{"id":310,"date":"2011-04-17T16:09:00","date_gmt":"2011-04-17T19:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=310"},"modified":"2017-11-02T14:09:15","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:15","slug":"descobri-que-sou-um-caipira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/04\/descobri-que-sou-um-caipira\/","title":{"rendered":"Descobri que sou um caipira"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu era crian\u00e7a, ser chamado  &#8220;caipira&#8221; era praticamente um xingamento.  Equivalia a ser  chamado de &#8220;ignorante&#8221;,  &#8220;abobalhado&#8221; ou &#8220;ing\u00eanuo&#8221;.  Piadas de caipira eram muito mais fortes que as de portugu\u00eas.  Talvez isso se explique pelo fato de que n\u00f3s,  os habitantes da Zona da Mata de Minas Gerais sermos descendentes de colonos provenientes, principalmente, das terras fluminenses, gente mais ligada \u00e0 &#8220;Corte&#8221; e ao exterior. N\u00f3s da Zona da Mata de Minas Gerais viv\u00edamos de costas para Belo Horizonte e o resto do estado, olhando com saudade para o litoral.  N\u00f3s reclam\u00e1vamos de viver numa terra de montanhas, ador\u00e1vamos vargens, viaj\u00e1vamos \u00e0 praia nas f\u00e9rias e  aprend\u00edamos a chiar o esse com poucas semanas de conviv\u00eancia.  Caipiras eram os outros, e m\u00fasica sertaneja (uma concess\u00e3o para uma minoria de abor\u00edgenes que viviam nos cant\u00f5es),  coisa que s\u00f3 se ouvia de manh\u00e3 cedinho em nossas r\u00e1dios.  Torc\u00edamos para os times do Rio de Janeiro, acompanh\u00e1vamos revoltados o notici\u00e1rio policial carioca, viv\u00edamos a dizer que n\u00e3o quer\u00edamos nunca viver no Rio de Janeiro. S\u00f3 que era mentira,  claro.<\/p>\n<p>S\u00f3 que isso tudo foi nos anos oitenta,  no s\u00e9culo passado. E desde ent\u00e3o muita coisa mudou. Quase ningu\u00e9m mais acomapnha r\u00e1dio em ondas m\u00e9dias  (a gente ouvia R\u00e1dio Globo, a Tupi, a Mundial e a Eldorado), pouca gente l\u00ea jornais (Jornal do Brasil, O Globo, o Dia, Jornal dos Sports e Jornal do Commercio)  e a televis\u00e3o via sat\u00e9lite, com programa\u00e7\u00e3o neutra, nos afastou do contato imediato com os an\u00fancios das lojas cariocas. Hoje conhecemos as grandes, essas que aparecem na programa\u00e7\u00e3o nacional,  mas ningu\u00e9m mais ouve falar de lojas como a Impec\u00e1vel Mar\u00e9 Mansa  (que patrocinava um famoso programa humor\u00edstico na R\u00e1dio Tupi, e posteriormente na Globo), ou a R. Pinto (&#8220;que canta de galo com pre\u00e7o de milho picado&#8221;,  uma presen\u00e7a indefect\u00edvel na R\u00e1dio Rel\u00f3gio Federal, &#8220;cultura e hora certa a cada minuto&#8221;, &#8220;\u2026 voc\u00ea sabia?&#8221;).<\/p>\n<p>Nada poderia ser mais estranho \u00e0 cultura carioca do que a cultura caipira.  O carioca \u00e9 cosmopolita, olha para o mundo, conhece v\u00e1rios tipos de gringos, tem hot\u00e9is, teatros e museus. O caipira, recatado, olha em volta de si, desconfia do mundo l\u00e1 fora, cheio de pessoas diferentes e mal-intencionadas. Toda a cultura do carioca gira em torno da espontaneidade, da alegria. A cultura caipira gira em torno da formalidade, do respeito, da religiosidade. O carioca \u00e9 esperto, o caipira \u00e9 heroico. Nunca as r\u00e1dios do Rio tocavam m\u00fasica caipira.  Para o carioca, o caipira \u00e9 um enigma, um selvagem, talvez uma rel\u00edquia, possivelmente um f\u00f3ssil. O carioca ri do caipira. O caipira ignora o riso, tal como o visitante do zool\u00f3gico n\u00e3o liga para a gargalhada do macaco.  Dois mundos que existem de costas um para o outro, quando se encaram n\u00e3o se reconhecem.<\/p>\n<p>A gente s\u00f3 podia ouvir m\u00fasica caipira em ondas curtas, nas r\u00e1dios de Belo Horizonte (Inconfid\u00eancia, Itatiaia e Atalaia, as principais), nas de S\u00e3o Paulo (Record, Globo, Aparecida) ou de Goi\u00e2nia (Anhanguera). A transmiss\u00e3o chegava com muitos assobios por causa da interfer\u00eancia. Afora isso, havia o programa &#8220;antropol\u00f3gico&#8221; da manh\u00e3 de domingo (o &#8220;Som Brasil&#8221;), no qual Rolando Boldrin (a princ\u00edpio) ou Lima Duarte (pouco depois), fantasiados de Mazzaropi, apresentavam artistas folcl\u00f3ricos. A m\u00fasica caipira s\u00f3 tinha lugar  nos canais de televis\u00e3o quando era mostrada como como folclore.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a tal m\u00fasica caipira n\u00e3o \u00e9 folclore?&#8221; Deve algu\u00e9m estar perguntando. Depende do ponto de vista. Se considerarmos que o samba \u00e9 o &#8220;folclore carioca&#8221;, ent\u00e3o m\u00fasica caipira \u00e9 folclore tamb\u00e9m. Mas se pensarmos no folclore como uma coisa distante e quase morta, que precisa ser preservada atrav\u00e9s de programas governamentais, ent\u00e3o ela n\u00e3o \u00e9 isso. Pelo menos n\u00e3o naquela \u00e9poca. O g\u00eanero caipira era a express\u00e3o art\u00edstica do Brasil rural, do Brasil do planalto, do Brasil sem mar, do Brasil portugu\u00eas. O Brasil de antes do imigrante, o Brasil de antes da cultura de massa. Para os que viviam esse mundo, o g\u00eanero caipira era t\u00e3o espont\u00e2neo quanto uma roda de pagode o \u00e9 para cidad\u00e3o carioca.<\/p>\n<p>Mas nos anos oitenta do s\u00e9culo XX, esse Brasil estava morrendo r\u00e1pido,  com a migra\u00e7\u00e3o para as grandes cidades e com a eletrifica\u00e7\u00e3o dos grot\u00f5es.  A alfabetiza\u00e7\u00e3o e a entrada da televis\u00e3o eram for\u00e7as irresist\u00edveis, diante das quais o Brasil caipira recuava sempre mais para longe. Triunfava o cosmopolitismo do carioca, definhava o brio conservador do caipira. O Brasil caipira aprendeu a rir, esqueceu a viola e come\u00e7ou a perder o sotaque. E aqui, onde o sotaque nunca foi forte, resta pouca lembran\u00e7a dele.<\/p>\n<p>Curiosamente, nesse processo em que a cultura caipira desaparecia, as ondas culturais se chocavam e os fluxos se invertiam.  A televis\u00e3o passou a repetir o sinal vindo de Belo Horizonte,  o r\u00e1dio deixou de ser popular e a internet criou um canal direto com o mundo, sem precisar fazer escala no Rio de Janeiro.  Com isso, fica at\u00e9 parecendo que estamos mais longe de l\u00e1, que at\u00e9 estamos em outro estado. Junto com os telejornais belo-horizontinos, vieram tamb\u00e9m os jogos de Atl\u00e9tico e Cruzeiro, que come\u00e7aram, aos poucos, a dividir torcida com Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense e Botafogo. Hoje j\u00e1 n\u00e3o estamos de costas para Minas Gerais, por\u00e9m, a verdade seja dita, Minas Gerais ficou muito mais parecida com o Rio de Janeiro, at\u00e9 na viol\u00eancia urbana e na cultura de massas. Minas Gerais n\u00e3o \u00e9 mais caipira,  mesmo ainda estando cheia de cidadezinhas drummondianas.<\/p>\n<p>Ficou mais f\u00e1cil rejeitar a identidade &#8220;caipira&#8221;,  e tudo que ela acompanha. N\u00f3s somos diferentes, somos descendentes de colonos da &#8220;corte&#8221;. N\u00f3s n\u00e3o falamos &#8220;engra\u00e7ado&#8221; e nem nos vestimos de um jeito rid\u00edculo (que, ali\u00e1s, nunca passou da caricatura inventada pelo cineasta e ator \u00edtalo-brasileiro Amacio Mazzaropi).  E como n\u00f3s rejeitamos a identidade caipira, por causa destes aspectos que julgamos rid\u00edculos,  rejeitamos junto com ela a cultura tradicional que a ela se liga.  Vivemos estas montanhas, mas n\u00e3o olhamos para elas: queremos o mar distante, o al\u00e9m-mar se poss\u00edvel. O que est\u00e1 pr\u00f3ximo n\u00e3o nos interessa. &#8220;Nem no passado n\u00f3s fomos caipiras&#8221;.<\/p>\n<p>Mas por que essa rejei\u00e7\u00e3o. O que era t\u00e3o horr\u00edvel no mundo caipira,  para merecer que o rejeit\u00e1ssemos t\u00e3o completamente. N\u00e3o tenho gabarito suficiente para dizer isso, mas tenho as minhas opini\u00f5es. O Brasil caipira representa algo que o Brasil resolveu superar: o caipira \u00e9 discriminado porque n\u00f3s temos vergonha de nossas ra\u00edzes ind\u00edgenas, africanas e portuguesas. Rejeitamos o caipira porque o nosso objetivo \u00e9 a assimila\u00e7\u00e3o no globalismo:  n\u00e3o gostamos de nossa cara,  ent\u00e3o  queremos fazer uma pl\u00e1stica que nos deixe com cara de um ator americano. N\u00e3o queremos ser morenos, quer\u00edamos ser louros escandinavos.  N\u00f3s n\u00e3o gostamos do Catolicismo &#8220;supersticioso&#8221; e nem da Umbanda primitiva, queremos a &#8220;reza forte&#8221; e &#8220;fashion&#8221; das igrejas &#8220;fast-food&#8221; importadas com franquia e tudo l\u00e1 dos Ist\u00eaitis. Nossos nomes s\u00e3o dif\u00edceis de pronunciar (pelos americanos) ent\u00e3o quer\u00edamos outros, mais &#8220;internacionais&#8221;, como Johnny, Peter, Richard, Michael ou David. E como n\u00e3o sabemos ingl\u00eas, acaba ficando Jhone, Piter, Rikky, Maicon e Deyvid.  Temos vergonha da viola e da botina, mas n\u00e3o temos vergonha de agradar gringo na praia para ganhar trocado, como macacos de realejo.  Temos vergonha da m\u00fasica caipira, porque fazia chorar e pensar, mas n\u00e3o temos vergonha de rebolar para o riso do mundo.<\/p>\n<p>Hoje descobri que sou caipira, que ainda estou ligado a essas coisas antigas e a uma forma tramontana de pensar.  Estou aqui, entrincheirado nas minhas montanhas, olhando desconfiado para os perigos que vem debaixo, lamentando que n\u00e3o tenha suficiente azeite para enfrentar todo o ass\u00e9dio que vem pela frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era crian\u00e7a, ser chamado &#8220;caipira&#8221; era praticamente um xingamento. Equivalia a ser chamado de &#8220;ignorante&#8221;, &#8220;abobalhado&#8221; ou &#8220;ing\u00eanuo&#8221;. Piadas de caipira eram muito mais fortes que as de portugu\u00eas. Talvez isso se explique pelo fato de que n\u00f3s, os habitantes da Zona da Mata de Minas Gerais sermos descendentes de colonos provenientes, principalmente, das terras fluminenses, gente mais ligada \u00e0 &#8220;Corte&#8221; e ao exterior. 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