{"id":318,"date":"2011-03-29T22:04:00","date_gmt":"2011-03-30T01:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=318"},"modified":"2017-11-02T14:09:16","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:16","slug":"e-acreditam-nas-flores-vencendo-o-canhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/03\/e-acreditam-nas-flores-vencendo-o-canhao\/","title":{"rendered":"&#8230;E Acreditam nas Flores Vencendo o Canh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um verso de profundo desencanto no [hoje maldito] hino dos &#8220;Anos Rebeldes&#8221; brasileiros. Ao criticar de forma velada o movimento <em>hippie<\/em> (e outros movimentos de paz e amor), Geraldo Vandr\u00e9 constatou: &#8220;pelas ruas marchando indecisos cord\u00f5es que ainda fazem da flor seu mais forte refr\u00e3o, e acreditam nas flores vencendo o canh\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma poesia profunda no gesto de entregar flores aos agentes mandados pelo governo para matar voc\u00ea. Rende lindas imagens para os canais de not\u00edcias, rende her\u00f3is que ser\u00e3o lembrados por d\u00e9cadas ou s\u00e9culos, mas raramente rende progressos reais \u2014 a menos que as flores sejam entregues dentro de um contexto favor\u00e1vel a flores. H\u00e1 momentos hist\u00f3ricos favor\u00e1veis ao canh\u00e3o, e eles s\u00e3o a maioria. Na verdade \u00e9 apenas por exce\u00e7\u00e3o que a flor adquire algum poder.<\/p>\n<p>No seu romance &#8220;infantil&#8221; intitulado <a href=\"http:\/\/todaoferta.uol.com.br\/comprar\/o-menino-e-o-presidente-wilson-rio-apa-LVCRILIGMI\">&#8220;O Menino e o Presidente&#8221;<\/a>, o escritor Wilson Rio Apa imaginou um perfume, inventado por acaso por um grupo de crian\u00e7as, a partir de um laborat\u00f3rio de qu\u00edmica deixado por seu falecido av\u00f4. Esse perfume tornava as pessoas &#8220;legais&#8221;, tornava-as emp\u00e1ticas, bem intencionadas, bondosas. Ao perceberem o efeito, as crian\u00e7as resolvem dar o perfume, embebido em um buqu\u00ea de rosas, ao Presidente da Rep\u00fablica. Deve ter custado muita coragem ao autor para escrever isso nos anos 70, plena \u00e9poca de ditadura e torturas. Ainda mais que no livro as crian\u00e7as, identificadas como perigosos subversivos, s\u00e3o presas, separadas dos pais e mandadas para lugares diferentes do mundo (com a leve sugest\u00e3o de que elas seriam, na verdade, mortas ou abandonadas para morrer). Linda hist\u00f3ria infantil, linda li\u00e7\u00e3o de moral. Cresci com o trauma de ter lido esse livro. Mas acredito que traumas assim fazem falta, ajudam as crian\u00e7as e entenderem uma certa no\u00e7\u00e3o de valores, que \u00e9 preciso ser &#8220;legal&#8221; nesse mundo.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria do livro, tal como na m\u00fasica, reflete a perplexidade daqueles que esperam vencer com bot\u00f5es de rosa o poder do canh\u00e3o. Daqueles que acreditam que poder emana do povo e que os soldados s\u00e3o patriotas e n\u00e3o matar\u00e3o aqueles a quem juram defender. H\u00e1 momentos em que isso parece dar certo, h\u00e1 momentos em que decididamente isto d\u00e1 errado.  Para cada Gandhi comemorado em selos e idolatrado internacionalmente, h\u00e1 centenas de caras como o an\u00f4nimo chinesinho de cal\u00e7a preta e camisa branca que enfrentou os canh\u00f5es na Pra\u00e7a da Paz Celestial, em v\u00e3o.<\/p>\n<p>O poder do canh\u00e3o \u00e9 o de destruir sonhos, \u00e9 o de implodir ideias. \u00c9 gra\u00e7as ao canh\u00e3o que as elites imp\u00f5em sua vontade. Ningu\u00e9m imagine que seria vontade do povo fazer certas coisas pol\u00eamicas, se o povo hoje internalizou &#8220;querer&#8221; certas coisas, foi a custa de muito canh\u00e3o no passado. Como no <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0057012\/\">filme famoso<\/a> de Stanley Kubrick, chega um momento em que paramos de nos preocupar e come\u00e7amos a gostar da bomba. \u00c9 melhor amar \u00e0 bomba do que ser morto por ela. Ditadores tem seguidores porque os mortos j\u00e1 n\u00e3o seguem ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um belo dia um lindo conto de fadas come\u00e7a no Oriente: o povo nas ruas, com faixas e cartazes e gritos de guerra. O ex\u00e9rcito n\u00e3o atira, o governo acaba renunciando. Cria-se um exemplo, logo surge outro. Mas o canh\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, dormente. Cedo ou tarde algu\u00e9m descobre que, afinal, os espinhos das rosas n\u00e3o s\u00e3o tem\u00edveis. Ent\u00e3o v\u00eam os tanques. Pode ser in\u00fatil desespero, como queria Gandhi, mas a viol\u00eancia pelo menos tem o poder de estragar a utopia. O canh\u00e3o pode, a longo prazo, ser silenciado, mas ele tem pelo menos o poder de destruir o mundo novo que se sonhava e obrigar os sonhadores sobreviventes a uma realidade diferente da que esperavam: uma na qual muitos amigos morreram, muito preju\u00edzo aconteceu e a expectativa de prosperidade evapora deixando atr\u00e1s de si ru\u00ednas, d\u00edvidas e solid\u00f5es.<\/p>\n<p>Em homenagem \u00e0s v\u00edtimas de todas as revolu\u00e7\u00f5es, principalmente daquelas que deram errado. Em especial aos m\u00e1rtires da L\u00edbia, primeira classe de rebeldes a enfrentar de m\u00e3os nuas a For\u00e7a A\u00e9rea de seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Bons tempos aqueles em que se achava absurdo o opressor chamar a cavalaria contra os estudantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um verso de profundo desencanto no [hoje maldito] hino dos &#8220;Anos Rebeldes&#8221; brasileiros. 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