{"id":3542,"date":"2017-04-01T15:41:17","date_gmt":"2017-04-01T18:41:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3542"},"modified":"2017-11-02T14:07:54","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:54","slug":"terceira-encruzilhada-no-caminho-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/04\/terceira-encruzilhada-no-caminho-da-esquerda\/","title":{"rendered":"Terceira Encruzilhada no Caminho da Esquerda"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Texto apresentado ao <a href=\"https:\/\/entrecontos.com\/category\/folclore-brasileiro\/\">Desafio Entre Contos &#8220;Folclore Brasileiro&#8221;<\/a>.<\/div>\n<p>Hoje voc\u00eas me dizem que eu estou em seguran\u00e7a e tudo parece ter sido um sonho. Assim me dizem sempre que essas coisas acontecem. Hoje est\u00e1 tranquilo, madrinha, mas n\u00e3o quero visitas, estou doente ainda, quero rem\u00e9dios e n\u00e3o quem me teste a paci\u00eancia e diga que estou corado e bonito. Para essas coisas tive a minha m\u00e3e, que Deus a tenha. Agora quero \u00e9 a miseric\u00f3rdia de Deus e tentar parar com esses sumi\u00e7os.<\/p>\n<p>Disseram-me que estive sumido muito tempo, que me acharam nos matos poucos dias depois da P\u00e1scoa, com barba e banho de muitas semanas, picado de insetos, quase morto de tanta ferida. Disso n\u00e3o lembro. Dizem os m\u00e9dicos que vou lembrar, depois que melhore. Enquanto isso, por favor me alcance aquele copo de leite quente porque passou um frio dentro de mim. Mas se o exerc\u00edcio da cabe\u00e7a faz bem para o corpo tamb\u00e9m, conforme diz Dr. Juvenal, ent\u00e3o vamos seguir espremendo as lembran\u00e7as. Se eu voltar a sentir frio, pede outro copo de leite quente, que a minha boca ainda est\u00e1 muito inchada para mastigar.<\/p>\n<p>Madrinha, s\u00f3 sei que queria muito encontrar a diaba, mesmo numa quinta-feira virando para sexta, pecando contra Deus. N\u00e3o me tenha raiva, madrinha, fam\u00edlia \u00e9 fam\u00edlia e rabicho \u00e9 rabicho. O homem vai atr\u00e1s do que confunde, n\u00e3o do que explica. As maravilhas da vida est\u00e3o no que vem entre as linhas e depois do ponto final. Ent\u00e3o eu queria a Filipa. Nunca fui de andar pela opini\u00e3o alheia, essa coisa de assombra\u00e7\u00e3o eu nunca levei a s\u00e9rio, porque s\u00f3 existe o que Deus permite. Mas eu dizia que n\u00e3o me bastava aparecer em noites combinadas para fazer o que Deus n\u00e3o quer \u2014 eu queria chegar de surpresa, tirar a limpo a mal\u00edcia da gente. Era sexta-feira de tarde e eu sa\u00ed dizendo que ia \u00e0 cidade por amor de missa. O mundo \u00e9 grande demais para as pernas das velhas seguirem as dos mo\u00e7os.<\/p>\n<p>Lembro que desci de sua casa aos pinotes e sem olhar para tr\u00e1s, talvez de vergonha, correndo at\u00e9 risco de quebrar perna, n\u00e3o quis ver a senhora me olhar com aquela cara de quem sabe aonde o pecado est\u00e1. Montei depressa, esporeei o cavalo e prometi que voltava outro dia.<\/p>\n<p>Ela tem uma outra casa na matinha da Serra, perto da cachoeirinha. Ningu\u00e9m se atreve muito por l\u00e1: as macegas est\u00e3o altas, os barrancos s\u00e3o um perigo e a terra n\u00e3o tem nem fruta que preste. O \u00fanico caminho \u00e9 o trilho dos animais. L\u00e1 que a gente se encontrava nas noites de pecado, madrinha.<\/p>\n<p>Acima da primeira subida, com o cavalo j\u00e1 cansado, a estrada estava seca e os cascos do animal batiam no fofo da poeira e levantavam nuvens amarelas, correndo f\u00e1cil e leve. Meia l\u00e9gua adiante, por\u00e9m, ele passou a pisar torto e bamboleou dos quartos. Passei a primeira encruzilhada, e logo a segunda. A estrada passava pela beira do morro, o rio correndo embaixo num chiado gostoso e do outro lado os fogos das casas eram como estrelas na noite preta \u2014 mas n\u00e3o haveria noite preta de ter estrelas, era lua cheia e a estrada logo seria um tapete entre pastos e mato.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 terceira encruzilhada e tive o primeiro arrepio de medo, quando lembrei o que a madrinha diz: o caminho do inferno \u00e9 dif\u00edcil, por isso que o cati\u00e7o vem at\u00e9 n\u00f3s. Mas bateu o primeiro ventinho frio e esqueci. S\u00f3 depois lembrei: quebre a esquerda na terceira encruzilhada de um caminho que pouca gente vai.<\/p>\n<p>O cavalo j\u00e1 conhecia o rumo e n\u00e3o tinha medo. Naquele momento a poeira come\u00e7ou a entrar nas botinas e irritar meu p\u00e9, mesmo eu montado. A tarde j\u00e1 estava nas \u00faltimas luzes e no fundo da paisagem a Ponta de Flecha apareceu no horizonte com a encosta ainda brilhando ao sol das almas. Mais em frente a estrada passou um estreito dedo de luz amarelada que vinha entre as montanhas. Olhei \u00e0 direita e a luz descia devagar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada, arrastada pelo sol que j\u00e1 se deitava nos bra\u00e7os da serra.<\/p>\n<p>A estrada ficou barulhenta, lembrei do lajedo: ent\u00e3o eu tinha de estar j\u00e1 perto, menos de uma l\u00e9gua. Meu p\u00e9 come\u00e7ou a co\u00e7ar por causa da poeira que tinha entrado na botina, e ent\u00e3o o cavalo afrouxou e n\u00e3o teve chute nem varada que o fizesse continuar. Ele j\u00e1 estava t\u00e3o arrega\u00e7ado que come\u00e7ou a cambalear, eu apeei de um susto, para ele n\u00e3o me cair em cima.<\/p>\n<p>Enquanto o cavalo procurava onde se encostar, desci, bati as botinas numa \u00e1rvore e calcei de volta. O cavalo escutou alguma coisa, assustou e disparou pela estrada como se nem cansado. Fiquei de p\u00e9, mas a coceira continuava. Sentei no meio da estrada, tirei as botinas e esfreguei entre os dedos, achei feridos. Levantei de novo e tentei caminhar, mas a cavalgada acelerada tinha posto a minha cabe\u00e7a bamba no pesco\u00e7o, minha vista balan\u00e7ando como uma p\u00e1gina soprada pelo vento.<\/p>\n<p>De repente escutei tamb\u00e9m. Sem vento nas orelhas e sem trote de cavalo para atrapalhar. Bem no horizonte subia a lua, bem cheia e linda. Escutei os cascos, e j\u00e1 bem perto. Primeiro pensei que fosse meu cavalo enlouquecido que voltava, mas logo enxerguei faiscar depois da curva, ainda longe, e isso me devolveu ju\u00edzo. Cheirei o ar, tinha uma rainha da noite perto, obra da provid\u00eancia, seu cheiro doce me adoecia, mas era bem o que Deus me oferecia, eu aceitei.<\/p>\n<p>Prendi o f\u00f4lego, o cora\u00e7\u00e3o batendo no peito como um surdo no carnaval e tentei ouvir o sil\u00eancio entre curiangos e corujas. Vinha exato e r\u00e1pido. Segurei meu grito de medo, saltei de banda e sa\u00ed da estrada, ou melhor, de l\u00e1 ca\u00ed, entre as moitas e espinhos, fui esconder entre a rainha da noite e um taquaral mais abaixo.<\/p>\n<p>Deitado ali, com a alma agarrada entre os dentes e querendo pular da boca, esperei o destino acontecer. O meu cora\u00e7\u00e3o batia depressa, os cascos vinham devagar.<\/p>\n<p>Troc, troc \u2014 como goteira num balde quando a chuva j\u00e1 vai parando, cada vez mais devagar. Mas sem a alegria de trov\u00f5es ficando mais longe.<\/p>\n<p>Troc, troc \u2014 como se o cavaleiro quisesse prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 beira da estrada, talvez soubesse de eu estar l\u00e1. Por que, com mil capetas banguelas, eu me arriscara?<\/p>\n<p>Troc, troc \u2014 cascos infernais batendo no lajeado. A curiosidade, trai\u00e7oeira amante dos desastrados, parecia agarrar-me a cabe\u00e7a e pux\u00e1-la com a for\u00e7a de trezentos bois para eu a levantar e olhar entre os galhos. Mas eu sabia que n\u00e3o devia, que precisava, se poss\u00edvel, bater o cora\u00e7\u00e3o mais baixo, at\u00e9 evitar a l\u00edngua nos dentes para n\u00e3o fazer ru\u00eddo. Qualquer ru\u00eddo.<\/p>\n<p>Troc, troc \u2014 bufado de narinas como um sopro \u00famido na nuca. Cada um de meus sete mil e duzentos pelos do corpo arrepiou e o calafrio desceu as costas, me fazendo contorcer. Confesso que me mijei como uma crian\u00e7a que ouve hist\u00f3ria de fantasma.<\/p>\n<p>Troc, troc \u2014 cascos afastando. Pararam, amea\u00e7aram voltar atr\u00e1s, e eu com meia m\u00e3o dentro da boca para os dentes morderem sem fazer barulho. Um relincho fez alguns passarinhos voarem. Felizes eles, podem voar. Mas nem todos. Alguns ficaram, mortos de medo, como folhas secas.<\/p>\n<p>Troc, troc \u2014 pela escurid\u00e3o que aumentava entendi que o animal se afastava, mas demorou a coragem de me mexer, mesmo depois que aquele vermelho esquisito acabou e eu j\u00e1 teria podido at\u00e9 gritar.<\/p>\n<p>Devo ter ficado horas ali parado, sem dormir e sem mexer. Passei a noite entre cochilos curtos, at\u00e9 que a lua virou no c\u00e9u e eu a vi de frente, j\u00e1 bem descida e pronta para se por. Ent\u00e3o acabou a paralisia e voltei \u00e0 estrada. N\u00e3o sentia mais coceira no p\u00e9 e nem o inc\u00f4modo da botina. Estava melhor que em toda a vida, andando  como anjo pelas nuvens. Com a lua no c\u00e9u a paisagem se abria e vi que estava perto e que a estrada estava marcada pelos rastros do que parecia um cavalo imenso, cujas ferraduras cortaram at\u00e9 a pedra. A estrada desceu at\u00e9 a porteira no caminho da casa. T\u00e3o perto.<\/p>\n<p>Nas montanhas um dedo rosado penetrou as cortinas pesadas da madrugada, lambuzando de luzes delicadas uma franja de c\u00e9u ainda estreitinha, mas confort\u00e1vel, gra\u00e7as a Deus. Um relincho rosnado, o lamento medonho de uma criatura do inferno impactou o ar, como se mil cavalos morressem, e o tropel voltou, na pot\u00eancia de cascos sobrenaturais, pela estrada do outro lado do vale, a estrada que se encontrava na encruzilhada logo em frente da \u00faltima subida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o corri, corri o quanto pude, a cortar atalhos pelo pasto. Cheguei depressa, mais trope\u00e7ando incerto do que seguindo um rumo. Atirei-me no rio para tirar do corpo o cheiro de poeira e da urina, lavei do jeito que deu, e subi pelo meio do pasto. Pelo trilho faltou coragem, s\u00f3 se j\u00e1 tivesse amanhecido.<\/p>\n<p>Passei no varal e recolhi uma manta para me enrolar e espantar o frio e contornei a casa, procurando a tulha para esconder. Ent\u00e3o o tropel chegou ao terreiro pelos fundos, a menos de dez metros! Senti o sangue passar nas minhas veias como barro que uma crian\u00e7a aperta na m\u00e3o. Aguardei com esperan\u00e7a algu\u00e9m desmontar, mas n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o animal espojou e estrebuchou no ch\u00e3o, levantou uma poeira que dobrou a esquina e que apareceu acima do telhado. Quando o ru\u00eddo diminuiu, a curiosidade me chamou. Era por querer ver se era verdade que eu tinha enfrentado a noite de perigo, andando pelas quebradas aonde o homem de bem n\u00e3o deve ir. Mas eu seria um frouxo se voltasse dali.<\/p>\n<p>No terreiro dos fundos, deitada no ch\u00e3o como crian\u00e7a que mal nasceu, e coberta de poeira eu a vi. Aproximei-me sem que me visse. Ela tentou se levantar e estendeu os bra\u00e7os at\u00e9 a porta da casa. Gotas grossas de suor ca\u00edam de seus cotovelos e escorriam pelas suas costas nuas. Com muita dificuldade ela se p\u00f4s de quatro e tentou arrastar-se. Ent\u00e3o me viu pelo canto de um olho e virou devagar na minha dire\u00e7\u00e3o, como se cada m\u00fasculo estivesse no limite.<\/p>\n<p>Ela me olhou, cheia de vergonha e dor, mas n\u00e3o disse nada. Tentou de novo se levantar, mas os joelhos escorregaram na poeira e tinha de usar os bra\u00e7os para se apoiar. S\u00f3 ent\u00e3o me dei conta de que talvez devesse ajudar. Ela se assustou com o meu primeiro movimento. Estremeceu, estendeu um bra\u00e7o em minha dire\u00e7\u00e3o como se quisesse me impedir, mas n\u00e3o teria for\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Posso ajudar? \u2014 S\u00f3 resmungos. Repeti a pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Some daqui \u2014 foi o que, por fim, deu para entender de sua voz rouca.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o sa\u00ed. Eu n\u00e3o tinha ido at\u00e9 ali para voltar antes de saber. Filipa, a mula. Eu via com meus pr\u00f3prios olhos, mas queria ver mais, porque, de um jeito que s\u00f3 se explica por artes do demo, eu n\u00e3o estava com nojo e nem queria ir embora. Filipa, a mula.<\/p>\n<p>Exausta, envergonhada e imunda; ela s\u00f3 queria lavar-se na bica, entrar em casa e esquecer de outra noite a assombrar o mundo. Mas ela cambaleava, apoiou-se no batente da porta, os joelhos ralados se dobraram. Caiu de novo. Cheguei mais perto, abaixei-me e procurei onde segurar. Ela xingou, tentou se debater.<\/p>\n<p>\u2014 Sai daqui! N\u00e3o me rele a m\u00e3o!<\/p>\n<p>Sa\u00ed de perto, mas n\u00e3o fui embora. Ela finalmente conseguiu se arrastar at\u00e9 a bica. Perdeu a vergonha, tratou de se lavar, e eu l\u00e1 olhando. A \u00e1gua fria relaxou, curou um pouco o cansa\u00e7o e o sab\u00e3o lavou um pouco da dor. Na careta dela era imposs\u00edvel enxergar o limite entre a \u00e1gua, a l\u00e1grima e o suor.<\/p>\n<p>Ela saiu da bica, deu-me as costas, fingiu que eu nem estava. Tateou a porta e destravou a tramela.<\/p>\n<p>\u2014 Filipa, posso lhe falar?<\/p>\n<p>Ela me disse alguma coisa em uma voz t\u00e3o rouca e raivosa que tive medo que ela me mordesse ou me escoiceasse se eu entrasse naquela casa. Ent\u00e3o o calor do sol finalmente me tocou e percebi onde estava, que estava nu, que a noite acabara e eu sobrevivera, que um belo novo dia entrava. Mas tamb\u00e9m percebi o fundo de verdade do que o povo dizia, e tive medo daquela sexta feira que come\u00e7ava, da Paix\u00e3o de Nosso Senhor.<\/p>\n<p>Busquei as minhas roupas, vesti-me nelas e sa\u00ed em procura de meu cavalo. Comi dos matos, dormi nas moitas, escondi-me dos bichos. Queria voltar para a casa da madrinha, mas tive a sorte de n\u00e3o conseguir antes da noite. Da\u00ed para a frente eu n\u00e3o me lembro mais de nada.<\/p>\n<p>Deus me livre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto apresentado ao Desafio Entre Contos &#8220;Folclore Brasileiro&#8221;. Hoje voc\u00eas me dizem que eu estou em seguran\u00e7a e tudo parece ter sido um sonho. Assim me dizem sempre que essas coisas acontecem. Hoje est\u00e1 tranquilo, madrinha, mas n\u00e3o quero visitas, estou doente ainda, quero rem\u00e9dios e n\u00e3o quem me teste a paci\u00eancia e diga que estou corado e bonito. Para essas coisas tive a minha m\u00e3e, que Deus a tenha. 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