{"id":337,"date":"2011-02-18T08:00:00","date_gmt":"2011-02-18T11:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=337"},"modified":"2017-11-26T18:12:37","modified_gmt":"2017-11-26T21:12:37","slug":"a-flor-do-maracuja-analise-iconoclastica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/a-flor-do-maracuja-analise-iconoclastica\/","title":{"rendered":"\u00c0 Flor do Maracuj\u00e1 &#8211; An\u00e1lise Iconocl\u00e1stica"},"content":{"rendered":"<p>Fagundes Varela, not\u00f3rio poeta do romantismo brasileiro, foi um ser humano \u00e0 frente de seu tempo, ousando externar em sua literatura coisas que somente Raul Pompeia voltaria a abordar, quase cinquenta anos depois. No caso espec\u00edfico deste poema, pode-se argumentar uma influ\u00eancia de Rimbaud e Verlaine quanto \u00e0 tem\u00e1tica, ainda que isto n\u00e3o esteja claro.<\/p>\n<p>Segundo Gretovski (1969, p. 21), o poema Flor do Maracuj\u00e1 \u00e9 a primeira obra abertamente homossexual da literatura brasileira. Kuranyi (2000, p. 76) n\u00e3o apenas concorda como interpreta o poema como uma ode ao \u00e2nus, transformado em uma fonte de prazer po\u00e9tico e de imag\u00edstica retroativa e relativa \u00e0 vida imagin\u00e1ria que o poeta sonhava, mas que a sociedade lhe negava, tal como Rimbaud e Verlaine haviam feito no antologizado e muito famoso <em><a href=\"http:\/\/www.substantivoplural.com.br\/soneto-do-olho-do-cu\/\" target=\"_blank\">Sonnet au Cul<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos dois autores depende muito do que disse M\u00e1rio de Andrade (1929, 69) a respeito do poeta fluminense e do que disse M\u00e1rio Filho (1957, 171) sobre o flamengo. Massimo Buraccio e Roberto Occo, dois renomados insemi\u00f3logos intalianos escreveram em &#8220;Transposi\u00e7\u00f5es Voc\u00e1licas&#8221; (1996, 88) que na imag\u00edstica peder\u00e1stica \u00e9 comum haver uma invers\u00e3o da ordem das vogais, de forma a que simbolizem outras sons, especialmente quando uma determinada vogal apresenta uma rima mais homossexualmente rica.<\/p>\n<p>Evocando Rimbaud, eles atribuem um sentido de cor \u00e0s vogais. Apenas que o poeta gaul\u00eas lhes dava valores segundo a m\u00edtica francesa de Joseph Pujol (1909) enquanto Varela inventou uma nomenclatura tipicamente fluminense para as vogais na qual:<\/p>\n<blockquote><p>A significa U, E, significa O, I, significa I mesmo, O, significa E e o U significa A (Buraccio; Occo, 1996 p. 96).<\/p><\/blockquote>\n<p>Desta forma as abundantes rimas em &#8220;\u00e1&#8221;, que escorrem do poema do rio-clarense mais famoso do Brasil passam a ser rimas em &#8220;\u00fa&#8221;:<\/p>\n<blockquote><p>Mas todo mundo sabe \u2014 ou devia saber \u2014 que o &#8220;u&#8221; n\u00e3o recebe acento, mas sim o assento \u00e9 que recebe o &#8220;u&#8221; (Toledo, 1989 p. 24).<\/p><\/blockquote>\n<p>Como o &#8220;u&#8221; no simbolismo representa o azul e o roxo, segue-se que a flor (roxa) do maracuj\u00e1 possui um sentido evocativo &#8220;muito sugestivo&#8221; (Buraccio; Occo, 1996 p. 24).<\/p>\n<p>Pennyman (1996, 666) enxerga no poema uma prefigura\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo homossexual do arco \u00edris. O autor cita Piruzzini (1973, p. 33), que atribuiu a escolha da bandeira gay \u00e0 influ\u00eancia de um desconhecido &#8220;poeta dos tr\u00f3picos&#8221; que os gays de Nova Iorque n\u00e3o quiseram nomear. O autor, ent\u00e3o decodifica do texto de Varela, as sete cores do arco \u00edris, expressas atrav\u00e9s de sete seres citados no texto:<\/p>\n<ul>\n<li>Rosa (vermelho)<\/li>\n<li>Maracuj\u00e1 (laranja)<\/li>\n<li>Cravo (amarelo)<\/li>\n<li>Folhas do gravat\u00e1 (verde)<\/li>\n<li>Fonte de \u00e1gua (azul)<\/li>\n<li>Borboleta do Panam\u00e1 (anil)<\/li>\n<li>Flor do maracuj\u00e1 (roxo)<\/li>\n<\/ul>\n<p>O fato de que as duas cores mais expressivas do movimento gay estejam presentes na flor do maracuj\u00e1, que possui em seu centro dois cetros, ou espadas, foi visto como Lambistti (2002, 29) como um ind\u00edcio ignorado antes.<\/p>\n<p>Desta forma, &#8220;A Flor do Maracuj\u00e1&#8221; pode ser visto como um exemplo cl\u00e1ssico de poesia homossexual em nossa literatura, e assim deve ser reconhecido.<\/p>\n<div style=\"font-style: italic; margin-left: 10%\">\n<p>Apareceu em uma comunidade liter\u00e1ria do Orkut um aluno desses pregui\u00e7osos que est\u00e3o sempre procurando quem lhes fa\u00e7a seus trabalhos escolares (afinal, \u00e9 preciso sobrar tempo para o videogame). O trabalho em quest\u00e3o era uma interpreta\u00e7\u00e3o do poema &#8220;\u00c0 Flor do Maracuj\u00e1&#8221;, de Fagundes Varella, cl\u00e1ssico de nossa literatura rom\u00e2ntica; n\u00e3o exatamente o mais complexo dos poemas da literatura universal, mas certamente num prateleira bastante alta para quem tenha o n\u00edvel de texto exibido pelo aluno em quest\u00e3o que (pasmem!) se dizia estudante universit\u00e1rio. A t\u00edtulo de mera galhofa, postei este texto, com a esperan\u00e7a de que o aluno tivesse, ao menos, capacidade para saber que n\u00e3o deveria utiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 de car\u00e1ter sat\u00edrico e se inspira no hil\u00e1rio &#8220;<a href=\"http:\/\/www.hplovecraft.com\/writings\/fiction\/ibid.aspx\">Ibid<\/a>&#8220;, de H. P. Lovecraft. Obviamente voc\u00ea deve ter sabido agora que havia algo de Lovecraft neste texto, mas se s\u00f3 agora percebe que o texto \u00e9 simplesmente humor\u00edstico-pastel\u00e3o, espero que lhe sobre bom senso para n\u00e3o contar isso a ningu\u00e9m.\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fagundes Varela, not\u00f3rio poeta do romantismo brasileiro, foi um ser humano \u00e0 frente de seu tempo, ousando externar em sua literatura coisas que somente Raul Pompeia voltaria a abordar, quase cinquenta anos depois. No caso espec\u00edfico deste poema, pode-se argumentar uma influ\u00eancia de Rimbaud e Verlaine quanto \u00e0 tem\u00e1tica, ainda que isto n\u00e3o esteja claro. Segundo Gretovski (1969, p. 21), o poema Flor do Maracuj\u00e1 \u00e9 a primeira obra abertamente homossexual da literatura brasileira. 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