{"id":317,"date":"2011-03-31T12:04:00","date_gmt":"2011-03-31T15:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=317"},"modified":"2017-11-02T14:09:16","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:16","slug":"meu-encontro-com-a-magra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/03\/meu-encontro-com-a-magra\/","title":{"rendered":"Meu Encontro com a Magra"},"content":{"rendered":"<p>Cheguei de viagem cansado, ansioso por dormir. Deixei meu carro na garagem e sa\u00ed pela noite an\u00f3dina e sem lua. O ar estava profanado pela chuva ainda recente, exalando uma catinga de morrinha de cachorro molhado e os meus p\u00e9s chapinhavam nas po\u00e7as de \u00e1gua barrenta que salpicavam as cal\u00e7adas. No c\u00e9u parcialmente limpo algumas estrelas, nenhuma vencendo de todo a ilumina\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n<p>Havia uma mulher sentada num banco de pra\u00e7a no meio do meu caminho, uma mulher vestida roupas negras e longos cabelos, com o rosto afundado entre as m\u00e3os. Estava im\u00f3vel como uma morta e meio apoiada, de um lado, sobre algo escuro e disforme. Observei que curvava a cabe\u00e7a sobre os antebra\u00e7os e as m\u00e3os ficavam perdidas entre as madeixas escuras, que a brisa da noite discretamente agitava.<\/p>\n<p>Poderia ser uma mendiga, ou qualquer imagem sobrenatural, ou talvez apenas uma jovem drogada. Alguma coisa me fez simpatizar com sua solid\u00e3o no vazio daquela madrugada perigosa. Por isso, contrariando o senso que sempre me mandava, de noite ou de madrugada, ignorar tudo que tivesse duas pernas e estivesse fora de mim, cheguei mais perto e lhe dei boa noite.<\/p>\n<p>Foi como se rasgassem a mortalha de um f\u00e9retro antigo. Ela ergueu o rosto p\u00e1lido e macerado de l\u00e1grimas contra a luz ap\u00e1tica das l\u00e2mpadas el\u00e9tricas, mirou nos meus com uma devastadora express\u00e3o de luto em sua boca e uma potente tristeza torcendo seu cenho. Dava para ver que ela havia chorado recentemente. N\u00e3o! Chorava ainda: um brilho perolado aparecia na pele ao redor dos olhos, pondo um apelo ainda mais puro aos misturados sentimentos que me acometiam. Percebi, surpreso, que seu rosto n\u00e3o levava maquiagem, que seus dedos n\u00e3o portavam aneis e que havia suspenso em seu pesco\u00e7o somente um r\u00fastico pingente prateado em forma de luar.<\/p>\n<p>A voz que respondeu ao cumprimento foi quase inaud\u00edvel, como o sussurro de uma profecia em um sonho. N\u00e3o, eu n\u00e3o poderia ajudar-lhe em nada. Sua express\u00e3o desolada certificou-me disso t\u00e3o logo eu pensei perguntar se precisava de alguma coisa. Mas depois de refletir por um momento, talvez temendo que eu seguisse meu caminho, abordou-me com uma aud\u00e1cia ignorante:<\/p>\n<p>\u2014 Tu me amas?<\/p>\n<p>Aquelas palavras ventaram como uma vertigem em meus ouvidos. Como poderia pensar que algu\u00e9m pudesse amar a quem nem sabe quem \u00e9? Disse-lhe isso: &#8220;N\u00e3o a conhe\u00e7o&#8221;. Ela n\u00e3o gastou nenhum segundo antes de tentar de outra forma:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o me odeias?<\/p>\n<p>Suas palavras sa\u00edam como se fossem antigas, com poeira de idades imemoriais, incineradas pela inclem\u00eancia dos s\u00e9culos. Achei gra\u00e7a nesse anacronismo e tamb\u00e9m joguei da mesma forma:<\/p>\n<p>\u2014 Como odiaria a quem n\u00e3o pude ainda conhecer?<\/p>\n<p>Ela deixou descer outra gota solit\u00e1ria de seus olhos e afirmou, como quem arranca o pr\u00f3prio f\u00edgado:<\/p>\n<p>\u2014 Se me conheces, me odeias.<\/p>\n<p>Esta afirma\u00e7\u00e3o de futuro usando o presente me parece fatalista al\u00e9m da conta. Mas eu era tolo e suficientemente ousado para uma noite s\u00f3. Disse-lhe que ningu\u00e9m odiaria uma mulher t\u00e3o bela, n\u00e3o sem um motivo muito justo, n\u00e3o sem um \u00f3dio anterior da parte dela.<\/p>\n<p>Essas palavras sa\u00edram de minha boca t\u00e3o inesperadas que meus dentes se assustaram com elas e morderam minha l\u00edngua. Ela ent\u00e3o se levantou do banco da pra\u00e7a e disse, de uma forma infantilmente curiosa que n\u00e3o me odiava. Seu corpo exalava um perfume de gaveta, ou de casa abandonada, misturado talvez a ervas mortas. Mas quando ela se aproximou de mim esse cheiro de s\u00e9culos e tumbas n\u00e3o me pareceu ruim. Era em vez disso um perfume de rosas secas, de sabonetes em gavetas.<\/p>\n<p>Mas ela se movia como um fantasma, sua roupa imensamente negra revoava como as asas de uma alma penada. Havia algo muito estranho naqueles l\u00e1bios roxos, uma do\u00e7ura cadav\u00e9rica e pecaminosa naquela palidez hel\u00eanica. Ela me tocou o rosto com a m\u00e3o direita, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 poss\u00edvel odiar a inoc\u00eancia? Eu n\u00e3o entendo! Eu apenas existo!<\/p>\n<p>No fundo de minha mente alguma coisa come\u00e7ava a agitar-se, sinalizando \u00e0s minhas pernas que corressem, enquanto outra parte de mim dizia que j\u00e1 era tarde para isso. Mas eu retribu\u00ed o toque, levando meus dedos \u00e0 sua face. Era lisa como uma l\u00e1pide de m\u00e1rmore, era fria como a \u00e1gua de um lago \u00e0 noite, e era dura tamb\u00e9m, mas sua lisura era boa de tocar, meus dedos gostaram de correr por aquela pele que parecia n\u00e3o ter pelo nenhum. Naquele momento, vencendo meus instintos, eu a achei terrivelmente bela e quis am\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Por que est\u00e1 sozinha esta noite, nesta pra\u00e7a vazia e perigosa?<\/p>\n<p>\u2014 Sozinha eu sempre estou, e certamente esta pra\u00e7a n\u00e3o me oferece nenhum perigo.<\/p>\n<p>Algumas pessoas passaram pelo outro lado da pra\u00e7a, b\u00eabadas, ruidosas, cantando obscenamente, uma felicidade ofensiva. Como era poss\u00edvel estarem felizes. Havia guerra, havia peste. Odiei aquelas pessoas. Como se tivesse lido os meus l\u00e1bios im\u00f3veis, a mulher de negro me aconselhou:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, n\u00e3o os odeies. Eles apenas sentem a tens\u00e3o dos \u00faltimos dias. Eles dan\u00e7am e cantam porque em sua ignor\u00e2ncia eles sabem que se aproxima o dia em que j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e3o. Felizes aqueles que dan\u00e7am e cantam, porque os dias de cantar e dan\u00e7ar s\u00e3o muito poucos.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o venha beber comigo, cantar e dan\u00e7ar. Como todo mundo, voc\u00ea merece essa pouca felicidade que h\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o beija-me agora, se tens esta coragem.<\/p>\n<p>Toquei seus l\u00e1bios duros com os meus, beijamo-nos brevemente. Ela ent\u00e3o aceitou que eu lhe tomasse a m\u00e3o e a levasse da pra\u00e7a. Mas ao sairmos da sombra onde ela estivera, notei que trazia consigo um saco escuro e uma longa foice de l\u00e2mina curva. Naquele momento eu teria entrado em p\u00e2nico, mas eu a beijara e ela era uma mulher t\u00e3o linda. Ent\u00e3o a beijei suavemente uma segunda vez, tentando envolver seu corpo magro em meus bra\u00e7os. Quando nossos l\u00e1bios se afastaram ela quase sorriu, tentando talvez ser m\u00e1, encarou-me de novo e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Eu sou a tua morte. Odeia-me agora!?<\/p>\n<p>Contemplei-a novamente, ainda lutando com o medo in\u00fatil que ruflava no interior de minhas cren\u00e7as e descren\u00e7as. Mas conclu\u00ed que mesmo assim eu n\u00e3o conseguia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso odi\u00e1-la. Como posso odiar a morte que nasci sabendo que um dia encontraria. S\u00f3 n\u00e3o sabia que haveria de ser numa pra\u00e7a t\u00e3o feia, na forma de uma alma t\u00e3o linda. Mas n\u00e3o a odeio, nunca a odiei, na verdade fiz versos para ti por muitos anos.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o sentes medo?<\/p>\n<p>\u2014 Tenho medo e desespero, mas n\u00e3o posso odiar a uma lei da natureza. Sobretudo n\u00e3o tenho \u00f3dio, tenho \u00e9 pena de ti, que odeias a vida.<\/p>\n<p>Ela me tomou a m\u00e3o, como se uma geleira me tocasse, e disse numa voz dan\u00e7ante e cristalina:<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade, eis a monstruosidade de tudo, n\u00e3o sou eu quem odeia a vida, eu de fato a amo, talvez bem mais que v\u00f3s que viveis. Eu amo a vida, esta coisa prec\u00e1ria e bela que se destr\u00f3i e se perpetua. Eu existo para destruir, destruo para existir, mas minha destrui\u00e7\u00e3o abre caminhos, areja a exist\u00eancia para os que ainda v\u00e3o nascer. Mas mesmo assim, mesmo sabendo que fa\u00e7o algo que \u00e9 bom, ainda levo na alma uma culpa que n\u00e3o sei bem do que. E um cansa\u00e7o nas m\u00e3os que j\u00e1 carregaram demais esta foice infernal que me deram.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho pena, ent\u00e3o, por isso.<\/p>\n<p>\u2014 Acima de tudo, estou cansada de destruir \u00e0quilo e a quem gostaria de amar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 poss\u00edvel amar sem destruir? Se n\u00e3o ao objeto, ao amor em si?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei todas as coisas, sou apenas um anjo ca\u00eddo que tem uma miss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tu tens a eternidade, ent\u00e3o por que n\u00e3o podes ter algumas d\u00e9cadas?<\/p>\n<p>Ela me olhou com esperan\u00e7a, um sentimento que talvez n\u00e3o tenha sido nunca pensado para os cora\u00e7\u00f5es dos anjos. Uma esperan\u00e7a t\u00e3o s\u00fabita que quase evaporou o resto da l\u00e1grima que ainda pendia.<\/p>\n<p>\u2014 Eu pressinto verdade no que a tua boca diz. Teus olhos confessam, n\u00e3o posso negar.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o posso dar-lhe boa noite e ir para casa, como antes. Vem comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou contigo. E vou ficar contigo at\u00e9 que me odeies, at\u00e9 que te destruas, at\u00e9 que a Ira dEle nos obrigue.<\/p>\n<p>Seguimos para minha casa como se f\u00f4ssemos qualquer casal de namorados. A morte me acompanhava, mas eu n\u00e3o tinha medo. Dormi um sono pesado, sofri com pesadelos e com sede. Quando amanheceu, havia um sol estranhamente silencioso atravessando a janela, uma quietude de se ouvir p\u00e1ssaros; mas n\u00e3o havia p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Preparei meu caf\u00e9 da manh\u00e3 ainda chocado pelas imagens b\u00e1rbaras de um mundo que se acabava em trevas. Terminei minhas fatias com manteiga e meu caf\u00e9 com leite vendo o rel\u00f3gio gotejar minutos como uma hemorragia. Ent\u00e3o sa\u00ed de casa para o trabalho.<\/p>\n<p>Os meus passos ressoavam na escada como os de uma m\u00famia num museu. Havia teias de aranha nas paredes que poderiam ser de semanas ou de meses. Havia um sil\u00eancio no ar que evocava os por\u00f5es de uma pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>A rua estava deserta, cheia de \u00e1rvores enferrujadas e redemoinhos de poeira que assobiavam como em antigos filmes americanos. As lojas estavam lacradas, silenciosas, como se seus donos tivessem morrido na cama, de madrugada, e nunca viessem mais para abrir suas portas corredi\u00e7as. Nenhum c\u00e3o percorria aquela avenida desolada, nenhum ru\u00eddo ou m\u00fasica que evocasse vida.<\/p>\n<p>Temi estar louco. Continuei pelo caminho at\u00e9 o meu servi\u00e7o, sorvendo um ar estranhamente \u00e1cido. As vidra\u00e7as de alguns estabelecimentos estavam deformadas, com marcas estranhas que pareciam m\u00e3os, mas n\u00e3o podiam ser. Na pra\u00e7a onde deixara a mulher de negro imperava a mesma m\u00e1gica de amortecimento que embalara o mundo naquele sono est\u00fapido.<\/p>\n<p>Uma frase dita por detr\u00e1s de minha orelha me arrepiou cada cabelo de meu corpo: &#8220;Tu me amas?&#8221; Repeti as perguntas comuns que todos os perdidos fazem nessas horas, era como se eu tivesse incorporado um roteiro de cinema de horror e todos os seus clich\u00eas. Quando voltei o rosto, ela estava l\u00e1 e me olhava com aquela express\u00e3o g\u00e9lida no rosto, brilhando sob o sol como uma blasf\u00eamia.<\/p>\n<p>\u2014 V-\u200bvoc\u00ea. Eu pen\u00adsei que tinha sido s\u00f3 um sonho.<\/p>\n<p>\u2014 E me amas?<\/p>\n<p>\u2014 Tal\u00advez, mas ainda tenho medo.<\/p>\n<p>\u2014 Amor e medo se mis\u00adtu\u00adram bem, e eu sei de pra\u00adze\u00adres que nin\u00adgu\u00e9m jamais lem\u00adbrou nem aprendeu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o gosto des\u00adses ver\u00adbos, tenho muito que esque\u00adcer e muito medo de nunca aprender.<\/p>\n<p>Ela se apro\u00adxi\u00admou de mim, sem que seus p\u00e9s sequer soas\u00adsem no ch\u00e3o, ape\u00adsar de todo o sil\u00ean\u00adcio da rua inteira.<\/p>\n<p>\u2014 Tu me ama\u00adrias aqui?<\/p>\n<p>Olhei em torno, nova\u00admente assus\u00adtado. N\u00e3o havia alma viva nem voz que aven\u00adtasse testemunhas.<\/p>\n<p>\u2014 Isso seria algo de meter mais medo ainda.<\/p>\n<p>Ela deixou cair sua roupa escura e seu corpo p\u00e1lido e calcificado brilhou. Tentei resistir \u00e0queles bra\u00e7os que se aproximavam como garras de um monstro, mas meus olhos, perdidos nas \u00f3rbitas l\u00edquidas e negras dos olhos dela, tolheram os meus movimentos e eu me deixei deitar ao ch\u00e3o, finalmente silencioso e em paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei de viagem cansado, ansioso por dormir. Deixei meu carro na garagem e sa\u00ed pela noite an\u00f3dina e sem lua. O ar estava profanado pela chuva ainda recente, exalando uma catinga de morrinha de cachorro molhado e os meus p\u00e9s chapinhavam nas po\u00e7as de \u00e1gua barrenta que salpicavam as cal\u00e7adas. No c\u00e9u parcialmente limpo algumas estrelas, nenhuma vencendo de todo a ilumina\u00e7\u00e3o artificial. 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