{"id":346,"date":"2011-01-22T19:00:00","date_gmt":"2011-01-22T22:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=346"},"modified":"2017-08-12T23:29:14","modified_gmt":"2017-08-13T02:29:14","slug":"o-abismo-tambem-te-contempla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/o-abismo-tambem-te-contempla\/","title":{"rendered":"O Abismo Tamb\u00e9m te Contempla"},"content":{"rendered":"<p>Quando Roberto e Teresa foram vistos a sair da cidade para um passeio no campo ningu\u00e9m podia imaginar o que estava por acontecer naquela tarde. Naquele domingo nada de especial parecia estar ocorrendo aos olhos de quem os visse passar no jipe: eram os mesmos sorrisos, a mesma falta de precau\u00e7\u00e3o que \u00e9 t\u00e3o caracter\u00edstica do amor.<\/p>\n<p>>Quando contemplas o abismo, o abismo tamb\u00e9m te contempla. \u2014 Nietzsche.<\/p>\n<p>Iam a um desses lugares calmos onde se pode nadar e permanecer por horas sem ser molestado pela presen\u00e7a de seres humanos. Havia uma piscina natural cercada de areia fina e pedras, pr\u00f3xima a umas colinas ermas de onde n\u00e3o se ouvia nenhum rumor de civiliza\u00e7\u00e3o e podiam ficar \u00e0 vontade. L\u00e1 chegaram pelas duas ou tr\u00eas da tarde. Deixaram as roupas sob uma \u00e1rvore e foram nadar. Ela despiu-se porque fez quest\u00e3o de, naquele momento, estar nua. Roberto nunca entendia estas insist\u00eancias que lhe ocorriam. Para ele tanto fazia uma coisa ou outra, n\u00e3o entendia a magia da nudez. Nenhum prazer ele sentia nisso.<\/p>\n<p>Ela saiu sorridente da \u00e1gua fria e estendeu uma toalha sobre um trecho de gramado e deitou-se. Tudo parecia estar t\u00e3o bem. Mas n\u00e3o aos olhos de Roberto.<\/p>\n<p>Ele foi at\u00e9 o jipe, tomou o embrulho de papel pardo que estava sob o banco do motorista e aproximou-se a passos curtos e leves. Estava pronto, ou assim pensava. Num gesto muitas vezes ensaiado rasgou o envelope com fant\u00e1stica rapidez e segurou o rev\u00f3lver com firmeza.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Teresa estava entorpecida pelo calor gostoso do sol e deixava que seus raios dourassem sua pele. Nada percebera. Roberto ent\u00e3o aproximou-se, saltou sobre ela, segurou sua boca com a m\u00e3o esquerda e encostou o cano do rev\u00f3lver sobre o mamilo esquerdo, um pouco para dentro do peito. Disse friamente: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o vai me estragar a vida, sua piranha. E nem esse bastardo que voc\u00ea carrega no bucho e n\u00e3o \u00e9 meu&#8221;.<\/p>\n<p>P\u00f4r um momento os cavalos ergueram suas cabe\u00e7as sobressaltados, quando um grito tentava rasgar a tarde. Mas depois voltaram a pastar na mesma tranq\u00fcilidade de antes. A cidade n\u00e3o ouviu e o rio continuou a correr discretamente.<\/p>\n<p>Roberto olhou as m\u00e3os, surpreso com o seu ato, mas faltou a coragem de punir-se. Olhou em torno e n\u00e3o havia mesmo testemunhas, a n\u00e3o ser os p\u00e1ssaros. Cerrou os olhos e saboreou de novo a intensidade de haver matado, n\u00e3o lhe sobreveio nenhum sabor especial. O sol brilhava igual, o mesmo vento sacudia as folhas, nenhum sil\u00eancio novo amaldi\u00e7oava o ar e nenhuma atmosfera diferente envolvia a paisagem.<\/p>\n<p>Saciado nesta certeza, abriu de novo a sua perspectiva em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade e viu apenas o que viu. Apesar do estrondo da arma de fogo ningu\u00e9m viera acudir e o eco tivera tempo de estender-se ininterrupto at\u00e9 morrer de repetir-se.<\/p>\n<p>Agora estava incrivelmente s\u00f3, mas o arrependimento n\u00e3o vinha. Teresa jazia a seus p\u00e9s, uma flor vermelha amanhecia em seu peito e o vento n\u00e3o desistira de agir em seus cabelos. Soltou a arma, depois apanhou de volta, racionalizado: n\u00e3o poderia deix\u00e1-la onde poderiam encontrar.<\/p>\n<p>Assim iniciou-se o trabalhoso processo de oculta\u00e7\u00e3o de toda prova que lhe fosse poss\u00edvel identificar. Embrulhou o corpo na toalha, nu mesmo, e ocultou-o entre duas pedras, sob uma \u00e1rvore, dentro da corrente do rio. Era ver\u00e3o e muitas chuvas fortes costumavam ocorrer ao anoitecer. A pr\u00f3xima provavelmente a levaria \u00e1gua abaixo.<\/p>\n<p>O resto dos pertences, embrulhou num saco de pl\u00e1stico e enterrou na margem, um buraco de um metro e pouco de fundura pareceu suficiente. Depois de alisar a areia o quanto p\u00f4de, achou que j\u00e1 estava bem perfeito. Escondeu a arma outra vez debaixo da poltrona do carro e deu as costas a quem fora seu amor.<\/p>\n<p>Antes de chegar ao p\u00e9 do morro olhou de volta como se quisesse confirma\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o se levantara. N\u00e3o havendo sinais de atividade, continuou andando em dire\u00e7\u00e3o ao jipe. Ao tocar a fria ma\u00e7aneta da porta lembrou-se subitamente do que realmente fizera, uma escurid\u00e3o baixou em seus pensamentos e uma n\u00e1usea cruel comprimiu o seu est\u00f4mago at\u00e9 o almo\u00e7o cair ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Respirou fundo, buscou for\u00e7as e limpou o amargo-\u00e1cido que ficara na boca com um bochecho do resto de \u00e1gua mineral que ficara na garrafa de pl\u00e1stico. Ent\u00e3o p\u00f4r um momento se deu conta de haver l\u00e1grimas em seus olhos.<\/p>\n<p>Quis raiva, como se elas fossem uma cobran\u00e7a injusta que Teresa ainda lhe fazia, mas j\u00e1 se sentia a pisar num p\u00e2ntano: o pranto saiu grosso e entrecortado, com dentes rangendo, calor no rosto e tremor nas m\u00e3os que apertaram-se no vazio at\u00e9 as unhas ferirem a pele. Chutou com f\u00faria os duros pneus, cuspiu o resto do amargo, arrancou cabelos e sentou-se ao volante para acalmar-se. Quis ouvir uma can\u00e7\u00e3o, ou um ru\u00eddo que rompesse a redoma de sil\u00eancio que o comprimia e acusava. Mas as m\u00e3os tremiam a ponto de n\u00e3o conseguirem sintonizar o r\u00e1dio e a ponto de deixarem cair as fitas.<\/p>\n<p>Olhou para cima, esperando que Deus mandasse o seu anjo para fender-lhe o cr\u00e2nio com uma espada flamejante mas havia apenas nuvens desmaiadas escorregando pelo c\u00e9u azul-a\u00e7o. Xingou e Deus n\u00e3o o puniu. Gritou e ouviu s\u00f3 o sil\u00eancio que insistia. Lembrou-se de estar a vinte quil\u00f4metros da estrada principal e este pensamento, que a princ\u00edpio fora providencial e confort\u00e1vel, pareceu naquele momento desesperador. Apenas grilos denunciavam a sua premedita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto se vestia come\u00e7ou a refletir sobre as poss\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias de seu ato. Algumas nuvens negras a mais toldaram o horizonte, mas era apenas chuva.<\/p>\n<p>Caminhou de volta sem saber porque o fazia. Talvez vontade de v\u00ea-la viva. Mas viu apenas a verdade e isto o fez ouvir mais alto o zumbido\/grito do sil\u00eancio no fundo de seus ouvidos. Sentou-se numa pedra e p\u00f4s-se a contemplar o cad\u00e1ver, como se nunca antes houvesse tomado consci\u00eancia da beleza manifesta nela.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os l\u00e1bios que beijara alteravam sua cor e exalavam \u00faltimos vest\u00edgios de calor e os olhos iam se vidrando at\u00e9 assumirem uma crueldade acusadora, relembrou cada instante de ci\u00fame e ao reler seus atos a certeza que o movera dissipou-se em contradi\u00e7\u00f5es que o fizeram rir. A morte parecia santificar o corpo profanado pelo amor torto que lhe dedicara e violado pelo tiro, \u00faltima d\u00e1diva de quem pouco soubera dar. A inofensividade angelical que havia nela morta!\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o suportou mais. Um mugido interrompeu a sua dor. Era uma boiada tocada por alguns cavaleiros. Ent\u00e3o se deu conta da besteira de ainda estar ao lado do cad\u00e1ver, levantou-se, desceu rapidamente o morro e tomou o jipe. Dirigiu com saudades e sentiu os solavancos no f\u00edgado e nos rins. Ao passar pela primeira ponte de madeira teve ganas de atirar fora o rev\u00f3lver, mas pensou a tempo de interromper o gesto: sendo ainda t\u00e3o perto seria um lugar prov\u00e1vel para que procurassem.<\/p>\n<p>Passou por um homem de ar triste e dentes enegrecidos de c\u00e1ries que ia em uma charrete, olhou-o com toda a naturalidade que foi poss\u00edvel, mas ainda assim levou a impress\u00e3o de que ele retivera o seu rosto na mem\u00f3ria. As \u00e1rvores \u00e0s vezes pareciam dobrar seus galhos sobre a estrada para decapit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Atra\u00eddo por um ru\u00eddo de cachoeira tomou um desvio, metros depois parou \u00e0 beira do abismo e contemplou um amplo vale em cujo outro lado despencava uma cascata formid\u00e1vel duma altura de uns setenta metros. A \u00e1gua se despeda\u00e7ava nas pedras como um copo de vinho que cai da m\u00e3o.<\/p>\n<p>O sangue retornou \u00e0 lembran\u00e7a, Armando olhou suas m\u00e3os, certamente impregnadas do doce cheiro da p\u00f3lvora. O est\u00f4mago agora exigia alimento. Desceu. Sentir-se pisando o ch\u00e3o de novo deu-lhe de volta um pouco da sensa\u00e7\u00e3o de estar vivo que parecera estar definitivamente perdida.<\/p>\n<p>A cachoeira chamava e a grama estalava de prazer sob os seus p\u00e9s. Sentou-se no ch\u00e3o, descal\u00e7ou os pesados sapatos de motociclista, o s\u00fabito vento neles enterneceu-o a ponto de querer chorar, cada dedo gritava de felicidade ao pisar livre. As saudades desapareceram porque era um belo mundo novo, sequer relatado por testemunhas humanas. Muitas eram as novas terras a explorar, muitos os mares novos a navegar.<\/p>\n<p>O vento se intensificou, como num convite. Arrancou a camisa com um \u00edmpeto apaixonado, desfez-se da cal\u00e7a. Em torno ningu\u00e9m estava. As vozes de Legi\u00e3o estavam no abismo e lhe contavam que os boiadeiros haviam encontrado o corpo, que na verdade havia um arraial perto da colina, que o homem da charrete era bom fisionomia, que muita gente os tinha visto deixar a cidade, e Deus tamb\u00e9m sabia. Mas o vento o acarinhava com uma ternura que o fazia chorar.<\/p>\n<p>De repente acordou do devaneio se sentindo est\u00fapido por estar l\u00e1 nu e ouvindo pensamentos que n\u00e3o deviam ser os seus. Ergueu-se do ch\u00e3o para seguir fugindo. Se fosse pego, haveriam de peg\u00e1-lo longe. Havia esperan\u00e7a, apesar do medo.<\/p>\n<p>Tirou o rev\u00f3lver de dentro do bolso da jaqueta, olhou-o firmemente amaldi\u00e7oando-o. Fora ele que possibilitara a loucura. N\u00e3o fosse ele e Teresa estaria ainda viva. Arrojou-o longe dentro do abismo e abaixou-se para pegar de volta as roupas que estavam pelo ch\u00e3o. Afinal, n\u00e3o fora tudo mera deforma\u00e7\u00e3o da realidade pelos seus sentidos enlouquecidos pela culpa?<\/p>\n<p>Decidido a levar adiante a vida que quase fora desperdi\u00e7ada por um simples escorreg\u00e3o, Armando tomou uma estrada diferente da que percorrera na vinda e voltou \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>Texto escrito originalmente em 2002.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Roberto e Teresa foram vistos a sair da cidade para um passeio no campo ningu\u00e9m podia imaginar o que estava por acontecer naquela tarde. Naquele domingo nada de especial parecia estar ocorrendo aos olhos de quem os visse passar no jipe: eram os mesmos sorrisos, a mesma falta de precau\u00e7\u00e3o que \u00e9 t\u00e3o caracter\u00edstica do amor. >Quando contemplas o abismo, o abismo tamb\u00e9m te contempla. \u2014 Nietzsche. 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