{"id":367,"date":"2010-12-28T22:01:00","date_gmt":"2010-12-29T01:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=367"},"modified":"2017-11-02T14:09:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:19","slug":"a-menina-que-gostava-de-ouvir-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/12\/a-menina-que-gostava-de-ouvir-historias\/","title":{"rendered":"A Menina Que Gostava de Ouvir Hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p>Gabriela era uma menina comum, filha de pais bem comuns, que morava numa casa bem comum numa cidade qualquer. Como quase todas as meninas ela gostava muito de hist\u00f3rias e n\u00e3o passava uma noite sem pedir que seu pai ou sua m\u00e3e lhe contassem uma antes de dormir.<\/p>\n<p>Infelizmente os pais de Gabriela n\u00e3o sabiam muitas hist\u00f3rias. Eles eram pessoas ocupadas e sem paci\u00eancia, passavam seus dias trabalhando e reclamando da vida &#8212; n\u00e3o tinham muito tempo para divertir-se e muito menos para ler livros e aprender hist\u00f3rias. Por causa disso foram muitas as noites em que Gabriela teve de dormir sem hist\u00f3ria, ouvindo hist\u00f3ria repetida, ou tendo de contentar-se com uma historinha sem gra\u00e7a qualquer.<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>Mas Gabriela era uma menina estudiosa e logo aprendeu a ler. Quando percebeu que j\u00e1 sabia juntar as letras e formar palavras ela ficou muito curiosa para saber o que havia escrito nos livros que enchiam as prateleiras da biblioteca da escola. Ah, eram tantos livros! com capas feias ou bonitas, com p\u00e1ginas branquinhas ou amareladas, cada um contendo uma ou muitas hist\u00f3rias!<\/p>\n<p>A partir desse dia Gabriela come\u00e7ou a ler os livros da biblioteca. Todo dia ela voltava para casa com algum debaixo do bra\u00e7o e s\u00f3 o devolvida depois de ter lido tudo, tudinho. Come\u00e7ou com os livros fininhos, que tinham hist\u00f3rias curtinhas e muitas figuras. Depois come\u00e7ou a pegar livros mais grossos, que tinham menos espa\u00e7o desperdi\u00e7ado com figuras e muito mais hist\u00f3ria para ler. Quando Gabriela chegou na quinta s\u00e9rie j\u00e1 tinha lido quase todos os livros da biblioteca.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela j\u00e1 estava grandinha e foi transferida para outra escola. Nessa escola havia uma biblioteca maior, com muito mais livros. Gabriela andou por entre as imensas estantes de a\u00e7o, cheias at\u00e9 n\u00e3o caber mais, e pensou: &#8220;vou ter que ler cada vez mais depressa para ter tempo de ler isso tudo at\u00e9 a oitava s\u00e9rie&#8221;\u2026<\/p>\n<p>E assim ela come\u00e7ou. Todos os dias ela pegava dois livros, lia o mais grosso \u00e0 tarde e deixava o outro para a noite, antes de dormir. Havia alguns que eram t\u00e3o grossos que era preciso duas tardes de leitura, mas Gabriela n\u00e3o tinha problemas com isso: quando o livro era bom ela sempre ficava triste quando a hist\u00f3ria acabava, pois n\u00e3o tinha nenhuma gra\u00e7a ler de novo, cada livro ficava como uma alegre lembran\u00e7a que nunca mais seria vivida.<\/p>\n<p>Com o tempo ela percebeu que os melhores livros nem sempre eram os mais bonitos, percebeu tamb\u00e9m que n\u00e3o eram s\u00f3 os livros de hist\u00f3rias que eram bons de ler. Havia tamb\u00e9m livros de v\u00e1rias mat\u00e9rias que eram t\u00e3o bem escritos que faziam o estudo virar um prazer: foi assim que ela aprendeu a Hist\u00f3ria do Mundo, que descobriu como \u00e9 o universo, como surgiu e evoluiu a vida, como funciona o corpo humano. Essas hist\u00f3rias eram t\u00e3o boas quanto os romances de capa-e-espada e os contos de fadas.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m alguns livros de hist\u00f3rias que eram diferentes dos outros, pois contavam hist\u00f3rias que haviam acontecido mesmo, alguns tinham at\u00e9 as fotos das pessoas que haviam vivido a hist\u00f3ria. Esses eram geralmente livros tristes, que nem sempre tinham um final feliz &#8212; mas Gabriela gostava de ler hist\u00f3rias que tinham acontecido, porque assim ela sentia que o mundo real tamb\u00e9m era interessante.<\/p>\n<p>Um dia ela achou que n\u00e3o havia mais nada interessante na biblioteca para ler e ficou triste. Foi a\u00ed que ela percebeu, l\u00e1 no alto e no cantinho da \u00faltima prateleira, um livro que parecia ser muito velho, mas que ela nunca tinha visto antes. &#8220;Deve ser alguma doa\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; ela pensou. E fez quest\u00e3o de ler.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que o livro n\u00e3o tinha t\u00edtulo na capa, e nem por dentro. N\u00e3o tinha nome do autor, nem \u00edndice, nem endere\u00e7o de editora. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha n\u00fameros nas p\u00e1ginas e nem estava dividido em cap\u00edtulos. A hist\u00f3ria come\u00e7ava no alto da primeira p\u00e1gina ap\u00f3s a capa e continuava at\u00e9 o \u00faltimo espa\u00e7o da \u00faltima p\u00e1gina. Ou pelo menos era o que parecia, pois Gabriela n\u00e3o deixou de pensar que poderiam estar faltando p\u00e1ginas, tanto no come\u00e7o quanto no fim.<\/p>\n<p>As letras eram letras grandes, maiores que os tipos dos outros livros, mas menores que as letras dos livros para crian\u00e7as pequenas. Eram letras estranhas, que \u00e0 primeira vista n\u00e3o pareciam diferentes das letras de livros comuns, mas cada vez que voc\u00ea olhava de novo era como se percebesse um detalhe diferente. Era como se cada letra fosse diferente da outra, faltando um ponto ou sobrando, com uma curva diferente, uma perna mais comprida ou algum defeito do papel deformando um canto. Parecia at\u00e9 que algu\u00e9m havia caprichosamente desenhado \u00e0 m\u00e3o cada palavra daquele livro estranho e sem figuras.<\/p>\n<p>Gabriela tentou folhe\u00e1-lo para ver o que havia por dentro, mas n\u00e3o conseguiu. As p\u00e1ginas eram grossas, \u00famidas, meio mofadas ou afetadas pela poeira. Grudavam-se, eram pesadas, algumas pareciam definitivamente pregadas nas outras ou at\u00e9 com dobras n\u00e3o cortadas. Como se o livro nunca tivesse sido lido ou como se tivesse ficado fechado por muitos anos. &#8220;E como deve ser triste, quando se \u00e9 um livro, ficar tanto tempo fechado, sem passar pelas m\u00e3os de ningu\u00e9m, sem contar sua hist\u00f3ria a nenhum leitor&#8221;.<\/p>\n<p>Gabriela foi at\u00e9 a entrada para registrar o empr\u00e9stimo. A bibliotec\u00e1ria lhe sorriu e lhe deu boa-tarde e Gabriela foi embora feliz, levando o livro.<\/p>\n<p>Em casa ela passou toda a tarde lendo. A hist\u00f3ria era do tipo que prendia mesmo. Cada p\u00e1gina aparecia outro personagem &#8212; ou sa\u00eda algum da hist\u00f3ria de alguma forma. Parecia que eram muitos os personagens principais, tantos que Gabriela logo come\u00e7ou a perder a conta de seus nomes. A hist\u00f3ria era cheia de voltas, idas e vindas. Diferentes hist\u00f3rias que se cruzavam a todo o momento e depois se separavam de novo. Falava de uma terra estranha onde havia uma rainha vi\u00fava e uma princesa solteira que n\u00e3o queria casar. De drag\u00f5es que eram mansos e de fadas que eram m\u00e1s &#8212; e tamb\u00e9m do contr\u00e1rio. De tanta coisa que Gabriela tinha de parar para pensar e organizar-se.<\/p>\n<p>Os dias seguintes foram dias de aventura. A hist\u00f3ria do livro ocupou sua mente quase que sem parar, era como ela nem tivesse mais tempo para a escola ou para amigos. Mas era t\u00e3o bom ler aquela hist\u00f3ria, ouvir falar da l\u00edngua estranha do povo Pt que s\u00f3 conhecia uma vogal e setenta e nove consoantes, ou do povo Ao, cuja l\u00edngua s\u00f3 tinha vogais (trinta e duas). Haviam os pr\u00edncipes ladr\u00f5es e o elefante magro que ensinava o tigre a comer alface &#8212; e tantas outras coisas absurdas que faziam rir. Mas havia tamb\u00e9m coisas tristes demais, mortes e mist\u00e9rios e separa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Gabriela levou exatamente sete dias para ler o livro inteiro, a contar da hora exata em que saiu da biblioteca. No exato momento em que deram nove horas e quarenta minutos da manh\u00e3, durante os dez minutos de intervalo que ela aproveitara nos cinco dias anteriores para continuar a leitura, ela chegou \u00e0 \u00faltima palavra da \u00faltima p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Foi um momento de muita alegria, mas tamb\u00e9m de muita tristeza. Foi como terminar uma tarefa longa, mas foi tamb\u00e9m como parar de fazer a melhor coisa do mundo. O fim da hist\u00f3ria tamb\u00e9m era sem gra\u00e7a. Nada foi resolvido ou terminado. Era como se houvesse mais p\u00e1ginas no livro, muitas mais, mas somente aquelas tivessem sido encadernadas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gabriela se levantou, foi at\u00e9 a biblioteca, mostrou o livro \u00e0 bibliotec\u00e1ria e o p\u00f4s de volta em seu lugar.<\/p>\n<p>Nos dia seguintes ela continuou pensando naquele livro, naquelas hist\u00f3rias desencontradas &#8212; tristes e alegres ao mesmo tempo, naquelas lendas mal contadas. Ent\u00e3o criou coragem e resolveu trocar id\u00e9ias com os colegas. E foi a\u00ed que ela descobriu a coisa mais extraordin\u00e1ria de sua vida: ningu\u00e9m nunca lera aquele livro. Ningu\u00e9m nunca vira o livro na estante da biblioteca. A pr\u00f3pria bibliotec\u00e1ria n\u00e3o soube dizer que livro era: &#8220;Quando vi aquela capa toda amassada eu pensei que fosse um dos livros velhos que foram doados, esses imprest\u00e1veis que a gente ia acabar jogando fora mesmo\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Gabriela teve quase raiva &#8212; &#8220;nenhum livro \u00e9 imprest\u00e1vel&#8221; &#8212; mas estava preocupada demais com o livro em si.<\/p>\n<p>Uma colega lhe disse que o livro era obra do dem\u00f4nio, que ela devia orar e esquecer. Mas a professora de reda\u00e7\u00e3o, que era uma mulher muito doce e que tinha uns olhos enormes e muito negros, muito bonitos, lhe disse algo bem diferente: &#8220;Minha querida, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea? Esse livro \u00e9 voc\u00ea mesma? Esse livro s\u00e3o as hist\u00f3rias de que voc\u00ea gosta, as hist\u00f3rias que voc\u00ea queria que algu\u00e9m tivesse contado. Mas eu vou te falar uma coisa muito bonita: ningu\u00e9m pode contar as suas hist\u00f3rias a n\u00e3o ser voc\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>Gabriela demorou alguns dias para entender. Ela s\u00f3 entendeu numa noite em que estava deitada na cama, sonhando com as hist\u00f3rias do estranho livro, quando de repente percebeu que algumas das hist\u00f3rias de que estava se lembrando eram diferentes das hist\u00f3rias do livro. &#8220;Sim, agora eu sei&#8221; &#8212; pensou Gabriela.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela se levantou, escolheu um caderno bem grosso e uma caneta bem macia. Sentou-se na escrivaninha e come\u00e7ou, devagar e com muito carinho, a contar uma hist\u00f3ria nova, uma hist\u00f3ria sua. Uma hist\u00f3ria que ela queria que tivesse sido contada, mas que ela finalmente percebera que ningu\u00e9m contaria &#8212; a n\u00e3o ser ela mesma.<\/p>\n<p>Originalmente escrito em <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.leopoldina.com.br\/~jggouvea?n=Infantil.AMeninaQueGostavaDeOuvirHistorias\">14\/05\/2007<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriela era uma menina comum, filha de pais bem comuns, que morava numa casa bem comum numa cidade qualquer. Como quase todas as meninas ela gostava muito de hist\u00f3rias e n\u00e3o passava uma noite sem pedir que seu pai ou sua m\u00e3e lhe contassem uma antes de dormir. Infelizmente os pais de Gabriela n\u00e3o sabiam muitas hist\u00f3rias. 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