{"id":354,"date":"2011-01-11T18:40:00","date_gmt":"2011-01-11T21:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=354"},"modified":"2017-11-02T14:09:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:19","slug":"nada-demais-so-a-chuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/nada-demais-so-a-chuva\/","title":{"rendered":"Nada Demais, S\u00f3 a Chuva"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Publicado em 1999 na Revista da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Escritores, \u00e9 um dos pontos altos de minha primeira fase depressiva e pessimista (1994\u20131998) e deve ter sido, provavelmente, escrito em come\u00e7os de 1998.<\/div>\n<p>As gotas de chuva eram pouco para vencer o calor que se empo\u00e7ara na cidade prematuramente em nosso agosto, subia um vapor queixoso e sibilante dos canteiros ainda n\u00e3o inteiramente encharcados e Berenice cruzava a pra\u00e7a sem guarda-chuva.<\/p>\n<p>Eu estava em um ponto de \u00f4nibus, rec\u00e9m-sa\u00eddo de meu dia de trabalho e n\u00e3o me confortava nada a certeza de que aquela chuva de sexta-feira prometia durar a noite toda. Ela chegou ao meu abrigo com o corpo suado, chuva escorrendo pelos cabelos e o lindo rosto moreno brilhando de calor. Percebeu a insist\u00eancia com que eu observava e entre dois sorrisos lamentou a chuva depois de toda uma semana seca e opressiva de calor. Eu comentei a minha teoria particular de que estatisticamente chove mais entre a tarde de sexta-feira e a manh\u00e3 de domingo do que durante todo o resto da semana, acrescentado a poss\u00edvel conspira\u00e7\u00e3o do mundo contra a possibilidade de eu vir a ter um fim-de-semana perfeito.<\/p>\n<p>Finalmente ela desarmou-me apresentando a sua teoria particular de que os homens se dividiriam em duas categorias: os de manteiga \u2014 que n\u00e3o saem de casa quando est\u00e1 quente \u2014 e os de a\u00e7\u00facar \u2014 que n\u00e3o saem quando est\u00e1 chovendo. Quando eu tentei abrir a boca para tentar criar algum conhecimento entre n\u00f3s, ela interrompeu-me dizendo que seu \u00f4nibus chegara e entrou nele t\u00e3o depressa que eu mal tive tempo de dizer-lhe um &#8220;tchau&#8221; t\u00e3o t\u00edmido que ela nem ouviu.<\/p>\n<p>\u00c0 noite eu a vi, por imenso acaso, sentada com outras pessoas em um bar, de dentro do meu carro ouvindo o tamborilar das gotas grossas eu pensei por tempo demais se deveria retornar \u00e0quela rua e tentar entrar na vida dela: quando tomei a decis\u00e3o era j\u00e1 tarde demais e n\u00e3o estavam mais l\u00e1. Sem o que fazer, sentei-me ao balc\u00e3o com um chope e uma n\u00f3doa de solid\u00e3o no sorriso que eu distribu\u00eda t\u00e3o barato aos poucos conhecidos que passavam. Enquanto aguardava que o destino, ou alguma outra forma de inspira\u00e7\u00e3o, ca\u00edsse sobre mim; a chuva foi descendo o seu peso e a cidade foi morrendo outra noite.<\/p>\n<p>Na agita\u00e7\u00e3o das pessoas que se aglomeravam no \u00fanico local abrigado eu me senti tolhido, solit\u00e1rio no meio duma multid\u00e3o que me ignorava e espremia. Pude v\u00ea-la passar pela avenida dentro de um Passat cinza, mirei-a com olhos famintos mas ela n\u00e3o recebeu minha transmiss\u00e3o de pensamento e nem soube onde eu estava. Abri caminho por um oceano de bra\u00e7os e copos de cerveja afora at\u00e9 romper na cal\u00e7ada vazia, o carro estava parado em frente ao bar seguinte. Corri at\u00e9 l\u00e1 rabiscando na capa de meu tal\u00e3o de cheques o n\u00famero do meu telefone, mas antes que eu chegasse a alcan\u00e7ar a janela o carro saiu, jogando \u00e1gua em mim.<\/p>\n<p>E o s\u00e1bado foi uma flor amarga que nasceu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em 1999 na Revista da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Escritores, \u00e9 um dos pontos altos de minha primeira fase depressiva e pessimista (1994\u20131998) e deve ter sido, provavelmente, escrito em come\u00e7os de 1998. As gotas de chuva eram pouco para vencer o calor que se empo\u00e7ara na cidade prematuramente em nosso agosto, subia um vapor queixoso e sibilante dos canteiros ainda n\u00e3o inteiramente encharcados e Berenice cruzava a pra\u00e7a sem guarda-chuva. 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