{"id":297,"date":"2011-05-07T17:00:00","date_gmt":"2011-05-07T20:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=297"},"modified":"2017-11-26T17:34:33","modified_gmt":"2017-11-26T20:34:33","slug":"ismael","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/05\/ismael\/","title":{"rendered":"Isma\u00ebl"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O passado nos condena, Isma\u00ebl.&#8221; Ainda posso ouvir rasgando minha alma essas palavras pro\u00adfe\u00adri\u00addas pelo velho, com seu porte de capit\u00e3o Ahab, como se estivesse \u00e0 amurada de um velho navio con\u00adtem\u00adplando o mar absoluto, \u00e0 espera de alguma incompreens\u00edvel fera. Chamo-me real\u00admente Isma\u00ebl, mas ele n\u00e3o se chamava Ahab, e n\u00e3o est\u00e1vamos embarcados em navio algum, mas per\u00addi\u00addos nas montanhas poeirentas do Teto do Mundo, fugitivos da impiedosa inquisi\u00e7\u00e3o de um inimigo invis\u00edvel e quase incompreens\u00edvel. Eu piso o ch\u00e3o destas montanhas, e Ahab pisa a inef\u00e1vel bruma das minhas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Eu nasci longe desta terra triste em que estou morrendo. Voei sobre o mar e cruzei desertos e flo\u00adres\u00adtas para chegar at\u00e9 aqui e poder ouvir as palavras do velho profeta. Sou parte de um grupo de escolhidos, eu levo a morte estampada na testa, em verde, estou pronto para ela, como um kami\u00adkaze nos mares do Oriente. Apenas n\u00e3o sigo imperador algum deste mundo, mas ao supremo Rei cuja forma ningu\u00e9m ver\u00e1. N\u00e3o t\u00ednhamos a per\u00admis\u00ads\u00e3o de chamar o velho, nosso l\u00edder, pelo seu ver\u00adda\u00addeiro nome. Era apenas o &#8220;chefe&#8221; e entre os volunt\u00e1rios do Oeste, como eu, alguns o chamaram de &#8220;Ahab&#8221;, em homenagem a outro capit\u00e3o, este fict\u00edcio, que tamb\u00e9m enfrentava o desconhecido de peito aberto, como o velho o fez, mais de uma vez.<\/p>\n<p>Nossa luta deixou marcas na alma e no corpo. Perdemos tantos amigos que nem contamos mais. Preferimos ser amigos apenas de Deus, porque ele n\u00e3o ser\u00e1 nunca morto pelo inimigo e nunca deixaremos de cont\u00e1-lo. Quem tem amigos demais n\u00e3o quer morrer: o her\u00f3i precisa da mais abso\u00adluta solid\u00e3o. E estamos sozinhos nestas montanhas. Vivi isolado aqui h\u00e1 tantos anos que perdi a no\u00e7\u00e3o da realidade. Desde que segui Ahab em seu Pequod imaterial, que singra rumo \u00e0 gl\u00f3ria, eu n\u00e3o leio mais jornais e nem tenho acesso ao r\u00e1dio. Vivemos como ascetas, buscamos a pureza, esperamos que a morte nos ache prontos. Her\u00f3is n\u00e3o t\u00eam tempo a perder com a mat\u00e9ria. Suponho que Ahab soubesse mais sobre o inimigo do que n\u00f3s, mas nos poupava disso. Talvez tiv\u00e9ssemos menos esperan\u00e7a se soub\u00e9ssemos exatamente contra qual Moby Dick tocai\u00e1vamos nas montanhas. Tal como a lend\u00e1ria baleia, o inimigo est\u00e1 al\u00e9m. N\u00e3o vamos at\u00e9 ele, \u00e9 ele que nos vem.<\/p>\n<p>Ahab n\u00e3o tinha esperan\u00e7as, mas um destino. Tal como todos n\u00f3s, tamb\u00e9m sabia que morreria cedo. Preparou-se para isso. Temeu isso. Superou o medo e se identificou com a morte. Seu corpo fr\u00e1gil foi precocemente encurvado pelo peso de uma idade que ainda n\u00e3o tinha, mas sua alma nunca se curvou. Mas a sua alma era como um sabre de a\u00e7o, afiada e luzidia, inatac\u00e1vel pela poeira ou pela umidade, e brilhava sob o sol quando ele nos falava, mesmo quando sua voz sa\u00eda d\u00e9bil e seus gestos pareciam do\u00eddos. De sua boca sa\u00edam palavras calmas, confortantes. Quando falava, n\u00f3s esquecemos que estamos precariamente sobre a terra, tal como o Pequod singrava precariamente as ondas bravas do grande mar. Ahab nos inspirava a dar de nosso sangue para forjar o grande arp\u00e3o com que trespassaria o cora\u00e7\u00e3o do inimigo quando ele saltasse sobre n\u00f3s. O navio seria despeda\u00e7ado, mas o Monstro levaria nossa vingan\u00e7a cravado no peito. Morrer para causar a queda de seu cad\u00e1ver, isto seria glorioso.<\/p>\n<p>Seguimos Ahab pelos desertos, como marujos de uma expedi\u00e7\u00e3o sem rumo pelos sete mares. Esti\u00adve\u00admos em tantas cidades que nem pude guardar seus nomes. Cada nova cidade era um amigo a menos. Mas Ahab, meu her\u00f3i e minha inspira\u00e7\u00e3o, logo se mostrou um profeta cujas palavras n\u00e3o traziam novos conversos. Nosso grupo diminuiu e nossos inimigos se somaram. Vivemos ulti\u00adma\u00admente de favor, quase como prisioneiros, em uma casa que nenhum de n\u00f3s escolheria, sob pro\u00adte\u00ad\u00e7\u00e3o de inimigos. &#8220;Nosso passado nos condena, Isma\u00ebl&#8221; \u2014 as palavras do velho ecoam na minha cabe\u00e7a com s\u00edlabas de metralhadora.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>Era madrugada quando acordei sobressaltado. Um sil\u00eancio pesado e amorda\u00e7ante rea\u00eda no mundo. As montanhas dormiam sufocadas como se uma manzorra apertasse a boca da cidade. O ar arra\u00adnhava nas narinas e eu tinha uma vontade de chorar ou de sair correndo. Nada disso era inco\u00admum, eu vinha sentindo todas essas coisas com relativa frequ\u00eancia. Alguns chamariam isso de covar\u00addia, outros de arrependimento, outros ainda diriam que era s\u00f3 minha lenta volta \u00e0 racio\u00adna\u00adli\u00addade. Penar nessas montanhas, sem um sentido definido, mesmo na presen\u00e7a constante de um pro\u00adfeta, \u00e9 algo que abala a f\u00e9 do mais firme dos crentes.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia ainda exatamente o que estava me incomodando naquele sil\u00eancio, que parecia dife\u00adrente, como se vibrasse algo monstruoso, em uma faixa inaud\u00edvel pelo homem, mas sens\u00edvel pela alma que h\u00e1 dentro do homem. Sa\u00ed ao terra\u00e7o para tomar ar, mas era in\u00fatil at\u00e9 isso: o ar estava quente, as montanhas sopravam opress\u00e3o e as luzes das casas pareciam delimitar as cercas de uma pris\u00e3o. Respirei com for\u00e7a, violentando os meus pulm\u00f5es com aquele ar cortante e grosso, depois entrei, resignado, e fui procurar um lugar quieto onde dormir.<\/p>\n<p>No t\u00e9rreo encontrei F\u00e1tima, ainda de p\u00e9, preparando bilhas de \u00e1gua fresca para levar aos nossos quartos, para a purifica\u00e7\u00e3o matinal. Estava vestida de negro e tinha os olhos tristes como de cos\u00adtume, como os de algu\u00e9m arrancada de toda perspectiva de felicidade e atirada naquele beco entre as montanhas. &#8220;Nosso passado nos condena, Isma\u00ebl&#8221;. Tive pena de F\u00e1tima. Gostaria de ter sido seu marido, se ainda houvesse tempo no mundo para constituir fam\u00edlias e ter filhos. Acredito que ela tamb\u00e9m teria gostado, muito embora para isso dev\u00eassemos ter fugido, de Deus e de nossas fide\u00adli\u00adda\u00addes. Viver como renegados, em uma p\u00e1tria alheia, um pensamento mais agrad\u00e1vel do que mor\u00adrer nas montanhas da Casa da Paz. Viver\u2026<\/p>\n<p>Saudei F\u00e1tima e sa\u00ed ao quintal. Apesar do calor que fazia e da quietude opressiva eu me sentia bem. Saudei o garoto de olhos verdes que estava na guarda. N\u00e3o sabia o nome daquele curioso esp\u00e9cime. Ningu\u00e9m sabia. Ele nunca o dizia a ningu\u00e9m. Soubemos apenas que viera do leste, como tantos, e que n\u00e3o tinha esperan\u00e7a alguma neste mundo. Somente os que haviam perdido a espe\u00adran\u00e7a a vinham sorver da boca de Ahab, que lhes dava um motivo para viver ainda, \u00e0 espera do instante de gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Quer que eu fique em seu turno, garoto? N\u00e3o estou conseguindo dormir mesmo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o carece, n\u00e3o, Isma\u00ebl. Nenhum de n\u00f3s vai precisar amanhecer descansado mesmo\u2026 Ent\u00e3o que pelo menos eu cumpra meu turno fielmente, como deve ser. Por que voc\u00ea n\u00e3o sai para um passeio, para arejar um pouco?<\/p>\n<p>Dei de ombros, conformado, e me preparei para sair. Aconteceu algo, por\u00e9m, que me fez estacar ao port\u00e3o, congelado de medo: uma sombra pareceu cruzar a f\u00edmbria de c\u00e9u despejado que aparecia entre as montanhas ao sul. &#8220;A morte por l\u00e1 voa como um drag\u00e3o assombrando os c\u00e9us, Isma\u00ebl.&#8221; N\u00e3o foram palavras de Ahab, mas de meu falecido pai, no dia em que lhe contei de minha vontade de seguir o caminho dos her\u00f3is. Eu n\u00e3o me importei naquele dia, porque tinha pressa de morrer, para esquecer toda culpa, todo arrependimento e toda frustra\u00e7\u00e3o. Mas aquela forma fantas\u00adma\u00adg\u00f3\u00adrica, como o rabo do Drag\u00e3o derrubando as estrelas do c\u00e9u, me fez tremer e chorar. Era ela que vinha, e eu n\u00e3o estava preparado. Eu me acovardara e n\u00e3o estava pronto.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que foi isso, Isma\u00ebl? \u2014 perguntou o garoto de olhos verdes.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu n\u00e3o sei, garoto, s\u00f3 tive um poderoso pressentimento de algo muito ruim.<\/p>\n<p>O garoto me encarou, com medo no olhar, e disse:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Vamos fugir, Isma\u00ebl. E come\u00e7ou a correr pelo campo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o fugi com ele. Entrei correndo pelo port\u00e3o, enquanto ele abria o port\u00e3o que dava para os arro\u00adzais. O som surdo do voo do drag\u00e3o se aproximava, desorientando-me. Encontrei F\u00e1tima des\u00adcendo dos quartos, depois de entregar as bilhas de todos os homens. Agarrei-a como pude, pres\u00adsio\u00adnando minha m\u00e3o sobre sua boca com toda a for\u00e7a que conseguia ter, enquanto ela esperneava, desesperada por gritar, como se eu a estivesse prestes a estuprar. Subi com ela ao meu quarto, no segundo andar, e me tranquei, ainda segurando a boca trancada, porque meu cora\u00e7\u00e3o pulava lou\u00adca\u00admente querendo cair dela.<\/p>\n<p>Aliviei lentamente a press\u00e3o dos dedos nos l\u00e1bios de F\u00e1tima. Ela n\u00e3o gritou quando os removi. N\u00e3o gritou porque tamb\u00e9m ela conseguia distinguir o ru\u00eddo sobre n\u00f3s, algo indistinto e maligno. Os c\u00e3es dos vizinhos come\u00e7aram a ladrar furiosamente. Sussurrei-lhe baixinho aos ouvidos:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o sei o que est\u00e1 acontecendo, meu amor, mas vou tentar te proteger de alguma forma.<\/p>\n<p>Ela assentiu com a cabe\u00e7a. Apenas murmurando um rogo entre os dentes doloridos, para que Deus tivesse piedade dela e que eu lhe poupasse sua pureza. Os instantes foram passando, o ru\u00eddo foi persistindo e eu continuei sem atac\u00e1-la. Ela foi aos poucos entendendo que n\u00e3o se tratava de uma viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora se ouviram ru\u00eddos de disparos repetidos. Alguma arma autom\u00e1tica moderna. Tiros isolados de fuzil e um longo grito agoniado, que terminava morrendo num engasgo:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Deus \u00e9 grande, Isma\u00ebl. E eu me chamo Khaliii\u2026<\/p>\n<p>Passos soaram apressados pelas escadas. Mais tiros. Portas arrombadas como se fossem de pape\u00adl\u00e3o. C\u00e3es l\u00e1 fora latindo. Mais tiros. Gritos. Os her\u00f3is n\u00e3o morrem berrando como cabritos. Os invasores gritavam apressada e nervosamente. Eram estrangeiros e impacientes. Nem sempre esperavam a resposta para atirar. Uma mulher solu\u00e7ou e foi calada por um tiro no meio de um grito que n\u00e3o pude distinguir.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o percebi o quanto estava exposto. Embora a porta do quarto ficasse meio oculta debaixo do lance da escada, dificilmente escaparia da vista dos invasores, mesmo se eles fossem est\u00fapidos e desastrados. Ningu\u00e9m sobrevive contando que o inimigo falhar\u00e1. Olhei para o rosto de F\u00e1tima. Ela estava p\u00e1lida e seus l\u00e1bios, machucados pelo peso de minha m\u00e3o, tremiam num choro silencioso. A pobrezinha queria chorar, mas n\u00e3o tinha coragem nem para isso.<\/p>\n<p>Era preciso sair do quarto e achar um lugar seguro. A primeira coisa em que pensei foi em saltar para o ch\u00e3o. A janela do segundo andar n\u00e3o era t\u00e3o alta que nos quebrasse as pernas. S\u00f3 havia um problema: ela ficava fora do quarto. Por isso era preciso pensar r\u00e1pido. O lado bom era que ela ficava sempre aberta para ventilar a casa, e havia de palha de arroz e grama seca ao longo de todo muro. Com alguma sorte escapar\u00edamos com alguns arranh\u00f5es apenas, se Deus nos permitisse cruzar tr\u00eas metros de corredor e saltar por ela sem que os invasores vissem.<\/p>\n<p>Abri a porta de uma vez: n\u00e3o adianta ter medo numa hora de desespero. Se houvesse algum mal\u00addito c\u00e3o infiel do lado de fora ele atiraria atrav\u00e9s porta assim que girasse a ma\u00e7aneta. S\u00f3 n\u00e3o devia fazer barulho, e isso n\u00e3o fiz porque a porta era nova e n\u00e3o rangia, os Arcanjos lubrificaram suas dobradi\u00e7as. L\u00e1 estava a janela: um metro e vinte por um e dez. Suficiente espa\u00e7o para pularmos sem seguran\u00e7a, mas com facilidade, mesmo F\u00e1tima um pouco acima do peso.<\/p>\n<p>N\u00e3o dava tempo para pensar. N\u00e3o havia plano alternativo. N\u00e3o era poss\u00edvel nem mesmo explicar \u00e0 coitada o que eu pensava fazer. S\u00f3 podia contar que fosse esperta o bastante para entender. Sa\u00ed correndo pela porta, arrastando-a atabalhoadamente pelo bra\u00e7o, enquanto ouvia os passos dos inimigos que trotavam pela escada acima, vindo para o segundo andar. Saltei no vazio, esperando morrer ou miseravelmente quebrar as pernas ou ainda ser esmagado pelo peso de F\u00e1tima caindo sobre mim. Nada disso, felizmente. Ca\u00edmos os dois sobre a palha e rapidamente eu me envolvi nela, aproveitando que a cor de minha roupa era clara. N\u00e3o tendo a mesma sorte, F\u00e1tima mostrou agilidade para correr at\u00e9 as sombras das \u00e1rvores e se ocultar atr\u00e1s do tronco de uma delas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha acabado de cair quando tiros se ouviram no segundo andar. Algumas balas sa\u00edram pela janela, faiscando como dardos de Satan\u00e1s. C\u00e3es ladravam novamente, mas nenhum naquela estrada, nenhum que viesse me farejar. Um a um, os que defendiam o chefe ca\u00edram. Foram muitos tiros, de dentro e de fora. Uma das aeronaves inimigas girou em parafuso, com o motor atingido e o tanque de combust\u00edvel vazando, e caiu no quintal. Poderia ter sido meu tiro a derrub\u00e1-la: nin\u00adgu\u00e9m era t\u00e3o bom quanto eu em pontaria. Mas eu estava aco\u00advar\u00addado, cansado de morte, cansado de tudo, mas n\u00e3o de viver. Ent\u00e3o os tiros pararam. Os bravos estavam todos mortos, apenas o covarde respirava, escondido no meio de palha, capim seco e esterco de vaca.<\/p>\n<p>Os estrangeiros tagarelavam. Eu n\u00e3o conseguia entender o que diziam, mas era evidente a sua excita\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o imaginava o que poderia ter acontecido, n\u00e3o at\u00e9 ouvir a pr\u00f3pria voz de Ahab, cansada e conformada de uma maneira que eu nunca sonhara que ele seria capaz de dizer, quase num gemido subserviente:<\/p>\n<p>\u2014 Que a maldi\u00e7\u00e3o do Alt\u00edssimo recaia sobre vossas cabe\u00e7as!<\/p>\n<p>A ira espremida naquelas palavras me cortou o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era somente eu, o covarde, que sobre\u00advivia. Ahab estava destinado \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o. N\u00e3o morreria na tentativa quixotesca de exter\u00admi\u00adnar o monstro que assombrava os mares. Teria simplesmente seu Pequod arrestado em um porto qualquer. Terminaria seus dias pensando na liberdade de Moby Dick, mas ele preso e impotente, precocemente vergado, sofrendo de rins, de varizes e de c\u00e1ries. N\u00e3o h\u00e1 hero\u00edsmo algum em morrer de velhice num mundo em guerra. Os her\u00f3is n\u00e3o t\u00eam velhice.<\/p>\n<p>Desceram com ele pelas escadas. As botas dos inimigos soavam como tambores. Ahab gritou-lhes algo em sua l\u00edngua. Eles n\u00e3o responderam. Gritaram-lhe de volta, e riram. De repente ouvi uma longa rajada de tiros, e n\u00e3o ouvi mais a voz material de Ahab.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>Amanheceu um dia bonito nas montanhas perfumadas de papoula e b\u00e9tel. F\u00e1tima e eu cami\u00adnh\u00e1\u00adva\u00admos com cuidado, sempre no rumo norte, rumo ao teto do mundo. Ela n\u00e3o falava nada. Ela sabia que eu era um covarde, mas n\u00e3o me acusava porque gostava de n\u00e3o estar morta. Estava grata por sua vida, grata demais para me acusar, mas a minha covardia me tornara desprez\u00edvel. Por toda a vida eu seria um desertor escondido na palha, sujo de esterco de vaca.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso passado nos condena, Isma\u00ebl&#8221;. Nunca tais palavras me cortaram tanto. Meu passado de her\u00f3i se desfizera. Minha pureza de m\u00e1rtir se reduzira a manchas verdes em minhas vestes.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Na \u00cdndia, querida, na \u00cdndia seremos felizes. Diremos que somos sikhs ou crist\u00e3os e nos deixar\u00e3o ficar. Diremos que estamos fugindo da persegui\u00e7\u00e3o dos fan\u00e1ticos.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro quantas vezes repeti isso, na esperan\u00e7a de que falando muitas vezes a mesma esperan\u00e7a eu conseguisse condens\u00e1-la, como se fosse poss\u00edvel extrair esperan\u00e7a do ar e engarraf\u00e1-la. F\u00e1tima apenas ouvia. E a \u00fanica resposta que eu tinha era a frase pesada, que desfilava pela minha mente como um rochedo movido pela m\u00e3o de Deus: &#8220;Nosso passado nos condena, Isma\u00ebl&#8221;. N\u00e3o, n\u00e3o era Deus que nos condenava, n\u00e3o existia Destino escrito em pedra. \u00c9ramos n\u00f3s e nossos pr\u00f3prios atos que caus\u00e1vamos a ru\u00edna.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Na \u00cdndia. Temos de chegar \u00e0 \u00cdndia.<\/p>\n<p>Mas eu sabia que as coisas seriam diferentes. Sabia que provavelmente os guardas nos matariam na fronteira, sabia que se um dia pus\u00e9ssemos os p\u00e9s do outro lado F\u00e1tima, livre, me abandonaria. Mas eu queria viver, com mil diabos! Por que saltara por aquela janela? Para entregar-me ao punhal vingativo de um guarda que olhava por sobre a fronteira com sangue nos dentes de tanto morder por dentro da bochecha na ansiedade de purgar a terra de nossa ra\u00e7a? Para ser deixado velho e mendigo nas ruas de Amritsar, comendo a refei\u00e7\u00e3o da caridade que os meus inimigos do passado distribu\u00edam aos pobres? Para ver minha amada nos bra\u00e7os de outro, eternamente rindo de manchas verdes de minhas vestes, que \u00e1gua nenhuma jamais lavaria?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o era para nada disso. Por isso, secretamente, em vez de me dirigir \u00e0 esperan\u00e7a que jazia ao leste, meus passos sutilmente me levavam, como seu fosse atra\u00eddo por uma l\u00e2mpada, rumo \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o e a vingan\u00e7a, rumo \u00e0s terras controladas pelo \u00f3dio. Eu era um guerreiro ainda. Ainda havia tempo para purgar minha covardia. Eu poderia ainda lavar aquelas odiosas manchas com o vermelho de meu pr\u00f3prio sangue. E F\u00e1tima seria minha, mesmo que \u00e0 for\u00e7a, ou, se n\u00e3o fosse, eu n\u00e3o viveria para v\u00ea-la sob o bra\u00e7o de outro homem.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso passado nos condena, Isma\u00ebl.&#8221;<\/p>\n<p>Mas estas estradas s\u00e3o trai\u00e7oeiras. N\u00e3o sinais, o pr\u00f3prio sol parece enganador. N\u00e3o gosto do formato destas montanhas, n\u00e3o gosto da cor dos caminh\u00f5es que \u00e0s vezes aparecem. Talvez seja F\u00e1tima que consiga me desviar quando n\u00e3o percebo: h\u00e1 tantas encruzilhadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O passado nos condena, Isma\u00ebl.&#8221; Ainda posso ouvir rasgando minha alma essas palavras pro\u00adfe\u00adri\u00addas pelo velho, com seu porte de capit\u00e3o Ahab, como se estivesse \u00e0 amurada de um velho navio con\u00adtem\u00adplando o mar absoluto, \u00e0 espera de alguma incompreens\u00edvel fera. Chamo-me real\u00admente Isma\u00ebl, mas ele n\u00e3o se chamava Ahab, e n\u00e3o est\u00e1vamos embarcados em navio algum, mas per\u00addi\u00addos nas montanhas poeirentas do Teto do Mundo, fugitivos da impiedosa inquisi\u00e7\u00e3o de um inimigo invis\u00edvel e quase incompreens\u00edvel. Eu piso o ch\u00e3o destas montanhas, e Ahab [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[40,87,17,12,19,123],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=297"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5679,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297\/revisions\/5679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}