{"id":3311,"date":"2017-02-05T21:13:59","date_gmt":"2017-02-06T00:13:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3311"},"modified":"2017-11-02T14:07:58","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:58","slug":"o-mito-da-acessibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/o-mito-da-acessibilidade\/","title":{"rendered":"O Mito da Acessibilidade"},"content":{"rendered":"<p>Uma das maiores pol\u00eamicas em que os jovens autores se envolvem \u00e9 a quest\u00e3o da &#8220;acessibilidade&#8221;, um termo muito mal empregado no contexto da edi\u00e7\u00e3o de livros. Teoricamente, o termo se refere a meios atrav\u00e9s dos quais pessoas deficientes de algum sentido teriam acesso a um lugar ou conte\u00fado. Por causa da acessibilidade existem os livros em braille, para que os cegos possam ler, os livros infantis t\u00eam letras grandes, adequadas \u00e0 faixa et\u00e1ria, foram criados softwares de leitura para permitir que os cegos usem computadores, e as reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas t\u00eam rampas inclinadas ao lado das escadas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no mercado editorial, trata-se de acessibilidade para resolver a defici\u00eancia do leitor. Mas o uso da palavra no mercado editorial tem um sentido oposto ao seu uso na sociedade em geral.<\/p>\n<p>Estamos acostumados \u00e0 ideia de que a acessibilidade \u00e9 um direito que os portadores de alguma defici\u00eancia f\u00edsica t\u00eam, para que possam usufruir de servi\u00e7os p\u00fablicos &#8212; como um \u00f4nibus, um museu ou uma ag\u00eancia banc\u00e1ria. Trata-se de algo imposto pela lei, que nenhuma empresa privada faria por livre e espont\u00e2nea vontade, pois os portadores de defici\u00eancias s\u00e3o uma minoria.<\/p>\n<p>No mercado editorial o termo &#8220;acessibilidade&#8221; n\u00e3o se baseia na imposi\u00e7\u00e3o legal, \u00e0s custas do lucro empresarial, para dar direitos a minorias. Em vez disso, parte da ideia de que a maioria dos leitores s\u00e3o mental ou culturalmente deficientes e, em nome da maximiza\u00e7\u00e3o lucro, almejam atingir pelo m\u00ednimo denominador comum, ao maior p\u00fablico poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Dito desta forma soa um tanto ofensivo, mas na ess\u00eancia \u00e9 mesmo isso o que est\u00e1 por tr\u00e1s da ideia de uma literatura &#8220;acess\u00edvel&#8221;. Porque o termo foi redefinido de uma maneira que n\u00e3o torna poss\u00edvel nenhuma outra interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/img.olx.com.br\/images\/41\/417620002127690.jpg\" width=\"640\" height=\"426\" class=\"alignnone size-medium\" \/><\/p>\n<p>Porque o que normalmente se considera como &#8220;acess\u00edvel&#8221; em literatura \u00e9 justamente aquilo que corresponde \u00e0 pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de mediocridade. Se um autor emprega vocabul\u00e1rio extenso, \u00e9 preciso ser menos arcaico. Se usa muitas met\u00e1foras, isso traz obscuridade. Se o tema \u00e9 incomum, n\u00e3o traz empatia. H\u00e1 alguma pol\u00eamica, isso afasta certos leitores.<\/p>\n<p>Para que o texto se torne acess\u00edvel \u00e9 preciso &#8220;arredond\u00e1-lo&#8221;, amputar dele qualquer coisa que se destaque, boa ou ruim. O vocabul\u00e1rio deve ser limitado, porque o leitor n\u00e3o quer interromper a leitura para procurar o sentido de uma palavra. Se for inevit\u00e1vel introduzir uma palavra incomum, ela deve ser explicada. Qualquer simbologia deve ser destrinchada no equivalente a uma nota de rodap\u00e9, mas inserida no par\u00e1grafo. O tema deve, de prefer\u00eancia, ser algo que o leitor j\u00e1 conhe\u00e7a, as ideias que ele j\u00e1 tem ou conhece.<\/p>\n<p>Sendo imposs\u00edvel que todo leitor seja igual, deve-se perseguir pelo menos a maioria dos leitores. Para onde sopre o vento, para l\u00e1 deve ir o autor. Se muita gente est\u00e1 lendo sobre um tema, mesmo que este seja fezes, haver\u00e1 uma renca de obras explorando o &#8220;fil\u00e3o&#8221;. Todas muito acess\u00edveis. E aquilo que n\u00e3o siga isso, corre o risco de ser tachado de &#8220;cabe\u00e7a&#8221; demais para o p\u00fablico. Em nome da acessibilidade aboliu-se o pret\u00e9rito mais-que-perfeito e logo se abolir\u00e1 o futuro do presente.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que uma das famosas &#8220;Leis de Murphy&#8221; diz que &#8220;se voc\u00ea criar um sistema que at\u00e9 um tolo pode usar, somente os tolos querer\u00e3o usar.&#8221; O corol\u00e1rio disso, a julgar pelo sucesso da literatura dita &#8220;acess\u00edvel&#8221;, \u00e9 que temos no mundo uma maioria de tolos &#8212; ou de pessoas for\u00e7adas a consumir o que os tolos consomem.<\/p>\n<p>A literatura &#8220;acess\u00edvel&#8221; tem um imenso potencial emburrecedor. Houve um tempo em que se recomendava \u00e0s pessoas que lessem, para que adquirissem vocabul\u00e1rio, desenvolvessem a capacidade de express\u00e3o e entrassem em contato com ideias novas. Tudo isso somente era poss\u00edvel porque os livros empregavam vocabul\u00e1rio mais extenso que o da maioria das pessoas, estavam vazados em uma linguagem mais criativa e apresentavam ideias contr\u00e1rias ao senso comum. Se retirarmos da literatura essas qualidades, reduzindo-a \u00e0quilo que \u00e9 &#8220;acess\u00edvel&#8221; ao maior n\u00famero de pessoas, o que teremos ser\u00e1 uma literatura que n\u00e3o mais educar\u00e1.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho a mais remota d\u00favida de que esta seja a inten\u00e7\u00e3o de algumas pessoas que est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o de poder, por\u00e9m estas pessoas n\u00e3o s\u00e3o a maioria. N\u00e3o h\u00e1 no mundo um frigor\u00edfico especializado em abater galinhas de ovos de ouro. \u00c9 inconceb\u00edvel um mercado editorial determinado a destruir o leitor, porque destruir\u00e1 a literatura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o por que a acessibilidade entrou na pauta?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 mais uma entre muitas evid\u00eancias da crise cultural porque passamos. A tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, com seu grande potencial transgressor, bateu como um vendaval em tudo aquilo que se conhecia como cultura at\u00e9 h\u00e1 poucas d\u00e9cadas. O mercado encolheu, as pessoas j\u00e1 n\u00e3o compram tanta revista, nem tanto jornal e nem tanto livro. Mas nunca houve tantas editoras no Brasil, porque o investimento necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de livros se tornou muito menor.<\/p>\n<p>A extrema competi\u00e7\u00e3o produz extremismos estrat\u00e9gicos. H\u00e1 uma imensa necessidade de vender, mesmo que seja papel sujo. Porque com idealismo e sem vendas n\u00e3o se sustenta um neg\u00f3cio. A literatura acess\u00edvel funciona como modelo de neg\u00f3cio porque ela atinge o leitor &#8220;defeituoso&#8221; que antigamente era for\u00e7ado a ler a literatura propriamente dita. Esse leitor antes se aventurava em livros que estavam acima de sua capacidade cultural, \u00e0s vezes at\u00e9 intelectual. Alguns se deslumbravam, aderiam, perseveravam, aprendiam. Outros largavam m\u00e3o dessa tal literatura e iam ganhar a vida. A exist\u00eancia de um p\u00fablico carente de uma literatura que soubesse ler e entender sem esfor\u00e7o era mal reconhecida, e certamente n\u00e3o era problematizada.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil esgrimir contra a literatura acess\u00edvel ou xingar o leitor que consome esse tipo de livro. O rancor dos que desejam fazer uma literatura de qualidade apenas soa rid\u00edculo aos ouvidos de quem n\u00e3o entende sequer a necessidade de haver tal literatura.<\/p>\n<p>Fazer literatura nunca foi f\u00e1cil, especialmente no Brasil. Historicamente a maioria dos livros publicados sempre teve apelo popularesco ou foram edi\u00e7\u00f5es pagas por gente rica e vaidosa que queria brincar de escrever livro &#8212; um passatempo ainda hoje muito popular entre as elites do Brasil, haja vista o livro de poemas do nosso presidente. Quem escrevia obras de qualidade tinha de competir com esse tipo de produto, frequentemente curvando-se \u00e0 necessidade ou explorando o sensacionalismo para atrair curiosos. Quando, eventualmente, como Machado de Assis, atingiam uma posi\u00e7\u00e3o social confort\u00e1vel, libertavam-se dessas amarras e produziam suas obras de &#8220;maturidade&#8221;.<\/p>\n<p>Temos que aceitar que o p\u00fablico da literatura de qualidade \u00e9 hoje menor do que nunca, em termos relativos, mesmo que seja maior em termos absolutos. H\u00e1 muito mais a competir com o livro pela aten\u00e7\u00e3o dos jovens: jogos eletr\u00f4nicos, sexo, esportes, drogas, balada&#8230; V\u00e1rias destas atividades v\u00e3o desviar o jovem definitivamente da literatura, transform\u00e1-lo num cavalo ferrado quando chegar \u00e0 idade adulta, mas uma cavalgadura puro-sangue, de respeito e de linhagem, como certos famosos-quem que confessaram jamais ter lido livros na vida&#8230;<\/p>\n<p>A literatura &#8220;acess\u00edvel&#8221; \u00e9 uma tentativa de chegar at\u00e9 eles. Uma tentativa pat\u00e9tica e que vai falhar a longo prazo, mas as editoras est\u00e3o cagando e andando para isso. Em uma ind\u00fastria decadente, como a do livro impresso, tudo o que importa \u00e9 ainda ter lucro por uns anos abusando do fetichismo do cheirinho de tinta. O fim todos j\u00e1 mais ou menos sabemos. N\u00e3o houve nenhuma &#8220;m\u00e1quina de escrever avan\u00e7ada&#8221; que conseguisse sobreviver ao computador, e nenhuma carruagem de luxo que n\u00e3o ficasse para tr\u00e1s, na poeira do autom\u00f3vel. Assim como em 1988 ainda se falava em m\u00e1quinas de escrever &#8220;eletr\u00f4nicas&#8221; e em 1914 ainda havia quem preferisse carruagens, ainda se fala no futuro do livro e  do mercado editorial tradicional. A literatura &#8220;acess\u00edvel&#8221; \u00e9 a carruagem &#8220;melhorada&#8221;, \u00e9 a Olympia Dismac EX 88.<\/p>\n<p>Quem escreve e pensa a literatura n\u00e3o precisa e n\u00e3o deve se importar com esses \u00faltimos espasmos de um mundo morto que ainda n\u00e3o se enterrou por pura falta de cova. Devemos encontrar outro caminho para a literatura, no qual ela ainda seja relevante e n\u00e3o precise monitorar a \u00faltima moda dos joguinhos de celular para lan\u00e7ar livros ca\u00e7a-n\u00edqueis sobre personagens deles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das maiores pol\u00eamicas em que os jovens autores se envolvem \u00e9 a quest\u00e3o da &#8220;acessibilidade&#8221;, um termo muito mal empregado no contexto da edi\u00e7\u00e3o de livros. Teoricamente, o termo se refere a meios atrav\u00e9s dos quais pessoas deficientes de algum sentido teriam acesso a um lugar ou conte\u00fado. 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