{"id":329,"date":"2011-03-01T23:28:00","date_gmt":"2011-03-02T02:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=329"},"modified":"2017-11-02T14:09:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:17","slug":"a-arte-de-ser-ridiculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/03\/a-arte-de-ser-ridiculo\/","title":{"rendered":"A Arte de Ser Rid\u00edculo"},"content":{"rendered":"<p>Aonde quer que v\u00e1, tudo sempre igual: pessoas agindo comicamente e ele, aliviado por n\u00e3o ser bobo como elas, sentindo por dentro a n\u00f3doa de inveja pela felicidade irrespons\u00e1vel que podem ostentar enquanto ele arrasta a solid\u00e3o, apenas ocasional e temporariamente minorada por relacionamentos passageiros.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel, por exemplo, brincar o carnaval. Basta um bloco de sujos para sentir at\u00e9 vontade de rir daquelas fantasias e caretas est\u00fapidas que fazem. O &#8220;Bloco das Piranhas&#8221; n\u00e3o lhe faz apenas vontade de rir: d\u00e1-lhe horror ver aqueles marmanjos vestidos e maquiados como f\u00eameas e dizendo indec\u00eancias. Um amigo dizia-lhe uma vez que &#8220;em nossa cidade s\u00f3 se veste de mulher no Carnaval quem \u00e9 bicha mesmo&#8221;. Uma das grandes vergonhas de sua vida \u00e9 justamente ter sa\u00eddo fantasiado de Batman quando crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Beber \u00e1lcool \u00e9 algo que evita rigorosamente, por medo de ostentar no rosto os risos imbecis que os b\u00eabados deixam escapar. Lhe enjoa pensar em sair pelas ruas como o famoso b\u00eabado municipal, patrim\u00f4nio do submundo local. A decad\u00eancia personificada.<\/p>\n<p>Quando \u00e0 noite na rua, fica sentado no banquinho do bar, bebendo t\u00f4nica com gelo e lim\u00e3o \u2014 sem perceber nisso nada de rid\u00edculo \u2014 e tentando paquerar alguma abst\u00eamia, n\u00e3o-fumante e discreta que aparecesse por l\u00e1. Como nunca aparece, acabava com alguma alco\u00f3latra, fumante e piranha, s\u00f3 por um corpinho bonito e o prazer mais proibido\u2026<\/p>\n<p>A\u00ed, outro calv\u00e1rio. Nada \u00e9pico, \u00e9 claro: apenas a pequena e aut\u00eantica trag\u00e9dia pessoal dessas pessoas sem grandeza e seu leve desespero que as faz sofrerem ridiculamente. Ao lado de seu amor, passa por situa\u00e7\u00f5es que o exp\u00f5em a todos os rid\u00edculos que antes pretendia evitar at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>Se antes achava rid\u00edculo casais beijando-se em p\u00fablico com ardor de endoscopia, tem de aceitar, n\u00e3o sem um pequeno prazer, esta parte do script, exigida pelo ritual humano de acasalamento. Achava mortalmente est\u00fapido uma mulher usar roupa de menos, mesmo no inverno? Agora se v\u00ea quieto ao lado de uma que as usa t\u00e3o min\u00fasculas que parecem trajes de banho ou retalhos de costura.<\/p>\n<p>Um belo dia, depois de sucessivas trag\u00e9dias o fim do amor sempre anunciado \u00e9 real. E l\u00e1 est\u00e1 ele de volta ao bar com a mesma cara e o mesmo ar de toalha-de-mesa. Sozinho com a \u00e1gua t\u00f4nica e refletindo sobre as pe\u00e7as que a vida prega.<\/p>\n<p>Depois de algumas semanas se desintoxica da vida e retorna \u00e0 sua inerme abstin\u00eancia de \u00e1lcool e de sexo. Ent\u00e3o volta a ser de novo a figura estranha que assombra nossas noites. \u00c0s vezes acontece-lhe ver o tal Beto Tom\u00e1s, o &#8220;b\u00eabado municipal&#8221;, a coisa mais parecida com um junkie que se pode encontrar no interior. Como sempre sujo e bem humorado em sua desgra\u00e7a ris\u00edvel e in\u00fatil.<\/p>\n<p>Pergunta &#8220;como vai?&#8221; a todos os rostos conhecidos que encontra e responde, se algu\u00e9m lhe devolve um &#8220;e voc\u00ea?&#8221;: &#8220;entrado em \u00e2nus&#8221;. Nisso d\u00e1 sua gargalhada e todos que est\u00e3o em torno, por um momento, se esquecem da desgra\u00e7a, da doen\u00e7a e da deformidade e riem dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aonde quer que v\u00e1, tudo sempre igual: pessoas agindo comicamente e ele, aliviado por n\u00e3o ser bobo como elas, sentindo por dentro a n\u00f3doa de inveja pela felicidade irrespons\u00e1vel que podem ostentar enquanto ele arrasta a solid\u00e3o, apenas ocasional e temporariamente minorada por relacionamentos passageiros. Imposs\u00edvel, por exemplo, brincar o carnaval. Basta um bloco de sujos para sentir at\u00e9 vontade de rir daquelas fantasias e caretas est\u00fapidas que fazem. 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