{"id":330,"date":"2011-02-27T13:46:00","date_gmt":"2011-02-27T16:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=330"},"modified":"2017-11-02T14:09:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:17","slug":"a-viagem-para-samarcanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/a-viagem-para-samarcanda\/","title":{"rendered":"A Viagem Para Samarcanda"},"content":{"rendered":"<p>O comerciante Ali ben-Amin al-Assad el-Hajj tinha uma vida regalada em Basra. Herdeiro de longa tradi\u00e7\u00e3o de mercadores do Golfo P\u00e9rsico, de fam\u00edlia aparentada \u00e0 de uma das vi\u00favas de Maom\u00e9, desfrutava de fortuna e de prest\u00edgio. Mas nunca cuidou de educar seus filhos nos preceitos do Isl\u00e3 ou nas artes humanas. De sorte que seu \u00fanico filho homem, Ahmed, ao herdar do pai o amplo bazar defronte o porto, foi alvo de um duro coment\u00e1rio do mul\u00e1 Omar Ibrahim al-Qassam: &#8220;\u00e9 um depravado, filho de um ap\u00f3stata e uma infiel, que recebeu dinheiro, mas n\u00e3o sabedoria e ser\u00e1 uma desgra\u00e7a para muitos at\u00e9 que o Ju\u00edzo de Al\u00e1 recaia sobre ele.&#8221;<\/p>\n<p>Ao ouvir esta admoesta\u00e7\u00e3o rigorosa, Ahmed deu de ombros e a ignorou. Era uma \u00e9poca decadente aquela, em que fil\u00f3sofos eram mais ouvidos do que profetas e a submiss\u00e3o aos des\u00edgnios de Al\u00e1 era apenas uma preocupa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. Ele n\u00e3o sofreu recrimina\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, n\u00e3o precisou ocultar seu rosto em vergonha e nem fugir da cidade \u00e0 noite para escapar de um apedrejamento. Tampouco preocupou-se com os pobres, em vez disso at\u00e9 reduziu sua esmola semanal, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por que devo dar meu dinheiro a gente que se re\u00fane na mesquita cada sexta-feira para ouvir aquele barbudo fedorento falar mal de mim e de minha fam\u00edlia? Eles que pe\u00e7am ao mul\u00e1 Omar que lhes d\u00ea de comer e vestir, e n\u00e3o a mim, j\u00e1 que me odeiam tanto.<\/p>\n<p>E desta forma Ahmed continuou tendo suas ceias fartas de t\u00e2maras do I\u00eamen, figos de Chipre, queijos da Sardenha e at\u00e9 mesmo proibidos licores trazidos das terras dos povos do Livro.<\/p>\n<p>Aos poucos trabalhar para ele deixou de ser algo respeit\u00e1vel. Mesmo diante da dificuldade de conseguir outros empregos, pessoas que prezavam a salva\u00e7\u00e3o de suas almas do m\u00e1rmore do inferno passaram a buscar outra coisa que fazer. Os bazares da fam\u00edlia come\u00e7aram a ser servidos por homens de moral duvidosa, seus navios, a ser tripulados por gente de apar\u00eancia estrangeira e passado nebuloso, de quem se dizia, \u00e0 boca pequena, terem sido famosos e cru\u00e9is piratas dos mares do Oriente. N\u00e3o tardou que os lucros declinassem, que navios deixassem de voltar, que mercadorias faltassem. Ao completar seus trinta anos de idade Ahmed ben-Ali al-Assad j\u00e1 n\u00e3o era um homem rico, mas um herdeiro falido que lutava para n\u00e3o ter de desfazer-se de seus pal\u00e1cios de prazeres para pagar os numerosos credores.<\/p>\n<p>Um dia, no auge de seu desespero, uma de suas esposas, que ele fizera vir das distantes estepes da \u00c1sia Central, disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Meu senhor, por que n\u00e3o trazes sedas do Oriente atrav\u00e9s da rota que passa pelo Kush? Os mares da China est\u00e3o infestados de piratas, mas as rotas terrestres est\u00e3o seguras nas m\u00e3os de emires mu\u00e7ulmanos at\u00e9 Samarcanda, minha terra, onde encontrar\u00e1s as mais finas sedas da China e de Cipango.<\/p>\n<p>Ahmed nunca dera ouvidos \u00e0s suas esposas, especialmente n\u00e3o os dera \u00e0quela estrangeira de olhos amendoados que t\u00e3o rapidamente perdera sua beleza ex\u00f3tica e se tornara uma matrona precoce de formas gordas, rosto p\u00e1lido e fei\u00e7\u00f5es ex\u00edguas que pareciam rasgadas a faca. Mas era ineg\u00e1vel que aquela mulher de nome impronunci\u00e1vel lhe dera uma boa ideia.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E onde fica esse lugar, essa tal Samarcanda de que s\u00f3 agora ou\u00e7o falar?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Fica na antiga terra dos Toc\u00e1rios, entre a China e a fria estepe da Sib\u00e9ria, entre o g\u00e9lido G\u00f3bi e as montanhas do Teto do Mundo. Segue a velha Rota da Seda que chegar\u00e1s a Samarcanda e ter\u00e1s diante de ti as melhores mercadorias de tr\u00eas imp\u00e9rios.<\/p>\n<p>A necessidade \u00e9 uma p\u00e9ssima conselheira, mas Ahmed nunca chegou a saber disso. Depois de confabular com alguns de seus amigos mais confi\u00e1veis, nenhum dos quais digno da confian\u00e7a de mais ningu\u00e9m em Basra, decidiu investir suas \u00faltimas economias na viagem sugerida por sua mulher. Como se tratava, realmente, de uma ideia fascinante, conseguiu reunir s\u00f3cios suficientes para montar uma caravana e no ano da H\u00e9jira de 322, uma semana ap\u00f3s o final dos jejuns do Ramad\u00e3, partiu com eles em sua longa busca.<\/p>\n<p>Nenhum dos caravaneiros jamais estivera em Samarcanda. Eram todos loucos como Ahmed, ambiciosos da riqueza f\u00e1cil que fariam ao trazer para Basra lotes e lotes de pura seda. Eram todos gananciosos e imprudentes jovens, alguns viajando com o consentimento de seus pais, na esperan\u00e7a de aprenderem coisas \u00fateis no mundo. Alguns poucos eram de fato pessoas cujas fam\u00edlias obviamente desejavam manter afastadas por alguns anos ou, com um pouco de sorte, definitivamente.<\/p>\n<p>Esperavam, no entanto, conseguir ao longo do caminho guias que os levassem atrav\u00e9s dos desertos chamejantes da P\u00e9rsia, das montanhas trai\u00e7oeiras do Kush, dos altiplanos frios e desolados do Pamir e at\u00e9 mais al\u00e9m. De fato encontraram muitos que se diziam antigos guias da Rota da Seda, gente que dizia ter antepassados b\u00e1ctrios ou sogdianos, gente que jurava ter visto n\u00e3o apenas Samarcanda, mas tamb\u00e9m Timbuctu e al-Andalus. Gente que, mediante uma ra\u00e7\u00e3o de comida e algumas moedas, se dispunha a acompanhar a caravana at\u00e9 o Pamir ou at\u00e9 o T\u00e1rtaro, desde que n\u00e3o permanecessem vagabundos e famintos em sua cidade.<\/p>\n<p>E assim, guiada por incertas opini\u00f5es, seguia a caravana, ocasionalmente em c\u00edrculos, atrav\u00e9s dos complicados caminhos do Oriente. Todas as noites os viajantes se reuniam em torno da fogueira para aquecer-se do intenso frio dos desertos, enregelados e tristes por estarem t\u00e3o longe de casa e sem no\u00e7\u00e3o de chegar a algum destino.<\/p>\n<p>A conversa nessas ocasi\u00f5es girava, invariavelmente, em torno do que fazer quando chegassem. Era preciso economizar todo o dinheiro, para que pudessem adquirir bastante seda quando chegassem a Samarcanda. Era preciso manter a esperan\u00e7a, porque apesar das dificuldades do caminho, em breve l\u00e1 chegariam e banhar-se-iam em suas piscinas de \u00e1gua limpa, teriam suas costas massageadas por jovens de olhos amendoados e quando voltassem, carregados de seda e de especiarias, seriam celebrados nos bazares como homens bem-sucedidos.<\/p>\n<p>Sempre havia algu\u00e9m que expressava desagrado pela demora, que amea\u00e7ava desistir. &#8220;N\u00e3o podes desistir&#8221; \u2014 diziam. &#8220;Se nos deixas morrer\u00e1s de frio ou fome, ou nas m\u00e3os de algum ladr\u00e3o que ronda estas estradas. Quem sabe que feras n\u00e3o haver\u00e1 por estes caminhos?&#8221; Quando chegavam a algum lugar habitado, a tenta\u00e7\u00e3o crescia a ponto de ser necess\u00e1rio organizar-se rondas para impedir deser\u00e7\u00f5es. Tal precau\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se tornar muito necess\u00e1ria desde que um maldito circassiano entrou em del\u00edrio dizendo que os guias eram incompetentes, que estavam todos perdidos. &#8220;Samarcanda n\u00e3o existe, \u00e9 s\u00f3 uma lenda que lhes contaram para faz\u00ea-los sair do conforto de suas casas!&#8221; Infelizes como ele n\u00e3o podiam ser tolerados em um grupo coeso, t\u00eam de ser mesmo sacrificados. Tal foi o destino do circassiano, e suas vestes e suas provis\u00f5es e seu dinheiro, tudo foi distribu\u00eddo entre os demais. Deixar o seu cad\u00e1ver nu para que os le\u00f5es o devorassem foi visto como exagero por alguns, mas naquela ocasi\u00e3o a medida extrema foi aceita como um ato de defesa contra a ins\u00eddia de um inimigo.<\/p>\n<p>E assim, ao longo das estradas esquecidas, seguia a caravana. Apesar da cont\u00ednua insist\u00eancia de todos em afirmar os objetivos da viagem, os guias n\u00e3o puderam evitar certas confus\u00f5es. Esta situa\u00e7\u00e3o foi a mais dif\u00edcil de todas que enfrentaram durante a viagem, pois n\u00e3o apenas divergiam sobre que caminho seguir at\u00e9 Samarcanda, como n\u00e3o sabiam tampouco o que dizer sobre o que l\u00e1 fazer. Por fim, Ahmed, que ainda desfrutava de uma posi\u00e7\u00e3o de relativa lideran\u00e7a, tomou o que todos chamaram de &#8220;uma medida sensata&#8221;, anunciando em voz grave:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Amigos, me parece que os guias j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais t\u00e3o seguros se querem levar-nos a Samarcanda ou se foram corrompidos pelo desejo de continuarem comendo a comida que compramos com nosso dinheiro. Parece que j\u00e1 nos disseram tudo que sabiam, do caminho e da cidade. E agora, ou n\u00e3o sabem mais nada ou n\u00e3o querem mais dizer nada. Por que precisamos, ent\u00e3o, continuar pagando guias in\u00fateis? Sigamos com o que j\u00e1 aprendemos e vamos aprender o resto no caminho.<\/p>\n<p>Os mais exaltados, inclusive alguns que haviam sido punidos por duvidar dos guias, n\u00e3o perderam tempo em aderir \u00e0 proposta ousada de Ahmed. Na manh\u00e3 seguinte, quando a caravana partiu havia mais alguns cad\u00e1veres nus para os le\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Fergana, cidade m\u00edtica a que chegaram depois de dois duros anos perdidos no Teto do Mundo, tiveram oportunidade de ouvir muitas hist\u00f3rias mais sobre as cidades do Oriente, e de contratar outros guias. No entanto, estes n\u00e3o foram t\u00e3o bem-sucedidos quanto os primeiros, visto que suas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas contradiziam tudo que se sabia sobre Samarcanda como ainda desiludiam os viajantes: &#8220;Samarcanda est\u00e1 perto, mas n\u00e3o \u00e9 tudo isso que dizeis. \u00c9 uma cidade importante, mas j\u00e1 n\u00e3o mant\u00e9m boas rela\u00e7\u00f5es com a China e nunca houve l\u00e1 sedas de Cipango.&#8221; Por fim, diziam que a cidade n\u00e3o estaria mais a leste, rumo \u00e0 China e ao deserto de Gobi, mas sim mais o Oeste, al\u00e9m de Chach, quase nos pr\u00f3prios confins da P\u00e9rsia!<\/p>\n<p>Por fim os caravaneiros decidiram partir de Fergana levando apenas o que j\u00e1 sabiam, sem guias, para cruzar a \u00faltima parte da viagem, confiantes de que Samarcanda estaria a poucos dias de caminhada:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0V\u00ea-se pelo ar e pelos rostos das pessoas \u2014 dizia o mercen\u00e1rio s\u00edrio \u2014 que j\u00e1 estamos na Terra da Seda.<\/p>\n<p>Seguiram por v\u00e1rios meses ainda, sem chegar a nenhum lugar que se parecesse com Samarcanda. Aos poucos, o clima ficava mais frio, n\u00e3o apenas porque se aproximava o inverno, mas tamb\u00e9m porque se aproximava o tem\u00edvel deserto de G\u00f3bi, onde a morte punha incont\u00e1veis armadilhas e apenas os mong\u00f3is eram senhores relutantes.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o mantinham mais calend\u00e1rio, j\u00e1 n\u00e3o sabiam que m\u00eas ou esta\u00e7\u00e3o era, l\u00e1 onde o clima era t\u00e3o diferente e parecia n\u00e3o haver um ver\u00e3o de fato. Sabiam apenas pelo ciclo do sol no c\u00e9u que deviam ser passados sete anos desde a partida de Basra, e que \u00e0quela altura j\u00e1 deviam ser dados como mortos por seus parentes e credores.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Se de fato Samarcanda existe \u2014 a contragosto murmurou o s\u00edrio \u2014 deve ser um lugar triste e frio, perdido nessa plan\u00edcie intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>No dia seguinte ficou mais um corpo nu na estrada, mas por l\u00e1 n\u00e3o havia le\u00f5es para devor\u00e1-lo: os nobres tigres n\u00e3o se rebaixam a devorar carca\u00e7as mortas, exigem a iguaria fina da carne quente, do sangue que jorra. E n\u00e3o se intimidam com pequenas fogueiras ou armas de fio estreito. Por uma sorte imensa n\u00e3o atacam em bandos, por uma felicidade extrema um homem \u00e9 manjar suficiente para uma noite.<\/p>\n<p>Somente a ajuda preciosa e cara dos ca\u00e7adores uigures permitiu que os audazes viajantes cruzassem o trecho final, e mais cruel, de sua incr\u00edvel viagem. E provavelmente foi por volta do Ramad\u00e3 do ano 330 da H\u00e9gira que os nove sobreviventes, dos quarenta que haviam partido de Rages na P\u00e9rsia, entraram em um lugar que os taciturnos uigures lhes disseram chamar-se &#8220;Karamay&#8221;, que os viajantes entenderam ser o nome local para Samarcanda.<\/p>\n<p>Era uma cidade, mas que n\u00e3o tinha nada da gl\u00f3ria esperada de um grande entreposto de com\u00e9rcio na Rota da Seda. Estava localizada, de fato, \u00e0 borda desta, mas a bacia da Dzungaria, nome dado pelos uigures ao lugar onde estavam, era desolada e pouco populosa. Raras caravanas passavam, levando poucos produtos. Parecia ser uma \u00e9poca de pouca atividade, de fato. Em Karamay isto significava decad\u00eancia. A cidade parecia muito mais descuidada do que qualquer outra onde tivessem estado. Os habitantes viviam pregui\u00e7osamente \u00e0 espera das esta\u00e7\u00f5es, criando camelos e ovelhas, plantando milhete, r\u00e1banos ou sorgo vermelho.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Esta n\u00e3o pode ser Samarcanda!<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o, perempt\u00f3ria, causou a \u00faltima grande briga dos caravaneiros. Ahmed tentou em v\u00e3o segur\u00e1-los, mas na manh\u00e3 seguinte, al\u00e9m de dois corpos nus numa viela, o amplo c\u00e9u de Al\u00e1 viu seis homens, em dire\u00e7\u00f5es diferentes, enfrentarem os caminhos trai\u00e7oeiros do Tarim e do Taklamakan, para nunca mais se ouvir falar deles.<\/p>\n<p>Em Karamay, tendo gastado suas \u00faltimas moedas, Ahmed ben-Ali al-Assad tornou-se um vagabundo, um esmoler. Sem a caridade do pobre povo, tornou-se um salteador. Sem a complac\u00eancia dos governantes, evoluiu para um condenado. E gra\u00e7as a um lance de sorte, foi vendido como escravo a um comerciante de olhos estreitos que falava em l\u00edngua persa.<\/p>\n<p>Somente depois de deixar para tr\u00e1s as montanhas do Pamir foi que Ahmed ousou contar ao desconhecido quem realmente era. Seu propriet\u00e1rio, com um sorriso am\u00e1vel no rosto, respondeu-lhe:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu j\u00e1 ouvi falar de Ahmed ben-Ali al-Assad, de Basra. Mas tu, tu n\u00e3o podes ser ele. Faz j\u00e1 nove anos que ele deixou sua terra, seus amigos e sua fam\u00edlia, em busca de Samarcanda, onde queria comprar tecidos e ganhar gl\u00f3rias. Desde ent\u00e3o tudo que se soube dele foi que andou com mercen\u00e1rios, piratas, ladr\u00f5es e escroques de toda esp\u00e9cie, aterrorizando as estradas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sabes que isto n\u00e3o \u00e9 verdade, amo. As pessoas costumam culpar os estrangeiros por todo o mal que acontece em sua terra. Eu mesmo juro que nunca matei nem roubei ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era uma mentira, obviamente, pois mesmo n\u00e3o sendo culpado de aterrorizar as estradas do Oriente, Ahmed matara e roubara. N\u00e3o apenas aos habitantes da Transoxiana, da Bactriana e de Fergana, mas tamb\u00e9m aos pr\u00f3prios companheiros de sua malfadada viagem, guiada por est\u00fapidos que nada sabiam.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Na verdade \u2014 disse o homem que falava em persa \u2014 \u00e9 bem apropriado que Ahmed ben-Ali al-Assad esteja morto, pois se fores tal homem e eu o anunciar em Basra, n\u00e3o escapar\u00e1s de ser vergastado cruelmente por seus credores, pelos pais de suas esposas. H\u00e1 circunst\u00e2ncias na vida, estranho, em que melhor \u00e9 ser escravo e estar vivo do que seres quem \u00e9s, ou dizes ser, e pagar com a vida as d\u00edvidas desgra\u00e7adas que n\u00e3o pagaste com honra.<\/p>\n<p>H\u00e1 palavras que amargam na boca quando dizemos, outras que saem sem deixar gosto algum, outras que trazem a do\u00e7ura venenosa do esc\u00e1rnio. Nem sempre o seu som, quando chegadas ao ouvido, traduz a mesma inten\u00e7\u00e3o que a l\u00edngua emprestou-lhes. Estas, ditas pelo homem que falava persa, pareceram extremamente cru\u00e9is a Ahmed ben-Ali al-Assad que as ouviu naquela l\u00edngua docemente fluida. Em outras \u00e9pocas ele n\u00e3o teria se importado, pois n\u00e3o tivera nunca honra alguma. Os nove anos de vagar pelo mundo lhe haviam mudado, por\u00e9m, e a perspectiva de que era imposs\u00edvel retornar ao antigo lar, pelos exatos motivos explicados, abateu demais o seu semblante.<\/p>\n<p>Quando saiu para um canto do acampamento, para ouvir o rosnar dos tigres na noite, como g\u00eanios do mal conspirando nos desertos, ele j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo. Mal sabia ele que h\u00e1 vezes na vida em que palavras duras s\u00e3o usadas como a\u00e7oite porque o carrasco, por amor ou outro tipo de afei\u00e7\u00e3o, prefere vergastar a alma e absolver o corpo.<\/p>\n<p>Quando amanheceu e o triste espet\u00e1culo se revelou, com os raios do sol iluminando atrav\u00e9s do p\u00f3rtico do velho templo id\u00f3latra a sombra pendente ali, desesperou-se o homem que falava persa, a ponto de chorar diante da cena:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Meu pai, por que fizeste tal loucura?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O comerciante Ali ben-Amin al-Assad el-Hajj tinha uma vida regalada em Basra. Herdeiro de longa tradi\u00e7\u00e3o de mercadores do Golfo P\u00e9rsico, de fam\u00edlia aparentada \u00e0 de uma das vi\u00favas de Maom\u00e9, desfrutava de fortuna e de prest\u00edgio. Mas nunca cuidou de educar seus filhos nos preceitos do Isl\u00e3 ou nas artes humanas. De sorte que seu \u00fanico filho homem, Ahmed, ao herdar do pai o amplo bazar defronte o porto, foi alvo de um duro coment\u00e1rio do mul\u00e1 Omar Ibrahim al-Qassam: &#8220;\u00e9 um depravado, filho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[40,24,17,12,71],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=330"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4607,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330\/revisions\/4607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}