{"id":326,"date":"2011-03-16T22:20:00","date_gmt":"2011-03-17T01:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=326"},"modified":"2017-11-02T14:09:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:17","slug":"quanto-voce-quer-pagar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/03\/quanto-voce-quer-pagar\/","title":{"rendered":"Quanto Voc\u00ea Quer Pagar?"},"content":{"rendered":"<p>Quanto voc\u00ea pagou pelo seu dia de hoje? Nada? Tem certeza? Provavelmente voc\u00ea est\u00e1 enganado, tanto quanto eu estive durante d\u00e9cadas perdidas de minha vida. Cada dia que voc\u00ea vive est\u00e1 pago, e muito bem pago, com uma moeda cujo valor subjetivo \u00e9 maior que o do d\u00f3lar e o do iene: a liberdade.<\/p>\n<p>\u00c9 com liberdade que voc\u00ea paga por lhe terem deixado vivo mais um dia. Com ela voc\u00ea comprou, indiretamente, o p\u00e3o e o caf\u00e9 que o prepararam para outra jornada. Esta, por sua vez, nada mais \u00e9 do que a priva\u00e7\u00e3o di\u00e1ria porque passa o homem, <em>obrigado<\/em> a coisas que n\u00e3o entende e que n\u00e3o lhe fazem sentido. Em vez de estar criando seus filhos, realizando seus sonhos, fazendo amor ou deitado \u00e0 toa. Durante mais da metade das horas de cada dia, exatamente as horas melhores, aquelas em que voc\u00ea est\u00e1 mais alerta e se sente melhor. Justamente nelas n\u00e3o h\u00e1 mais liberdade, a n\u00e3o ser relativamente.<\/p>\n<p>Em troca de voc\u00ea abandonar a sua liberdade, v\u00e3o lhe pagando por ela valores vari\u00e1veis. Nunca lhe pagam o que voc\u00ea quer: \u00e9 sempre menos ou mais. Quanto mais lhe pagam, em rela\u00e7\u00e3o ao que voc\u00ea espera, mais lhe tiram. Pagar sempre um valor diferente \u00e9 uma forma de impedir que voc\u00ea perceba o valor exato desta condi\u00e7\u00e3o. Se lhe pagam pouco, \u00e9 porque voc\u00ea provavalmente lhe d\u00e1 muito valor e \u00e9 preciso que voc\u00ea passe a crer que ela vale menos. Se lhe pagam muito, \u00e9 porque lhe deixam apenas o m\u00ednimo necess\u00e1rio para que voc\u00ea ainda respire hoje (mas nunca se sabe o dia de amanh\u00e3). Fazem isso aproveitando-se de que voc\u00ea acha que ela vale pouco. Se voc\u00ea avaliar com precis\u00e3o, ver\u00e1 que, no fundo, a sua liberdade vale tanto quanto a do lixeiro que voc\u00ea despreza. Muda apenas quanto pagam.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas maneiras de tomar a liberdade de algu\u00e9m, e a mais cruel de todas \u00e9 a tomada preventiva da liberdade que ainda n\u00e3o pode ser gozada. Em palavras mais piegas: \u00e9 tomar do homem a liberdade que ele ainda pode vir a ter no futuro. Isso se faz de v\u00e1rias maneiras. Pode ser, por exemplo, pelo ac\u00famulo de responsabilidades (essas notas promiss\u00f3rias que pagamos com liberdade); ou pode ser de forma agressiva, deteriorando o seu corpo para que voc\u00ea n\u00e3o possa chegar a gozar da liberdade futura. O primeiro m\u00e9todo \u00e9 o preferido da sociedade, pois permite dar uma finalidade \u00e0 liberdade que voc\u00ea n\u00e3o vai aproveitar. O segundo, que a inutiliza, \u00e9 apenas uma maneira de assegurar que a liberdade seja restrita. Fazem isso quando n\u00e3o h\u00e1 uma demanda suficiente por liberdade, mas h\u00e1 muita oferta. \u00c9 mais ou menos como fazem os produtores de leite quando n\u00e3o conseguem vender: jogam fora, mesmo com tanta gente passando fome. A economia exige isso: n\u00e3o haveria meios de levar esse leite a quem precisa. Quem pagaria o frete?<\/p>\n<p>A vida vai passando e o seu estoque de liberdade vai minguando. E quanto menos liberdade voc\u00ea tem, menos lhe pagam por ela. Esse \u00e9 o paradoxo econ\u00f4mico desta moeda, raz\u00e3o pela qual os economistas riem dela. A liberdade \u00e9 uma <em>commodity<\/em> que s\u00f3 tem valor quando \u00e9 farta. Aqueles que tem muita conseguem vender a um pre\u00e7o alto. Aqueles que pouca t\u00eam, esta escassa ainda t\u00eam de entregar a pre\u00e7o vil, isso quando n\u00e3o lhes \u00e9 tomada de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas um dia percebem que sua liberdade j\u00e1 acabou, nesse dia n\u00e3o existe mais utilidade no homem. Ningu\u00e9m respeita ao indiv\u00edduo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 livre, ningu\u00e9m o ama, ningu\u00e9m o admira. Todos, no m\u00e1ximo, fingem isso. Neste momento o homem est\u00e1 pronto para aposentar-se. N\u00e3o sendo j\u00e1 livre, n\u00e3o poder\u00e1 desfilar pelas ruas com a indec\u00eancia de seu livre-arb\u00edtrio arrega\u00e7ada no rosto como um sorriso. Toda a admira\u00e7\u00e3o da sociedade pelo homem que finalmente se aposenta \u00e9 id\u00eantica \u00e0 que ela tem pelo homem que finalmente cumpre uma longa pena. Alguns podem estar festejando l\u00e1 fora dos port\u00f5es, mas n\u00e3o creia que ser\u00e1 poss\u00edvel reiniciar os esbo\u00e7os abandonados na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea se aposenta lhe dizem que voc\u00ea finalmente ter\u00e1 tempo para seus projetos. Possivelmente ter\u00e1 tempo, mas dificilmente ter\u00e1 ainda projetos. A priva\u00e7\u00e3o da liberdade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que induz ao costume: nos tornamos t\u00e3o afeitos a viver sem aproveit\u00e1-la que quando finalmente j\u00e1 n\u00e3o nos obrigam a deix\u00e1-la, n\u00e3o sabemos para onder ir.<\/p>\n<p>Nos idos dos anos cinquenta ou sessenta, antes que eu nacesse, havia em minha cidadezinha natal um burrico que puxava a carro\u00e7a de leite pelas ruas da cidade. Toda manh\u00e3 o leiteiro o la\u00e7ava no pasto, botava-lhe arreios e ia \u00e0 Cooperativa comprar leite em garrafas. Depois sa\u00eda pela cidade entregando aos fregueses habituais. Quando o burrico ficou velho seu dono, compadecido, como nossa sociedade, deixou o animal em um pasto em um bairro afastado, para que ali descansasse. O pobre bicho n\u00e3o aproveitou sua liberdade t\u00e3o tardia: toda manh\u00e3, em vez de pastar o capim tenro e nadar no riacho, ele cruzava a cidade e parava \u00e0 porta da Cooperativa, puxando uma imagin\u00e1ria carro\u00e7a. Depois sa\u00eda a esmo pela cidade, entregando on\u00edricas garrafas de leite. E assim foi por algum tempo, at\u00e9 morrer, magro de t\u00e3o pouco pastar. Pois o burrico livre comia menos do que antes, quando seu dono lhe dava capim \u00e0 boca durante a viagem.<\/p>\n<p>Se este fosse um texto de auto-ajuda eu terminaria dizendo que nossa liberdade \u00e9 t\u00e3o pouca e t\u00e3o pouco nos deixam aproveit\u00e1-la, que \u00e9 preciso, que \u00e9 imperativo, que \u00e9 sensato que a empreguemos toda, ao m\u00e1ximo, j\u00e1, ontem! Ou ent\u00e3o que a usemos &#8220;com sabedoria&#8221; (qualquer coisa feita &#8220;com sabedoria&#8221;, segundo as prega\u00e7\u00f5es dos s\u00e1bios, precisa ser muito chata\u2014a ponto de quase ser in\u00fatil).<\/p>\n<p>Mas este n\u00e3o \u00e9 um texto de auto-ajuda, eu n\u00e3o estou aqui para ensinar nada a ningu\u00e9m, eu sou apenas aquele ru\u00eddo que lhe acorda no meio da noite, parecendo um m\u00f3vel que caiu ou algo que se quebrou na cozinha. Eu sou esse ru\u00eddo que lhe faz pensar que h\u00e1 um ladr\u00e3o em casa, e voc\u00ea treme sem saber se deve ir ver o que \u00e9 ou se deve fingir dormir e deixar que o ladr\u00e3o o roube, por medo de um tiro. A verdade \u00e9 como um tiro, ou como um prato que se quebra na madrugada destruindo o seu sono inocente. Eu escrevi este texto porque eu j\u00e1 n\u00e3o durmo e quero que minha ins\u00f4nia se espalhe: \u00e9 preciso urgentemente produzirmos liberdade, ou ela deve acabar\u2014e nesse dia nenhum de n\u00f3s ter\u00e1 valor algum. Pois n\u00e3o valemos nada se n\u00e3o somos livres nem felizes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto voc\u00ea pagou pelo seu dia de hoje? Nada? Tem certeza? Provavelmente voc\u00ea est\u00e1 enganado, tanto quanto eu estive durante d\u00e9cadas perdidas de minha vida. 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