{"id":314,"date":"2011-04-07T23:06:00","date_gmt":"2011-04-08T02:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=314"},"modified":"2017-11-02T14:09:15","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:15","slug":"o-mundo-nao-vai-acabar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/04\/o-mundo-nao-vai-acabar\/","title":{"rendered":"O Mundo N\u00e3o Vai Acabar"},"content":{"rendered":"<p>Quando ocorre uma trag\u00e9dia de grandes dimens\u00f5es humanas, algo infelizmente frequente, h\u00e1 muitos que se apressam em dizer que &#8220;este mundo est\u00e1 \u00e9 perdido&#8221; e que n\u00f3s vivemos o suposto &#8220;final dos tempos&#8221;. Quem estuda a Hist\u00f3ria da humanidade a fundo sabe muito bem que jamais deixou de haver este conceito t\u00e3o popular, de que o mundo &#8220;est\u00e1 acabando&#8221;, mas apesar de tudo o mundo segue a\u00ed, firme e forte em sua marcha rumo ao caos. Podem me acusar de insens\u00edvel, mas a verdade \u00e9 que quando fazemos uma an\u00e1lise detida da realidade, o que vemos \u00e9 que o caos n\u00e3o \u00e9 um acidente, o caos \u00e9 uma caracter\u00edstica. O mundo vai continuar, monstruoso e ca\u00f3tico como sempre foi.<\/p>\n<p>Em um de seus discursos contra o conspirador Catilina o romano C\u00edcero, contempor\u00e2neo ou quase do lend\u00e1rio Jesus Cristo, lamentou a decad\u00eancia dos costumes de sua \u00e9poca: &#8220;Que tempos, que costumes!&#8221; \u2014 ou, como se dizia em latim: &#8220;o tempora, o mores&#8221;. Invectivas semelhantes podem ser encotradas por toda parte nas literaturas antigas: Egito, \u00cdndia, Mesopot\u00e2mia, Gr\u00e9cia. N\u00e3o foram os gregos que imaginaram que viviam uma insossa &#8220;Idade do Ferro&#8221;, est\u00e1gio final de degrada\u00e7\u00e3o da humanidade, que j\u00e1 havia passado por uma Idade do Ouro, uma Idade da Prata e uma Idade do Bronze?<\/p>\n<p>Mas apesar de toda a lamenta\u00e7\u00e3o dos que contemplam as mudan\u00e7as, &#8220;o novo sempre vem&#8221;, como profetizou Belchior, antes de desaparecer.<\/p>\n<p>Talvez a coisa mais dif\u00edcil a enfrentar nesse mundo n\u00e3o seja a exist\u00eancia propriamente dita de injusti\u00e7as e viol\u00eancias, mas o fato de que o mundo continua depois. Como sentenciou Mill\u00f4r Fernandes, em sua pe\u00e7a &#8220;A Hist\u00f3ria \u00e9 uma Hist\u00f3ria&#8221;: &#8220;O crime foi espantoso, mas o morto nem liga.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar de tudo que vivemos, apesar de tudo que nos fizerm (de bom ou de mau), se amanh\u00e3 estivermos mortos ou esquecidos a marcha amoral do mundo vai continuar. Com ou sem as ararinhas azuis extintas, o mundo vai continuar. A roda inexor\u00e1vel da Hist\u00f3ria vai seguir adiante e o &#8220;fim dos tempos&#8221; \u00e9 apenas um desejo que o injusti\u00e7ado tem de que o seu sofrimento seja o derradeiro sofrimento, de que sua morte seja mais significativa do que todas as demais que aconteceram antes. \u00c9 apenas uma forma de se sentir especial: achamos que o mundo est\u00e1 acabando porque achamos que sofremos mais do que sofreram nossos pais, pois antigamente &#8220;era melhor&#8221;.<\/p>\n<p>Quando nascer o amanh\u00e3, haver\u00e1 outras mortes, outros crimes, mais caos. O mundo continuar\u00e1 com as garras vermelhas de sangue, de culpados e inocentes, indistintamente. A poesia n\u00e3o morreu em Auschwitz, ao contr\u00e1rio do que disse um poeta sovi\u00e9tico cujo nome n\u00e3o vou pesquisar agora na Wikipedia. Ali\u00e1s, hip\u00f3crita este poeta que n\u00e3o via o caos dom\u00e9stico, mas tinha a permiss\u00e3o de dramatizar as valas e os fornos alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Somos assim ainda. Somos ainda cegos demais para entender que somos insignificantes, que nossa morte, nosso sofrimento, nada disso representa uma amea\u00e7a \u00e0 continuidade do mundo. Muito pelo contr\u00e1rio: \u00e9 nosso sonho louco de que possu\u00edmos alguma capacidade de afetar a continuidade do mundo que est\u00e1 colocando em risco a nossa pr\u00f3pria continuidade enquanto esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o fim dos tempos, \u00e9 apenas &#8220;o de sempre&#8221;. Viol\u00eancia \u00e9 o mel do homem. Com ela estupramos a natureza e criamos para n\u00f3s um espa\u00e7o muito maior do que as nossas savanas originais. Nesse momento em que o caos nos aflige de tantos lados simult\u00e2neos, com seu ru\u00eddo e sua cara feia, somos apenas codornas apertadas numa gaiola. O caos \u00e9 apenas uma estrat\u00e9gia evolutiva: n\u00f3s nos destru\u00edmos para abrir espa\u00e7o porque estamos sufocados demais pela presen\u00e7a do outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando ocorre uma trag\u00e9dia de grandes dimens\u00f5es humanas, algo infelizmente frequente, h\u00e1 muitos que se apressam em dizer que &#8220;este mundo est\u00e1 \u00e9 perdido&#8221; e que n\u00f3s vivemos o suposto &#8220;final dos tempos&#8221;. Quem estuda a Hist\u00f3ria da humanidade a fundo sabe muito bem que jamais deixou de haver este conceito t\u00e3o popular, de que o mundo &#8220;est\u00e1 acabando&#8221;, mas apesar de tudo o mundo segue a\u00ed, firme e forte em sua marcha rumo ao caos. 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