{"id":366,"date":"2010-12-29T21:06:00","date_gmt":"2010-12-30T00:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=366"},"modified":"2017-11-02T14:09:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:19","slug":"o-tesouro-de-sergio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/12\/o-tesouro-de-sergio\/","title":{"rendered":"O Tesouro de S\u00e9rgio"},"content":{"rendered":"<p>Eu sou dos que n\u00e3o sentiram nunca pelo S\u00e9rgio nenhuma afei\u00e7\u00e3o especial. Na verdade eu pouco menos que o desprezava desde que o conheci. Mal lhe dava motivos para chamar-me de amigo. Mas ele me chamava assim, talvez por falta de verdadeiros.<\/p>\n<p>Era seu jeito auto-suficiente o que mais me indignava. N\u00e3o era dado a intimidades, raramente sabia dizer palavras simp\u00e1ticas e parecia que tinha prazer em desdenhar de tudo.<\/p>\n<p>Mas aos poucos foi-se consolidando entre n\u00f3s um certo tipo de amizade que a conviv\u00eancia adensa. Na faculdade n\u00e3o havia como evitarmos um ao outro: a mesma sala, os mesmos vinte e poucos colegas. Isso p\u00f4de nos fazer achar que \u00e9ramos semelhantes.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o tempo passou e muita coisa saiu dos eixos. Ele largou o curso no meio sabe Deus porque e foi correr atr\u00e1s de seus sonhos, enquanto eu me tornava professor. Alguns anos depois nos reencontramos: eu ia para a escola onde dava doze aulas semanais no curso noturno e ele vinha pela rua com uma caixa de ferramentas.<\/p>\n<p>Breves palavras e nos informamos de nossas situa\u00e7\u00f5es. Ele agora trabalhava como eletricista em ocasionais biscates. E trabalhava tamb\u00e9m em uma loja de material el\u00e9trico. Tinha tamb\u00e9m umas casas que recebera de heran\u00e7a e cuja renda era o que realmente mais lhe sustentava. Em resumo: n\u00e3o morria de fome, mas n\u00e3o havia ido nem \u00e0 metade da dist\u00e2ncia que sonhara ir. Triste fim de um sonhador: viver de alugu\u00e9is e de um subemprego.<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es um temperamento inquieto acaba resvalando para o \u00e1lcool. E S\u00e9rgio sempre tivera predile\u00e7\u00e3o por aditivos. Enquanto eu achava que estava tudo bem, naquela tarde ele fora despedido por chegar mais uma vez embriagado.<\/p>\n<p>Fiquei realmente preocupado por S\u00e9rgio no dia em que me contaram essa hist\u00f3ria, semanas depois. Pensei nos muitos anos em que n\u00e3o nos v\u00edramos. \u00c0s vezes uma pessoa se perde pela aus\u00eancia dos amigos.<\/p>\n<p>Senti uma ponta de remorso por n\u00e3o ter nunca lhe dado a aten\u00e7\u00e3o que talvez esperasse de algu\u00e9m. E nisso resolvi procur\u00e1-lo para lhe dar, talvez, algum apoio. Mesmo temendo que ele apenas achasse que mais um ia tripudiar de sua desgra\u00e7a. Reservei para isso uma de minhas manh\u00e3s de Domingo. Assim n\u00e3o atrapalhava o andamento normal de meus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Desci do \u00f4nibus j\u00e1 com a sensa\u00e7\u00e3o do dever cumprido e o encontrei sentado \u00e0 mesa em um bar ao p\u00e9 do morro.<\/p>\n<p>&#8212; Ol\u00e1, S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>Pelo seu h\u00e1lito e por sua voz eu podia jurar que ainda n\u00e3o tomara o caf\u00e9-da-manh\u00e3, mas havia uma catinga de \u00e1lcool em seu bafo e ele tinha um copo de cerveja na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ol\u00e1, quem \u00e9?<\/p>\n<p>E virou-se para dizer algumas palavras que ele imaginava serem ofensivas a uns velhinhos que jogavam sinuca no fundo. O problema \u00e9 que, b\u00eabado, ele xingava em calabr\u00eas, l\u00edngua de seus pai, da\u00ed resultando que ningu\u00e9m se ofendia porque ningu\u00e9m o conseguia compreender.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o lembra de mim, da faculdade?<\/p>\n<p>Ele me fixou uns olhos aturdidos:<\/p>\n<p>&#8212; Ah, Gato-Preto! Quanto tempo, hem?<\/p>\n<p>Por um momento eu me lembrei porque eu o havia detestado tanto a princ\u00edpio. O maldito apelido\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o eu venho te fazer uma visita e voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 em casa, seu safado. Ouvi dizerem que voc\u00ea mora mais aqui nesse boteco que l\u00e1 em cima!<\/p>\n<p>Ele revirou os olhos, cambaleando, e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Acho que eu n\u00e3o estou me sentindo bem!<\/p>\n<p>E desabou de qualquer jeito na cal\u00e7ada. Todo mundo perto se manteve im\u00f3vel, exceto por alguns sorrisos e algumas provoca\u00e7\u00f5es. Tive ent\u00e3o de tomar a iniciativa de ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Em m\u00e1 hora, pois a conta n\u00e3o estava paga e os trocados que ele levava no bolso n\u00e3o eram suficientes para isso. Para evitar mais problemas, usei seus seis reais e cinquenta centavos e ajudei a levar aquele corpo magro e precocemente enrugado pela ladeira acima at\u00e9 a casinha em que vivia.<\/p>\n<p>Ao chegarmos eu o estendi em sua cama desarrumada, tapei o nariz para evitar o cheiro do banheiro recentemente usado e n\u00e3o t\u00e3o recentemente limpo e sa\u00ed enfastiado dali.<\/p>\n<p>Bela visita! Linda perda de tempo numa manh\u00e3 de domingo ver um sujeito esticado como um submarino em sua cama roncando e babando!<\/p>\n<p>Dei uma r\u00e1pida olhada nos c\u00f4modos, todos pouco e mal mobiliados, poeira se acumulando pelos cantos e um cheiro entranhado nas paredes. &#8220;\u00c9, parece mesmo que o S\u00e9rgio est\u00e1 na pior. Melhor que eu visite de vez em quando para dar uma for\u00e7a ou as coisas podem piorar ainda mais.&#8221;<\/p>\n<p>Na sala havia uma pequena escrivaninha com uma m\u00e1quina de escrever e um ma\u00e7o de papel-of\u00edcio, uma estante velha com muitos e desordenados livros e uma televis\u00e3o a cores que parecia nem funcionar mais de t\u00e3o antiga.<\/p>\n<p>A lixeira estava quase cheia de folhas amassadas que excitaram a minha curiosidade. Desamassei uma ao acaso e nela encontrei esbo\u00e7os de poemas bem melhores que as minhas t\u00edmidas tentativas. Verificando com mais aten\u00e7\u00e3o o conte\u00fado daquela e das outras lixeiras da casa encontrei mais dezenas de p\u00e1ginas com muita coisa a meu ver bastante boa que estava a caminho do dep\u00f3sito de lixo municipal. &#8220;Que desperd\u00edcio de talento! Esse cara escreve tudo isso e joga fora!&#8221;<\/p>\n<p>A\u00ed passou pela minha mente o malvado pensamento de me apropriar daquilo que nada lhe custara e que t\u00e3o facilmente descartava. Com algum esfor\u00e7o eu poderia introduzir modifica\u00e7\u00f5es bastantes para atestar minha autoria sem p\u00f4r a perder inteiramente o pulso vibrante ali contido.<\/p>\n<p>Olhei para um lado e para o outro e n\u00e3o havia ningu\u00e9m fiscalizando minhas inten\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o entesourei minha coleta em um insuspeito envelope pardo que havia numa prateleira e me preparei para sair, deixando S\u00e9rgio entregue \u00e0 ressaca.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o eu percebi que havia sido vigiado. A janela da sala se abria quase rente ao limite da posse e dava para o quintal vizinho, onde estava uma mulher que me fitava. Era e teria os seus vinte e sete, vinte e oito anos. Seus cabelos eram escuros, compridos, lisos, brilhantes, pesados. E ca\u00edam sobre seus ombros, densos e impenetr\u00e1veis.<\/p>\n<p>Seus olhos eram muito negros e muito vivos e me penetravam acusadoramente. Ela sorriu quando a olhei fazendo aparecerem numerosos dentes muito brancos e grandes e se aproximou da janela com um passo t\u00e3o resoluto que parecia estar vindo me matar e perguntou-me sem nenhuma timidez:<\/p>\n<p>&#8212; Aconteceu alguma coisa com o S\u00e9rgio?<\/p>\n<p>&#8212; Ele resolveu beber at\u00e9 cair.<\/p>\n<p>&#8212; De novo! Coitado! Ele tem estado t\u00e3o estranho.<\/p>\n<p>&#8212; Ele faz isso sempre?<\/p>\n<p>&#8212; Desde que se mudou para c\u00e1, deve fazer um ano mais ou menos. De onde o conhece?<\/p>\n<p>&#8212; Da faculdade.<\/p>\n<p>&#8212; Pobre coitado. O que ser\u00e1 que o leva a viver assim?<\/p>\n<p>&#8212; Desde que o conhe\u00e7o ele tem um certo gosto pela bebida. Mas beber at\u00e9 se arrastar pelo ch\u00e3o \u00e9 coisa nova.<\/p>\n<p>&#8212; Mas \u00e9 uma pena. Um homem de tanto talento n\u00e3o devia se deixar cair tanto.<\/p>\n<p>Sorri por dentro ao perceber na voz da mulher uma ponta de atra\u00e7\u00e3o por S\u00e9rgio. O ano de vizinhan\u00e7a n\u00e3o fora bastante para que percebesse as n\u00edtidas tend\u00eancias homossexualidade que havia nele. Um incerto sentimento de pena passou por minha mente diante desta constata\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pude deixar de pensar que era meu dever desiludi-la, mas diretamente.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e9rgio \u00e9 o tipo que n\u00e3o tem amigos nem amores.<\/p>\n<p>&#8212; Eu percebi, ele \u00e9 muito mais arredio que o normal\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Ele sempre foi grosso mesmo. Me surpreende at\u00e9 que ele tenha deixado que voc\u00ea ficasse sabendo o seu nome.<\/p>\n<p>A essa altura, passada j\u00e1 a impress\u00e3o de que ela vira alguma coisa digna de aten\u00e7\u00e3o em minha conduta altamente suspeita, convencido de que ela nem mesmo se lembraria depois de ter me visto sair com um envelope pardo na m\u00e3o, pedi-lhe licen\u00e7a, fechei a janela e sa\u00ed. Chamei-a \u00e0 porta da rua e ela veio, andando com uma eleg\u00e2ncia de sambista. Os volumosos seios tripudiavam de minha timidez, mas n\u00e3o consegui pensar em nada para dizer de imediato, n\u00e3o antes de ela j\u00e1 haver dito que sentia muito ver S\u00e9rgio naquele estado e que seria bom para ele que os amigos aparecessem com mais frequ\u00eancia. Fui sincero ao dizer que realmente pretendia voltar para v\u00ea-lo. Mas acrescentei que, embora S\u00e9rgio fosse um bom escritor, pelo menos aos meus olhos n\u00e3o era um bom sujeito.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tenha tanta pena dele. Foi a sua pr\u00f3pria m\u00e3o que cavou esta situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e1. Ele n\u00e3o \u00e9 flor que se cheire. Sempre mal-educado, mal-agradecido e enrustido em si mesmo. Nenhuma amizade duradoura, nenhum relacionamento amoroso, nada aguenta. Ele parece que tem sempre uma vontade enorme de aparecer e de humilhar os outros.<\/p>\n<p>O brilho foi se apagando de seus olhos enquanto eu falava. Eu previa que o efeito de minhas palavras seria negativo, mas tamb\u00e9m sabia que n\u00e3o valia a pena passar por her\u00f3i. As mulheres n\u00e3o amam aos her\u00f3is, apenas aceitam ser salvas por eles para poderem voltar a amar homens comuns ou vil\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; Ele n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o sem amigos como voc\u00ea diz &#8212; havia uma amargura e uma bem n\u00edtida recrimina\u00e7\u00e3o em seu tom de voz &#8212; ele tem a mim. Se lhe \u00e9 t\u00e3o custoso vir ajudar um semelhante, deixe que eu fa\u00e7o isso!<\/p>\n<p>&#8212; Escute o que estou dizendo. Se lhe estender a ele vai bater nela, se lhe der as costas ele aproveitar a chance de enfiar o punhal.<\/p>\n<p>E tomando discretamente o &#8220;meu&#8221; envelope, despedi-me e sa\u00ed levando um tesouro.<\/p>\n<p>Originalmente escrito em abril de 2003. Publicado em <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.leopoldina.com.br\/~jggouvea\/?n=ContosAntigos.OTesouroDeSergio\">24\/06\/2007<\/span>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sou dos que n\u00e3o sentiram nunca pelo S\u00e9rgio nenhuma afei\u00e7\u00e3o especial. Na verdade eu pouco menos que o desprezava desde que o conheci. Mal lhe dava motivos para chamar-me de amigo. Mas ele me chamava assim, talvez por falta de verdadeiros. Era seu jeito auto-suficiente o que mais me indignava. N\u00e3o era dado a intimidades, raramente sabia dizer palavras simp\u00e1ticas e parecia que tinha prazer em desdenhar de tudo. 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