{"id":353,"date":"2011-01-11T23:38:00","date_gmt":"2011-01-12T02:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=353"},"modified":"2017-11-26T17:51:14","modified_gmt":"2017-11-26T20:51:14","slug":"fausto-de-souza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/fausto-de-souza\/","title":{"rendered":"Fausto de Souza"},"content":{"rendered":"<p>Estava concluindo o terceiro volume da tetralogia \u00e9pica sobre uma sociedade secreta ma\u00e7\u00f4nico-judaica-ocultista que se refugiara no Brasil durante a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa. Conceber e detalhar os rituais mesclando o Antigo Rito Escoc\u00eas com outras influ\u00eancias cabal\u00edsticas lhe custara meses de pesquisa e o amor de Rafaela, que n\u00e3o suportara mais as longas horas de aus\u00eancia perambulando por sebos e bibliotecas, n\u00e3o aceitara perder outro dos tr\u00eas quartos do ap\u00ea para mais prateleiras de livros. Estava ali imerso em seu mundo particular e em contas a pagar j\u00e1 quase impag\u00e1veis. Sentiu ent\u00e3o o caracter\u00edstico cheiro sulf\u00fareo de que as lendas falam. Era ele de novo.<\/p>\n<p>&#8212; Boa tarde, amigo.<\/p>\n<p>&#8212; Muito boa tarde, Mem\u00ea. O que anda fazendo?<\/p>\n<p>Sua surpreendente familiaridade com o escamoso, a ponto de lhe ter dado um apelido desses, j\u00e1 n\u00e3o o surpreendia.<\/p>\n<p>&#8212; Andando por aqui e por a\u00ed\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Andaste sumido nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, aquela nega que voc\u00ea arrumou era muito supersticiosa e encheu a casa de velas, de incensos, de arrudas e de bentinhos para manter-me longe.<\/p>\n<p>&#8212; Rafaela? Curioso, nunca notei nada demais de estranho.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, foram muitas as coisas dela que voc\u00ea n\u00e3o notou, n\u00e3o foi, Tot\u00f3?<\/p>\n<p>O desviado tamb\u00e9m tinha lhe dado um apelido de colegial.<\/p>\n<p>&#8212; Por favor, este n\u00e3o \u00e9 um momento legal para conversarmos sobre isso.<\/p>\n<p>&#8212; Lhe doem ainda os chifres?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tanto quando uma pr\u00f3clise no come\u00e7o da frase. Mas\u2026 pera\u00ed, chifres quem tem \u00e9 voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8212; Me fa\u00e7a o favor, Tot\u00f3\u2026 \u00e9 coisa feia ca\u00e7oar do defeito f\u00edsico de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo bem, desculpe-me\u2026 Mas\u2026 chifres?<\/p>\n<p>&#8212; Lhe surpreende que eu diga isso?<\/p>\n<p>&#8212; Ah, n\u00e3o sei. Mas poderia, por favor, parar de colocar esses malditos pronomes nos come\u00e7os das frases! Isso me irrita.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, mas irritar aos outros \u00e9 algo realmente diab\u00f3lico de se fazer\u2026<\/p>\n<p>&#8212; P\u00e1ra, Mem\u00ea. Seu papo j\u00e1 andou melhor. O que quer hoje?<\/p>\n<p>&#8212; Olha, voltei para lhe fazer de novo a velha oferta.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, Mem\u00ea, n\u00e3o vou lhe apresentar a prima Teresa. Tenho medo da cria que pode nascer disso.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 nada disso, seu tarado!<\/p>\n<p>&#8212; Tarado!?<\/p>\n<p>&#8212; Aqueles coment\u00e1rios foram ir\u00f4nicos! Eu teria que ser muito pervertido para pensar em ter alguma coisa com aquela mulher. Ali\u00e1s, eu sou muito pervertido, me d\u00e1 o telefone dela?<\/p>\n<p>A gargalhada dele era obscena.<\/p>\n<p>&#8212; Mem\u00ea, eu vou l\u00e1 buscar as velas da Rafaela para lhe mandar pros quintos.<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e1 bom, eu prometo que n\u00e3o falo mais nisso. Ali\u00e1s, meu assunto \u00e9 outro.<\/p>\n<p>&#8212; Sim.<\/p>\n<p>&#8212; Vim lhe repetir a oferta.<\/p>\n<p>&#8212; Oferta\u2026 oferta\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Oh, sim, faz tanto tempo. Como da \u00faltima vez: eu lhe dou o sucesso em troca de sua alma e etc\u00e9tera.<\/p>\n<p>Os olhos de Fausto percorreram a pilha de notifica\u00e7\u00f5es extrajudiciais sobre a escrivaninha e ele se sentiu balan\u00e7ado a aceitar.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei se vale a pena vender-lhe minha alma em troca de alguns anos de prazeres e de riqueza.<\/p>\n<p>&#8212; Certamente que n\u00e3o vale. Mas existem compensa\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 que, ao contr\u00e1rio do que dizem, eu n\u00e3o me empenho em torturar ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei, eu sei. J\u00e1 me disseram que o problema do inferno n\u00e3o \u00e9 o clima, mas as companhias\u2026<\/p>\n<p>&#8212; De toda forma, eu resolvi lhe facilitar. Deixo-lhe meu cart\u00e3o: se decidir aceitar os termos do contrato &#8212; ele tirou do bolso um documento de trinta e seis p\u00e1ginas, em tr\u00eas vias &#8212; \u00e9 s\u00f3 me chamar.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea tem telefone celular?<\/p>\n<p>&#8212; E por que n\u00e3o teria? Existe coisa mais infernal do que o celular?<\/p>\n<p>Fausto riu gostosamente e aceitou das m\u00e3os de Mefist\u00f3feles a minuta do contrato. O diabo lhe alertou para que lesse atentamente, rubricasse cada folha, reconhecesse firma em cart\u00f3rio (uma coisa infernal, claro) e ent\u00e3o ligasse.<\/p>\n<p>Assim acertados, Mem\u00ea foi embora deixando, como sempre, uma garrafa de bebida de alta qualidade. Daquela vez foi slivovitz artesanal b\u00falgaro, feito com ameixas espremidas pelas m\u00e3os de lindas camponesas louras dos C\u00e1rpatos.<\/p>\n<p>Tinha muito tempo que Fausto n\u00e3o provava uma bebida boa. Somente na base da \u00e1gua e da cerveja barata. N\u00e3o tinha sangue de barata. Abriu a garrafa e sentiu o aroma suave, que evocava os calmos regatos dos B\u00e1lc\u00e3s. Pensou nas m\u00e3os calejadas das lindas camponesas b\u00falgaras e isso o excitou. Gostava de mulheres trabalhadoras. Quanto crian\u00e7a, na \u00e9poca de uma distante guerra fria, muitas vezes se masturbara diante da capa de uma revista sovi\u00e9tica que recebera de brinde da embaixada: <em>Rabotn\u00edtsa<\/em>, &#8220;mulher oper\u00e1ria&#8221;. Na capa ia uma mo\u00e7a de rosto arredondado, olhos ligeiramente amendoados, cabelos que pareciam fios de teias de aranha, t\u00e3o finos e brancos. Ela tinha um sorriso lindo e uma roupa colorida, padr\u00e3o folcl\u00f3rico de algum lugar do C\u00e1ucaso. A revista estava em russo e Fausto nunca conseguira saber nada a respeito da mo\u00e7a, cuja biografia estava em destaque no interior, entre fotos p\u00e1lidas em preto e branco, que a mostrava entre seus pais num lugarejo r\u00fastico. Pensava nas m\u00e3os calejadas da camponesa sovi\u00e9tica e \u2026 oh, como o mundo \u00e9 imenso e cheio de delicadas pequenas maravilhas para aqueles que t\u00eam dinheiro e tempo para percorr\u00ea-lo!<\/p>\n<p>Tomava o <em>slivovitz<\/em> devagar. Sorvia cada gota como se fosse o pr\u00f3prio hidromel do para\u00edso. O roxo p\u00e1lido daquele l\u00edquido tingia os seus olhos de tristeza por ser t\u00e3o pobre, e de repente a trilogia pareceu sem sentido.<\/p>\n<p>Revirou nos dedos o cart\u00e3o de Mefist\u00f3feles. Por fim, n\u00e3o conseguir mais suportar a vontade de sentir acariciando o seu sexo as m\u00e3ozinhas pequenas e calejadas das louras camponesas dos B\u00e1lc\u00e3s, ou do C\u00e1ucaso ou da Puta que o Pariu. Digitou apressadamente o n\u00famero: 3613-0666.<\/p>\n<p><em>Oi informa: voc\u00ea n\u00e3o tem cr\u00e9ditos suficientes para fazer esta liga\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Xingou todas as gera\u00e7\u00f5es de locutoras que emprestaram suas vozes mel\u00edfluas para as companhias telef\u00f4nicas e discou de novo, a cobrar. Era uma vergonha fazer isso, mas Mefist\u00f3feles j\u00e1 era seu chegado, n\u00e3o se importaria.<\/p>\n<p>&#8212; Boa tarde, aqui \u00e9 Fausto.<\/p>\n<p>&#8212; Booooa tarde, Fausto. Ent\u00e3o, leu o contrato inteiro?<\/p>\n<p>&#8212; Sim &#8212; mentiu.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1s de acordo?<\/p>\n<p>&#8212; Sim.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 registrou?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o precisa, eu assino com sangue como voc\u00ea gosta. De qualquer forma, n\u00e3o tenho dinheiro para reconhecer firma desta jo\u00e7a.<\/p>\n<p>Mefist\u00f3feles apareceu de novo diante dele. Com uma seringa hipod\u00e9rmica extraiu 10 ml de sangue e injetou na sua caneta Montnoir Plus dizendo, divertidamente:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea devia fazer isso \u00e9 com a sua impressora: fica mais barato do que comprar cartuchos de tinta. Ali\u00e1s, se voc\u00ea puser ouro l\u00edquido ali ainda fica mais barato.<\/p>\n<p>Passou-lhe a caneta e Fausto rubricou o documento, em todas as vias. Quando terminou Mefist\u00f3feles lhe cumprimentou:<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem, bem-vindo \u00e0 companhia. Ser\u00e1 um prazer t\u00ea-lo conosco no time. Espero que tudo fique conforme o seu agrado. Agora, por favor, me desculpe, mas tenho de me retirar, nesse exato momento tenho um ocultista carioca que j\u00e1 foi letrista de rock me evocando e eu sinto que ali vai ser algo grande.<\/p>\n<p>E Fausto ficou sozinho em casa, com suas contas, e sem perceber nada de mudado em sua vida.<\/p>\n<p>Semanas depois, no entanto, come\u00e7ou a receber ofertas de in\u00fameros editores. Ofertas com valores bem razo\u00e1veis. Desovou todos os livros que j\u00e1 havia escrito, cada poema. Os contratos lhe renderam uma grana preta. Investiu em a\u00e7\u00f5es e em menos de dois anos, gra\u00e7as a um faro sobrenatural para o risco, havia se tornado um dos maiores milion\u00e1rios do mundo. Tinha um castelo na Bulg\u00e1ria, onde era servido por sete jovens de m\u00e3ozinhas pequenas e sorrisos alvos. Os alde\u00f5es faziam o sinal da cruz ao v\u00ea-lo passar.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia notou que as suas gavetas estavam vazias. E os editores ainda queriam mais. Sentou-se ent\u00e3o para tentar terminar a trilogia e descobriu, espantado, que n\u00e3o tinha nenhuma ideia.<\/p>\n<p>Vinte dias depois, ainda sem conseguir escrever nenhum bilhete, telefonou para Mem\u00ea.<\/p>\n<p>&#8212; O que houve, n\u00e3o consigo escrever nada! At\u00e9 a lista de compras tenho que ditar para a Natasha! E olha que eu at\u00e9 aprendi a falar b\u00falgaro!<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Fausto, voc\u00ea n\u00e3o me disse que tinha lido o contrato?<\/p>\n<p>&#8212; Bem, eu menti!<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o abra a gaveta e leia a sua via, por favor.<\/p>\n<p>E desligou.<\/p>\n<p>Fausto pegou a sua via do contrato e foi prescrutando as infind\u00e1veis causas at\u00e9 que, espantado, parou:<\/p>\n<blockquote><p>\n  CL\u00c1USULA VIG\u00c9SIMA QUARTA \u2013 Em compensa\u00e7\u00e3o pela facilidade para enriquecer que lhe ser\u00e1 proporcionada, o contratado entrega ao contratante a sua originalidade art\u00edstica.<\/p>\n<p>  PARAGRAFO \u00daNICO \u2013 Caso o contato final seja feito por meio  de<br \/>\n  uma chamada a cobrar originada de  telefone m\u00f3vel,  ademais da<br \/>\n  originalidade o contratado tamb\u00e9m entregar\u00e1 o seu talento.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Como requinte de crueldade, no verso da folha anterior, Mefist\u00f3feles havia rabiscado em sua caligrafia barroca e aljamiada: &#8220;mas pelo menos voc\u00ea vai ficar rico antes.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava concluindo o terceiro volume da tetralogia \u00e9pica sobre uma sociedade secreta ma\u00e7\u00f4nico-judaica-ocultista que se refugiara no Brasil durante a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa. 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