{"id":3102,"date":"2016-10-16T16:44:38","date_gmt":"2016-10-16T19:44:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3102"},"modified":"2017-11-02T14:07:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:59","slug":"amor-gotico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/10\/amor-gotico\/","title":{"rendered":"Amor G\u00f3tico"},"content":{"rendered":"<p>Ouviram um rangido desagrad\u00e1vel. A lua gorda de maio abriu uma janela estreita entre as nuvens e a fuma\u00e7a para ver Lucinda nua. Ela riu, a lua deve ter rido de volta, fazendo-lhe c\u00f3cegas na pele p\u00e1lida. Ent\u00e3o ele se afastou, constrangido e com a sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de ter as n\u00e1degas desprotegidas contra o vento e o desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 foi? Queria mais\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o sossega esse facho, Lucinda?<\/p>\n<p>\u2014 Deixe, cara. Aproveite a noite, aproveite a lua, aproveite a paisagem. E aproveite que estou aqui com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ronaldo olhou em volta e n\u00e3o teve vontade de aproveitar coisa alguma. Havia apenas l\u00e1pides sujas, flores murchas e um cheiro desagrad\u00e1vel de velas arom\u00e1ticas e cal. Tudo banhado por um luar inodoro e lembran\u00e7as ruins que nem as carnes confort\u00e1veis de Lucinda conseguiam mudar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi t\u00e3o legal quanto eu pensei que fosse\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sei l\u00e1, eu me sinto como se os mortos estivessem espreitando.<\/p>\n<p>\u2014 Psiu, escuta!<\/p>\n<p>Ronaldo calou-se, gelado como quem senta uma bunda nua em um m\u00e1rmore molhado de sereno. Tremeu de frio, olhou em volta, desconfort\u00e1vel, tentando encontrar onde deixara a cal\u00e7a. Atirou o preservativo sobre a sepultura ao lado, sinalizando desist\u00eancia, definitiva. Enquanto Lucinda ria por t\u00ea-lo assustado.<\/p>\n<p>\u2014 O que foi isso? \u2014 perguntou em um sussurro quase mais alto que um grito.<\/p>\n<p>Ouviram de novo o ru\u00eddo rangente. O gemido choroso de uma alma? Ou apenas o tronco do velho sabugueiro se retorcendo com o vento que vinha do vale?<\/p>\n<p>Finalmente ele encontrou a cal\u00e7a, e a cueca dentro dela. Vestiu-as depressa e enfiou os p\u00e9s nas meias, os dedos tr\u00eamulos dificultaram tudo, e foi com quase al\u00edvio que cal\u00e7ou as botinas.<\/p>\n<p>Aquele ru\u00eddo pavoroso se ouviu de novo, mas por sorte e obra de todos os anjos de guarda ele n\u00e3o vinha de mais perto e nem mais longe, devia ser mesmo uma \u00e1rvore. Mas quebrara de tal maneira o encanto que era imposs\u00edvel continuar.<\/p>\n<p>\u2014 A gente n\u00e3o devia nem ter vindo, Lucinda.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 com medo?<\/p>\n<p>Os olhos dela tinham um brilho engra\u00e7adinho, desafiantes de toda meiguice e de cada fantasma. Vendo-o j\u00e1 de cal\u00e7a, vestiu de volta o tubinho preto.<\/p>\n<p>\u2014 \u2019Ta que pariu, mal me segurei nas cal\u00e7as da \u00faltima vez.<\/p>\n<p>\u2014 Medo de um rangido de \u00e1rvore, Ronaldo. Honre essas cal\u00e7as ou vou achar que voc\u00ea n\u00e3o mereceu vir aqui comigo.<\/p>\n<p>O mesmo ru\u00eddo, novamente. Nem mais perto e nem mais longe, s\u00f3 mais pavoroso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que seja s\u00f3 uma \u00e1rvore.<\/p>\n<p>\u2014 E eu n\u00e3o acredito que eu dei para um sujeito t\u00e3o medroso.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Lucinda. Vai que\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Vai que o que?<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o tenho medo dos mortos, mas dos vivos\u2026<\/p>\n<p>\u2014 E os vivos fazem assim quando v\u00eam assaltar? Tenha d\u00f3, Ronaldo. Voc\u00ea est\u00e1 \u00e9 com medinho de alma penada.<\/p>\n<p>O gemido veio de novo e Ronaldo j\u00e1 suava frio. Lucinda terminou de se vestir, cal\u00e7ou as sand\u00e1lias.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos voltar para a festa. Lucinda, me entenda. N\u00e3o \u00e9 medo. Mas se tem uma coisa que a gente aprende nos filmes \u00e9 que nunca \u00e9 uma boa ideia ir ver a origem do ru\u00eddo que se ouve no escuro, principalmente depois de transar. Coisas horr\u00edveis costumam acontecer a quem transa em filme de terror.<\/p>\n<p>Possivelmente Ronaldo queria ser engra\u00e7ado. Lucinda riu mesmo. E finalmente lhe pareceu que a diferen\u00e7a de meros cinco anos entre os dois se fazia notar: abrira-se quase num abismo, deixando o pobre garoto a afogar-se no mar confuso da adolesc\u00eancia enquanto Lucinda j\u00e1 sabia muito bem o que queria.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 por nada, n\u00e3o. Voc\u00ea at\u00e9 me perdoe dizer isso, mas eu j\u00e1 me arrependi de ter ficado com voc\u00ea, s\u00f3 por essa frase. De repente eu estou com cheiro de fralda suja, por sua causa.<\/p>\n<p>Ronaldo segurou a vergonha, segurou o medo, sentiu-se m\u00ednimo, menino. Olhou para Lucinda e quis entender por que aquela mulher lhe dera uma chance, e s\u00f3 ent\u00e3o se deu conta de que empregava essa palavra pela primeira vez. Lembrou-se da oitava s\u00e9rie, da paix\u00e3o mal resolvida por Janice, que tinha s\u00f3 dois anos a mais, por\u00e9m j\u00e1 orbitava outra realidade, na qual ele era ainda um menino de joelhos ralados e com h\u00e1lito de chicletes. Por um momento Lucinda o fizera sentir-se enorme, conquistador de continentes; tivera vontades e ela o satisfizera; obrigara-o a outras, \u00e9 verdade, mas nenhuma de que se arrependesse, pois tivera o direito de desfil\u00e1-la como um trof\u00e9u.<\/p>\n<p>Eis que Lucinda o ofendia daquela forma, e ele pr\u00f3prio se sentia terrivelmente merecedor daquelas palavras. O amadurecimento tardio aterrissou como um meteoro. J\u00e1 n\u00e3o teria dito as mesmas coisas de antes, j\u00e1 n\u00e3o tinha medo do rangido, mas j\u00e1 n\u00e3o tinha o respeito de Lucinda; e isso significava que j\u00e1 n\u00e3o tinha mais nada.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o entendeu, Lucinda, pode ser um ladr\u00e3o, algum tipo de louco que vaga pelos cemit\u00e9rios\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00f3s?<\/p>\n<p>Ah, o desastre! Essa capacidade que temos de piorar as coisas que j\u00e1 se encaminham para o fracasso!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, \u00e9 que\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Vamos embora, Ronaldo. Hoje j\u00e1 deu o que tinha de dar \u2014 e Lucinda j\u00e1 n\u00e3o precisava conversar.<\/p>\n<p>Ronaldo se resignou a ir embora, arrastando correntes nos p\u00e9s, \u00e9 claro, com o rosto febril e a alma ardendo de sabedoria retrospectiva. Tentou dar-lhe a m\u00e3o, ela preferia apontar para lugares irrelevantes na paisagem, apenas porque, de dentro do cemit\u00e9rio, podiam v\u00ea-los de outras posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Chegaram, enfim, ao lugar onde o muro era mais baixo e coberto de hera. Por ali haviam entrado, por ali sairiam.<\/p>\n<p>\u2014 Me ajuda?<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o entendeu por que ela o pedia. Era pelo menos dez cent\u00edmetros mais alta e pesava pelo menos oito quilos a mais. N\u00e3o s\u00f3 tinha mais facilidade que ele para alcan\u00e7ar o muro como ainda lhe seria uma carga dif\u00edcil. Talvez ela o quisesse punir, e seus bra\u00e7os pagariam pelo que a l\u00edngua solta cometera.<\/p>\n<p>Depois que Lucinda sumiu do outro lado do muro, olhou de volta para onde haviam estado, ouviu ao longe o mesmo gemido e apareceram luzes de lanternas nas m\u00e3os de vigias. O seu medo fora providencial para evitar que fossem descobertos, mas disso n\u00e3o saberia Lucinda, que j\u00e1 estava do outro lado, que j\u00e1 ia al\u00e9m, que j\u00e1 estava em outra \u00f3rbita. Somente ele sabia, e era t\u00e3o irrelevante a provid\u00eancia que os salvara e que o ferrava mais uma vez.<\/p>\n<p>Agarrou a hera, chegou ao alto do muro. Conseguiu ouvir vozes: os vigias o haviam visto. Pulou ao ch\u00e3o e saiu correndo na dire\u00e7\u00e3o do clube. Lucinda j\u00e1 percorrera os cento e cinquenta metros de dist\u00e2ncia enquanto ele devaneava. Talvez ele s\u00f3 tivesse tempo de v\u00ea-la beijar outro quando chegasse de volta \u00e0 festa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouviram um rangido desagrad\u00e1vel. A lua gorda de maio abriu uma janela estreita entre as nuvens e a fuma\u00e7a para ver Lucinda nua. Ela riu, a lua deve ter rido de volta, fazendo-lhe c\u00f3cegas na pele p\u00e1lida. 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