{"id":35,"date":"2013-05-21T22:59:00","date_gmt":"2013-05-22T01:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=35"},"modified":"2017-11-02T14:08:20","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:20","slug":"dolores-com-pudores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/dolores-com-pudores\/","title":{"rendered":"Dolores, com Pudores"},"content":{"rendered":"<p>Vladimir contemplou um raio de sol nadando no copo de cerveja e sentiu a leve pontada de um pequeno espinho no peito, que o fez trope\u00e7ar nas batidas como se o rel\u00f3gio hist\u00f3rico tivesse uma engrenagem empenada. Era tarde j\u00e1, embora ainda nem fossem sete da noite. Tarde para sonhar com Dolores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ouviu a voz dela no rasgo de um sorriso e teve vontade de pagar conta e sumir, ou ir embora deixando tudo na pendura, pondo pelo menos uma rua entre ele, Dolores e a pra\u00e7a. Mas era preciso resistir, mesmo porque n\u00e3o haveria nenhum consolo nas paredes nuas do apartamento, n\u00e3o naquela noite fria de junho, que amanheceria vestida de branco e perto de zero.<\/p>\n<p>A voz rouca de Dolores ecoando na pra\u00e7a da cidadezinha, brincando com suas dores no peito, seu h\u00e1lito pentrante e sua alma amarga. Ela, por\u00e9m, n\u00e3o era doce, mas \u00e1cida. Subitamente deu-se conta de estar sorvendo o vento de dentro do copo extinto. Entornou mais da garrafa e pediu alguma coisa salgada para acompanhar, alguma coisa que ajudasse a morrer cedo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela entrou, pinoteando como uma lebre, indecente como s\u00f3 as jovens sabem ser. Maldita! Virou o resto da cerveja e impostou a voz para pedir a conta, surpreendendo \u00e0 balconista:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vai esperar a por\u00e7\u00e3o de salaminho?<\/p>\n<p>\u2014 Fica para outro dia, est\u00e1 piorando muito r\u00e1pido, esse frio.<\/p>\n<p>Dolores saiu levando alguma garrafa colorida e ele recebeu o troco com um gesto de coitado e a calma de quem n\u00e3o vai dormir t\u00e3o cedo nem acordar t\u00e3o tarde. Vladimir nem lembrava mais porque pedira a conta, queria poder ficar, mas n\u00e3o queria que o achassem estranho, n\u00e3o mais.<\/p>\n<p>Saiu do bar e n\u00e3o viu sinal na pra\u00e7a que restasse dela. Mas em algum lugar reverberava a risada rouca. Na lembran\u00e7a, ou tamb\u00e9m por perto? Dolores mesma, ou a sua assombra\u00e7\u00e3o na culpa sufocada da alma de Vladimir, mais velha que o corpo e menos predisposta \u00e0 calma.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o deu de ombros, soltou um suspiro como se exalasse uma doen\u00e7a e foi andando devagar para casa. Sentia-se pequeno, enrugado, imundo e triste. Tomou o caminho mais longo, como quem procura um cemit\u00e9rio. A casa de um solteiro sempre tem um ar fun\u00e9reo.<\/p>\n<p>Ia distra\u00eddo, contemplando os detalhes de todas as flores e de cada laje da cal\u00e7ada, n\u00e3o ouvia nenhum passarinho e sentia falta de borboletas. O ch\u00e3o andava frio e a sola do sapato era t\u00e3o fina que sentia o ch\u00e3o enregelar sua carne quando pisava. Mesmo assim, a cada passo, os p\u00e9s se arrastavam mais naquele ch\u00e3o. Quanto mais longe, menos Dolores e menos calor. O sono viria cedo, viria frio, seria o medo e amanheceria despenteado na larga cama. E era tarde, muito tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, Humberto!<\/p>\n<p>Voltou-se para ver Dolores sorrir diante de si e era como se ela o percebesse.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou nenhum Humberto, \u00f3 Dolores.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal. Para mim voc\u00ea sempre vai se parecer com o tio Humberto.<\/p>\n<p>Vladimir sentiu algo tremer na carne ao ouvir a curta, mas nociva, rela\u00e7\u00e3o de parentesco. Estava come\u00e7ando a ter traumas disso.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, n\u00e3o me chame pelo nome de seu tio, por favor!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o gosta de Humberto?<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que eu ache feio o nome\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o deixa eu te achar parecido com o meu tio Humberto.<\/p>\n<p>\u2014 Por que voc\u00ea n\u00e3o pode me achar parecido comigo mesmo?<\/p>\n<p>Dolores riu sem peso e o foi acompanhando em seus patins. Na cal\u00e7ada regular quase n\u00e3o se ouvia as rodas. <\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1, gostou do cachorro quente?<\/p>\n<p>\u2014 Cacho\u2026 Ah, sim, gostei. Voc\u00ea me viu?<\/p>\n<p>\u2014 Claro que vi.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o havia ningu\u00e9m na rua naquela noite.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o estava na rua naquela noite, d\u00e3\u00e3!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u2014 \u2018T\u00e1, fala logo se gostou!<\/p>\n<p>O pedido dela era uma ordem.<\/p>\n<p>\u2014 G-gostei, claro.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o volta l\u00e1 para eu poder lhe preparar um do meu jeito.<\/p>\n<p>\u2014 E como \u00e9 o seu jeito?<\/p>\n<p>\u2014 Com muuuito molho\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Prometo que apare\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea vai gostar do que eu vou fazer?<\/p>\n<p>O pobre Vladimir olhou-a de frente, sem saber como responder a tal pergunta. Claro que gostaria. Gostaria de tudo que ela lhe fizesse, embora nem estivesse pensando em cachorros quentes naquele minuto. Por\u00e9m segurou a emo\u00e7\u00e3o escoiceante, assentou-se de novo em sua caretice protocolar e se asseverou de que ela s\u00f3 lhe faria um lanche, nunca nada mais. A provoca\u00e7\u00e3o s\u00f3 existia em sua mente torpe. Olhando de soslaio, fingindo interesse transcendental e metaf\u00edsico por uma \u00e1rvore igual a dezenas de outras da cidade, disse apena que:<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Dolores, prometo que vou gostar do que voc\u00ea fizer.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o venha logo, que eu quero lhe mostrar tudo que sei fazer.<\/p>\n<p>Ela provavelmente falava da variedade de sabores e salgados, mas ele passava em outras coisas com a sua mente rodopiante, como se nas presas houvesse, mesmo depois de quarenta anos, um veneno jovial capaz de lhe dar for\u00e7as. Quarenta anos, a idade que teria quando Dolores deixasse de ser crime.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vladimir contemplou um raio de sol nadando no copo de cerveja e sentiu a leve pontada de um pequeno espinho no peito, que o fez trope\u00e7ar nas batidas como se o rel\u00f3gio hist\u00f3rico tivesse uma engrenagem empenada. 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