{"id":3335,"date":"2017-02-12T15:46:58","date_gmt":"2017-02-12T18:46:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3335"},"modified":"2017-11-02T14:07:57","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:57","slug":"como-o-lugar-de-fala-pode-matar-a-literatura-como-a-conhecemos-e-porque-isso-pode-ser-bom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/como-o-lugar-de-fala-pode-matar-a-literatura-como-a-conhecemos-e-porque-isso-pode-ser-bom\/","title":{"rendered":"Como o Lugar de Fala Pode Matar a Literatura como a Conhecemos &mdash; e Porque Isso Pode Ser Bom"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 algum tempo uma pesquisadora da UnB fez um <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/03\/16\/cultura\/1395005272_200765.html\">levantamento estat\u00edstico da literatura nacional<\/a> e concluiu que ela \u00e9 o produto do trabalho, principalmente, de homens brancos, de classe m\u00e9dia origin\u00e1rios do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. \u00c0 parte algumas vocifera\u00e7\u00f5es nas redes sociais, esse resultado n\u00e3o foi praticamente discutido por ningu\u00e9m porque \u00e9 uma descoberta que incomoda.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m gosta de ser tachado de racista e ningu\u00e9m \u00e9 racista simplesmente por pertencer a uma classe privilegiada da popula\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m o que se detectou nessa pesquisa \u00e9 um fen\u00f4meno relevante, que n\u00e3o podemos atirar ao vento sem nenhuma reflex\u00e3o. A literatura \u00e9 parte importante do pulso cultural de uma na\u00e7\u00e3o e a sua &#8220;sa\u00fade&#8221; reflete a sa\u00fade da cultura como um todo.<\/p>\n<p>A literatura tem a fama de ser a mais barata das artes, porque qualquer indiv\u00edduo alfabetizado pode produzi-la a partir de um caderno e uma caneta &#8212; mas nada \u00e9 t\u00e3o ilus\u00f3rio quanto esta imagem. A literatura n\u00e3o se produz no ato da escrita, solit\u00e1rio e prec\u00e1rio, mas no da publica\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, existem diversos recortes restritivos que afetam-na. Nem todos no Brasil s\u00e3o alfabetizados, cadernos e canetas, apesar de baratos, ainda t\u00eam um custo, e existe um peso social sobre o ato da escrita, que \u00e9 bem dif\u00edcil de avaliar.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a literatura que realmente se conhece n\u00e3o \u00e9 aquela que se faz, mas um subconjunto dela. Esse subconjunto \u00e9 o que foi analisado pela referida pesquisa, e s\u00e3o esses resultados que vale a pena discutir. Um dos argumentos utilizados pelos detratores da pesquisa \u00e9 que a literatura sempre foi assim, mas o apelo \u00e0 antiguidade \u00e9 uma fal\u00e1cia argumentativa imperdo\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 porque as coisas &#8220;sempre foram assim&#8221; que elas t\u00eam de obrigatoriamente se manterem assim para sempre.<\/p>\n<p>Romper essa barreira que afasta da literatura aquela que \u00e9 a maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira pode ser um passo importante para revitalizar nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e para incrementar a efici\u00eancia de nosso sistema educacional.<\/p>\n<p>\u00c9 inaceit\u00e1vel que a imagem do Brasil para o mundo, criada atrav\u00e9s de nossa literatura, seja t\u00e3o distante da imagem real do pa\u00eds e t\u00e3o pr\u00f3xima da vis\u00e3o preconceituosa que nossas elites t\u00eam de nosso pr\u00f3prio povo. <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/brasil-um-pais-exotico\">Eu mesmo j\u00e1 disse<\/a> em outras oportunidades que o Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses do mundo que produz literatura ex\u00f3tica sobre si mesmo.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa feita pela UnB evidenciam n\u00e3o somente a divis\u00e3o de classes de nossa sociedade, mas tamb\u00e9m a profunda ignor\u00e2ncia de nossos produtores de cultura, dada a baixa preval\u00eancia da ambienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O autor brasileiro tem o p\u00e9ssimo h\u00e1bito de s\u00f3 escrever sobre si.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, cerca de 7 em 10 romances publicados no Brasil entre 1990 e 2004 foram escritos por homens. N\u00e3o \u00e9 surpresa que assim seja, porque grande parte de nossos autores pagam para publicar ou publicam por causa da fama que obt\u00eam previamente como pol\u00edticos, personalidades televisivas, esportistas ou praticantes de outras formas de arte. Em um pa\u00eds ainda fortemente patriarcal, \u00e9 natural que somente o chefe da fam\u00edlia tenha o poder de custear uma aventura liter\u00e1ria ou seja levado a s\u00e9rio nessa empreitada. A mulher tem menos facilidades para pagar sua publica\u00e7\u00e3o porque menos mulheres possuem independ\u00eancia financeira e porque n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o levadas a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>A necessidade de custear a autopublica\u00e7\u00e3o, ou de alternativamente obter o reconhecimento pr\u00e9vio em outro campo para legitimar a edi\u00e7\u00e3o, \u00e9 a causa central de 9 em cada 10 autores das citadas obras serem brancos. Nosso apartheid racial fica expl\u00edcito porque somente os detentores de poder econ\u00f4mico conseguem entrar e prosseguir com sucesso no ramo liter\u00e1rio &#8212; e desses a maioria s\u00e3o brancos porque a elite \u00e9 branca, por mais que esperneiem os negadores do \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Esses autores escrevem sobre a metr\u00f3pole (em geral Rio ou S\u00e3o Paulo) por v\u00e1rios motivos. A pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia do resto do Brasil \u00e9 um deles, visto que a elite brasileira viaja mais \u00e0 Europa ou \u00e0 Am\u00e9rica do Norte do que ao interior do pr\u00f3prio estado em que vive. N\u00e3o querendo escrever sobre outros pa\u00edses, essa elite confunde o Brasil com aqueles poucos quil\u00f4metros quadrados dele que conhecem. Um segundo motivo \u00e9 que a maioria do p\u00fablico consumidor da literatura tamb\u00e9m est\u00e1 no eixo Rio-S\u00e3o Paulo e se interessa mais por N\u00e1rnia do que por Tocantins. Ent\u00e3o, quando os autores v\u00e3o escrever sobre o Brasil, \u00e9 mais f\u00e1cil para eles ambientar sua fic\u00e7\u00e3o na Terra de Marlboro do que a 100 quil\u00f4metros de sua casa no centro de uma das duas metr\u00f3poles nacionais. O p\u00fablico leitor se interessar\u00e1 por uma literatura em que se reconhe\u00e7a ou por uma literatura \u00e0 qual tenha sido condicionado. O brasileiro m\u00e9dio se reconhece na pr\u00f3pria cidade, mas n\u00e3o em outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Um paulista ou carioca encara um nordestino ou um amazonense mais ou menos da mesma forma que um angolano ou um mo\u00e7ambicano.<\/p>\n<p>A crueldade disto \u00e9 que n\u00e3o apenas os autores n\u00e3o escrevem sobre o resto do pa\u00eds como o p\u00fablico tamb\u00e9m n\u00e3o se interessa, o que condena os escritores de todas as demais regi\u00f5es do pa\u00eds a um papel estritamente regional. Um leitor carioca ou paulista dificilmente ler\u00e1 uma obra ambientada no interior de Minas Gerais, quanto menos do Piau\u00ed. E quem me disse isso foi um editor, que simplesmente me recomendou que eu me mudasse para o Rio e passasse a fazer fantasia urbana para emplacar minha literatura, porque, em suas palavras, eu tinha talento, mas enquanto vivesse e escrevesse no interior de Minas eu n\u00e3o teria futuro.<\/p>\n<p>Quase tr\u00eas quartos dos romances narram hist\u00f3rias ambientadas entre o fim da ditadura e as primeiras duas d\u00e9cadas da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Isso reflete a falta de familiaridade do autor brasileiro com a Hist\u00f3ria. Escrever fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica requer pesquisa. Mais que isso, requer conhecimento internalizado, para o produto n\u00e3o ficar artificial. O p\u00fablico tampouco se interessa, porque faz parte de nosso sistema de ensino depreciar o estudo do passado, a fim de que o povo continue ignorante e f\u00e1cil de manipular. O efeito secund\u00e1rio disso \u00e9 a literatura n\u00e3o ter um caminho para trabalhar g\u00eaneros como a fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, nem mesmo transversalmente.<\/p>\n<p>Finalmente, a maior parte dos protagonistas s\u00e3o espectadores da hist\u00f3ria, e n\u00e3o seus art\u00edfices. Jornalistas, artistas pl\u00e1sticos ou  escritores s\u00e3o as profiss\u00f5es mais frequentes de nossos her\u00f3is liter\u00e1rios, refletindo o desprezo secular de nossas elites pelo trabalho manual e a tend\u00eancia oligofr\u00eanica de nossa literatura de falar muito sobre si e pouco sobre o mundo em que est\u00e1 inserida.<\/p>\n<p>Disso resulta uma vis\u00e3o ex\u00f3tica da realidade, que \u00e9 vista como o cen\u00e1rio do protagonista, quase sempre um deslocado, e n\u00e3o como um elemento central da trama. O negro e a mulher aparecem em papeis subalternos porque s\u00e3o mostrados pela \u00f3tica do homem e do branco.<\/p>\n<p>Por isso eu fico razoavelmente animado quando ou\u00e7o falar no debate sobre o &#8220;lugar de fala&#8221; e tenho esperan\u00e7as de que ele v\u00e1 al\u00e9m do falat\u00f3rio vazio e da condena\u00e7\u00e3o daqueles que est\u00e3o fazendo. Eu queria, muito, que essa gente que prop\u00f5e esse conceito botasse a m\u00e3o na massa. H\u00e1 muita hist\u00f3ria boa para ser contada nesse mundo, hist\u00f3rias que n\u00e3o foram vividas por jornalistas brancos do eixo Rio-S\u00e3o Paulo nos \u00faltimos trinta anos. N\u00e3o tenho medo do debate sobre o lugar de fala porque ele \u00e9 bom para mim. Afinal, embora homem e branco, eu n\u00e3o estou no eixo Rio-S\u00e3o Paulo e n\u00e3o estou escrevendo sobre jornalistas deslocados durante a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil. Em pelo menos um ou dois pontos esse debate me beneficia.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, como quase sempre acontece com os &#8220;cagadores de regra&#8221;, h\u00e1 mais censura a quem faz do que proposta de algo novo. Eu estou cansado de ouvir falar mal desse homem branco opressor que navega por nossa realidade como um visitante de outro planeta. Seria bom que come\u00e7assem a me mandar links das hist\u00f3rias escritas por negros e \u00edndios, mulheres e travestis, gente de todos os cantos e ra\u00e7as, vis\u00f5es novas e originais de nosso pa\u00eds e do mundo.<\/p>\n<p>Sim, gente. Eu estou curioso sobre essas obras. Quero saber o que essa gente diferente de mim pensa e escreve. Sei que estas obras n\u00e3o est\u00e3o nas grandes editoras, mas no Wattpad, no Kindle e nos blogs. Se voc\u00ea \u00e9 um defensor do lugar de fala, ent\u00e3o FALE, CARALHO! Sinceramente, eu j\u00e1 estou cheio de hist\u00f3rias iguaizinhas, envolvendo N\u00e1rnia, Nova Iorque e adolescentes excepcionais de cabelos louros. J\u00e1 tenho nojo de jornalistas cariocas explorando favelas, de artistas conceituais enfrentando as ruas. Onde est\u00e3o voc\u00eas, diferentes vozes da literatura nacional? Onde estais, que n\u00e3o respondes?<\/p>\n<p>N\u00e3o me culpem por n\u00e3o ouvir-vos. Eu estou aqui perdido no interior de Minas Gerais, como v\u00e1rios de voc\u00eas se sentem perdidos em um mundo que n\u00e3o vos escuta. Tal como voc\u00eas falam e n\u00e3o s\u00e3o ouvidos, eu tento escutar e quase nunca ou\u00e7o. Seria \u00f3timo se todos n\u00f3s par\u00e1ssemos de brigar uns com os outros e come\u00e7\u00e1ssemos a falar uns dos outros. Quero ler voc\u00ea, resenhar voc\u00ea, recomendar voc\u00ea. Assim como quero que voc\u00ea me leia, me resenhe e me recomende.<\/p>\n<p>N\u00e3o acho certo silenciarmos os que fazem a maioria da literatura nacional, temos \u00e9 que fazer crescer nossa parte do bolo. Isso faremos com trabalho positivo: mostrando, divulgando, conversando, resenhando, SOMANDO. A ideia n\u00e3o \u00e9 derrubar quem t\u00e1 de p\u00e9, mas subirmos uns nos ombros dos outros.<\/p>\n<p>O debate sobre o lugar de fala oferece uma grande oportunidade de mudar o panorama chato da literatura nacional. Mas isso n\u00e3o ser\u00e1 feito com mimimimi nas redes sociais, mas PRODUZINDO e DIVULGANDO obras que n\u00e3o sejam mais do mesmo.<\/p>\n<p>`Bora fazer isso? Ou \u00e9 mais f\u00e1cil fazer text\u00e3o no Facebook?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algum tempo uma pesquisadora da UnB fez um levantamento estat\u00edstico da literatura nacional e concluiu que ela \u00e9 o produto do trabalho, principalmente, de homens brancos, de classe m\u00e9dia origin\u00e1rios do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. \u00c0 parte algumas vocifera\u00e7\u00f5es nas redes sociais, esse resultado n\u00e3o foi praticamente discutido por ningu\u00e9m porque \u00e9 uma descoberta que incomoda. Ningu\u00e9m gosta de ser tachado de racista e ningu\u00e9m \u00e9 racista simplesmente por pertencer a uma classe privilegiada da popula\u00e7\u00e3o. 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