{"id":303,"date":"2011-04-23T13:47:00","date_gmt":"2011-04-23T16:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=303"},"modified":"2017-11-02T14:09:14","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:14","slug":"algumas-palavras-sobre-a-obra-de-william-hope-hodgson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/04\/algumas-palavras-sobre-a-obra-de-william-hope-hodgson\/","title":{"rendered":"Algumas Palavras Sobre a Obra de William Hope Hodgson"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00eas que acompanham este blog devem ter notado que iniciei um projeto de tradu\u00e7\u00e3o do romance  &#8220;The House on the Borderland&#8221;, a que intitulei &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; (o t\u00edtulo significaria, literalmente, &#8220;A Casa Sobre a Fronteira&#8221;, mas isto faria pouco sentido para o leitor,  raz\u00e3o porque preferi mudar). Como a obra \u00e9 desconhecida no Brasil (apesar de ter sido escrita no in\u00edcio do s\u00e9culo XX e at\u00e9 j\u00e1 estar, inclusive,  em dom\u00ednio p\u00fablico), alguns podem estar perguntando o que motivou a minha decis\u00e3o de traduzi-la \u2014  e qual a relev\u00e2ncia liter\u00e1ria de um tal trabalho. Este artigo pretende responder, ao menos em parte, este tipo de questionamento.<\/p>\n<p>Antes de mais nada devo dizer que n\u00e3o devemos nos limitar unicamente a fazer aquilo que \u00e9 grande e que \u00e9 relevante. N\u00e3o devemos ler somente o que \u00e9 cl\u00e1ssico, nem devemos ouvir apenas a m\u00fasica que faz mais sucesso atualmente. \u00c9 na diversidade que se acha o prazer da vida, como diz um s\u00e1bio ditado: o que seria do azul se todos gostassem do amarelo. Minha decis\u00e3o de traduzir a obra de William Hope Hodgson;  ainda  in\u00e9dita em portugu\u00eas, pelo que me consta; motiva-se principalmente pelo desejo de trazer o autor ao conhecimento de um p\u00fablico maior. Seria tolice minha afirmar que Hodgson \u00e9 um cl\u00e1ssico esquecido ou um g\u00eanio incompreendido da literatura: n\u00e3o tenho gabarito para tais afirma\u00e7\u00f5es. O que afirmo \u00e9 que se trata de um autor que vale a pena ler, mas que quase ningu\u00e9m no Brasil j\u00e1 leu, pelo simples fato de n\u00e3o ter acesso \u00e0 sua obra em nossa l\u00edngua. Traduzindo-a,  permitirei que mais pessoas a conhe\u00e7am e possam achar motivos pr\u00f3prios para gostar dela.<\/p>\n<p>Um segundo motivo importante \u00e9 a relev\u00e2ncia deste autor para um g\u00eanero liter\u00e1rio que est\u00e1 em voga atualmente: a literatura &#8220;fant\u00e1stica&#8221; (aqui um r\u00f3tulo abrangente para incluir fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, fantasia, terror, mitologia, fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e outros temas que se cruzam facilmente na obra de seus maiores expoentes). Hodgson foi um pioneiro do g\u00eanero que hoje \u00e9 chamado de &#8220;new weird&#8221;, que consiste em justamente empregar com liberdade os temas acima mencionados, e outros inclusive. H\u00e1 cem anos, este ingl\u00eas (aparentado com irlandeses) mesclava reencarna\u00e7\u00e3o, piratas do Caribe,  cosmologia,  hist\u00f3rias de marinheiro, romances plat\u00f4nicos, literatura g\u00f3tica, lendas c\u00e9lticas, arqu\u00e9tipos mitol\u00f3gicos, teorias de psicologia e outras coisas, resultando em um universo ca\u00f3tico e rico.<\/p>\n<p>Hodgson foi autor de uma obra extensa, caracterizada pela virilidade e autoconfian\u00e7a de seus personagens, que no entanto n\u00e3o s\u00e3o sempre meros homens de a\u00e7\u00e3o. De sua obra, dois romances saltam \u00e0 vista, pela grande qualidade de sua concep\u00e7\u00e3o e por estarem intimamente relacionados pelo tema: &#8220;A Terra Noturna&#8221; (<em>The Night Land<\/em>)  e &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; (<em>The House on the Borderland<\/em>).  Embora, \u00e0 uma primeira vista,  ambos sejam muito diferente (quanto \u00e0 linguagem e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dos personagens, principalmente), os dois se complementares no aspecto da cosmogonia envolvida: uma cosmogonia pessimista que reflete muito o estado de esp\u00edrito dos homens da <em>Belle \u00c9poque<\/em>.<\/p>\n<p>&#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; narra a hist\u00f3ria de um nobre irland\u00eas, o nome nunca \u00e9 dito, que se isola em uma antiga e estranha mans\u00e3o, no extremo oeste do pa\u00eds, o chamado <em>Gaeltacht<\/em> \u2014 a regi\u00e3o onde todo mundo falava (pelo menos na \u00e9poca em que a hist\u00f3ria se passa) apenas a l\u00edngua irlandesa c\u00e9ltica. A casa, ele comprara por um pre\u00e7o irris\u00f3rio, devido \u00e0 fama de mal-assombrada, que lhe havia deixado sem morador por quase um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Nesta casa encontramos o narrador,  cuja hist\u00f3ria nos chega atrav\u00e9s do &#8220;manuscrito&#8221; achado pelos senhores Tonnison e Berreggnog (uma estranha dupla de ingleses que, sabe-se l\u00e1 por que motivo, resolveu acampar bem no meio do nada, em uma regi\u00e3o da Irlanda cujo povo nem sabia ingl\u00eas). Ele est\u00e1 diante de um mist\u00e9rio: a apari\u00e7\u00e3o de misteriosas criaturas de apar\u00eancia su\u00edna, que passaram a atac\u00e1-lo desde que teve um transe  que durara um dia inteiro, durante o qual obteve um vislumbre do universo. Acompanhamos este irland\u00eas sem nome, que ali vive sozinho com uma irm\u00e3 mais velha, chamada somente de &#8220;Mary&#8221;, enquanto enfrenta os tais caras de porco. Depois o seguimos em suas explora\u00e7\u00f5es do terreno, juntamente com ele fazemos interessantes descobertas sobre sua casa at\u00e9, por fim, mergulharmos com ele em um gigantesco pesadelo c\u00f3smico que vai al\u00e9m de tudo quanto podemos imaginar e cujas consequ\u00eancias fogem n\u00e3o apenas \u00e0s leis b\u00e1sicas da ci\u00eancia, como v\u00e3o at\u00e9 contra os princ\u00edpios mais comuns da l\u00f3gica narrativa.  T\u00e3o poderosa e estranha \u00e9 a narrativa da segunda parte do romance, cujo tom quase psicod\u00e9lico deixa o leitor quase todo  o tempo &#8220;sem ch\u00e3o&#8221;, que n\u00e3o s\u00e3o poucos os leitores que a rejeitam, n\u00e3o s\u00e3o poucos os que dizem que o romance &#8220;teria sido melhor&#8221; caso tivesse somente a primeira parte.<\/p>\n<p>Gosto \u00e9 gosto, uma afirma\u00e7\u00e3o tautol\u00f3gica at\u00e9 in\u00fatil, mas \u00e9 verdade que sem a segunda parte  &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; mereceria menos aten\u00e7\u00e3o, seria apenas uma hist\u00f3ria de horror bem material,  sobre um esquisit\u00e3o recluso enfrentando porcos espertos (ou algo assim).  Certamente menos interessante do que o redemoinho de ideias a que a segunda parte tenta nos levar. Mas \u00e9 justamente nesse redemoinho que est\u00e1 a parte que mais interessa a respeito de Hodgson: ali est\u00e1 sua singular concep\u00e7\u00e3o de um universo fant\u00e1stico que mescla cosmologia cl\u00e1ssica (pr\u00e9-relativ\u00edstica) com elementos da mitologia grega, teorias de reencarna\u00e7\u00e3o,  engenharia militar,  ideais esportivos (fisiculturismo) e ideologia nacionalista. Uma senhora barafunda, que resulta em um universo fant\u00e1stico original, muito diferente do padr\u00e3o tolkieniano de elfos, drag\u00f5es, feiticeiros e fr\u00e1geis civiliza\u00e7\u00f5es perdidas ambientadas numa idade m\u00e9dia imagin\u00e1ria. Apenas para ati\u00e7ar a curiosidade dos leitores, a inspira\u00e7\u00e3o de Hodgson n\u00e3o \u00e9 um passado decadente, mas um futuro inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Hodgson n\u00e3o \u00e9 um autor habilidoso com as palavras. Sua narrativa nunca soa redonda, devido \u00e0 frequ\u00eancia irritante com que repete express\u00f5es e palavras, devido \u00e0 pouca variedade da sintaxe e asperezas diversas. Os seus defeitos ainda foram exacerbados por sua tentativa de ir al\u00e9m dos limites de sua cultura, imitando canhestramente a linguagem de autores barrocos e neocl\u00e1ssicos sem ter vocabul\u00e1rio ou conhecimento filol\u00f3gico para isso.  Tais defeitos s\u00e3o bem menos pronunciados em &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221;, que est\u00e1 vazada numa linguagem mais ch\u00e3 e quase estudantil, mas prejudicam de modo terr\u00edvel o seu melhor e mais relevante romance, &#8220;Terra Noturna&#8221;, a ponto de muitos cr\u00edticos recomendarem que cap\u00edtulos inteiros sejam saltados durante a leitura, ou que seja lido em vers\u00f5es resumidas.  No entanto, uma tradu\u00e7\u00e3o cuidadosa, enxugando um pouco dos defeitos da prosa de um autor que pouco interagia com a cr\u00edtica ou com outros autores, revela a for\u00e7a imaginativa de um homem \u00e0 frente de seu tempo em uma variedade de aspectos, que, por\u00e9m, ainda assim, de outras maneiras, era preso a conven\u00e7\u00f5es e ideais do passado, como a castidade pr\u00e9-nupcial, o romance cort\u00eas, os valores cavalheirescos  e a for\u00e7a de uma religiosidade heterodoxa (Hodgson era espiritualista) que parecia, naquela era de fasc\u00ednio pela ci\u00eancia, uma sombra do medievo a repousar sobre seu car\u00e1ter.<\/p>\n<p>E tal tradu\u00e7\u00e3o nos permitir\u00e1 apreciar, em Hodgson, um g\u00eanero liter\u00e1rio que estava ainda em sua inf\u00e2ncia, uma \u00e9poca em que ainda n\u00e3o havia se fixado na repetitividade que o caracterizou depois.<\/p>\n<hr noshade\/>\n<p><b>Uma lista de conceitos que fazem parte do universo ficcional de William Hope Hodgson<\/b><\/p>\n<div>\n<ul>\n<li>Amea\u00e7a Alien\u00edgena<\/li>\n<li>Amor cort\u00eas<\/li>\n<li>Arcologia<\/li>\n<li>Armas misteriosas<\/li>\n<li>Deuses Astronautas<\/li>\n<li>Energias m\u00edsticas<\/li>\n<li>Fisiculturismo<\/li>\n<li>Perigosos Tr\u00f3picos<\/li>\n<li>Poder das Pir\u00e2mides<\/li>\n<li>Portais Dimensionais<\/li>\n<li>Reencarna\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Romantismo da Pirataria<\/li>\n<li>Terra Oca<\/li>\n<li>Valores cavalheirescos<\/li>\n<li>Viagem no Tempo<\/li>\n<li>Virtude da Virgindade<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p>Se voc\u00ea se interessou, saiba que a tradu\u00e7\u00e3o terminou e estou preparando j\u00e1 o e-book. Confira os detalhes <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/isto-e-tudo-p-p-pessoal\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00eas que acompanham este blog devem ter notado que iniciei um projeto de tradu\u00e7\u00e3o do romance &#8220;The House on the Borderland&#8221;, a que intitulei &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; (o t\u00edtulo significaria, literalmente, &#8220;A Casa Sobre a Fronteira&#8221;, mas isto faria pouco sentido para o leitor, raz\u00e3o porque preferi mudar). 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