{"id":3288,"date":"2016-12-28T23:18:26","date_gmt":"2016-12-29T02:18:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3288"},"modified":"2017-11-02T14:07:58","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:58","slug":"fetiches-de-tamanho-qualidade-e-exclusividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/12\/fetiches-de-tamanho-qualidade-e-exclusividade\/","title":{"rendered":"Fetiches de Tamanho, Qualidade e Exclusividade"},"content":{"rendered":"<p>Talvez por inseguran\u00e7a, ou por algum tra\u00e7o cultural que eu ainda n\u00e3o mapeei, o brasileiro tem uma necessidade curiosa de enfatizar o tamanho ou a qualidade de tudo o que v\u00ea, especialmente do que possui.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde n\u00e3o se compra manteiga que n\u00e3o seja \u201cde primeira qualidade\u201d, nem arroz tipo 2, nem carne de segunda ou de terceira (eliminou-se a distin\u00e7\u00e3o antiga). Onde qualquer vendinha se chama \u201csupermercado\u201d e um estabelecimento sem filiais se chama \u201cLojas Fulano\u201d. Onde qualquer calhambeque ser\u00e1 chamado pelo dono de \u201cpossante\u201d. O pa\u00eds onde a cerveja deve estar \u201cestupidamente gelada\u201d e todo mundo acha que voc\u00ea est\u00e1 deprimido ou ferrado na vida se n\u00e3o responder a um protocolar \u201ccomo vai\u201d com uma express\u00e3o abaixo de \u201cmuito bem\u201d.<\/p>\n<p>Na l\u00edngua falada isso se transfere a h\u00e1bitos engra\u00e7ados, como a popularidade dos aumentativos. Todo f\u00e3 de futebol acha que seu time \u00e9 algum \u201c\u00e3o\u201d. Os casais de namorados agora abandonaram os diminutivos afetivos de outrora e querem trov\u00f5es. Ai de quem chamar a amada de \u201cgatinha.\u201d Vai parecer piegas e com cheiro de patchuli, algo como os anos sessenta do s\u00e9culo passado, que foi em outro mil\u00eanio. Hoje \u00e9 preciso chamar de \u201cqueridona\u201d, \u201cgatona\u201d, \u201camorz\u00e3o\u201d ou coisas assim.<\/p>\n<p>Falar se transformou numa competi\u00e7\u00e3o para ver quem concebe o que seja maior.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas brasileiro \u00e9 a \u00fanica l\u00edngua do mundo que concebe o duplo aumentativo: \u201cmuito gostos\u00e3o\u201d, \u201camig\u00e3oz\u00e3o\u201d (olha s\u00f3, o corretor ortogr\u00e1fico nem assinalou essa palavra!).<\/p>\n<p>Adjetivos como \u201csuper\u201d, \u201cmega\u201d, \u201ch\u00edper\u201d, \u201cultra\u201d e outros s\u00e3o praticamente obrigat\u00f3rios em qualquer elogio. No pa\u00eds do \u201cbonitinho \u00e9 feio arrumadinho\u201d torna-se necess\u00e1rio elogiar o servi\u00e7o do lanterneiro usando uma linguagem que no passado se usava para puxar o saco de reis e ditadores. \u201cO servi\u00e7o ficou super bem feito, Voc\u00ea \u00e9 um cara megacompetente, Janj\u00e3o.\u201d Janj\u00e3o se sente um ditador de republiqueta.<\/p>\n<p>D\u00e1 at\u00e9 medo de pensar como teremos que adular poss\u00edveis futuros ditadores, j\u00e1 que o suprassumo do puxa-saquismo cl\u00e1ssico n\u00f3s j\u00e1 gastamos para elogiar um feirante que nos vendeu uma d\u00fazia de laranjas azedas.<\/p>\n<p>Com o tempo esse h\u00e1bito leva ao deslumbramento. E o deslumbramento \u00e9 o pai (e tamb\u00e9m a m\u00e3e) do desperd\u00edcio e do atraso. Um conhecido meu, arquiteto e nativo do Rio de Janeiro, um dia me disse que o seu maior espanto profissional na vida foi ver um posto de gasolina com piso em m\u00e1rmore de Carrara. \u201cAquele neg\u00f3cio \u00e9 nojento. M\u00e1rmore \u00e9 poroso, cara. Vai cair gasolina, vai cair \u00f3leo, vai cair barro do pneu da picape que vem abastecer, vai manchar aquele m\u00e1rmore lindo e vai fazer apodrecer por dentro at\u00e9 esfarelar. Mas, fazer o que? O cara era podre de rico e n\u00e3o admitia usar na obra nada que n\u00e3o fosse de primeira qualidade. Qual \u00e9 o piso mais caro do mundo? M\u00e1rmore de Carrara? Ent\u00e3o quero isso.\u201d<\/p>\n<p>Era de se esperar que os escritores pairassem um pouco acima desse p\u00e2ntano de mediocridade laudat\u00f3ria, mas na vida, como na arte (ou ser\u00e1 o contr\u00e1rio), podemos citar o fil\u00f3sofo Falc\u00e3o e dizer que a maior parte das pessoas \u00e9 apenas a grande maioria. O autor, em geral, padece dos mesmos defeitos do povo a que pertence. E aquele que n\u00e3o os ostente ser\u00e1, ele, visto como o desviante, o estranho.<\/p>\n<p>Nossos autores querem chamar vendinha de supermercado. Querem chamar de megaliquida\u00e7\u00e3o quando a lojinha da esquina d\u00e1 10% de desconto nas cal\u00e7as jeans. Querem livros \u201cde alto padr\u00e3o de qualidade\u201d material, antes mesmo de chegarem a isso pelo conte\u00fado.<\/p>\n<p>O autor brasileiro ainda n\u00e3o sabe se est\u00e1 construindo um museu, um pal\u00e1cio, um puteiro ou uma oficina mec\u00e2nica. Seja l\u00e1 o que for que esteja construindo, quer o m\u00e1rmore de Carrara.<\/p>\n<p>Por que digo isso? Porque voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea no Brasil livros de capa mole, revista em papel-jornal. Ainda nos anos oitenta, a minha tia comprou durante uma viagem ao exterior alguns exemplares da revista \u201cTime\u201d. Eles me causaram grande choque porque eu vi que eram impressos em papel-jornal apenas ligeiramente tratado para clarear. Aqui no Brasil as revistas eram feitas em papel m\u00e1rmore (Veja) ou em couch\u00e9 fino (Vis\u00e3o), ou coisa parecida \u2013 ambos muito mais caros.<\/p>\n<p>As editoras ajudam a manter isso, mas elas n\u00e3o s\u00e3o culpadas. Elas est\u00e3o atendendo ao gosto brega e superficial de uma maioria que usa livro para enfeitar estante e vai encarar com preconceito uma edi\u00e7\u00e3o \u201cpobre\u201d. O livro sai mais caro para atender a esse p\u00fablico \u201cexigente\u201d, a tiragem fica menor e o alcance se restringe. Poderiam fazer duas edi\u00e7\u00f5es, mas seria duplo trabalho. Duas tiragens para administrar, dois poss\u00edveis encalhes, a necessidade de dimensionar quantos exemplares de cada. E como lidar com a necessidade do exclusivo?<\/p>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds onde os produtos que alcan\u00e7am as classes mais pobres perdem status, logo s\u00e3o \u201cbarateados\u201d ainda mais e se tornam produtos \u201cde pobre\u201d. As altas classes n\u00e3o querem consumir os mesmos produtos das classes baixas. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no Brasil, classe alta n\u00e3o se refere a uma minoria de esnobes, mas a todo mundo que \u201cacha\u201d que deixou de ser pobre e precisa de status.<\/p>\n<p>Queremos status, pagamos por ele. Pagamos por superlativos que fa\u00e7am nossas vidas med\u00edocres parecerem grandes.<\/p>\n<p>Todo gol do nosso time \u00e9 um gola\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez por inseguran\u00e7a, ou por algum tra\u00e7o cultural que eu ainda n\u00e3o mapeei, o brasileiro tem uma necessidade curiosa de enfatizar o tamanho ou a qualidade de tudo o que v\u00ea, especialmente do que possui. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde n\u00e3o se compra manteiga que n\u00e3o seja \u201cde primeira qualidade\u201d, nem arroz tipo 2, nem carne de segunda ou de terceira (eliminou-se a distin\u00e7\u00e3o antiga). Onde qualquer vendinha se chama \u201csupermercado\u201d e um estabelecimento sem filiais se chama \u201cLojas Fulano\u201d. Onde qualquer calhambeque ser\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[87,105,27,114],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3288"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3288"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5213,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3288\/revisions\/5213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}