{"id":370,"date":"2010-12-22T12:29:00","date_gmt":"2010-12-22T15:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=370"},"modified":"2017-11-02T14:09:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:19","slug":"chega-de-anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/12\/chega-de-anjos\/","title":{"rendered":"Chega de Anjos"},"content":{"rendered":"<p>Teobaldo tentava esquecer. Poderia ser na pr\u00f3xima golada de cacha\u00e7a, ou na quinquag\u00e9sima; tinha medo que n\u00e3o fosse nunca. Por via das d\u00favidas, entornava para dentro da goela a d\u00e9cima oitava enquanto ouvia S\u00edlvio Luiz esculachando algum centro avante que perdia um gol: &#8220;Pelo amor dos meus filhinhos, esse at\u00e9 a minha sogra fazia!&#8221; As imagens vacilavam com a interfer\u00eancia da geladeira, o som vacilava com a interfer\u00eancia da gritaria, sua mente vacilava com a interfer\u00eancia de uma arma fria que levava no bolso. Ningu\u00e9m a vira, ningu\u00e9m morrera, ningu\u00e9m morria. Sua vida estava atada ao nada, era uma po\u00e7a estancada, de alma e de h\u00e1litos. Estava sozinho, humilhado e n\u00e3o matava ningu\u00e9m, nem a si mesmo.<\/p>\n<p>O teto do boteco come\u00e7ava a ca\u00e7oar de sua determina\u00e7\u00e3o de derrotar a mem\u00f3ria. Girava em gargarejos s\u00fabitos que empurravam suas costas para tr\u00e1s e o seu queixo para a frente. Como um malabarista Teobaldo tentava mergulhar no negrume da noite et\u00edlica, mas as l\u00e2mpadas teimavam em machucar nos seus olhos a certeza do dia. Ent\u00e3o ouvi, como se fosse uma buzina de trem no meio da cerra\u00e7\u00e3o, a voz gosmenta de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8212; Para com isso, homem. Cacha\u00e7a n\u00e3o d\u00e1 abra\u00e7o para curar chifre de coitado.<\/p>\n<p>Teobaldo braguejou prandindo os pra\u00e7os belo ar, guerendo sogar um gicante gualguer, mas gaiu de guatro no gongreto \u00e1cido e levou uma balda de \u00e1qua vrea na vuza e tesmaiou.<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>Acordou com o rebimbalhar dos sinos de uma ressaca assassina, a sede de um crucificado l\u00e1 pela tarde do segundo dia. Estava encostado na parede de fora do boteco e fedia a muito mijo. Um anjo o contemplava, com olhos esperan\u00e7osos como s\u00e3o os dos mensageiros de Deus. E lhe falou:<\/p>\n<p>&#8212; Teobaldo, homem. Levante-se dessa cal\u00e7ada imunda e v\u00e1 para casa. Tome um banho e tome dignidade. Fazer esse papel n\u00e3o combina com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Teobaldo come\u00e7ou a chorar como crian\u00e7a e teve vergonha de ouvir aquilo. Teve vergonha tamb\u00e9m porque o anjo tinha nojo de seu cheiro enjoativo de enxofre e f\u00f3sforo &#8212; o cheiro de um dem\u00f4nio, ou melhor, cheiro de algu\u00e9m que dormiu na cal\u00e7ada e urinou na cal\u00e7a. Talvez pior, cheiro de algu\u00e9m que sofreu a tro\u00e7a de jovens impiedosos.<\/p>\n<p>Nem mesmo a m\u00e3o ousou erguer. Apoiou-se na parede sentindo-se inferior a tudo, at\u00e9 mesmo \u00e0 cadela de tetas gra\u00fadas e ca\u00eddas que trotava pelo concreto levando a solid\u00e3o de muitas maternidades e as cicatrizes de muita fome. Quando conseguiu se erguer, nem teve coragem de passar as m\u00e3os no rosto. Teve nojo das pr\u00f3prias m\u00e3os. Teve nojo do seu pr\u00f3prio corpo, e tinha uma sede de camelo. Mas n\u00e3o pediu \u00e1gua, n\u00e3o pediu apoio. \u00daltima dignidade que lhe restava: ficar sozinho, ir para casa com as pr\u00f3prias pernas. &#8220;Chega de anjos&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o anjo o seguia, lento e calado, como devem ser esses pestes. N\u00e3o serviam nem para ajudar, e Teobaldo ca\u00eda muitas vezes &#8212; e nem tinha trocados no bolso para um bendito copo de \u00e1gua mineral que aliviaria o inferno. Ver as pessoas bebendo nos bares era como ver o pobre L\u00e1zaro no para\u00edso, t\u00e3o longe e t\u00e3o perto. Ao contr\u00e1rio do rico, morreria sem pedir. O desespero \u00e9 uma coisa para a vida p\u00f3stuma.<\/p>\n<p>Nem sabia se tinha a chave de casa. Ou uma casa ainda. Andava a esmo, talvez estivesse seguindo para um cemit\u00e9rio ou simplesmente acompanhando a cadela, coitada, que s\u00f3 fazia ser o que era por obra de Deus.<\/p>\n<p>Achou-se em frente a um port\u00e3o. O anjo acenou que sim. Mesmo Teobaldo gritando &#8220;suma da minha vida, eu n\u00e3o preciso de nenhum anjo da guarda&#8221;; a criatura permaneceu pr\u00f3xima, apenas cerrou o cenho e maquinou nas m\u00e3os um gesto agitado e rude que rompeu a santidade insincera que manipulava.<\/p>\n<p>O sol estava melhor, a sede tamb\u00e9m &#8212; ele \u00e9 que estava a ponto de morrer ou matar por uma simples garrafa de \u00e1gua com g\u00e1s. E tinha um rev\u00f3lver, a bala era mais cara, mas n\u00e3o salvava sua vida. Apesar disso, covardemente, preferiu entrar em casa; descobrindo que a porta andava aberta, ou fora aberta miraculosamente &#8212; maldito sol matinal.<\/p>\n<p>Foi direto para o banheiro. Beberia \u00e1gua no chuveiro. Para a sede, qualquer \u00e1gua serve. S\u00f3 pensamos em detalhes quando n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de morte. Abriu a torneira fria mesmo, precisava acordar, matar algu\u00e9m, mesmo de terno. Sorveu daquele l\u00edquido clorado, deixou aquele frescor banhar suas orelhas, molhar o seu cabelo, acordar o seu sexo. Perdeu a conta do tempo, felizmente ele n\u00e3o tinha futuro para se preocupar. Felizmente as crian\u00e7as estavam na escola.<\/p>\n<p>S\u00f3 descobriu que estava vestido ainda quando foi se ensaboar. Ouviu o teto rir, lembrando ainda a noite. Quanto \u00e1lcool bebera, puta merda! Era \u00e1lcool ainda ou ficara no c\u00e9rebro alguma sequela? Despir-se molhado \u00e9 uma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Pode ter sido meia hora ou oitenta minutos, poderia ter sido o dia. Mas quando saiu do banheiro n\u00e3o estava mais fedido a mijo, pr\u00f3prio nem alheio, tinha feito a barba, esfregado bicarbonato nos dentes at\u00e9 estragar a escova e raspado meio quilo de saburra da l\u00edngua entorpecida. Penteara o cabelo para tr\u00e1s, como fazia na adolesc\u00eancia, imitando \u00eddolos de um s\u00e9culo partido. Sa\u00edra restitu\u00eddo em alguma dignidade, mas quem tem passado n\u00e3o tem isso: todo mundo j\u00e1 foi besta um dia, e s\u00f3 sofre mais quem foi besta ontem, porque todo mundo ainda lembra. Malditos os que t\u00eam mem\u00f3ria longa, sempre se acha um bosta desses quando voc\u00ea est\u00e1 feliz. O melhor amigo \u00e9 o cachorro que se esquece at\u00e9 dos chutes que voc\u00ea lhe d\u00e1.<\/p>\n<p>Margarida estava sentada \u00e0 mesa da cozinha. Tinha um prato de sopa de fub\u00e1 com alho diante de si &#8212; e um saud\u00e1vel copo de \u00e1gua gasosa, cuja presen\u00e7a por si indicava que a mesa era posta para Teobaldo. &#8220;Meu Deus, sou uma minhoca, um mosquito, uma lombriga&#8230;&#8221; Ali estava Margarida, na cabeceira da mesa, silenciosa com seus olhos enigm\u00e1ticos, po\u00e7os pretos profundos imperme\u00e1veis \u00e0 pesquisa de um desesperado como ele. E Margarida olhava para o jornal do dia, que o carteiro trouxera outra vez. &#8220;Devia cancelar essa merda&#8221;.<\/p>\n<p>Sentou-se na cadeira ao lado. Pegou a colher como se fosse um rev\u00f3lver. Levou sopa \u00e0 boca como se estivesse enfiando uma bala no lobo temporal. Infelizmente a arma fria no bolso da cal\u00e7a era s\u00f3 o telefone m\u00f3vel. E o \u00fanico crime que com ele cometia era ainda ter o telefone de Maria. As orelhas lhe queimavam.<\/p>\n<p>Enquanto sorvia a sopa, em um sil\u00eancio cadav\u00e9rico, via Margarida folheando o jornal, interessada. O ru\u00eddo das folhas sendo viradas soava na cozinha como os remos de Caronte no Estige. Quando virou a \u00faltima folha, antes de Teobaldo virar a \u00faltima colherada, finalmente lhe deu na cara, com aqueles olhos que pareciam redemoinhos de raiva, ou uvas inflamadas.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o dormi essa noite pensando em voc\u00ea, seu bosta!<\/p>\n<p>Teobaldo continuou quieto. Queria que ela o xingasse de cada palavra, que ela pisasse em seus ovos usando um tamanco de madeira, que ela pegasse seu cora\u00e7\u00e3o entre os dedos e espremesse at\u00e9 o m\u00fasculo virar sangue tamb\u00e9m. Queria que ela fosse uma assassina, uma mula-sem-cabe\u00e7a, uma messalina. <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o, aquela in\u00fatil o olhava com uma express\u00e3o amante no rosto, pronta para resignar-se, esperando as explica\u00e7\u00f5es, quaisquer que servissem, querendo resgat\u00e1-lo, reg\u00e1-lo com suas l\u00e1grimas e recuper\u00e1-lo. Ele queria morrer, mas n\u00e3o queria isso, n\u00e3o merecia isso, n\u00e3o queria isso, n\u00e3o merecia isso, repetia isso, estava perdendo de novo o controle. Bebeu o resto da \u00e1gua de um gole s\u00f3, sofreu com isso, continuou quieto.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea n\u00e3o me fala o que est\u00e1 havendo? O que acha que sou, Teobaldo? Acha que sou seu anjo da guarda? Como quer que o ajude se n\u00e3o sei nem o que h\u00e1 com voc\u00ea? Eu o amo, quero ajudar, mas voc\u00ea \u00e9 uma esfinge. Voc\u00ea \u00e9\u2026 um alco\u00f3latra? Que depress\u00e3o o jogou nessa fossa? Voc\u00ea n\u00e3o era assim antes, voc\u00ea nem bebia, voc\u00ea tonteou de beber mart\u00edni na primeira vez que sa\u00edmos, falando coisas engra\u00e7adas. Eu gostava tanto de voc\u00ea daquele jeito simples, mas gosto de voc\u00ea de qualquer jeito, quero poder ajudar voc\u00ea de algum jeito\u2026<\/p>\n<p>As palavras sa\u00edam, meio sem sentido, repetitivas, na lenta imprecis\u00e3o do destempero controlado. Maria lhe vinha \u00e0 cabe\u00e7a: aquela sim, jamais se rastejava por um homem como Margarida lhe fazia. Mas Maria tinha ido embora e ele nem sabia onde jazia. Era Margarida que ali estava, amando-o, implorando apenas que ele permitisse. Mas Teobaldo era um cr\u00e1pula, tinha que ser. Margarida n\u00e3o o merecia, ela precisava odi\u00e1-lo enquanto ainda era tempo, precisava deix\u00e1-lo, destru\u00ed-lo, esquec\u00ea-lo, casar-se com um que n\u00e3o fosse verme, lento, po\u00e7a, lama.<\/p>\n<p>&#8220;Chega de anjos&#8221; &#8212; berrava a sua mente. Mas a boca boboca babava, balbuciava. Repetia-se em colis\u00f5es de consoantes, ou talvez em gaguejar garatujado de algu\u00e9m que n\u00e3o rascunha as frases que diz. Ficava l\u00e1 em sil\u00eancio, possesso, doloroso, querendo Maria e tendo Margarida. Maria, a amada. Margarida a amante. N\u00e3o, amante de Maria, marido de Margarida. Por amor, por dinheiro. Abandonado, uma fuga para o estrangeiro. Ele ali, jogado no sub\u00farbio, joguete de uma mulher como ele, n\u00e3o de uma ex\u00f3tica princesa. O vazio que ficara na sa\u00edda de Maria era uma treva que quase o recobria, que destru\u00eda seu casamento e anestesiava sua vida. Bebia. N\u00e3o porque o \u00e1lcool o chamasse, mas porque morria, ou melhor, porque era o que queria. N\u00e3o buscava torpor, mas o choque, ou um escroque que o cobrisse de pancada durante a anestesia.<\/p>\n<p>Quando finalmente sentiu o efeito do alho nos pulm\u00f5es, o calor do mingau se espalhando pelos intestinos vazios, recobrou os sentidos. Pela terceira vez em dois anos. Estava vazio, mas n\u00e3o estava mais embriagado, s\u00f3 do\u00eda.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o mere\u00e7o isso que voc\u00ea fez comigo, Margarida &#8212; foi o que disse.<\/p>\n<p>&#8212; P-perd\u00e3o &#8212; foi a estranha, t\u00edmida, resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Estou dizendo que eu n\u00e3o sou digno de voc\u00ea!<\/p>\n<p>&#8212; Ah\u2026<\/p>\n<p>Por um momento ele n\u00e3o percebeu. Mas depois teve uma sensa\u00e7\u00e3o de estar olhando para aqueles exerc\u00edcios de xadrez que apareciam no jornal. O sil\u00eancio naquela cozinha continuava cavernoso, s\u00f3 um pouco mais denso. Ouvia-se o jornal estalar sozinho, com o peso do ar que o apertava na mesa. E os olhos de Margarida, mesmo t\u00e3o negros quanto antes, mesmo ainda parecendo po\u00e7os de piche, enigmas esf\u00e9ricos, jabuticabas, todas essas coisas po\u00e9ticas e prec\u00e1rias que se usa para dar dignidade \u00e0 simplicidade de um corpo de carne, prec\u00e1rio e decadente, que abriga esses sonhos nossos, \u00fanica coisa diferente, motivo solit\u00e1rio de existirem versos, ind\u00fastrias, guerras, todas essas coisas grandes e bonitas que duram para depois.<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo est\u00e1 falando, Margarida?<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo est\u00e1 falando, Teobaldo?<\/p>\n<p>Teobaldo levantou da mesa bem devagar. Movendo cada m\u00fasculo t\u00e3o leve que parecia um beija-flor dan\u00e7ando para uma margarida. Dirigiu-se ao quintal dos fundos, deitou na espregui\u00e7adeira e ficou olhando as hortali\u00e7as que cultivava nas horas vagas, o pequeno gazebo de madeira, todo belo de ornamentos, que encomendara ao primo Anast\u00e1cio, que tinha sumido ganhando a vida na Europa com seus entalhes em madeira. Por que diabos gringo gosta tanto de coisas entalhadas em madeira?<\/p>\n<p>Carros passavam pela rua, escondidos pelo muro de quatro metros, monstruosidade de concreto financiada pelo FGTS para consolidar o lar contra os vizinhos. Margarida n\u00e3o saiu com ele. Ficou lavando a lou\u00e7a e o faqueiro na pia da cozinha. De vez em quando ca\u00eda uma faca ou uma colher, coisas que acontecem. Por azar quebrou-se um dos pratos de lou\u00e7a tamb\u00e9m &#8212; justo aquele em que tomara a sopa &#8212; mas era um dos baratos.<\/p>\n<p>O domingo foi escorrendo pelo c\u00e9u acima, esquentando a laje de cimento que forrava o caramanch\u00e3o mal arrumado onde fora o churrasco do casamento de Anast\u00e1cio com Danila, meses antes. Meses antes de partir-se Maria.<\/p>\n<p>Por fim, quando deu fome, quando o sol chegou at\u00e9 a espregui\u00e7adeira, levantou-se dela suado e salvo. A culpa se partira tamb\u00e9m. Maria que se fodesse, a vida era mesmo uma merda, melhor limpar do que deixar que fugisse ao controle. Chegou na cozinha e ainda achou Margarida, coitada, esfregando pratos e talheres. Pelo tempo que passara devia ser a d\u00e9cima vez que esfregava a esponja em cada garfo.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida, tenho pensando num monte de coisas, sabe. E tomei uma decis\u00e3o muito importante hoje.<\/p>\n<p>&#8212; O q\u2026? &#8212; ela nem conseguia terminar a pergunta.<\/p>\n<p>Teobaldo imaginou o que aconteceria. Filmou cada cena do futuro n\u00e3o acontecido. Margarida que abdicara de uma carreira para poder criar os dois filhos, vivendo de pens\u00e3o que ele nem sempre poderia pagar em dia. A casa, heran\u00e7a t\u00e3o afortunada de uma tia, vendida para pagar as custas do desquite, cada um vivendo em seu apartamento. Pensou na barba grisalha que tinha de manter raspada, nos vincos que atrapalhavam a sorrir, nas varizes que rasgariam mapas rodovi\u00e1rios em suas pernas. Futuros dias de pais e m\u00e3es condensando culpas e acusa\u00e7\u00f5es de coisas meio acontecidas. Tudo isso parecia pesadelo. Maria tinha ido embora. Tinha ido tarde, ela que fodesse, a piranha, com todos os frescos estrangeiros que encontrasse, que n\u00e3o voltasse nunca depois de usada e jogada fora, que achasse um que a fodesse bastante para ela n\u00e3o querer mais sair daqueles lugares frios aonde Teobaldo jamais iria. &#8220;Chega de anjos&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Eu entro para os Alco\u00f3licos An\u00f4nimos amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Margarida desprendeu um suspiro imenso e o abra\u00e7ou com for\u00e7a, manchando de espuma de detergente o pijama que ele ainda vestia. &#8220;Chega de anjos&#8221; &#8212; pensou Teobaldo. Deixou-a terminando de guardar a lou\u00e7a e foi assistir alguma coisa na televis\u00e3o. Algum jogo idiota de campeonato estrangeiro (talvez Maria estivesse na arquibancada ao lado de algum afortunado gringo, careca e impotente, exibida como trof\u00e9u, impunemente). Enquanto olhava a tela, resvalava com o olhar a foto da fam\u00edlia, parecendo torta. A semente do diabo, plantada por um curto di\u00e1logo, ribombava em sua mente apenas com uma determina\u00e7\u00e3o quase demente: &#8220;Bentinho era imbecil&#8221;.<\/p>\n<p>E nessa repeti\u00e7\u00e3o a saudade de Maria morria e crescia com for\u00e7a a cren\u00e7a indiscut\u00edvel, de que merecia e queria Margarida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teobaldo tentava esquecer. Poderia ser na pr\u00f3xima golada de cacha\u00e7a, ou na quinquag\u00e9sima; tinha medo que n\u00e3o fosse nunca. Por via das d\u00favidas, entornava para dentro da goela a d\u00e9cima oitava enquanto ouvia S\u00edlvio Luiz esculachando algum centro avante que perdia um gol: &#8220;Pelo amor dos meus filhinhos, esse at\u00e9 a minha sogra fazia!&#8221; As imagens vacilavam com a interfer\u00eancia da geladeira, o som vacilava com a interfer\u00eancia da gritaria, sua mente vacilava com a interfer\u00eancia de uma arma fria que levava no bolso. 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