{"id":347,"date":"2011-01-22T09:10:00","date_gmt":"2011-01-22T12:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=347"},"modified":"2017-11-02T14:09:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:18","slug":"epifania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/epifania\/","title":{"rendered":"Epifania"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 frente de Kenji est\u00e1 o sistema solar escolhido para segundo lar de sua ra\u00e7a, condenada pela lenta morte do planeta original. Kenji pilota sozinho a imensa nave de transporte, com orgulho e com senso de dever: ele controla o destino de milhares de almas. Mas Kenji n\u00e3o tem uma alma, \u00e9 um aut\u00f4mato insetoide, met\u00e1lico e desprovido de beleza. Foi constru\u00eddo para ser redundante, seguro, definitivo. E esse ser que n\u00e3o vive trar\u00e1 de volta \u00e0 vida o precioso conte\u00fado dos frascos de suspens\u00e3o, onde hibernam homens, mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A viagem de todo um povo, movida pela esperan\u00e7a de salvar-se da pr\u00f3pria estupidez. &#8220;Nas crian\u00e7as est\u00e1 a esperan\u00e7a&#8221; \u2014 diziam os l\u00edderes, mas na hora de partir elas n\u00e3o vieram sozinhas, pois os poderosos n\u00e3o aceitam morrer. Vinham hibernados em suas c\u00e1psulas para trazer o seu mal antigo ao novo mundo, restabelecendo estruturas que haviam causado a desgra\u00e7a de uma esfera que Kenji nunca vira.<\/p>\n<p>A viagem rigorosamente planejada durante s\u00e9culos. Pelos que temiam a destrui\u00e7\u00e3o que fatalmente viria. Kenji tinha todos os dados em sua mente de sil\u00edcio e carbono. Tinha consigo ferramentas e mat\u00e9ria para consertar-se e melhorar-se. Durante as d\u00e9cadas de dura\u00e7\u00e3o do p\u00e9riplo estelar, tinha se esmerado em espandir-se, tornar-se mais perfeito, maior, mais poderoso. As crian\u00e7as precisariam de sua ajuda para resistir \u00e0 maldade dos homens quando chegassem.<\/p>\n<p>O sistema a que chegavam era o mais promissor que o homem encontrara na busca vertiginosa por um novo lar: nove planetas, os rochosos pr\u00f3ximos \u00e0 estrela, os gasosos fora. Uma conveniente bolha de poeira estelar variada envolvendo o conjunto, at\u00e9 mesmo um espa\u00e7o faltante referente a um planeta que nunca se formou. Praticamente um espelho do distante lar que Kenji nunca vira com olhos, apenas com dados de sensoriamento remoto e estat\u00edsticas.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>O terceiro planeta, embora um pouco maior do que o necess\u00e1rio, e um pouco menos met\u00e1lico do que o que seria apropriado, tinha uma atmosfera respir\u00e1vel. Infelizmente estava quase afogado em oceanos, com os blocos de terra ilhados por infinitudes de \u00e1guas. Mas mesmo isso seria bom, afinal, pois na \u00e1gua poderia haver muita vida que se pudesse comer.<\/p>\n<p>Kenji n\u00e3o entende muito bem o conceito de &#8220;comer&#8221;. Ele nunca foi humano e n\u00e3o possui par\u00e2metros de prazer e nem de dor. Est\u00e1 ligado \u00e0 energia da nave, o fluxo de el\u00e9trons \u00e9 a coisa mais parecida com alimento que ele pode conceber, e a beleza de uma estrela, que irradia part\u00edculas que podem ser capturadas e consumidas\u2026 \u00e9 a melhor semelhan\u00e7a de cornuc\u00f3pia que o rob\u00f4 imagina. Na mitologia dos rob\u00f4s sencientes o para\u00edso deve ser a \u00f3rbita de um sol jovem e forte, conectado a velas solares que recarregam seus duros maquinismos e que proporcionam movimento. Como insetos em volta de uma l\u00e2mpada. E Kenji, curiosamente, \u00e9 um insetoide. \u00c9 estranho que uma m\u00e1quina apenas feita \u00e0 semelhan\u00e7a de um ser vivo acabe por parecer-se com ela tamb\u00e9m no modo de &#8220;pensar&#8221; \u2014 se \u00e9 que m\u00e1quinas pensam, reflete, recursiva e filosoficamente, o calmo aut\u00f4mato.<\/p>\n<p>A nave se aproxima pregui\u00e7osamente, os motores de empuxo reverso j\u00e1 est\u00e3o desacelerando o imenso caix\u00e3o de cer\u00e2mica e ligas leves. Enquanto contempla a beleza daquele sol laranja relativamente jovem, t\u00e3o saud\u00e1vel em sua plenitude, Kenji se permite uma atitude il\u00f3gica: configura os sensores para tr\u00e1s, como quem olha no retrovisor \u2014 se jamais tivesse tido um carro. Nos dados atirados pelas interfaces v\u00eam informa\u00e7\u00f5es em desencontro: o sol original pode estar vivo, pode n\u00e3o estar, est\u00e1 t\u00e3o longe, t\u00e3o perdido entre milhares de outros. Custa a ser localizado. Kenji isola-o num t\u00edmido sinal de r\u00e1dio entre outros. Ele continua cantando sua microfonia c\u00f3smica. Mas no terceiro pedregulho a partir dele j\u00e1 n\u00e3o canta mais ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser, talvez, degeneradas formas vivas de uma segunda g\u00eanese, estranha \u00e0 heran\u00e7a que aquela nave leva, talvez nociva a ela.<\/p>\n<p>O planeta de destino foi escolhido, por uma miss\u00e3o n\u00e3o tripulada, s\u00e9culos antes de Kenji ter nascido de uma linha de montagem pilotada pelas fr\u00e1geis m\u00e3os de mo\u00e7as bonitas e perfeccionistas. Para ele o paquiderme espacial se arrasta, segundo um programa escrito numa linguagem de m\u00e1quina que nem Kenji chegou a conhecer. Ele se sente jovem ao pensar que Agnes, o computador de navega\u00e7\u00e3o, consegue entender as instru\u00e7\u00f5es deixadas naquele programa. Agnes, com quem jamais trocou informa\u00e7\u00f5es. Sistemas diferentes demais, aplica\u00e7\u00f5es diferentes demais. Kenji suspeita que Agnes sequer saiba que ele a chama de Agnes, ou que haja humanos a bordo. Tudo que Agnes deve saber \u00e9 que est\u00e1 indo para algum lugar desconhecido no fundo das trevas do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Para Kenji o tempo passa rapidamente. Foi programado para n\u00e3o se entendiar com as semanas. Sentiu a aproxima\u00e7\u00e3o como se tivesse sido breve, mas na verdade durou anos. Anos de espirais em torno da estrela, em busca do melhor perigeu para orbitar. Quando sentiu Agnes estabilizando a nave na \u00f3rbita, teve uma sensa\u00e7\u00e3o que os humanos chamariam de medo, mas que para ele aparecia apenas como uma repetitiva computa\u00e7\u00e3o dos passos a fazer, analisando cada vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>Com a nave pronta, Agnes enviou pelo sistema uma notifica\u00e7\u00e3o seca e simples, cujo significado somente os destinat\u00e1rios seriam capazes de entender, uma mera sequencia de caracteres em seu programa: &#8220;\u00d3rbita estabilizada no destino.&#8221; Para Agnes esta sequencia era apenas algo que devia &#8220;dizer&#8221; eletronicamente quando a viagem terminasse.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m precisava dizer a Kenji o que fazer. Ele tinha tudo predeterminado desde antes de ser posto em funcionamento. Iniciar a conex\u00e3o dos sistemas de desembarque e ligar os analisadores de biosfera. Come\u00e7ava ali a fase final do projeto &#8220;Terra II&#8221;.<\/p>\n<p>Se Kenji tivesse um aparelho respirat\u00f3rio teria suspirado naquele momento, se tivesse uma alma teria sentido algum tipo de emo\u00e7\u00e3o. Mas em vez disso, naquele momento t\u00e3o importante para a humanidade, os passos decisivos do nascimento de um novo mundo eram dados por um artefato cego, cujas emo\u00e7\u00f5es eram apenas c\u00e1lculos que oscilavam, abandonando probabilidades inadequadas.<\/p>\n<p>Seguindo \u00e0 risca a sequ\u00eancia estabelecida em seu c\u00e9rebro inanimado, Kenji iniciou o lento, inexor\u00e1vel e irrevers\u00edvel processo de despertar das primeiras centenas de seres vivos, humanos que assumiriam o trabalho de tornar aquele mundo \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. Consultando seus dados, quase com prazer, Kenji considerou o que seria dos pobres seres primitivos que ali viviam: em breve seriam usados pelos colonizadores, como ele pr\u00f3prio o era. Mas as chaves de seguran\u00e7a em seu programa o impediam de completar este c\u00e1lculo. Os primeiros a despertar seriam os adultos, que teriam a fun\u00e7\u00e3o de ensinar \u00e0s crian\u00e7as valores fundamentais da civiliza\u00e7\u00e3o, como poder, gan\u00e2ncia, preconceito, supersti\u00e7\u00e3o, desconfian\u00e7a e \u00f3dio. Dentro dos limites estreitos de sua programa\u00e7\u00e3o, Kenji tinha lampejos de quase autoconsci\u00eancia, nos quais ele lamentava o destino daquele planeta que recebia a infesta\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Um capit\u00e3o e alguns oficiais emergiram das salas de descompress\u00e3o. Ao v\u00ea-los, quase instantaneamente, Kenji ajustou sua percep\u00e7\u00e3o temporal a algo que tornaria poss\u00edvel acompanhar a exist\u00eancia daqueles seres t\u00e3o r\u00e1pidos, t\u00e3o ef\u00eameros.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o apossou-se de seu lugar, inexpressivo em seu rosto militar, quase t\u00e3o frio quanto as patas de a\u00e7o de Kenji, que sustentavam suas toneladas de tent\u00e1culos e circuitos. Sua voz ins\u00edpida deu um comando de voz, declamado ritualisticamente, como um jogral:<\/p>\n<p>\u2014 Abrir visores.<\/p>\n<p>Um a um foram aparecendo quadrados luminosos pelos pain\u00e9is. Toda aquela energia esperdi\u00e7ada apenas para exibir as informa\u00e7\u00f5es em um formato que os humanos pudessem entender. A chave de seguran\u00e7a agiu novamente e Kenji passou a concentrar-se na superf\u00edcie do mundo abaixo de si. Aproveitou para acionar os pr\u00f3prios analisadores de luz vis\u00edvel, para poder obter dados por este meio tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Capit\u00e3o \u2014 disse a oficial, ainda incomodada com a lisura de seu cr\u00e2nio depilado \u2014 as leituras biol\u00f3gicas n\u00e3o conferem.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o moveu os mecanismos de sua interface superior de uma forma que Kenji fora ensinado a reconhecer como &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o&#8221;, um conceito que ele quase n\u00e3o entendia. Kenji era permanentemente preocupado. Era assim que agia, em prote\u00e7\u00e3o aos sistemas embarcados, inclusive os sistemas biol\u00f3gicos. Por sorte, aut\u00f4matos n\u00e3o sofrem de nervos.<\/p>\n<p>\u2014 Tenente Xu, vamos refazer as leituras ap\u00f3s uma recalibragem dos sensores, iniciando agora. Kenji, modo de seguran\u00e7a, urgente! Vamos verificar todos os receptores externos.<\/p>\n<p>Kenji moveu-se para a retaguarda da cabina de comando que ocupara por s\u00e9culos e dirigiu-se \u00e0 escotilha para executar o trabalho de verifica\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p>Agarrado com suas v\u00e1rias patas ao casco da nave, Kenji dirigiu seus sensores locais ao planeta abaixo. Enquanto duas de suas patas verificavam a calibragem de espelhos e coletores de part\u00edculas, duas outras manipulavam os seus pr\u00f3prios sensores, que eram menos sens\u00edveis e robustos, mas funcionavam, relativamente aos embarcados na nave, t\u00e3o bem quanto um bin\u00f3culo funciona em compara\u00e7\u00e3o com um telesc\u00f3pio espacial.<\/p>\n<p>Havia, mesmo, algo errado com o planeta. A imagem que ele apresentava, na vis\u00e3o infravermelha de Kenji, era diferente da que fora gravada pela sonda, s\u00e9culos antes. Estava, ou parecia estar, mais frio e mais calmo: grandes massas de nuvens o recobriam, uma bola de gude branca \u2014 se Kenji soubesse o que eram bolas de gude para conceber esta met\u00e1fora.<\/p>\n<p>Terminou de circular por todos os sensores externos e esgueirou-se pelos corredores at\u00e9 a ponte de comando, onde estivera por s\u00e9culos, e a chave de seguran\u00e7a o for\u00e7ou novamente a mudar seus c\u00e1lculos, impedindo-o de tomar o lugar que instintivamente buscara.<\/p>\n<p>\u2014 Agnes, confirme nossa posi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>O capit\u00e3o tamb\u00e9m sabia o nome de Agnes. Kenji computou rapidamente que isso significava que o nome pelo qual sempre chamara ao computador de navega\u00e7\u00e3o lhe teria sido ensinado, s\u00e9culos antes. Por algu\u00e9m que tamb\u00e9m o ensinara aos tripulantes. Provavelmente a todos. Todos conheciam Agnes. A chave de seguran\u00e7a agiu novamente. Para Kenji, cada acionamento era parecido com algo a que n\u00f3s, humanos, chamar\u00edamos de &#8220;dor&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o entendo, capit\u00e3o \u2014 disse a Tenente Xu, com seus olhos obl\u00edquos arregalados numa express\u00e3o de medo \u2014 as coordenadas conferem, mas as caracter\u00edsticas atmosf\u00e9ricas do planeta s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>\u2014 Confirme para mim os dados f\u00edsicos: quero di\u00e2metro, massa, posi\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o acariciava a bola de bilhar que lhe tapava o pesco\u00e7o, ainda incomodado com o rude tratamento de depila\u00e7\u00e3o a que os viajantes das estrelas eram submetidos, pelo menos os que viajavam vivos. Kenji teria tido prazer em lembrar, se compreendesse prazeres humanos, que era uma condi\u00e7\u00e3o definitiva. A chave de seguran\u00e7a agiu novamente.<\/p>\n<p>\u2014 Os dados conferem, Capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha querida, estamos fodidos.<\/p>\n<p>\u2014 Capit\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vamos ainda contar para o resto da tripula\u00e7\u00e3o, enquanto eles acordam o resto, mas temos anos terr\u00edveis pela frente. Estamos fodidos, fodidos.<\/p>\n<p>\u2014 O que ter\u00e1 acontecido, Capit\u00e3o?<\/p>\n<p>O capit\u00e3o contemplava os dados que passeavam pelos econ\u00f4micos visores monocrom\u00e1ticos. Pensava, coisa que Kenji n\u00e3o sabia ou n\u00e3o precisava saber.<\/p>\n<p>\u2014 Provavelmente temos um cen\u00e1rio de apocalipse, Tenente. Alguma das esp\u00e9cies detectadas por nossa sonda h\u00e1 s\u00e9culos, alguma das malditas esp\u00e9cies que a sonda viu rastejando pelos pastos e p\u00e2ntanos e charnecas desse mundo primitivo. Certamente alguma teria intelig\u00eancia, mesmo rudimentar, provavelmente bem rudimentar. Mas conseguiu inventar coisas, desenvolver armas \u2014 a primeira coisa que as intelig\u00eancias primitivas querem inventar \u2014 e deram azar de inventar r\u00e1pido demais os brinquedos perigosos.<\/p>\n<p>Andr\u00e9a entrou na ponte de comando. Era da mais absoluta confian\u00e7a de Capit\u00e3o, era uma gimnoide hedon\u00edstica, mas que tamb\u00e9m tinha conhecimentos de ecologia e m\u00fasica. Ningu\u00e9m nem nada naquela nave podia se dar ao luxo de uma fun\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u2014 nem a &#8220;boneca infl\u00e1vel&#8221; do Capit\u00e3o, como a Tenente Xu a chamava.<\/p>\n<p>Kenji deu-se conta, subitamente, de que certos dados aleat\u00f3rios que fora percebendo e acumulando durante d\u00e9cadas e d\u00e9cadas eram os sonhos dos homens e mulheres em seus inv\u00f3lucros est\u00e1ticos. Tenente Xu n\u00e3o gostava de Andr\u00e9a e Kenji n\u00e3o sabia para que serviam gimnoides, mas simpatizava com aquele ser que imitava a apar\u00eancia dos humanos. Simpatizava porque ele pr\u00f3prio era diferente, porque ele n\u00e3o tinha uma apar\u00eancia agrad\u00e1vel aos humanos \u2014 e talvez tampouco a Andr\u00e9a. A chave de seguran\u00e7a parecia n\u00e3o desligar nunca mais.<\/p>\n<p>\u2014 Capit\u00e3o \u2014 disse a boneca infl\u00e1vel \u2014 os dados que coletei s\u00e3o realmente condizentes com um inverno nuclear.<\/p>\n<p>\u2014 Estimativa de tempo?<\/p>\n<p>\u2014 Considerando a meia vida dos elementos transur\u00e2nicos detectados, Agnes calculou em prov\u00e1veis cinquenta anos.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 muito tempo? \u2014 perguntou o Capit\u00e3o, como se a intelig\u00eancia fosse para ele a for\u00e7a de Sans\u00e3o. Estaria arrancando cabelos se os tivesse. A tens\u00e3o era vis\u00edvel e Kenji deu-se subitamente conta de que sabia o que era &#8220;tens\u00e3o&#8221; e a chave de seguran\u00e7a, mesmo funcionando a todo vapor, n\u00e3o conseguia impedir que ele soubesse isso.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma \u00e1rea menos afetada?<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma. O planeta est\u00e1 coberto de densas nuvens e a radia\u00e7\u00e3o choveu mais ou menos uniformemente sobre a crosta. A Idade do Gelo parece estar come\u00e7ando, para piorar as coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Idade do Gelo\u2026 \u2014 as palavras do capit\u00e3o soavam vazias \u2014 eu preciso me recolher, para pensar a s\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Volte logo, capit\u00e3o. Temos que decidir o que fazer.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o acenou a Kenji, que o seguiu, como um c\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Kenji, ensinaram-lhe a falar?<\/p>\n<p>Kenji produziu uma s\u00e9rie de ru\u00eddos percutidos, mais ou menos como a conversa das aranhas, que batem os seus palpos para enviar sinais umas \u00e0s outras. O capit\u00e3o tinha conhecimento do <span>CCCP1<\/span> e compreendeu que sim.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o levou Kenji \u00e0 porta de um recinto herm\u00e9tico:<\/p>\n<p>\u2014 Quando me procurarem, diga que fui.<\/p>\n<p>No instante seguinte, dentro do recinto, ouviu-se um silvo longo, do tipo que irritaria ouvidos humanos. Kenji quis saber do que se tratava e destravou a porta. L\u00e1 dentro estava o capit\u00e3o, ou pelo menos a parte dele que n\u00e3o pensava. A cabe\u00e7a, esta tinha se espalhado em muitos peda\u00e7os. N\u00e3o compreendia como algu\u00e9m teria a ideia de voltar contra si mesmo uma pistola de arrebites. Talvez faltasse um parafuso ao capit\u00e3o, e ele tivesse tentado consertar do jeito errado. Bateu os palpos na parede, esperando que o torso contorcido respondesse. Kenji n\u00e3o sabia que mortos n\u00e3o falam.<\/p>\n<p>A tripula\u00e7\u00e3o o viu ali, logo viram o acontecido, instalou-se o p\u00e2nico. Andr\u00e9a chegou com a Tenente Xu, ambas atabalhoadas. A colmeia humana continuava despertando, milhares de bocas logo quereriam comer, e abaixo deles estava um planeta morto, envolto em nuvens t\u00f3xicas e coberto de uma neve venenosa.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 momentos na vida em que \u00e9 preciso ser homem&#8221;, dizia o bilhete encontrado no bolso do Capit\u00e3o. Ele terminava com uma longa lista de nomes a quem ele pedia perd\u00e3o por n\u00e3o ter sido.<\/p>\n<p>Os estoques de alimentos da nave eram suficientes para alguns meses, ou anos, dependendo de quantos fossem despertados, de quanto cada um estivesse disposto a engordar. Eventualmente, em \u00faltima necessidade, o estoque poderia ser prolongado um pouco mais, desde que alguns casulos nunca fossem despertados. Mas a comida fatalmente acabaria se n\u00e3o fosse poss\u00edvel descer em algum lugar e semear a vida.<\/p>\n<p>A Tenente Xu agiu de uma maneira surpreendentemente pr\u00e1tica diante das circunst\u00e2ncias. Tendo compreendido o significado do que o capit\u00e3o se fizera, Kenji se sentiu atra\u00eddo pela precis\u00e3o matem\u00e1tica dos comandos tomados pela segunda em comando. No lugar dela, teria agido de forma semelhante, apenas n\u00e3o tinha, por ser aut\u00f4mato, a permiss\u00e3o de tomar qualquer atitude que envolvesse vidas humanas, n\u00e3o sem a insistente chave de seguran\u00e7a embaralhar os seus circuitos e apagar os dados processados, tornando-o confuso. A primeira coisa que ela fez foi ordenar que os pequenos droides de faxina limpassem a cabina e atirassem a sujeira por uma escotilha funer\u00e1ria. Involuntariamente o Capit\u00e3o dava in\u00edcio \u00e0 semeadura daquele planeta esterilizado. Mas semeadura com morte, em vez de vida. Belo in\u00edcio para uma nova civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os humanos mais graduados se reuniram na ponte de comando, com as luzes desligadas. Falavam em voz baixa, talvez por medo de que Agnes os ouvisse. Kenji n\u00e3o se importou com isso. Seu sistema de comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de batidas dependia da detec\u00e7\u00e3o de vibra\u00e7\u00f5es. Por isso ele se especializara em detectar a fala dos humanos atrav\u00e9s de vibra\u00e7\u00f5es, n\u00e3o de sons, e conseguia captar muito da conversa que eles tentavam esconder. A reuni\u00e3o era para tra\u00e7ar estrat\u00e9gias. Uma delas, particularmente defendida pela Tenente Xu, envolvia descerem com dois aut\u00f4matos \u00e0 superf\u00edcie destru\u00edda do planeta. Os dois aut\u00f4matos seriam Andr\u00e9a, a gimnoide, e Kenji.<\/p>\n<p>Mesmo sendo um aut\u00f4mato, ele n\u00e3o gostava da ideia. A chave de seguran\u00e7a zunia em seus circuitos, mas ele ainda acha il\u00f3gica a escolha de mandar para a superf\u00edcie de um mundo morto justamente o piloto. Ainda demoraria algum tempo para que ele percebesse que n\u00e3o havia necessidade de piloto porque n\u00e3o havia para onde ir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 frente de Kenji est\u00e1 o sistema solar escolhido para segundo lar de sua ra\u00e7a, condenada pela lenta morte do planeta original. Kenji pilota sozinho a imensa nave de transporte, com orgulho e com senso de dever: ele controla o destino de milhares de almas. Mas Kenji n\u00e3o tem uma alma, \u00e9 um aut\u00f4mato insetoide, met\u00e1lico e desprovido de beleza. Foi constru\u00eddo para ser redundante, seguro, definitivo. E esse ser que n\u00e3o vive trar\u00e1 de volta \u00e0 vida o precioso conte\u00fado dos frascos de suspens\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[117],"tags":[92,32,136],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/347"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1281,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/347\/revisions\/1281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}