{"id":3314,"date":"2017-02-08T18:46:11","date_gmt":"2017-02-08T21:46:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3314"},"modified":"2017-11-02T14:07:57","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:57","slug":"o-que-se-rouba-e-o-que-se-quebra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/o-que-se-rouba-e-o-que-se-quebra\/","title":{"rendered":"O Que Se Rouba e o Que Se Quebra"},"content":{"rendered":"<p>Recebi uma curiosa mensagem de um amigo: &#8220;at\u00e9 agora nenhuma livraria foi saqueada no Esp\u00edrito Santo.&#8221;<\/p>\n<p>O estado vive um caos de seguran\u00e7a p\u00fablica, a pol\u00edcia desertou das ruas, a sociedade regrediu ao estado de natureza teorizado por Hobbes e todos aqueles ditos em latim se materializaram: <em>bellum omnia omnes<\/em> e <em>homo homini lupus<\/em>. Nessa situa\u00e7\u00e3o de total descontrole vemos pessoas aproveitando para resolver as contas com seus desafetos e gente roubando tr\u00eas tipos principais de bens: eletr\u00f4nicos e eletrodom\u00e9sticos, roupas e cal\u00e7ados, e joias e itens de luxo em geral. Houve tamb\u00e9m saques de outros itens, mas n\u00e3o h\u00e1 uma not\u00edcia que n\u00e3o cite dois ou tr\u00eas destes mencionados, ent\u00e3o, podemos consider\u00e1-los como os principais. Houve tamb\u00e9m depreda\u00e7\u00f5es as mais diversas, principalmente contra o transporte p\u00fablico e supermercados.<\/p>\n<p>Creio que podemos aprender muito sobre uma cultura se analisarmos aquilo que seus membros roubem e aquilo que depredem.<\/p>\n<p>O roubo \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade social, a depreda\u00e7\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o de rebeldia contra o sistema. Podemos comparar o roubo ao linchamento: assim como se deseja matar o bandido por acreditar que o estado n\u00e3o o punir\u00e1 adequadamente, tamb\u00e9m se deseja roubar os bens dispon\u00edveis no com\u00e9rcio que, no entanto, permanecem sonegados \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o devido \u00e0 falta de meios para adquiri-los.<\/p>\n<p>Um e outro, linchamento e saque, decorrem da sensa\u00e7\u00e3o de enfraquecimento do estado, tornando poss\u00edvel a ideia de que a puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o existir\u00e1 nem para os linchadores, nem para os saqueadores.<\/p>\n<p>Para que uma sociedade comece a linchar e a saquear \u00e9 preciso que se generalize a desesperan\u00e7a. No Nordeste, nos anos 1970 e 1980, a combina\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria e seca levou o povo a saquear supermercados para obter comida. N\u00e3o h\u00e1 puni\u00e7\u00e3o poss\u00edvel que demova da inten\u00e7\u00e3o de saque ou roubo aquele que est\u00e1 diante da perspectiva de morrer de fome. A morte r\u00e1pida na m\u00e3o da pol\u00edcia ou de capangas \u00e9 uma consequ\u00eancia branda diante do horror da inani\u00e7\u00e3o, ainda mais quando a desgra\u00e7a se abate sobre a fam\u00edlia. Ao analisar os saques do Nordeste em d\u00e9cadas passadas, aprendemos que ali havia uma cultura de desigualdade e ego\u00edsmo exacerbados, que n\u00e3o tinha vergonha de relegar grande n\u00famero de seus cidad\u00e3os a um tal estado de mis\u00e9ria que o crime restava como esperan\u00e7a.<\/p>\n<div id=\"attachment_3317\" style=\"width: 227px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3317\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/esta-4892375-217x300.jpg\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"300\" class=\"size-medium wp-image-3317\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/esta-4892375-217x300.jpg 217w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/esta-4892375-109x150.jpg 109w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/esta-4892375.jpg 461w\" sizes=\"(max-width: 217px) 100vw, 217px\" \/><p id=\"caption-attachment-3317\" class=\"wp-caption-text\">Jovens capixabas saqueando o com\u00e9rcio, na aus\u00eancia da pol\u00edcia.<\/p><\/div>\n<p>O Brasil dos \u00faltimos anos come\u00e7ou a padecer de desesperan\u00e7a. A crise dos governos trabalhistas de Lula e Dilma desembocou num desencanto t\u00e3o completo que mal se cr\u00ea que a sociedade ainda funcione. Tudo isto adicionado a uma crise de seguran\u00e7a p\u00fablica que j\u00e1 era anterior, e a uma crise de empatia que nunca se resolveu.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 a p\u00e1tria do capitalismo selvagem. Ou melhor, de um capitalismo neol\u00edtico. A propriedade privada, base do capitalismo, n\u00e3o se sustenta pelo estado de direito e pelo imp\u00e9rio da lei, mas pela for\u00e7a bruta e pela aliena\u00e7\u00e3o. A propriedade n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o do estado e nem da coletividade, ela n\u00e3o gera riqueza para a sociedade, n\u00e3o distribui seus frutos. O resultado s\u00e3o massas e massas de gente, indigentes da cultura, que contemplam os produtos que d\u00e3o status, mas n\u00e3o possuem meios para adquiri-los. A ideia, t\u00e3o nossa, de inclus\u00e3o social pelo consumo, de aceita\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria pela assimila\u00e7\u00e3o do <em>look<\/em> e pela aquisi\u00e7\u00e3o do produto que est\u00e1 moda.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, em grande parte, nasce disso. N\u00e3o se rouba para comer, porque a fome j\u00e1 deixou de ser um problema. Em uma sociedade que julga as pessoas pelo que vestem, qual \u00e9 exatamente a quest\u00e3o \u00e9tica em roubar para vestir melhor? A crise moral, anterior e mais profunda que a econ\u00f4mica, deriva da injusti\u00e7a essencial de nossa cultura, que, apesar disso, ironicamente esfrega na cara dos que nunca tiveram reais oportunidades, a ideia marota de uma &#8220;meritocracia&#8221;.<\/p>\n<p>Por causa dessa crise \u00e9tica e por causa da inclus\u00e3o pelo penduricalho, pelo fetiche da marca e pela &#8220;marra&#8221; de &#8220;causar&#8221;. Por causa dessas coisas foi que chegamos ao estado em que possuir se tornou uma necessidade imperiosa a ponto de roubar. Roubar um celular &#8220;da hora&#8221; se equipara com roubar comida. Como dizia uma antiga can\u00e7\u00e3o, &#8220;se o que nos consome fosse apenas fome, cantaria o p\u00e3o.&#8221; O que nos consome j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a fome, \u00e9 a necessidade de sermos aceitos como seres humanos dignos em uma sociedade que nos julga pelo que obtemos, e n\u00e3o por quem somos. Se a sociedade somente valoriza o indiv\u00edduo que tem um &#8220;carr\u00e3o&#8221;, muitos se sentir\u00e3o tentados a obt\u00ea-lo qualquer que seja o custo.<\/p>\n<p>O custo moral \u00e9 o grande freio que deveria impedir o rompimento do contrato social. Mas, em uma sociedade de conchavos, como a nossa; na qual se diz que &#8220;aos amigos tudo, aos inimigos a lei&#8221;; a moralidade se torna um freio fraco para deter a urg\u00eancia que se sente de obter os itens necess\u00e1rios para a aceita\u00e7\u00e3o. Vemos os empres\u00e1rios conhecidos sonegando impostos impunemente; vemos policiais aceitando propinas; vemos pol\u00edticos desviando verbas; vemos um golpe parlamentar em pleno andamento, e com o objetivo de frear investiga\u00e7\u00f5es contra corruptos; vemos as grandes empresas do pa\u00eds envolvidas na lama; vemos a justi\u00e7a sentada aos p\u00e9s dos poderosos e das grandes corpora\u00e7\u00f5es, abanando o rabinho obedientemente em vez de julgar crimes ambientais, desvios de verbas ou helic\u00f3pteros cheios de coca\u00edna; vemos a impunidade dos crimes no dia a dia; vemos nossos sal\u00e1rios serem aviltados e nossas aposentadorias serem esquartejadas em benef\u00edcio dos patr\u00f5es e das seguradoras&#8230; Ent\u00e3o h\u00e1 quem pense que roubar n\u00e3o \u00e9 mais errado. Se n\u00e3o se pune um not\u00f3rio e nacional sujeito a quem n\u00e3o se deve apertar a m\u00e3o por receio de l\u00e1 ir-se o rel\u00f3gio, a ideia que fica \u00e9 a de que ser ladr\u00e3o \u00e9 apenas mais uma maneira, somente um pouco mais controversa, de se obter os bens atrav\u00e9s dos quais legitimaremos nossa humanidade e nossa dignidade diante de uma sociedade que nos ignora enquanto gente e que nos enxerga pelo que levamos a reboque.<\/p>\n<p>Basta, ent\u00e3o que desapare\u00e7a a repress\u00e3o, ou que surja uma brecha. Gente que acredita em Deus come\u00e7a a acreditar que tudo \u00e9 permitido. O crime n\u00e3o \u00e9 por falta de Deus, \u00e9 por pura falta de medo das consequ\u00eancias. A greve da pol\u00edcia escancarou, mas todos sabemos que n\u00e3o se pode distrair com um computador port\u00e1til na rua, que o carro estacionado nunca pode ficar aberto e sem alarme, que andar com dinheiro no bolso \u00e9 um perigo, e que as lojas investem em seguran\u00e7a para se proteger dos consumidores que surrupiariam itens se n\u00e3o fossem vigiados.<\/p>\n<div id=\"attachment_3315\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3315\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/SEGURAN\u00c7A-DE-LOJA-2-300x234.jpg\" alt=\"Seguran\u00e7a de loja em uma cadeira alta, vigiando os fregueses.\" width=\"300\" height=\"234\" class=\"size-medium wp-image-3315\" \/><p id=\"caption-attachment-3315\" class=\"wp-caption-text\">As lojas contratam gente para vigiar o consumidor.<\/p><\/div>\n<p>A mis\u00e9ria moral do Brasil supurou no Esp\u00edrito Santo, mas a inflama\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente e dolorida, antiga e ignorada. N\u00e3o se engane, leitor. Aquele seguran\u00e7a que voc\u00ea v\u00ea dentro da loja n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para impedir um assalto, est\u00e1 l\u00e1 porque os donos da loja acham que todo cliente em potencial \u00e9 um ladr\u00e3o em potencial.<\/p>\n<p>Mas, voltando \u00e0s livrarias.<\/p>\n<p>Como n\u00f3s n\u00e3o ligamos para a cultura e a arte, n\u00e3o se ouviu falar de quem tivesse saqueado livrarias e roubado livros. Por que o fariam? Livros n\u00e3o d\u00e3o status. Celulares e eletrodom\u00e9sticos, sim. O que nos consome n\u00e3o \u00e9 a fome do esp\u00edrito, mas a vontade de ostentar.<\/p>\n<p>Eu queria viver em um pa\u00eds em que as meninas roubassem livros, mas elas roubam cal\u00e7ados, joias e aparelhos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi uma curiosa mensagem de um amigo: &#8220;at\u00e9 agora nenhuma livraria foi saqueada no Esp\u00edrito Santo.&#8221; O estado vive um caos de seguran\u00e7a p\u00fablica, a pol\u00edcia desertou das ruas, a sociedade regrediu ao estado de natureza teorizado por Hobbes e todos aqueles ditos em latim se materializaram: bellum omnia omnes e homo homini lupus. 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