{"id":3285,"date":"2016-12-22T22:03:43","date_gmt":"2016-12-23T01:03:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3285"},"modified":"2017-11-23T21:43:07","modified_gmt":"2017-11-24T00:43:07","slug":"por-que-que-a-gente-e-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/12\/por-que-que-a-gente-e-assim\/","title":{"rendered":"Por que que a gente \u00e9 assim?"},"content":{"rendered":"<p>Mais uma vez? \u00c9 claro que eu &#8216;t\u00f4 a fim. Parodio Cazuza para dizer que o escritor brasileiro parece n\u00e3o se cansar de ser humilhado. N\u00e3o basta praticar uma arte considerada \u201cf\u00e1cil\u201d por quase todo mundo que n\u00e3o a pratica, n\u00e3o basta que considerem a literatura algo sup\u00e9rfluo \u201ccom tanta gente passando fome\u201d e tampouco basta que vejamos as prateleiras de nossas livrarias ocupadas majoritariamente por uma esp\u00e9cie de subliteratura cagada sobre n\u00f3s pelo sistema hegem\u00f4nico em que estamos inseridos. Nada disso basta, temos de ser, tamb\u00e9m, humilhados em nossos sonhos.<\/p>\n<p>Como dizia o L\u00e9o Jaime, \u201cnem mesmo em meus sonhos eu posso ter voc\u00ea pra mim\u201d. Assim, quando surgem propostas que podem nos lan\u00e7ar, realizar os nossos prec\u00e1rios sonhos, estas propostas s\u00e3o quase sempre venenosas.<\/p>\n<p>O veneno tem v\u00e1rios sabores. H\u00e1 os editores que prometem publica\u00e7\u00e3o mediante a entrega de dinheiro, h\u00e1 os que exigem a entrega da alma e h\u00e1 os que acumulam ambos os males: n\u00e3o s\u00f3 querem a sua alma em uma bandeja, mas tamb\u00e9m querem que voc\u00ea pague pelo privil\u00e9gio de entreg\u00e1-la. Como na velha historinha da Disney, em que o Tio Patinhas cobrava de seus funcion\u00e1rios, todos os meses, uma \u201ctaxa pelo privil\u00e9gio de trabalhar nas Empresas Patinhas\u201d.<\/p>\n<p>Uma das coisas boas de ser um autor amador \u00e9 a liberdade. Para obedecer ordens alheias e seguir o que me mandam eu j\u00e1 tenho um emprego que me paga bem, bastante bem. Eu n\u00e3o exijo muito da literatura, mas fa\u00e7o absoluta quest\u00e3o de que ela n\u00e3o venha me fazendo imposi\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o pago a taxa ao Patinhas.<\/p>\n<p>Entendo que seja perfeitamente aceitavel que o autor, por amor de ser lido, adapte-se aos gostos correntes. Seria idiotice se eu implicasse em escrever como no seculo XVIII \u2015 orthographia, grammatica e syntaxe. Ningu\u00e9m se interessaria por livros assi estranhos. As palavras mudaram, os usos mudaram, os assuntos mudaram. Apegar-se ao que passou \u00e9 negar-se ao que est\u00e1. A literatura nunca \u00e9, ela sempre est\u00e1. Se nos parece permanente, \u00e9 porque as mudan\u00e7as ocorrem t\u00e3o devagar que podem passar despercebidas, como neste paragrapho somente uma dezena de palavras segue o antigo systema de escripta.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma grande diferen\u00e7a entre a necess\u00e1ria adapta\u00e7\u00e3o ao tempo e a rendi\u00e7\u00e3o aos ditames de quem pretende dirigir o tempo.<\/p>\n<p>A literatura, como tudo no Brasil, \u00e9 um jogo de poder.<\/p>\n<p>Quem pode, manda. Quem est\u00e1 disposto a obedecer, n\u00e3o ligar\u00e1 se a ordem for para pintar um bode de amarelo. \u201cPintarei o bode, se me pagam\u201d &mdash; assim diz um bando ansioso que j\u00e1 vem de casa trazendo a broxa e s\u00f3 n\u00e3o traz a tinta tamb\u00e9m porque imagina que o amarelo tem de ser ao gosto de quem manda. Nem importa se o bode que se pintar\u00e1 \u00e9 aquele que j\u00e1 est\u00e1 preso. O sistema quer especificamente esse, e n\u00e3o qualquer outro caprino que paste pelo mundo, desfilando cores suas.<\/p>\n<p>Cobrar para publicar \u00e9, pelo menos, um servi\u00e7o honesto. Grandes autores do passado pagaram para publicar, fazendo a festa das gr\u00e1ficas. Tanto assim que algumas delas at\u00e9 puseram selos nas capas dos livros, para dar-lhes respeitabilidade.<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a quando o servi\u00e7o deixa de ser claro. Obscurece-se para o autor que est\u00e1 publicando porque pagou. Obscurece-se do leitor que est\u00e1 diante de um livro que s\u00f3 foi publicado mediante pagamento. Ilude-se o autor com a ideia de que sua obra foi \u201cselecionada\u201d. Ilude-se o leitor com uma apar\u00eancia de outra coisa que aquele livro n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>O leitor \u00e9 o menos iludido dos dois, porque s\u00e3o raras, de qualquer forma, as editoras cujo selo aposto \u00e0 capa empresta peso ao livro. Na maioria dos casos, uma sigla ou um s\u00edmbolo obscuro s\u00f3 \u00e9 reconhec\u00edvel como o selo da editora porque est\u00e1 no rodap\u00e9 da capa e centralizado.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas maneiras de se disfar\u00e7ar que o neg\u00f3cio \u00e9 meramente um servi\u00e7o de impress\u00e3o de qualquer \u201cAtlanta Nights\u201d.<\/p>\n<p>Algumas editoras imp\u00f5em regras inflex\u00edveis, um formato predeterminado, uma limita\u00e7\u00e3o de p\u00e1ginas, a exig\u00eancia de uma determinada fonte, a imposi\u00e7\u00e3o de um leiaute de capa e miolo. Negam ao autor o direito de opinar sobre a apresenta\u00e7\u00e3o do livro, produto pelo qual ele est\u00e1, afinal, pagando. Isso cria no idiota a ideia de que h\u00e1 um padr\u00e3o no qual ele teve de se encaixar, a ilus\u00e3o de que \u201cganhou\u201d alguma coisa, de que foi realmente \u201cselecionado\u201d. Como a maioria dos autores nunca or\u00e7ou pre\u00e7o em uma gr\u00e1fica&hellip;<\/p>\n<p>Outra maneira \u00e9 o controle criativo do processo. A editora n\u00e3o aceita a obra que o autor submeteu, mas como viu &#8220;potencial&#8221; no autor, disp\u00f5e-se a aceitar outra obra que ele escreva, segundo um roteiro predeterminado. Assim o autor acreditar\u00e1 que foi &#8220;mesmo&#8221; um felizardo.<\/p>\n<p>Ambas as atitudes s\u00e3o catastr\u00f3ficas, mas a segunda \u00e9 pior.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante ruim enganar o autor e faz\u00ea-lo crer que sua obra tem um valor intr\u00ednseco que ela n\u00e3o tem, claro. Principalmente pela cristaliza\u00e7\u00e3o precoce de uma obra que o autor poderia ainda trabalhar e fazer amadurecer. Mas mesmo esse mal \u00e9 pequeno diante do segundo.<\/p>\n<p>Porque esse sistema de controle criativo introduz tr\u00eas monstruosidades:<\/p>\n<ol>\n<li>Fecha at\u00e9 mesmo a porta da autopublica\u00e7\u00e3o para as obras e autores que n\u00e3o se enquadrem no esquema;<\/li>\n<li>Instila no jovem escritor a ideia de que escrever consiste em fazer o que o editor manda;<\/li>\n<li>Concentra o poder de decis\u00e3o nas m\u00e3os de ignorantes.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Deve ser algo revoltante ir ao bordel e a prostituta recusar o programa porque acha o cara feio ou bobo. \u00c9 mais ou menos o que acontece quando voc\u00ea procura uma editora do tipo que publica qualquer coisa e ela recusa sua obra e lhe pede que escreva outra conforme os des\u00edgnios do editor. Felizmente, ainda s\u00e3o raras tanto as prostitutas que escolhem clientes quanto as gr\u00e1ficas-editoras que se metem a dirigir a escrita dos seus.<\/p>\n<p>A rebeldia \u00e9 um componente necess\u00e1rio da arte. O jovem autor, esse \u00c9dipo a vagar pelas estradas em busca de uma Esfinge, tem a necessidade de matar seu \u201cpai\u201d para tornar-se rei. N\u00e3o se pode, desde o in\u00edcio, capar a ousadia dos jovens.<\/p>\n<p>O editor \u00e9, essencialmente, o dono do poder na editora. Quando se trata de uma pessoa culta e dotada de sensibilidade art\u00edstica, esse poder pode ser utilizado para potencializar o talento dos jovens autores. De fato ser\u00e3o muitos os que se dobrar\u00e3o espontaneamente, por rever\u00eancia, diante de um editor que se imponha pela qualidade. Mas se o editor prima pelo exerc\u00edcio do poder, mas n\u00e3o exibe cultura e nem sensibilidade, isso significa que o leme da nau est\u00e1 nas m\u00e3os dos loucos, que os cegos est\u00e3o a guiar outros cegos.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o traz perigo, especialmente em um pa\u00eds como o Brasil, onde o poder econ\u00f4mico raramente est\u00e1 acompanhado de equivalente cultura ou capacidade intelectual para al\u00e9m da esperteza fin\u00f3ria para explorar as gretas do sistema e mamar nas tetas da realidade. O perigo de moldarmos o mundo segundo as regras dos ignorantes.<\/p>\n<p>J\u00e1 temos alguns exemplos disso, como o poder dado a pessoas como Paulo Coelho e Raphael Draccon, autores de obras desconexas e est\u00fapidas. S\u00e3o eles que agora educam os jovens. Uma grande verdade foi dita pelo s\u00e1bio chin\u00eas que declarou que podemos conhecer o mestre por seus disc\u00edpulos. O estado atual da literatura brasileira dep\u00f5e severamente contra os mestres que essa gente seguiu. Por\u00e9m o s\u00e1bio se esquece que tamb\u00e9m podemos julgar os disc\u00edpulos pelos mestres que escolhem. Aquele que se matricula na escola do v\u00edcio n\u00e3o pode ser julgado um amante da virtude \u2015 pelo menos n\u00e3o antes de cair fora e ir pintar outros bodes e seres, quadr\u00fapedes ou b\u00edpedes, de quaisquer cores, em pastos e tetos pelo mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma vez? \u00c9 claro que eu &#8216;t\u00f4 a fim. Parodio Cazuza para dizer que o escritor brasileiro parece n\u00e3o se cansar de ser humilhado. 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