{"id":375,"date":"2010-12-04T21:49:00","date_gmt":"2010-12-05T00:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=375"},"modified":"2017-11-02T14:09:20","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:20","slug":"antinatal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/12\/antinatal\/","title":{"rendered":"Antinatal"},"content":{"rendered":"<p>A camponesa apertou os l\u00e1bios para proteg\u00ea-los contra o frio, maldizendo-se pela ideia p\u00e9ssima de subir ao alto daquele monte. Puxou para baixo as abas de seu chap\u00e9u de pele de lebre e tratou de esconder a cara morena com a da manta de l\u00e3. Estava uma noite bem pouco am\u00e1vel nas colinas da Gaulan\u00edtide, mas as promessas da bruxa grega a haviam convencido. Sozinha, persistia subindo o monte, apesar da neve que come\u00e7ava a cair a partir daquela altitude. Encontrou ent\u00e3o o in\u00edcio de uns degraus de pedra r\u00fastica, que serpenteavam pelo monte desolado. No cume encontrou um pequeno grupo de pessoas, gregos em sua maioria, todos pesadamente vestidos com peles de animais, que lhes davam uma apar\u00eancia amea\u00e7adora, animalesca.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite, em nome de H\u00e9cate \u2014 pronunciou cuidadosamente uma mulher madura, de cabelos louros e voz dura, cuja pele era quase t\u00e3o clara quanto a dos escravos g\u00e1latas que os romanos ocasionalmente traziam.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite, em nome de Jav\u00e9 \u2014 pronunciou a pobre mo\u00e7a morena, tentando esconder a c\u00e1rie de seu dente da frente com a aba da manta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 de livre e espont\u00e2nea vontade que vens? \u2014 perguntou-lhe um grego corpulento e de nariz largo, cuja voz trovejante intimidava e seduzia.<\/p>\n<p>\u2014 Em nome de Jav\u00e9, digo que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Quem a envia, flor das montanhas? \u2014 novamente perguntou a mulher loura, ditando as s\u00edlabas com uma entona\u00e7\u00e3o arcaizante, que soava estranhamente no ouvido de quem apenas conhecia o koin\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Filomena, a herbalista de S\u00e9foris.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes bem do que se trata a oferta que lhe foi feita?<\/p>\n<p>\u2014 Sei sim.<\/p>\n<p>\u2014 E a aceitas, incondicionalmente?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 E o que buscas em troca do sacrif\u00edcio que far\u00e1s?<\/p>\n<p>\u2014 Que me restaurem a sa\u00fade, para que eu possa ajudar minha pobre m\u00e3e.<\/p>\n<p>A mulher loura fez um gesto para cima, deixando que a manta de l\u00e3 corresse por sobre a pele, revelando nos bra\u00e7os p\u00e1lidos as sombras azuladas de tatuagens. A jovem tremeu e quase saiu correndo, s\u00f3 de pensar nos significados daqueles s\u00edmbolos, t\u00e3o arredondados, t\u00e3o diferentes das letras sagradas. Mas, em vez de desembestar correndo pelo morro abaixo, assustada pelas coisas que via, lembrou-se de seu terr\u00edvel destino e da perspectiva de afast\u00e1-lo. Fincou os p\u00e9s no ch\u00e3o e permaneceu.<\/p>\n<p>O vento frio assobiou com mais for\u00e7a. Os gregos indicaram que terminasse a subida da escada, e ent\u00e3o a fizeram deitar-se numa pedra chata e retangular, que haviam coberto com peles de ovelha costuradas. Quando terminou de deitar-se, enrolaram a pele em torno, abotoando as bordas com broches de ferro. Por fim, ouviu estenderem outra pele, que a isolava de toda luz que pudesse aparecer.<\/p>\n<p>Estava imersa na escurid\u00e3o daquele estranho casulo. Um perfume suave de alm\u00edscar impregnava o ar, disfar\u00e7ando o cheiro cruel do sangue que vez ou outra vertia de suas feridas que n\u00e3o fechavam. Os gregos terminaram de dispor os artefatos nos quatro cantos do altar assim\u00e9trico e declamaram os versos sagrados, enquanto abriam feridas para gotejar de seu sangue nos c\u00e1lices purificados:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 amigo e companheiro dos viajantes da noite, \u00f3 tu que te regozijas no ladrar dos c\u00e3es e no cheiro do sangue derramado, \u00f3 tu que perambulas em meio \u00e0s sombras entre as tumbas, \u00f3 tu que desejas o sangue e trazes o terror aos homens, \u00f3 tu que tens mil faces e as revelas somente ao luar! Contempla favoravelmente nosso sacrif\u00edcio!<\/p>\n<p>Aquela jovem morena teria enlouquecido simplesmente por ouvir essas frases de bocas gentias, mas para benef\u00edcio de sua sanidade elas foram pronunciadas em uma forma t\u00e3o arcaica do grego que bem poderia datar de antes da coloniza\u00e7\u00e3o da H\u00e9lade, tempo em que navios de velas negras partiam de Creta para espalhar o terror no Mediterr\u00e2neo e somente os deuses abissais responderam ao apelo dos argivos, antepassados daqueles que em volta da pedra evocavam as trevas da noite em seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>O vento frio soprou mais forte, parecendo at\u00e9 apagar as chamas das estrelas menores, deixando o c\u00e9u aterrorizado. Dentro das peles firmemente costuradas com agulhas de osso e cordas de nervos e presas com pesados broches de ferro aconteceu uma agita\u00e7\u00e3o sutil, uma fala feminina t\u00e3o abafada que n\u00e3o se podia entender e logo uma como\u00e7\u00e3o muito mais forte e uma voz mais alta, tornada inintelig\u00edvel pelo desespero, e tudo isso redundou numa fren\u00e9tica sucess\u00e3o de espasmos e em um som rouco e indistinto, quase animalesco.<\/p>\n<p>Por fim a agita\u00e7\u00e3o se acalmou, o vento soprou de novo e foi embora, anunciando que o inverno era velho e logo se abriria a primavera. Os gregos soltaram os broches com todo cuidado, desamarraram as cordas de nervos com paci\u00eancia e f\u00e9. Por fim desdobraram as peles e encontraram a jovem morena im\u00f3vel, mas quente. Seus olhos estavam vidrados, mas se moviam imperceptivelmente. Suas m\u00e3os se cruzavam com for\u00e7a sobre o peito e suas pernas entreabertas estavam esticadas como se fossem colunas de pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Acorda, irm\u00e3, pois tudo terminou \u2014 disse a mulher loura.<\/p>\n<p>A jovem mesti\u00e7a de pele morena ainda continuou por alguns instantes ext\u00e1tica ali sobre o altar, tendo no rosto uma express\u00e3o matizada de medo e lux\u00faria. Por fim piscou os olhos e moveu-se, olhando em volta como um c\u00e3o enxotado que tenta novamente buscar migalhas entre os comensais.<\/p>\n<p>\u2014 Calma, irm\u00e3 \u2014 repetiu, ternamente, a sacerdotisa de H\u00e9cate.<\/p>\n<p>\u2014 O que aconteceu comigo!? \u2014 indagou a camponesa das montanhas da Gaulan\u00edtide?<\/p>\n<p>\u2014 Tu te tornaste parte de uma grande obra, e foste imensamente recompensada.<\/p>\n<p>A jovem olhou para as pr\u00f3prias m\u00e3os, que pareciam \u2014 pelo menos \u00e0 luz da lua \u2014 isentas das manchas claras que a estigmatizavam perante seu povo. Se tivesse mirado no espelho teria visto limpos igualmente todos os seus dentes.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 Adonai, o que eu fiz de minha vida!?<\/p>\n<p>Os gregos fizeram um c\u00edrculo em torno dela, reverenciando-a e temendo-a.<\/p>\n<p>\u2014 Terr\u00edvel seja o Fado daqueles que pisarem teu caminho, irm\u00e3 \u2014 declamou um deles.<\/p>\n<p>\u2014 R\u00e1pida seja a Justi\u00e7a contra aqueles que a agravarem, irm\u00e3 \u2014 adicionou um segundo.<\/p>\n<p>\u2014 Abram-se as portas diante de teus p\u00e9s, irm\u00e3 de todos n\u00f3s \u2014 concluiu a sacerdotisa.<\/p>\n<p>O grego de nariz largo trovejou seu vozeir\u00e3o cavernoso pela \u00faltima vez naquela noite, ordenando-lhe que retornasse \u00e0quele mesmo local a cada lua cheia, at\u00e9 n\u00e3o ser mais poss\u00edvel ou necess\u00e1rio. Para sinalizar-lhe a import\u00e2ncia disso, amarrou uma corda em seu tornozelo, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui atamos teu p\u00e9 e o de tua sombra. Voa livremente pelas montanhas, mas n\u00e3o al\u00e9m delas para que nada te impe\u00e7a de retornar nas luas cheias, ou horr\u00edveis ser\u00e3o para ti as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Tendo-a feito ritualmente irm\u00e3 de todos, deram-lhe o nome de Catarina, a purificada, nome esse que somente poderia ser usado na presen\u00e7a da sacerdotisa. E assim, naquela feia noite de fim de inverno setentrional, uma jovem mesti\u00e7a da Gaulan\u00edtide desceu da montanha curada de suas manchas na pele, passou pela col\u00f4nia de leprosos onde estivera t\u00e3o brevemente, e se dirigiu \u00e0 aldeia para pedir um reexame, conforme permitido pela Lei. E assim foi feito, e assim obteve de volta a sua vida.<\/p>\n<p>Duas semanas depois, enquanto mo\u00eda trigo para assar o p\u00e3o, sentiu-se mal. O marido, que tanto festejara o seu retorno, imediatamente reconheceu os sintomas, os enjoos. Deixando-a com as mulheres da casa, tratou de ir \u00e0 estalagem pagar vinho para todos os seus amigos:<\/p>\n<p>\u2014 Eis que Jav\u00e9 me aben\u00e7oa mais da conta, meus amigos. N\u00e3o apenas restaurou a pureza de minha amada esposinha, curando-a da horr\u00edvel lepra, mas tamb\u00e9m permitiu-nos, t\u00e3o r\u00e1pido, a alegria de engendrar uma vida. Sim, amigos, ela est\u00e1 esperando!<\/p>\n<p>Os amigos de Yohanan beberam \u00e0 sua sa\u00fade, desejando que Jav\u00e9 lhe preparasse filho var\u00e3o para finalmente assegurar a descend\u00eancia de sua casa. Yohanan retornou tarde para casa, entorpecido de vinho barato da Galil\u00e9ia, e dormiu pesado como um elefante sobre as imundas almofadas da sala.<\/p>\n<p>Foi no frio dezembro que Hulda deu \u00e0 luz, em parto f\u00e1cil e quase indolor, a um menino ruivo como o pai, dotado de choro feroz e olhos negros, muito negros, que abriam com curiosidade para este mundo cruel. Deram-lhe o nome sagrado de Yehuda, ou Yudah na l\u00edngua do povo, ou ainda Judas na l\u00edngua dos gentios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A camponesa apertou os l\u00e1bios para proteg\u00ea-los contra o frio, maldizendo-se pela ideia p\u00e9ssima de subir ao alto daquele monte. Puxou para baixo as abas de seu chap\u00e9u de pele de lebre e tratou de esconder a cara morena com a da manta de l\u00e3. Estava uma noite bem pouco am\u00e1vel nas colinas da Gaulan\u00edtide, mas as promessas da bruxa grega a haviam convencido. Sozinha, persistia subindo o monte, apesar da neve que come\u00e7ava a cair a partir daquela altitude. 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