{"id":3354,"date":"2017-02-28T19:41:41","date_gmt":"2017-02-28T22:41:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3354"},"modified":"2017-11-02T14:07:57","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:57","slug":"a-defesa-da-jornada-do-heroi-atraves-de-falacias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/a-defesa-da-jornada-do-heroi-atraves-de-falacias\/","title":{"rendered":"A Defesa da Jornada do Her\u00f3i Atrav\u00e9s de Fal\u00e1cias"},"content":{"rendered":"<p>Fal\u00e1cias s\u00e3o erros l\u00f3gicos em uma argumenta\u00e7\u00e3o. Um argumento bem estruturado e v\u00e1lido precisa basear-se em elementos reais (postulados v\u00e1lidos) e ter uma rela\u00e7\u00e3o clara de causa e efeito entre as premissas (as etapas do argumento) e a conclus\u00e3o final. Quando, mesmo com postulados verdadeiros, a conclus\u00e3o \u00e9 absurda, temos um erro de l\u00f3gica, a fal\u00e1cia.<\/p>\n<p>A grande maioria das pessoas argumenta exclusivamente com base em fal\u00e1cias. \u00c9 o que voc\u00ea ouve nas conversas de bar, nos debates pol\u00edticos da televis\u00e3o, nas conclus\u00f5es a que normalmente as pessoas chegam no dia a dia. O pensamento l\u00f3gico e racional \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o no ser humano. Tanto o \u00e9 que a rea\u00e7\u00e3o normal a uma express\u00e3o l\u00f3gica e racional \u00e9 quase sempre hostil. Diga algo que faz sentido e todos em volta o ver\u00e3o como um &#8220;esquisito&#8221;, se sentir\u00e3o ofendidos pelo seu argumento, ou meramente ficar\u00e3o em sil\u00eancio e se afastar\u00e3o. Pessoas que argumentam racionalmente costumam ficar isoladas. Argumentos racionais costumam ser combatidos com tochas e forcados. Coletivamente, a humanidade s\u00f3 segue o caminho da raz\u00e3o quando, mais do que ser o \u00fanico caminho, \u00e9 o \u00faltimo caminho.<\/p>\n<p>Este artigo, por\u00e9m, parte do pressuposto de que o leitor j\u00e1 saiba alguma coisa dos m\u00e9todos l\u00f3gicos de argumenta\u00e7\u00e3o e que seja capaz de diagnosticar um racioc\u00ednio falacioso \u00e0 primeira vista. Se n\u00e3o for o seu caso, \u00e9 uma boa ideia dar uma olhadela no <a href=\"http:\/\/criticanarede.com\/falacias.html\">Guia de Fal\u00e1cias do Stephen<\/a> antes de come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Mais do que isso, parte do pressuposto de que voc\u00ea j\u00e1 tenha lido sobre a Jornada do Her\u00f3i, e que possivelmente at\u00e9 a adote como seu evangelho. Se n\u00e3o for o seu caso, Deus me perdoe por lhe apresentar ao conceito, mas <a href=\"http:\/\/ficcao.emtopicos.com\/2014\/04\/jornada-do-heroi-historias-pixar\">aqui est\u00e1 um bom texto introdut\u00f3rio<\/a>.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Certamente h\u00e1 motivos para se gostar da Jornada do Her\u00f3i e at\u00e9 mesmo motivos para empreg\u00e1-la \u00e0s vezes, por\u00e9m todo autor deve ter como seu paradigma e objetivo maior superar o arqu\u00e9tipo oferecido pela Jornada, especialmente em sua vers\u00e3o pedestre, popularizada por Hollywood. Motivos n\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, para aferrar-se a esse paradigma como a solu\u00e7\u00e3o final da literatura, como &#8220;um m\u00e9todo para a todos governar&#8221;. A simples ideia de que em qualquer arte exista um m\u00e9todo \u00fanico e definitivo equivale a decretar a morte daquela arte. Se nada mais \u00e9 poss\u00edvel al\u00e9m do j\u00e1 conhecido, ent\u00e3o a arte deixa de ter fun\u00e7\u00e3o e sentido.<\/p>\n<p>Apesar dessa conclus\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvia, s\u00e3o muitos os jovens autores que se embevecem pela Jornada. Por que?<\/p>\n<p>A principal raz\u00e3o me parece ser que a defesa da Jornada do Her\u00f3i \u00e9 feita atrav\u00e9s de racioc\u00ednios que s\u00e3o falaciosos em si mesmos ou que permitem uma interpreta\u00e7\u00e3o falaciosa. Como a grande maioria das pessoas somente analisa a realidade atrav\u00e9s de racioc\u00ednios logicamente inv\u00e1lidos, \u00e9 natural que se identifiquem com um conceito de t\u00e3o f\u00e1cil correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Existem coisas no mundo que s\u00f3 podem ser defendidas de maneira complexa, e necessariamente l\u00f3gica; e por isso s\u00f3 s\u00e3o aceitas e entendidas por uma pequena minoria da popula\u00e7\u00e3o. Outras coisas podem ser assimiladas e defendidas de forma simples, absurda e il\u00f3gica; por isso alcan\u00e7am um n\u00famero maior de pessoas. \u00c9 muito mais f\u00e1cil defender a pena de morte do que a reabilita\u00e7\u00e3o do criminoso, \u00e9 muito mais f\u00e1cil defender uma sociedade de classes do que uma sociedade igualit\u00e1ria. No terreno intelectual, \u00e9 muito mais f\u00e1cil convencer as pessoas de que elas n\u00e3o precisam esfor\u00e7ar-se do que convenc\u00ea-las a agir, \u00e9 mais f\u00e1cil convenc\u00ea-las de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel obter fruto algum atrav\u00e9s do esfor\u00e7o do que explicar os motivos pelos quais elas, individualmente, n\u00e3o colheram fruto nenhum. O mais sedutor dos argumentos, para o ignorante, \u00e9 aquele que defende que o conhecimento n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o da Jornada do Her\u00f3i \u00e0 literatura \u00e9 um desses conceitos simples e f\u00e1ceis, extremamente acess\u00edveis e por isso mesmo t\u00e3o universalmente aceitos. D\u00ea a um jovem autor um trabalho liter\u00e1rio de extraordin\u00e1ria qualidade e desafie-o a competir com ele, isso o intimidar\u00e1. Mas diga-lhe que aquele trabalho foi feito ligando o ponto &#8220;A&#8221; ao ponto &#8220;B&#8221;, depois ao ponto &#8220;C&#8221; &#8212; e assim sucessivamente &#8212; e esse mesmo jovem autor se sentir\u00e1 tentado a recriar um trabalho equivalente. Digo &#8220;recriar&#8221; porque, a partir do momento em que temos o conhecimento do m\u00e9todo pelo qual algo foi feito, nosso primeiro esfor\u00e7o ser\u00e1 sempre a c\u00f3pia, a improvisa\u00e7\u00e3o de melhorias \u00e9 um passo posterior que, para a maioria das pessoas, nunca vir\u00e1.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Todos os argumentos em favor da Jornada do Her\u00f3i que voc\u00ea ler\u00e1 a partir de agora s\u00e3o falaciosos, ou seja, s\u00e3o estritamente inv\u00e1lidos do ponto de vista l\u00f3gico. S\u00e3o absurdos, vergonhosamente o s\u00e3o. No entanto, se voc\u00ea os empregar em um debate em qualquer comunidade de literatura, obter\u00e1 muitos <em>likes<\/em>. De fato, voc\u00ea conseguir\u00e1 at\u00e9 mesmo encontrar refer\u00eancias para se embasar: embora eu n\u00e3o tenha pesquisado especificamente nenhum desses argumentos, \u00e9 quase certo que cada um deles j\u00e1 foi empregado, mais de uma vez, em v\u00e1rios blogs de jovens autores. Ent\u00e3o vamos \u00e0 lista.<\/p>\n<ol>\n<li>Voc\u00ea precisa utilizar a Jornada do Her\u00f3i.<\/li>\n<li>H\u00e1 milhares de anos todas as mais significativas obras da literatura universal seguem um padr\u00e3o.<\/li>\n<li>Este padr\u00e3o foi identificado por um antrop\u00f3logo americano, Joseph Campbell, em uma obra origin\u00e1ria de sua tese de doutorado, chamada &#8220;O Her\u00f3i de Mil Faces&#8221;.<\/li>\n<li>Depois que George Lucas o utilizou para criar o roteiro de &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221;, o roteirista de Hollywood Christopher Vogler adaptou o conceito para uso liter\u00e1rio.<\/li>\n<li>Desde ent\u00e3o, a maioria dos filmes de maior sucesso tem roteiros escritos seguindo esta f\u00f3rmula.<\/li>\n<li>A Jornada do Her\u00f3i funciona porque ressoa nos aspectos mais profundos da psique humana, evocando os arqu\u00e9tipos  mais antigos da humanidade, conforme definidos por C. G. Jung.<\/li>\n<li>Essencialmente, segundo Campbell, todos os mitos seguem um mesmo padr\u00e3o (monomito).<\/li>\n<li>Ent\u00e3o Vogler criou uma vers\u00e3o do monomito para ajudar os roteiristas a criarem melhor suas hist\u00f3rias.<\/li>\n<li>George Lucas estudou a fundo o conceito antes de escrever o roteiro de Guerra nas Estrelas, por isso o filme foi um sucesso t\u00e3o grande.<\/li>\n<li>Hoje em dia, n\u00e3o empregar a Jornada do Her\u00f3i significa excluir-se da literatura moderna e resistir \u00e0 ela pode lhe trazer inimizades no meio liter\u00e1rio.<\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c0 primeira vista, esses argumentos parecem bastante s\u00f3lidos. Eles n\u00e3o s\u00e3o significativamente diferentes daqueles que voc\u00ea encontra na introdu\u00e7\u00e3o de muitas postagens de autores em seus blogs, nos quais defendem com unhas e dentes (uma p\u00e9ssima linha de argumenta\u00e7\u00e3o, diga-se de passagem&#8230;) a sua op\u00e7\u00e3o por seguir o monomito de Campbell.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, todos esses argumentos s\u00e3o irracionais. Eles n\u00e3o se baseiam em conclus\u00f5es l\u00f3gicas, mas em apelos rasteiros aos <em>bugs<\/em> do c\u00e9rebro humano, que tende sempre a encontrar a solu\u00e7\u00e3o mais simples, n\u00e3o necessariamente verdadeira. Demonstremos ent\u00e3o.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Dizer que <em>voc\u00ea<\/em> deve come\u00e7a a usar a Jornada do Her\u00f3i \u00e9 um apelo \u00e0 multid\u00e3o. O ser humano se sente mais confort\u00e1vel na presen\u00e7a de muita gente, sem se perguntar se essa multid\u00e3o est\u00e1 fazendo algo correto. \u00c9 a mesma l\u00f3gica que permite a pessoas de bom car\u00e1ter participarem de saques e linchamentos, que levou o povo alem\u00e3o a apoiar o nazismo. Racionalmente falando, voc\u00ea n\u00e3o precisa seguir o que a multid\u00e3o est\u00e1 fazendo. Como diz a B\u00edblia, mil cair\u00e3o \u00e0 sua direita, dez mil \u00e0 sua esquerda (ou o contr\u00e1rio, n\u00e3o me lembro), mas voc\u00ea n\u00e3o precisa ser atingido. Basicamente o que esse argumento sugere \u00e9 que voc\u00ea deve abandonar aquilo que acha correto e que at\u00e9 ent\u00e3o fazia, passando a seguir aquilo que a multid\u00e3o faz.<\/p>\n<p>O segundo par\u00e1grafo \u00e9 composto. Ele come\u00e7a com um bem evidente argumento pela antiguidade (<em>ad antiquitatem<\/em>), sugerindo-lhe que algo que a humanidade faz h\u00e1 milhares de anos deve estar certo. Se formos reduzir esse argumento \u00e0 sua express\u00e3o mais simples, ele pode ser definido como &#8220;os antigos n\u00e3o erravam&#8221;. Uma pessoa racional rejeita o argumento pela antiguidade quando consegue identific\u00e1-lo porque n\u00f3s sabemos, instintivamente, que nossos pais estavam errados a respeito de muitas coisas e sabemos, pelas aulas de hist\u00f3ria, que a humanidade j\u00e1 cometeu muitos erros no passado. Como podemos acreditar que os antigos n\u00e3o erravam se foram eles que inventaram a guerra, o estupro, o racismo, as mutila\u00e7\u00f5es genitais e outras coisas? O simples fato de algo ser antigo n\u00e3o lhe confere nenhuma validade. O segundo elemento presente nesse par\u00e1grafo \u00e9 o argumento pelo sucesso (<em>ad crumenam<\/em>), contido na sugest\u00e3o de que todas as obras mais significativas da literatura universal seguem a Jornada do Her\u00f3i. A insinua\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 a de que estas obras s\u00e3o significativas porque foram feitas segundo a Jornada do Her\u00f3i. Podemos tamb\u00e9m verificar, no mesmo par\u00e1grafo, um racioc\u00ednio circular (as obras s\u00e3o significativas porque seguem a Jornada do Her\u00f3i? Ou \u00e9 a Jornada do Her\u00f3i que se apresenta significativa por estar presentes nas obras mais significativas?) do tipo confus\u00e3o entre correla\u00e7\u00e3o e causa. O fato de duas coisas coincidirem em um mesmo objeto n\u00e3o quer dizer que uma \u00e9 causa da outra, podendo ambas ser causadas por um terceiro fator. Falaremos mais sobre esta fal\u00e1cia mais adiante.<\/p>\n<p>Em seguida vemos um apelo \u00e0 autoridade. Considerando que n\u00f3s estamos falando de literatura, n\u00e3o de antropologia, seria at\u00e9 poss\u00edvel qualificar de &#8220;apelo a autoridade irrelevante&#8221;, visto que Campbell n\u00e3o era ficcionista, mas n\u00e3o vou ser t\u00e3o agressivo. A quest\u00e3o \u00e9 que uma autoridade n\u00e3o tem o poder de determinar a validade de algo. Na filosofia e nas ci\u00eancias, a autoridade deriva da capacidade de encontrar e difundir a verdade, n\u00e3o o contr\u00e1rio. Embora o trabalho de Campbell seja not\u00e1vel, n\u00e3o podemos evocar seu nome e suas credenciais como defesa da Jornada do Her\u00f3i enquanto t\u00e9cnica liter\u00e1ria porque n\u00e3o \u00e9 a pessoa de Campbell ou suas credenciais acad\u00eamicas que validam o conceito. Um conceito \u00e9 v\u00e1lido por ser verdadeiro, n\u00e3o por ser defendido por algu\u00e9m famoso.<\/p>\n<p>Podemos ver esse uso falacioso da autoridade de uma maneira mais clara no par\u00e1grafo seguinte, quando os nomes de George Lucas e Christopher Vogler s\u00e3o anunciados. Citar nomes n\u00e3o \u00e9 um argumento v\u00e1lido. Por\u00e9m a principal fal\u00e1cia desse par\u00e1grafo \u00e9 o argumento pela venerabilidade (<em>ad verecundiam<\/em>) contido na qualifica\u00e7\u00e3o de Vogler como roteirista em Hollywood e nas subsequentes men\u00e7\u00f5es ao emprego da Jornada do Her\u00f3i pelas produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas americanas. O poder de Hollywood \u00e9 t\u00e3o grande e intimidador que os jovens se sentem obrigados a seguir aquilo que emana de l\u00e1. Desta forma, evocar Hollywood \u00e9 uma forma sutil de apelo ao poder e \u00e0 respeitabilidade dessa ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Chegamos ent\u00e3o a um simples apelo \u00e0 quantidade (<em>ad numerum<\/em>), embora aqui se usem n\u00fameros abstratos (&#8220;a maioria&#8221;) em vez de tang\u00edveis (&#8220;nove de cada dez&#8221;). O apelo \u00e0 quantidade \u00e9 uma forma impessoal do apelo \u00e0 multid\u00e3o (ambos s\u00e3o essencialmente a mesma coisa, s\u00f3 que referentes a pessoas e coisas, respectivamente). Por\u00e9m, a fal\u00e1cia principal aqui \u00e9 novamente o racioc\u00ednio circular: os filmes de maior sucesso fazem sucesso porque usam a Jornada do Her\u00f3i, ou a Jornada do Her\u00f3i entrou em evid\u00eancia por ser usada pela maioria dos filmes de sucesso?<\/p>\n<p>O sexto par\u00e1grafo novamente emprega um argumento pela venerabilidade (<em>ad verecundiam<\/em>), ao citar a influ\u00eancia dos arqu\u00e9tipos profundos da psique humana (mas de que forma exatamente isso funciona?) e o nome de C. G. Jung. Literariamente falando, Jung \u00e9 uma autoridade irrelevante, pois era psic\u00f3logo (na verdade psicanalista) e n\u00e3o um cr\u00edtico liter\u00e1rio ou escritor. Em geral, a cita\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o de um especialista em \u00e1rea diferente da sua especialidade \u00e9 sempre um apelo a autoridade irrelevante.<\/p>\n<p>A afirmativa do par\u00e1grafo s\u00e9timo \u00e9 apenas parcialmente verdadeira, porque n\u00e3o se pode resumir a obra de Campbell ao conceito de que todos os mitos seguem um padr\u00e3o. Nem o pr\u00f3prio Campbell chegou a afirmar isso, mas, sim, que existem padr\u00f5es mitol\u00f3gicos universais. O fato de haver padr\u00f5es universais n\u00e3o quer dizer que todo personagem siga esse padr\u00e3o. Por exemplo, muitos mitos, de diversas culturas, cont\u00eam o elemento do &#8220;animal trapaceiro&#8221; (<em>trickster<\/em>), mas isso n\u00e3o quer dizer que toda hist\u00f3ria envolvendo humanos e animais seja uma hist\u00f3ria de animal trapaceiro. A raposa que surge no &#8220;Pequeno Pr\u00edncipe&#8221; n\u00e3o \u00e9 um trapaceiro, ela \u00e9 um personagem que interage com o her\u00f3i a seu modo (e possivelmente seguindo outro paradigma). O simples fato de ser um animal a interagir com um humano n\u00e3o transforma a raposinha em um <em>trickster<\/em>. Caso voc\u00ea n\u00e3o tenha percebido, a simplifica\u00e7\u00e3o do conceito de monomito atrav\u00e9s da afirmativa deste par\u00e1grafo nos conduz a uma fal\u00e1cia de generaliza\u00e7\u00e3o (tomar a parte pelo todo) apressada.<\/p>\n<p>Uma outra forma de erro grave em argumenta\u00e7\u00f5es consiste em atribuir inten\u00e7\u00f5es a terceiros. Esse tipo de erro ocorre porque n\u00f3s estamos acostumados com ele desde a mais tenra inf\u00e2ncia, pois \u00e9 justamente nisso que consistem as homilias e serm\u00f5es de todas as igrejas crist\u00e3s. Todo padre ou pastor trabalha, necess\u00e1ria e quase exclusivamente, tentando adivinhar a partir do texto b\u00edblico as <em>inten\u00e7\u00f5es<\/em> dos autores e, mais ainda, as de Deus, que inspirou a estes. N\u00f3s n\u00e3o conseguimos achar errado a tentativa de detectar as inten\u00e7\u00f5es de pessoas que nunca conhecemos porque fomos ensinados a aceitar a exegese como algo v\u00e1lido, <em>quia absurdum<\/em>. Ora, por mais que tenhamos lido as obras de um autor, no caso Vogler, nada nos autoriza a dizer quais foram as suas <em>inten\u00e7\u00f5es<\/em> ao escrever seu trabalho. No m\u00e1ximo n\u00f3s podemos conhecer as que ele alegou serem as suas inten\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m h\u00e1 nesse par\u00e1grafo um segundo erro l\u00f3gico: outro racioc\u00ednio circular, o de que as obras produzidas segundo a Jornada do Her\u00f3i, mais particularmente a vers\u00e3o propagada por Vogler, seriam melhores por seguirem a Jornada.<\/p>\n<p>A d\u00e9cima afirmativa retorna a um racioc\u00ednio circular, que tamb\u00e9m pode ser interpretado com uma confus\u00e3o entre posterioridade e consequ\u00eancia (<em>post hoc ergo propter hoc<\/em>). Podemos afirmar com certeza que &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221; foi um sucesso <em>porque<\/em> George Lucas estudou a fundo a Jornada do Her\u00f3i? Em um n\u00edvel acima, podemos dizer que as ocorr\u00eancias <em>intencionais<\/em> da Jornada do Her\u00f3i produzem mais qualidade e mais sucesso do que as ocorr\u00eancias <em>naturais<\/em>?<\/p>\n<p>A \u00faltima argumenta\u00e7\u00e3o de defesa j\u00e1 sai do terreno da mera defesa e parte para a agress\u00e3o sutil. Podemos ver aqui um apelo \u00e0s consequ\u00eancias (<em>ad consequentiam<\/em>) &#8212; n\u00e3o seguir a Jornada \u00e9 excluir-se &#8212; e um apelo ao poder (<em>ad baculum<\/em>) &#8212; os que resistem \u00e0 ideologia da Jornada passam a ser combatidos pelos meios editoriais. Mais do que convencer o jovem a adotar um paradigma, esta afirmativa o est\u00e1 a amea\u00e7ar com o &#8220;porrete&#8221; (b\u00e1culo) do mercado editorial caso ele n\u00e3o se submeta.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Acho importante dizer que neste artigo eu n\u00e3o estou abordando a validade em si do conceito da Jornada do Her\u00f3i, apenas demonstrando de que forma ela consegue um apelo f\u00e1cil junto \u00e0 maioria. A propaganda da Jornada funciona, da mesma maneira como funcionam as prega\u00e7\u00f5es religiosas, os <em>slogans<\/em> pol\u00edticos e as t\u00e9cnicas motivacionais no local de trabalho. Atrav\u00e9s de apelos emocionais aos aspectos irracionais da personalidade humana. O pr\u00f3prio conceito da Jornada do Her\u00f3i, se for v\u00e1lido, <em>funciona exatamente porque apela ao irracional humano<\/em>, est\u00e1 l\u00e1 na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o da Jornada.<\/p>\n<p>Chegados a esta conclus\u00e3o juntos, eu sigo daqui e o leitor que fa\u00e7a dessa constata\u00e7\u00e3o o uso que achar melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fal\u00e1cias s\u00e3o erros l\u00f3gicos em uma argumenta\u00e7\u00e3o. Um argumento bem estruturado e v\u00e1lido precisa basear-se em elementos reais (postulados v\u00e1lidos) e ter uma rela\u00e7\u00e3o clara de causa e efeito entre as premissas (as etapas do argumento) e a conclus\u00e3o final. Quando, mesmo com postulados verdadeiros, a conclus\u00e3o \u00e9 absurda, temos um erro de l\u00f3gica, a fal\u00e1cia. 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