{"id":336,"date":"2011-02-19T12:46:00","date_gmt":"2011-02-19T15:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=336"},"modified":"2017-11-02T14:09:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:18","slug":"a-piada-nao-tem-mais-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/a-piada-nao-tem-mais-graca\/","title":{"rendered":"A Piada N\u00e3o Tem Mais Gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 contei para voc\u00eas que sou f\u00e3 dos Smiths. Para mim n\u00e3o existe letrista mais agudo e inteligente do que Morrissey, que \u00e9 simplesmente aquilo que Renato Russo queria ser quando crescesse. Em suas letras \u00e1cidas e amargas ele descasca e devassa as conturbadas rela\u00e7\u00f5es informais de poder que se estabelecem no conv\u00edvio entre os seres humanos. Mas n\u00e3o escrevi esta cr\u00f4nica para louvar os Smiths, apesar de todo meu fasc\u00ednio por versos como &#8220;Se n\u00e3o for amor ser\u00e1 a bomba que vai nos reunir&#8221; e &#8220;Agora entendo como se sentiu Joana d\u2019Arc quando as chamas chegaram ao seu nariz adunco e o seu walkman come\u00e7ou a derreter&#8221;. Escrevi-a para, recorrendo aos versos de Morrissey, deixar marcado meu orkutic\u00eddio.<\/p>\n<p>Que fique bem claro que \u00e9 um &#8220;orkutic\u00eddio&#8221;, n\u00e3o um suic\u00eddio. Estou saindo da vida apenas no metaf\u00f3rico sentido daquele &#8220;mundinho azul&#8221;. Aqui fora, continuarei ganhando cabelos brancos e crescendo barriga enquanto tento continuar escrevendo e criando minhas filhas. Como toda carta que justifica uma morte (neste caso virtual), esta tamb\u00e9m ser\u00e1 longa, e tamb\u00e9m s\u00f3 ser\u00e1 lida pelos &#8220;legistas&#8221; interessados na &#8220;causa mortis&#8221; ou nos segredos s\u00f3rdidos de quem se tornou o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Cometo este ato insano porque <em>that joke isn\u2019t funny any more<\/em>. Houve um tempo em que o Orkut me divertiu. Talvez tenha feito mais do que isso: gra\u00e7as a ele eu obtive meu contrato de publica\u00e7\u00e3o e fiz alguns amigos. Mas n\u00e3o muito mais do que isso. Hoje entendo que este h\u00e1bito me tirou mais do que me deu. Tirou de mim energias que eu deveria ter gastado olhando o c\u00e9u (um azul mais bonito que o plano de fundo do saite), pisando na grama da pra\u00e7a (apesar de algumas bostas de cachorro), caminhando pelas ruas (apesar da fuma\u00e7a dos carros, dos cheios urbanos e do sol \u00e1spero), brincando com a Gabi e com a Duda (e tamb\u00e9m &#8220;brincando&#8221; com a Dani).<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Pare o carro ao lado da estrada, \/ voc\u00ea deve saber \/ que a onda do tempo amaciar\u00e1 voc\u00ea, \/ assim como a mim.&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>Houve uma \u00e9poca em que at\u00e9 o Orkut me inspirava a escrever, mas ultimamente eu tenho sentido cada vez mais que minhas horas passadas frente ao monitor se tornaram momentos &#8220;zumbis&#8221; em minha vida. Cada vez mais, inspira\u00e7\u00e3o me vem quando corro, ando, tomo banho, como, trabalho ou vejo vacas pastando. Olhar os p\u00edxels esvazia o meu c\u00e9rebro. \u00c9 como uma droga e eu j\u00e1 adiei muito isso e agora est\u00e1 na hora de desintoxicar.<\/p>\n<p><big><strong>&#8220;Quando voc\u00ea ri de pessoas \/ que s\u00e3o t\u00e3o sozinhas \/ o \u00fanico desejo delas \u00e9 morrer.&#8221;<\/strong><\/big><\/p>\n<p>Comecei a me &#8220;matar&#8221; quando Sinki me expulsou da Novos Escritores do Brasil. Talvez eu tivesse resolvido continuar &#8220;vivendo&#8221; se alguma das iniciativas que tomei entre julho e setembro tivesse dado certo. A comunidade Textos &#038; Texturas, os concursos da Contos Fant\u00e1sticos, a Revista Textura. Cada uma delas poderia ter sido um entorpecente (ou uma morfina) capaz de me fazer seguir com a farsa. Mas misericordiosamente nenhuma delas continuou.<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Bem, eu acho que \/ essas coisas n\u00e3o me fazem rir, \/ eu bem queria conseguir.&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>Isto levou-me a um afastamento volunt\u00e1rio do Orkut entre setembro e dezembro. Embora tenha sido somente parcial (eu realmente tive v\u00e1rias sequencias de dias sem acessar, mas n\u00e3o consegui atravessar os tr\u00eas meses sem postar), estas f\u00e9rias serviram para me mostrar que eu n\u00e3o precisava do Orkut para ter inspira\u00e7\u00e3o mais. Nesse \u00ednterim descobri outras maneiras de interagir com escritores, fiz algumas amizades, encontrei algumas pessoas, participei de eventos, recebi coment\u00e1rios. Gradualmente me afastei das &#8220;comunidades&#8221; onde convivia e percebi que antes passava horas vivendo vidas irrelevantes e irreais, lutando contra moinhos de vento apenas imagin\u00e1rios, dedicando minhas for\u00e7as a combates que nem ficariam registrados para a posteridade (pois o meio eletr\u00f4nico \u00e9 como a areia da praia).<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Mas essa piada n\u00e3o tem mais gra\u00e7a.&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>O que me levou a um desencanto, que somente foi agravado pelo fato de que minha participa\u00e7\u00e3o no Orkut havia produzido um efeito negativo em minha intera\u00e7\u00e3o. Tornara-me uma &#8220;personalidade&#8221; detestada por minhas opini\u00f5es incisivas, tinha mais desafetos do que admiradores, meus textos atra\u00edam cr\u00edticas mais rigorosas porque as pessoas tinham necessidade de apontar os meus erros enquanto desculpavam os alheios. Claro que eu n\u00e3o me ofendi com isso, pois \u00e9 natural que as pessoas exijam mais de quem acham bom. Mas incomodou-me ver que eu estava sendo sempre, sutilmente, visto como o &#8220;garoto de fora&#8221;, o estranho na turma.<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Estamos muito perto de casa \/ e vai muito fundo, at\u00e9 o osso, \/ mais fundo do que voc\u00ea acha.&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>De fato o era. Minha idade, minha maturidade e minha mentalidade. Tr\u00eas fatores que me separam da maioria dos jovens escritores orkutianos. O senso do rid\u00edculo caiu em mim como uma bomba quando eu, lendo a hist\u00f3ria dos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos, no saite &#8220;Agent Orange&#8221;, li a biografia de Frank Buchman, um dos inspiradores do movimento. Aos 37 anos anos (a idade que hoje tenho) ele tentou se instalar no dormit\u00f3rio dos estudantes em Harvard, a fim de &#8220;ficar mais perto&#8221; daqueles com quem deveria interagir, na qualidade de capel\u00e3o da faculdade. Ele acabou expulso de l\u00e1 pela faculdade, diante dos insistentes protestos dos alunos, que n\u00e3o conseguiam conviver com sua presen\u00e7a. Acabou at\u00e9 sofrendo acusa\u00e7\u00f5es de pederastia por conta disso. Ao ler este epis\u00f3dio burlesco da biografia de algu\u00e9m que n\u00e3o ficou famoso como um cara bacana, eu procurei visualizar em minha mente as cenas de sua vida no dormit\u00f3rio estudantil. De repente o rosto de fuinha de Frank Buchman se metamorfoseou no meu e eu percebi que tinha que sair do dormit\u00f3rio, mesmo que pulando pela janela, porque certamente os rapazes ficavam constrangidos pela minha presen\u00e7a. Meu lugar n\u00e3o era l\u00e1.<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Chute-os quando caem! \/ Por que tamb\u00e9m voc\u00ea \/Tem que chut\u00e1-los quando caem?&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>Torna-se natural a impaci\u00eancia quando voc\u00ea quer ir longe. Quanto mais voc\u00ea aprende, menos prazer tem em revisitar os est\u00e1gios iniciais de sua jornada. Os professores, essas almas abnegadas e t\u00e3o raras, certamente n\u00e3o derivam o seu prazer do conte\u00fado, mas da experi\u00eancia sociol\u00f3gica do ensino. Eu, por\u00e9m, sou viciado em conte\u00fado, eu sinto o vento soprando na estrada do conhecimento e n\u00e3o gosto de voltar atr\u00e1s para buscar quem est\u00e1 correndo atr\u00e1s de mim.<\/p>\n<p>Esse tipo de sensa\u00e7\u00e3o de impaci\u00eancia leva quase certamente \u00e0 viol\u00eancia verbal, algo muito barato quando no Orkut. Na vida real voc\u00ea n\u00e3o discutir\u00e1 Proust com um b\u00eabado no bar, mas no Orkut esses pudores costumam cair, e acabamos perdendo a medida das palavras.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 bonito descobrir que voc\u00ea \u00e9 um dos que chutam os que est\u00e3o ca\u00eddos, especialmente quando os pr\u00f3prios ca\u00eddos mostram os dentes quebrados. N\u00e3o \u00e9 bonito voc\u00ea descobrir que est\u00e1 fazendo hoje o que lhe ofendeu tanto quando fizeram com voc\u00ea no passado. Mas eu n\u00e3o tenho a morbidez de veterano que gosta de humilhar calouro, eu &#8220;passo&#8221; esse papel a quem tenha essa deprava\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou chegar a ser um J. R. Pereira, vou me &#8220;orkuticidar&#8221; antes disso.<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Estava escuro quando dirigi para casa \/ sentado em bancos de couro. \/ Ent\u00e3o, de repente tive a impress\u00e3o \/ de que talvez venha a morrer \/com um sorriso no rosto, enfim.&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>Decidi me &#8220;matar&#8221; virtualmente em janeiro. At\u00e9 pus data para isso na descri\u00e7\u00e3o do meu perfil. Nos primeiros dias as pessoas argumentaram muito comigo, vieram os bombeiros trazendo parentes, amantes, filhos, cobradores e um psic\u00f3logo. Todos chegaram no parapeito dizendo que valia a pena continuar, e eu fui continuando.<\/p>\n<p>Decidi brincar com eles. Sairia do Orkut fazendo uma brincadeira que sempre quisera fazer. Criei um perfil falso, chamado Filipe C. Pinto (uma &#8220;tradu\u00e7\u00e3o&#8221; do nome do genial Philip K. Dick). Usei o perfil para postar <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/pela-eletricidade-por-amor\/\">um conto MEU<\/a> na Contos Fant\u00e1sticos, depois de ter deixado pistas, com dois &#8220;amigos&#8221; virtuais&#8221; de que o conto seria de Stephen King ou de um autor sovi\u00e9tico cujo trabalho teria semelhan\u00e7as com o do King. Eu esperava que ambos &#8220;dessem com a l\u00edngua nos dentes&#8221;, fazendo todos pensarem que o conto era de algu\u00e9m famoso, quando era meu. A patranha seria completa quando eu postasse no concurso seguinte um conto de um autor famoso e fizesse todos pensarem que era meu. Eu j\u00e1 tinha tudo at\u00e9 traduzido. O conto seria &#8220;O Quarto Vermelho&#8221;, de H. G. Wells; uma reconhecida, mas pouco conhecida, obra prima da literatura universal.<\/p>\n<p><strong><big>&#8220;Eu j\u00e1 vi isso acontecer com outras pessoas \/ e agora est\u00e1 acontecendo comigo.&#8221;<\/big><\/strong><\/p>\n<p>Desisti, no entanto, de levar esta farsa at\u00e9 o fim. Teria dado muito trabalho manipular as pessoas em cada vez \u2014 e eu n\u00e3o sou nada bom nisso. Al\u00e9m do mais, por que eu tamb\u00e9m teria que &#8220;chut\u00e1-los ca\u00eddos&#8221;? Se eu tenho impaci\u00eancia com os garotos e com suas obsess\u00f5es, como trat\u00e1-los com tanto desrespeito? Senti-me rid\u00edculo fazendo isso e resolvi parar com essa trollagem gratuita.<\/p>\n<p><big><strong>&#8220;Mas essa piada n\u00e3o tem mais gra\u00e7a.&#8221;<\/strong><\/big><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, amigos, despe\u00e7o-me de todos voc\u00eas a\u00ed do Orkut. Meu perfil ser\u00e1 apagado quando terminar o hor\u00e1rio de ver\u00e3o. Pe\u00e7o desculpas \u00e0 \u00c5sa Heuser, que me confiou a modera\u00e7\u00e3o da Sociedade da Terra Redonda, mas n\u00e3o tenho mais como continuar. O &#8220;orkuticida&#8221; que considere seus compromissos n\u00e3o consegue se &#8220;matar&#8221;. Somente consegue o Ato Extremo quem fecha os olhos, algo egoisticamente, e ignorando as pessoas que deixar\u00e1 na m\u00e3o.<\/p>\n<p>A piada n\u00e3o tem mais gra\u00e7a para mim, \u00e9 s\u00f3 isso que eu quero que voc\u00eas entendam. N\u00e3o me obriguem a continuar no palco s\u00f3 porque voc\u00eas gostaram do show.<\/p>\n<p>Ficar\u00e3o assuntos pendentes, obviamente. Perderei contato com algumas pessoas, pelo menos com aquelas que n\u00e3o est\u00e3o ainda no meu MSN e nem no Facebook. Mas o buraco deixado pelo tempo que eu gastava no Orkut ser\u00e1 fechado com muito trabalho liter\u00e1rio novo: tenho CINCO romances para terminar, minha gente, e estou chegando ao meio-dia da vida. Tenho muito que viver e que escrever.<\/p>\n<p><em><strong><big>Lasciate ogni speranza voi ch\u2019entrate.<\/big><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 contei para voc\u00eas que sou f\u00e3 dos Smiths. Para mim n\u00e3o existe letrista mais agudo e inteligente do que Morrissey, que \u00e9 simplesmente aquilo que Renato Russo queria ser quando crescesse. Em suas letras \u00e1cidas e amargas ele descasca e devassa as conturbadas rela\u00e7\u00f5es informais de poder que se estabelecem no conv\u00edvio entre os seres humanos. Mas n\u00e3o escrevi esta cr\u00f4nica para louvar os Smiths, apesar de todo meu fasc\u00ednio por versos como &#8220;Se n\u00e3o for amor ser\u00e1 a bomba que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[88,89,7],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/336"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=336"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/336\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4603,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/336\/revisions\/4603"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}