{"id":339,"date":"2011-02-12T07:35:00","date_gmt":"2011-02-12T10:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=339"},"modified":"2017-11-02T14:09:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:18","slug":"as-visitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/as-visitas\/","title":{"rendered":"As Visitas"},"content":{"rendered":"<p>Meus olhos percorriam pregui\u00e7osamente a sala, retendo-se em detalhes que eu j\u00e1 conhecia muito bem, apenas para terem o que olhar, porque a minha ansiedade me embara\u00e7ava e as minhas visitas insistiam em n\u00e3o ir embora, ainda que eu n\u00e3o lhes oferecesse nada.<\/p>\n<p>Acredito que sou bom, mas n\u00e3o h\u00e1 crente que resista \u00e0 presen\u00e7a de visitas que querem comover-nos com lembran\u00e7as num momento em que preocupa\u00e7\u00f5es materiais se interp\u00f5em entre os sentimentos e os fatos. Dif\u00edcil suportar perguntas que querem mostrar uma s\u00fabita considera\u00e7\u00e3o, mas apenas bisbilhotam em cantos perdidos do passado que eu j\u00e1 n\u00e3o desejo revolver. Que examinem minha vida, ainda \u00e9 suport\u00e1vel. S\u00f3 n\u00e3o suporto que o fizessem justamente quando se aproximava a hora do t\u00e1xi que me levaria em outra importante viagem comercial.<\/p>\n<p>Eu sou um homem bom, creiam-me! Mas acho que estive tempo demais vivendo sem a companhia de quem se importa comigo. Agora fica dif\u00edcil aceitar pacificamente que se demorem mais de uma hora. Eu quero paz, quero sil\u00eancio, quero me esque\u00e7am e quero meu dinheiro quando chegar o dia vinte.<\/p>\n<p>Era \u00e0quela altura dif\u00edcil esconder meu total desinteresse de qualquer que fosse o motivo da visita. E mesmo assim continuavam sorrindo e pedindo opini\u00f5es sobre os mais inconceb\u00edveis assuntos. Sempre aplaudindo o que eu ruminasse.<\/p>\n<p>Como fazer para desagradar a duas simp\u00e1ticas pessoas que me agridem com o prolongamento de sua presen\u00e7a educada? Disfar\u00e7adamente olhava o rel\u00f3gio da parede. N\u00e3o t\u00e3o disfar\u00e7adamente que n\u00e3o pudesse ser percebido por um esp\u00edrito sutil. Mas isto n\u00e3o surtiu efeito porque parentes n\u00e3o t\u00eam esp\u00edritos sutis.<\/p>\n<p>J\u00e1 era um desespero que me invadia: dois sorrisos sinceros e simp\u00e1ticos me constrangendo a manter-me dentro dos limites da urbanidade. At\u00e9 que subitamente uma buzina l\u00e1 fora rompeu com o formalismo custoso que eu mantinha: tive de ir \u00e0 janela ver do que se tratava, enquanto as visitas permaneceram educadamente conversando em voz baixa.<\/p>\n<p>Depois de me haver certificado que era mesmo o t\u00e1xi, com os meus companheiros de viagem e a corrida paga, n\u00e3o foi mais poss\u00edvel continuar falseando. Voltei para a sala e os mirei, olhos nos olhos.<\/p>\n<p>Sorriam um ao outro ainda sem ainda me verem e suas m\u00e3os estavam entrela\u00e7adas definindo uma certeza simples que eu n\u00e3o previra at\u00e9 ent\u00e3o. Como dizer que deveriam ir? As palavras se agarraram firmemente \u00e0 garganta quando os olhos deles se ergueram, t\u00e3o misericordiosos e compreensivos.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que em sua beatitude n\u00e3o havia mesmo espa\u00e7o para entenderem \u00e0s imperiosas necessidades profissionais, para aceitar minha premente necessidade de sair. Eram olhos de quem n\u00e3o admite desculpas. Possu\u00edam sentimentos de quem nem mesmo admite que tenhamos sentimentos diferentes.<\/p>\n<p>Outra vez a buzina l\u00e1 fora, e acordei. N\u00e3o h\u00e1 como fugir da obriga\u00e7\u00e3o de agir quando est\u00e3o l\u00e1 fora te chamando.<\/p>\n<p>&#8220;Lamentavelmente n\u00e3o vai ser poss\u00edvel continuarmos hoje a conversa. Sei que est\u00e3o com saudades, eu tamb\u00e9m. Mas eu tenho que sair. Tenho uma viagem de neg\u00f3cios e est\u00e3o me esperando justo agora. Por que voc\u00eas n\u00e3o voltam outro dia?&#8221;<\/p>\n<p>Uma certa incredulidade os atingiu enquanto eu falava. Eu me sentia um monstro, mas sabia antes que seria assim.<\/p>\n<p>&#8220;Agora que est\u00e3o juntos de novo e que vivem aqui t\u00e3o perto, eu sei que sempre poderei visitar e juro que vou fazer isso no pr\u00f3ximo feriado, mas temos de deixar para colar o resto dos cacos outro dia; ou eu posso perder outro emprego.&#8221;<\/p>\n<p>Assustei-me com a dureza de minhas palavras. Creia-me, n\u00e3o sou um mau sujeito. Incomodou-me o ar de surpresa que fizeram, como se eu estivesse cometendo algo tremendamente criminoso. Lembrei-me das vezes em que fora v\u00edtima de chantagens emocionais e do quanto me havia custado a perman\u00eancia sob as asas protetoras de mam\u00e3e, antes de criar coragem de enfrentar o mundo. Com que direito se julgavam merecedores de que eu comprometesse minha posi\u00e7\u00e3o e meu emprego para continuar lambendo velhas feridas? Com que direito apareciam subitamente em minha vida anunciando que as velhas brigas que tanto me haviam magoado estavam superadas e que o amor vencera?<\/p>\n<p>Por pura crueldade passou-me pela cabe\u00e7a o pensamento de que o motivo verdadeiro da reconcilia\u00e7\u00e3o tinha sido t\u00e3o-somente o medo de passarem ambos a velhice solit\u00e1ria dos descasados e que aquela reconstru\u00e7\u00e3o de um velho lar era s\u00f3 uma esp\u00e9cie de aposentadoria que ambos se concediam do fogo da que arde dentro de todos n\u00f3s. Talvez uma maneira de atrair solidariedade em um tempo de vacas magras.<\/p>\n<p>Principalmente irou-me o ar de inoc\u00eancia neles. Como se eu j\u00e1 n\u00e3o estivesse vestido para sair quando chegaram, como se meus livros n\u00e3o estivessem cobertos, os m\u00f3veis sob len\u00e7\u00f3is. Como se as panelas n\u00e3o estivessem vazias e os talheres, embrulhados. Como se as malas n\u00e3o estivessem junto \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Por fim mam\u00e3e se desculpou e come\u00e7ou a despedir-se. Claro que cutucando sutilmente minha piedade e dever filial. Por um momento senti-me culpado por estar prestes a partir para uma cidade estranha onde aguardava-me a promo\u00e7\u00e3o que eu esperava havia tantos anos em vez de permanecer em casa juntando os peda\u00e7os de uma vida familiar infeliz. &#8220;N\u00e3o queremos atrapalhar a sua vida, filho.&#8221; disse papai de modo levemente r\u00edspido e decepcionado.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1 cuidar da sua vida. Temos muito tempo para conversa&#8221; \u2014 disse mam\u00e3e com uma n\u00f3doa de tristeza no olhar.<\/p>\n<p>E dirigiram-se \u00e0 porta com uma secura no gesto, com um vagar calculado nos passos. Depois de acompanh\u00e1-los \u00e0 sa\u00edda, voltei para buscar as minhas malas e fui embora da cidade para n\u00e3o voltar por muitos meses.<\/p>\n<p>Semanas depois, j\u00e1 orgulhosamente instalado no posto de chefia que tanto almejara, fui interrompido no trabalho por um telefonema. Um tio distante me comunicava a morte de meus pais num misterioso acidente de carro.<\/p>\n<p>Pousei o fone no gancho sentindo uma \u00e2nsia indefinida crescendo dentro de mim e olhei o horizonte cinzento. &#8220;Nunca mais!&#8221; Que peso h\u00e1 nestas palavras!<\/p>\n<p>S\u00fabito e cruel um pensamento mesquinho brotou dentro de mim: &#8220;Eles me venceram! N\u00e3o h\u00e1 como insistir no \u00f3dio agora&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus olhos percorriam pregui\u00e7osamente a sala, retendo-se em detalhes que eu j\u00e1 conhecia muito bem, apenas para terem o que olhar, porque a minha ansiedade me embara\u00e7ava e as minhas visitas insistiam em n\u00e3o ir embora, ainda que eu n\u00e3o lhes oferecesse nada. Acredito que sou bom, mas n\u00e3o h\u00e1 crente que resista \u00e0 presen\u00e7a de visitas que querem comover-nos com lembran\u00e7as num momento em que preocupa\u00e7\u00f5es materiais se interp\u00f5em entre os sentimentos e os fatos. 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