{"id":3359,"date":"2017-03-02T19:30:41","date_gmt":"2017-03-02T22:30:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3359"},"modified":"2017-11-02T14:07:56","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:56","slug":"sue-para-escrever-sua-cota-seja-como-for","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/03\/sue-para-escrever-sua-cota-seja-como-for\/","title":{"rendered":"Sue Para Escrever Sua Cota, Seja Como For"},"content":{"rendered":"<p>Dizer que &#8220;os escritores de hoje enfrentam dilemas diferentes dos de antigamente&#8221; \u00e9 uma platitude. Cada \u00e9poca tem seus desafios, gostemos ou n\u00e3o, mas algumas coisas s\u00e3o mesmo novas, outras s\u00f3 parecem.  Uma das que me espantam \u00e9 que tantos autores de hoje se imponham uma cota di\u00e1ria de palavras, como um infeliz sujeito obrigado pelo m\u00e9dico a pagar flex\u00f5es e puxar ferros para entrar em forma.<\/p>\n<p>A ideia de que o autor precisa escrever com frequ\u00eancia e quantidade n\u00e3o \u00e9 nova, mas a obsess\u00e3o com isso \u00e9.<\/p>\n<p>V\u00e1rios autores do passado mantinham um ritmo de produ\u00e7\u00e3o impressionante at\u00e9 para os padr\u00f5es modernos. Dickens, Machado de Assis, Balzac, Daniel Defoe, Alexandre Dumas, Dostoyevski&#8230; Autores de obras extensas e numerosas. Por\u00e9m nenhum deles escreveu em seus di\u00e1rios sobre a obsess\u00e3o de manter um ritmo regular de escrita. N\u00e3o escreveram sobre isso porque para eles escrever todo dia era t\u00e3o normal como \u00e9 normal para um professor &#8220;dar aulas todos os dias&#8221;.<\/p>\n<p>A primeira verdadeira conclus\u00e3o a que se chega, portanto, \u00e9 que o conselho de escrever todo dia \u00e9 para os amadores e n\u00e3o se aplica aos profissionais: esses j\u00e1 escrever\u00e3o todo dia por for\u00e7a da profiss\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Voc\u00ea deveria escrever todo dia para manter disciplina.<br \/>\n  Voc\u00ea deveria escrever todo dia para adquirir pr\u00e1tica.<br \/>\n  Voc\u00ea deveria escrever todo dia para ser mais produtivo.<br \/>\n  Voc\u00ea deveria escrever todo dia para encontrar ideias.<br \/>\n  Voc\u00ea deveria escrever todo dia porque inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que ningu\u00e9m realmente comenta \u00e9 que esses conselhos s\u00e3o ideol\u00f3gicos e tautol\u00f3gicos e que a ideologia da disciplina cabe mais no ex\u00e9rcito do que num escrit\u00f3rio. A ideia de manter a disciplina, mais do que aterradora, promete transformar a arte em uma obriga\u00e7\u00e3o dolorida, um emprego como outro qualquer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, s\u00f3 vale a pena praticar aquilo que est\u00e1 no rumo certo. Repetir um erro n\u00e3o \u00e9 aprendizado, \u00e9 refor\u00e7ar o tra\u00e7o equivocado. A ideia da repeti\u00e7\u00e3o como aperfei\u00e7oamento \u00e9 falaciosa de diversas maneiras:<\/p>\n<ol>\n<li>Lembra  o apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia: &#8220;me amem porque eu escrevo muito, o que terr\u00edvel \u00e9 a sina do escritor!&#8221;;<\/li>\n<li>Tem rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica com a abordagem perdul\u00e1ria, a ideia de que o problema pode ser resolvido se investirmos cada vez mais dinheiro e recursos nele;<\/li>\n<li>Conecta-se com o apelo ao n\u00famero, a velha ideia de substituir qualidade por quantidade, ou de, pelo menos, achar que a quantidade <em>leva<\/em> \u00e0 qualidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A arte \u00e9 um dos campos de atividade humana onde a repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o ensina muito, porque a &#8220;pr\u00e1tica&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma atividade de repeti\u00e7\u00e3o. Um artista pode praticar de muitas maneiras, escrever todos os dias \u00e9 apenas um esfor\u00e7o f\u00edsico. A ideia de que \u00e9 essencial escrever todos os dias transforma o fazer liter\u00e1rio em um trabalho bra\u00e7al.<\/p>\n<p>Se o volume ensinasse, Cor\u00edn Tellado seria a melhor escritora de todos os tempos, por causa de seus milhares de romances publicados. Mas a produtividade n\u00e3o \u00e9 um fim em si, e Cor\u00edn Tellado segue sendo uma autora de livros horr\u00edveis, como normalmente s\u00e3o os livros escritos pelos que escrevem em profus\u00e3o. \u00c9 melhor produzir um diamante do que quilos de carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Na verdade o que importa \u00e9 que as ideias n\u00e3o est\u00e3o espalhadas sobre a mesa de um escrit\u00f3rio, por mais que estejam dispon\u00edveis na internet. Possivelmente voc\u00ea as encontrar\u00e1 com mais facilidade caminhando pela rua ou pensando na morte da bezerra. Se escrevemos sobre o mundo, o melhor lugar para encontrar ideias \u00e9 claramente no mundo, n\u00e3o no escrit\u00f3rio. O autor que acredita sentar e escrever intencionalmente est\u00e1 vivendo um auto-engano (ao ignorar que esse momento regular de escrita \u00e9 sustentado pelo que faz quando n\u00e3o est\u00e1 escrevendo) ou, muitas vezes, produz obras vazias, que s\u00e3o baseadas em obras que os outros escreveram.<\/p>\n<p>Os antigos autores n\u00e3o precisavam de for\u00e7a de vontade e nem m\u00e9todos para escreverem muito, eles simplesmente escreviam muito porque escrever era o que eles faziam. Hoje, por\u00e9m, como h\u00e1 uma quantidade expressiva de autores que, na verdade, detestam ler e escrever, e que s\u00f3 pensam na literatura como um poss\u00edvel ve\u00edculo de sucesso e fama, \u00e9 natural que surjam &#8220;m\u00e9todos&#8221; para que os autores tenham a &#8220;for\u00e7a de vontade&#8221; para se come\u00e7ar e se obrigarem a continuar escrevendo, tal como uma pessoa que precisa emagrecer deve encontrar m\u00e9todos e for\u00e7as para frequentar uma academia, caminhar todos os dias, etc.<\/p>\n<p>Esse fetiche pela quantidade reflete, de fato, a profunda avers\u00e3o que muitos dos futuros literatos t\u00eam pela literatura. Se realmente amassem escrever e vissem a literatura como uma arte e um prazer haveria mais discuss\u00f5es e mais blogues com mat\u00e9rias do tipo &#8220;olha que livro do caralho eu li hoje&#8221;, &#8220;o que voc\u00eas acham do autor fulano que eu li semana passada&#8221;, etc. Haveria bem menos postagens do tipo &#8220;dicas dos escritores famosos&#8221;, &#8220;como manter ritmo de escrita&#8221;, &#8220;plot whisperer para autores&#8221;, &#8220;m\u00e9todo f\u00e1cil para estruturar uma hist\u00f3ria etc.&#8221;<\/p>\n<p>Porque a obsess\u00e3o pela quantidade leva ao m\u00e9todo. O m\u00e9todo substitui a viv\u00eancia e o prazer. Aquilo que se faz com m\u00e9todo \u00e9 essencialmente algo que se faz sem prazer. A quantifica\u00e7\u00e3o de tudo n\u00e3o \u00e9 resultado, por\u00e9m, dos defeitos dos escritores, mas da mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura no seio do capitalismo.<\/p>\n<p>Tudo mesmo, at\u00e9 o sexo, a arte, at\u00e9 a caganeira. Para tudo existe um produto, um m\u00e9todo, um guru, um sistema e um mercado. A mercantiliza\u00e7\u00e3o inclui a aliena\u00e7\u00e3o dos produtores, que, no caso da literatura, quer dizer a perda da voz autoral. \u00c9 preciso que todos sigam as dicas, que todos mantenham o ritmo, que todos leiam os mesmos autores, os mesmos sites. Porque a mercadoria deve ser igual. Aquela que n\u00e3o seguir o padr\u00e3o ser\u00e1 a defeituosa, menos valiosa. Ent\u00e3o, no fundo, o que voc\u00ea est\u00e1 vendo \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do escritor em um robozinho que somente reproduz os padr\u00f5es e os processos implantados pelo capitalismo. E esse escravo feliz, que s\u00f3 sabe abanar o rabinho quando alguma campainha metaf\u00f3rica \u00e9 soado por um Pavlov invis\u00edvel, se sente um mago no alto da montanha para dizer aos resto dos mortais, &#8220;me critica? ent\u00e3o faz melhor!&#8221; e &#8220;eu vendo e voc\u00ea n\u00e3o&#8221;. Talvez em um futuro n\u00e3o t\u00e3o distante existam para as artes, assim como h\u00e1 para outras atividades produtivas, uma organiza\u00e7\u00e3o a impor padr\u00f5es, ABNT ou ISO.<\/p>\n<p>Tudo isso reflete a viol\u00eancia verbal de um mundo que odeia o diferente e que quer matar a pauladas quem n\u00e3o tenha sido martelado dentro da forma. Como assim? &#8220;Fazer melhor&#8221;? Quem define o melhor? Se for o Deus Mercado, ent\u00e3o \u00e9 claro que nenhuma obra do cr\u00edtico ser\u00e1 melhor que a do criticado, porque o mercado precisa legitimar sua mercadoria. Como na lenda de M\u00e1rsias e Apolo. M\u00e1rsias, o s\u00e1tiro, inventou a flauta e sentiu t\u00e3o bom nela que disse, levianamente, que at\u00e9 Apolo, o deus da m\u00fasica, teria inveja dele. Apolo ent\u00e3o o desafiou para uma disputa (&#8220;me critica? faz melhor&#8221;). M\u00e1rsias aceitou, mas os deuses indicaram para ju\u00edzes as nove musas (filhas de Apolo) e o Rei Minos. Quem voc\u00ea acha que recebeu a maioria dos votos no desafio? Claro que foi Apolo. M\u00e1rsias, por sua coragem de afirmar o pr\u00f3prio talento, foi amarrado a uma \u00e1rvore, esfolado vivo e depois empalado com um galho dela. O Rei Minos, \u00fanico dos ju\u00edzes a votar em M\u00e1rsias, recebeu orelhas de burro.<\/p>\n<p>Toda vez que virem algu\u00e9m dizer &#8220;me critica? faz melhor!&#8221; voc\u00eas estar\u00e3o ouvindo Apolo irado. Preparem a pele e o traseiro.<\/p>\n<p>A outra frase, &#8220;eu vendo e voc\u00ea n\u00e3o&#8221;, \u00e9 a express\u00e3o mais simples do capitalismo. Se algo n\u00e3o \u00e9 vend\u00e1vel, ent\u00e3o n\u00e3o vale nada. Para o capitalismo, a montanha \u00e9 in\u00fatil, \u00fatil \u00e9 a pedra que dela se extrai e deixa um buraco na paisagem. Para o capitalismo, a prostituta tem mais valor que a namorada, pois, afinal, ela &#8220;vende&#8221; e a namorada n\u00e3o. O capitalismo substitui o amor por uma rela\u00e7\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Por que a literatura seria diferente? Por que a arte seria diferente? Se eu vendo, e voc\u00ea n\u00e3o, o que h\u00e1 de mau nisso? Bobo \u00e9 voc\u00ea que ainda n\u00e3o p\u00f4s uma etiqueta de pre\u00e7o em voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p>Desculpem a ira. Estou escrevendo b\u00eabado.<\/p>\n<p>A sinceridade de um b\u00eabado.<\/p>\n<p>Que anseia pelo asteroide.<\/p>\n<p>Porque se n\u00e3o for o amor, ser\u00e1 a bomba o que nos unir\u00e1.<\/p>\n<p>PARA QUE, COM MIL DEM\u00d4NIOS, EU ESTOU PERDENDO MEU TEMPO A ESCREVER?<\/p>\n<p>Se eu acho que s\u00f3 estou recontando as mesmas hist\u00f3rias que outros j\u00e1 contaram antes, ent\u00e3o por que eu n\u00e3o largo o computador e vou cuidar de uma horta? Por que devo me obrigar a uma quota di\u00e1ria de palavras se eu no fundo acredito que eu n\u00e3o tenho nada a dizer?<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i, por exemplo, reflete a mercantiliza\u00e7\u00e3o da literatura. A mercadoria tem que ser adequada \u00e0 m\u00e1xima quantidade de consumidores. Se a Jornada do Her\u00f3i apela \u00e0 maioria, ent\u00e3o o autor de literatura mercantil deve us\u00e1-la. Seu produto (livro) precisa atender ao mercado majorit\u00e1rio. Precisa estar conforme o padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui temos um outro problema: os autores de hoje veem mais filmes do que leem livros. Voltamos ao problema inicial de que em sua maioria os jovens autores detestam ler e s\u00f3 fazem isso se forem obrigados a porrete. Eles nem leem os pr\u00f3prios livros, pagam leitores beta e revisores para isso. Eles n\u00e3o leem os livros dos outros, cobram para l\u00ea-los.<\/p>\n<p>Eles veem mais filmes do que livros, \u00e9 natural que fa\u00e7am de seus livros filmes romanceados.<\/p>\n<p>E se sua experi\u00eancia de cinema est\u00e1 restrita ao enlatado de Hollywood, ent\u00e3o voc\u00ea vai escrever somente coisas nesse sentido.<\/p>\n<p>A ideia de que a literatura est\u00e1 h\u00e1 mil\u00eanios repetindo hist\u00f3rias \u00e9 t\u00edpica de quem leu pouco, ou leu com pouca variedade. N\u00e3o \u00e9 nutritivo comer s\u00f3 macarr\u00e3o, assim como, literariamente, n\u00e3o \u00e9 nutritivo ler s\u00f3 <em>best sellers.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Ah, mas Campbell&#8221;<\/p>\n<p>Mas a Jornada do Her\u00f3i \u00e9 \u00fatil para mercantilizar a literatura.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os que desejam confirmar que a literatura seja realmente repetitiva. Afinal, a repetitividade da literatura \u00e9 um \u00e1libi para a pr\u00f3pria repetitividade. \u00c9 f\u00e1cil e confort\u00e1vel acreditar que n\u00e3o existe criatividade, que tudo se resume a uma f\u00f3rmula milenar que eu estou fadado a repetir. Se eu creio nisso, eu me desobrigo de desafiar os limites, de tentar a novidade, de dizer o que eu penso e sou. Eu me relego e me relaxo no papel de um mero montador e remontador de pe\u00e7as anteriormente escolhidas. \u00c9 um trabalho alienado e sem sentido, mas h\u00e1 quem ganhe dinheiro fazendo isso. E se d\u00e1 dinheiro, ent\u00e3o \u00e9 moral.<\/p>\n<p>E se a literatura se torna apenas um trabalho, a produ\u00e7\u00e3o de uma reles mercadoria, \u00e9 natural que se apliquem a ela as restri\u00e7\u00f5es impostas pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista a todas as atividades humanas. O autor precisa ser massificado, assim como o artes\u00e3o antigo o foi. O livro no futuro tende a ser como as roupas e os sapatos, feitos em tamanhos e estilos predefinidos, fabricados por oper\u00e1rios que n\u00e3o controlam a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na cadeia de produ\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica, nenhum oper\u00e1rio \u00e9 dono do processo. Na cadeia de produ\u00e7\u00e3o da literatura, o autor deve seguir os ditames dos gurus, entre eles a Jornada do Her\u00f3i e os <em>plot whisperers<\/em>, deve submeter seu trabalho a leitores beta, revisores, editores etc. O produto final \u00e9 um sapato liter\u00e1rio, com n\u00fameros de 36 a 46 e seguindo os modelos dados antes.<\/p>\n<p>\u00c9 por esse futuro que voc\u00ea luta toda vez que legitima a Jornada do Her\u00f3i e outros discursos impositivos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que &#8220;os escritores de hoje enfrentam dilemas diferentes dos de antigamente&#8221; \u00e9 uma platitude. 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