o mexicano com viol\u00eancia, incesto e algumas mudan\u00e7as inesperadas de rumo. Tudo \u00e9 muito maior, mais estendido, mais detalhado e mais prolixo do que precisaria ser.  Eu n\u00e3o diria que a hist\u00f3ria poderia ser contada em menos livros, mas ela certamente poderia ser contada em menos p\u00e1ginas, e tenho minhas d\u00favidas se ela precisaria ser contada.<\/dd>\n<dt>Finnegans Wake, de James Joyce.<\/dt>\n<dd>Quanto mais insistem comigo que James Joyce era um g\u00eanio (apesar de gostar de cheirar a flatul\u00eancia da mulher) e que esta obra \u00e9 a sua mais importante, mais me conven\u00e7o de que eu sou um bronco e que nada entendo de literatura.<\/dd>\n<dt>Brejal dos Guajas e outras Hist\u00f3rias, de Jos\u00e9 Sarney.<\/dt>\n<dd>O falecido Mill\u00f4r Fernandes praticou contra este livro a mais cruel cr\u00edtica que se possa imaginar, cunhando a seu respeito uma frase imortal: &#8220;essa \u00e9 uma leitura que quando voc\u00ea larga n\u00e3o consegue mais pegar&#8221;.  Surpreendentemente, Mill\u00f4r foi comedido e eu s\u00f3 n\u00e3o digo que cada pontap\u00e9 metaf\u00f3rico desferido por Mill\u00f4r era merecido porque acho que o livro mereceria mais. A vida \u00e9 curta demais para se ler &#8220;Brejal dos Guajas&#8221;, ainda que ele tenha apenas cinquenta p\u00e1ginas.<\/dd>\n<dt>Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato.<\/dt>\n<dd>Outro autor incensado pela cr\u00edtica, mas o incenso caiu nos meus olhos, fazendo-me lacrimejar e impedindo-me de ler.  A linguagem \u00e9 seca e interessante, mas vai se tornando desconfort\u00e1vel a cada par\u00e1grafo e ent\u00e3o voc\u00ea percebe que n\u00e3o consegue acompanhar a hist\u00f3ria, que parece n\u00e3o haver uma hist\u00f3ria, ou que ela \u00e9 narrada aos arrancos, aos arrotos e aos recortes.  Deve ser muito genial, mas eu gosto mesmo \u00e9 de porcaria.<\/dd>\n<dt>Veronika Decide Morrer, de Paulo Coelho.<\/dt>\n<dd>Em meio \u00e0 leitura voc\u00ea provavelmente decidir\u00e1 morrer. Se for obrigado a ler at\u00e9 o fim, voc\u00ea provavelmente decidir\u00e1 matar Paulo Coelho.  O mais triste de &#8220;Veronika Decide Morrer&#8221; \u00e9 que n\u00e3o parece ser pior do que o conjunto da obra do autor.<\/dd>\n<dt>Drag\u00f5es de \u00c9ter, de Raphael Draccon.<\/dt>\n<dd>Raso, mal escrito, vazado em uma linguagem de reda\u00e7\u00e3o escolar que n\u00e3o tirou m\u00e9dia para passar, contando uma hist\u00f3ria que mistura refer\u00eancias demais e que frequentemente pisa sobre a t\u00eanue linha entre a refer\u00eancia e o pl\u00e1gio.  Drag\u00f5es de \u00c9ter \u00e9 um daqueles livros que n\u00e3o te faz perguntar por que algu\u00e9m leria, mas por que algu\u00e9m publicaria.  Da\u00ed voc\u00ea se d\u00e1 conta de que o autor \u00e9 um editor e que provavelmente voc\u00ea ser\u00e1 um dia avaliado por ele! Da\u00ed bate aquele des\u00e2nimo de que o caolho \u00e9 rei na terra dos cegos.<\/dd>\n<dt>As Cr\u00f4nicas de Fedors, de Aldemir Alves.<\/dt>\n<dd>Falando francamente, eu tenho para mim que um livro com t\u00edtulo e subt\u00edtulo tem a marca da besta e ser\u00e1 preciso muita coisa para apagar essa m\u00e1 impress\u00e3o.  Esta obra de Aldemir Alves n\u00e3o consegue muito nessa dire\u00e7\u00e3o.  Os personagens t\u00eam nomes rid\u00edculos &#8212; como Fedors, Destrus, Panderius, Destructor, Nazebur, etc. &#8212; e o estilo narrativo \u00e9 um tanto xarope, mesclando romance esp\u00edrita com &#8220;O Senhor dos Aneis&#8221;.  Aqui n\u00e3o h\u00e1 a menor inten\u00e7\u00e3o de beleza, apenas a narrativa seca e rasa, de algu\u00e9m que provavelmente j\u00e1 escreveu mais p\u00e1ginas do que leu.<\/dd>\n<dt>A Torre Negra (s\u00e9rie), de Stephen King.<\/dt>\n<dd>Esse \u00e9 um autor que claramente se perdeu em algum ponto de sua carreira. Come\u00e7ou promissor, chegou ao \u00e1pice nos anos oitenta, criou algumas obras fod\u00e1sticas (&#8220;O Iluminado&#8221;, &#8220;Zona Morta&#8221;, &#8220;O Nevoeiro&#8221;, &#8220;A Dan\u00e7a da Morte&#8221;, &#8220;Janela Secreta, Secreto Jardim&#8221;), mas depois come\u00e7ou a produzir obras cada vez menos relevantes. Da\u00ed resolveu retomar a s\u00e9rie &#8220;Torre Negra&#8221;, que iniciara no come\u00e7o da carreira, e da\u00ed surgiu uma s\u00e9rie de livros cada vez mais grossos e cada vez mais confusos (tanto que edi\u00e7\u00f5es mais recentes dos primeiros volumes cont\u00eam mudan\u00e7as do texto para resolver contradi\u00e7\u00f5es introduzidas pelas novas partes).  Para piorar, surgiu o boato de que ele empregaria extensivamente <em>ghost-writers<\/em>, o que certamente n\u00e3o \u00e9 ilegal, mas, se for verdade, \u00e9 uma mancha inapag\u00e1vel de sua reputa\u00e7\u00e3o como autor. &#8220;A Torre Negra&#8221; representa a situa\u00e7\u00e3o de perda da alma em que King est\u00e1.<\/dd>\n<dt>Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James.<\/dt>\n<dd>Se uma boa sacanagem \u00e9 o que voc\u00ea quer, tem muito autor melhor a\u00ed \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, de Ana\u00efs Nin a Adelaide Carrro, de Jean Genet a N\u00e9lson Rodrigues. O que este livro faz, de fato, \u00e9 narrar uma hist\u00f3ria sem sal e sem a\u00e7\u00facar a respeito de uma protagonista besta, um protagonista narcisista que &#8220;se acha&#8221; e esconde o mito da Ciderella debaixo de uma fina camada de putaria.<\/dd>\n<dt>A Rebeli\u00e3o de Atlas, de Ayn Rand.<\/dt>\n<dd>Toda a obra da autora merece a lata de lixo, sem d\u00f3. Mas este livro \u00e9 especial por causa de sua premissa ris\u00edvel, <em>t\u00e3o ris\u00edvel<\/em> que a gente fica constrangido de rir (vai que \u00e9 doen\u00e7a), mesmo sabendo que \u00e9 a boa e velha m\u00e1quina de propaganda. A premissa do livro \u00e9 simples (ou n\u00e3o): os empres\u00e1rios se irritam por terem de pagar tanto imposto e resolvem desaparecer do mundo (deixando para tr\u00e1s aquilo que os torna &#8220;empres\u00e1rios&#8221;, as suas empresas) atr\u00e1s de um tal John Galt, que os leva para um esconderijo (Galt&#8217;s Gulch) de onde eles esperam que o mundo se foda legal para eles poderem voltar e oferecerem a salva\u00e7\u00e3o. A ideia do livro \u00e9 tentar inverter a l\u00f3gica do socialismo, de que os trabalhadores s\u00e3o os criadores de toda riqueza, mas o resultado mais comprova do que derruba essa tese, porque o leitor fica se perguntando, como Brecht, quem cozinha para os empres\u00e1rios enquanto est\u00e3o escondidos com Galt, por exemplo. A tese centra do livro \u00e9 um primor: se voc\u00ea \u00e9 um empres\u00e1rio ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 especial, um g\u00eanio, e o mundo deveria te servir em vez de te fazer pagar imposto. Mas para isto a autora precisa de mil e tantas p\u00e1ginas.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>E ent\u00e3o? Tem algum para acrescentar \u00e0 lista?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este livro \u00e9 daqueles que quando voc\u00ea larga n\u00e3o consegue mais pegar. &mdash; Mill\u00f4r Fernandes A Revista Bula publicou uma lista de vinte obras que o autor considera t\u00e3o ruins que \u00e9 melhor morrer antes de ler. Trata-se de uma invers\u00e3o do comum, que seria uma lista de coisas a se fazer antes de morrer. 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