{"id":377,"date":"2010-11-29T12:54:00","date_gmt":"2010-11-29T15:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=377"},"modified":"2017-11-02T14:09:20","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:20","slug":"tropa-de-elite-a-mitificacao-como-arma-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/11\/tropa-de-elite-a-mitificacao-como-arma-de-guerra\/","title":{"rendered":"Tropa de Elite: A Mitifica\u00e7\u00e3o como Arma de Guerra"},"content":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas o Brasil assistiu ao surgimento e ao crescimento do poder paralelo do tr\u00e1fico no Rio de Janeiro, \u00e0 sombra de um coquetel de incompet\u00eancia, indiferen\u00e7a e conveni\u00eancia. Causas que me esquivo de analisar a fundo, mas que os cariocas certamente entendem bem melhor do que eu, que olho de fora e com apenas solidariedade. A derrocada deste poder paraestatal que pareceu, em certo momento, triunfar sobre o Estado \u2014 sentimento magistralmente expresso pelo gaiato que certa vez declarou que \u00abo crime organizado triunfa sobre o governo desorganizado\u00bb \u2014 deu-se no entanto, na esteira de um curioso fen\u00f4meno sociol\u00f3gico que quase ningu\u00e9m ainda percebeu. Do que estou falando? Bem, \u00abtropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, tamb\u00e9m vai pegar voc\u00ea\u00bb.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando o crime organizado rompeu o acordo t\u00e1cito que sempre teve com a imprensa sensacionalista: \u00abn\u00f3s fazemos a not\u00edcia, voc\u00eas fazem o notici\u00e1rio\u00bb. A morte de Tim Lopes sinalizou que os l\u00edderes do narcoestado em gesta\u00e7\u00e3o haviam come\u00e7ado a perceber na imprensa uma fonte de problemas, n\u00e3o mais uma aliada. Se antes os rep\u00f3rteres constru\u00edam as reputa\u00e7\u00f5es de \u00abmalvad\u00f5es\u00bb \u2014 de que tanto gostavam os jovens semianalfabetos e descal\u00e7os que se al\u00e7avam ao poder propelidos pelo v\u00edcio das classes superiores \u2014 agora ela passava a incomodar, \u00e0 medida em que expunha os excessos a que os baronetes do t\u00f3xico haviam chegado, em sua ditadura sobre as vidas dos habitantes das localidades onde haviam se instalado. Tim Lopes morreu para mostrar que a favela n\u00e3o era um lugar pitoresco \u2014 ao contr\u00e1rio do que d\u00e9cadas de pol\u00edticos conciliadores e ONGs escorregadias tentaram fazer ver.<\/p>\n<p>Mais importante do que tudo: Tim Lopes era empregado de um Leviat\u00e3 midi\u00e1tico bem musculoso, embora ferido, as Organiza\u00e7\u00f5es Globo. Sua morte coincidiu com a derrocada definitiva da televis\u00e3o aberta no Brasil, destinada desde j\u00e1 a transformar-se cada vez mais num monturo f\u00e9tido de sobras. A Rede Globo de Televis\u00e3o, cabe\u00e7a deste imp\u00e9rio, precisava buscar outras frentes de expans\u00e3o para precaver-se contra a iminente e inevit\u00e1vel decad\u00eancia de suas receitas de publicidade oriundas deste ve\u00edculo. Neste contexto, a explora\u00e7\u00e3o de novos mercados midi\u00e1ticos j\u00e1 era uma realidade, mas faltava \u00e0 Globo obter o impacto necess\u00e1rio para fincar bandeira.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica do estado do Rio de Janeiro dava sinais de agonizar: nada parecia funcionar, nada parecia adiantar. Nesse cen\u00e1rio de desespero, em que todos pareciam desorientados, especialmente os pobres diabos que conviviam com loucos toxic\u00f4manos tarados armados de AR-15 na vizinhan\u00e7a, era absolutamente imperioso encontrar um her\u00f3i. Melhor ainda se este her\u00f3i, bem na tradi\u00e7\u00e3o do her\u00f3i brasileiro, n\u00e3o fosse um <em>self-made man <\/em>ou um cavaleiro solit\u00e1rio, mas um l\u00edder \u2014 algo de que tanto carece esse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Com a colabora\u00e7\u00e3o dos melhores c\u00e9rebros que o dinheiro pode contratar, com atores globais em profus\u00e3o, aproveitados da geladeira obrigat\u00f3ria por que passam para evitar desgaste de imagem, eis que surge \u00abTropa de Elite\u00bb, o filme que transforma o antes pouco conhecido Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais da pol\u00edcia fluminense em um fen\u00f4meno de m\u00eddia inusitado e in\u00e9dito. \u00abTropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, tamb\u00e9m vai pegar voc\u00ea\u00bb. A mensagem \u00e9 dirigida ao traficante, e tem a inten\u00e7\u00e3o de profecia: um dia a casa vai cair e vai ser o <em>caveira <\/em>que vai dizer \u00abperdeu, playboy\u00bb para o traficante descal\u00e7o e sem camisa, cuja pris\u00e3o emblem\u00e1tica funciona quase como s\u00edmbolo her\u00e1ldico da luta de classes, como express\u00e3o caricatural da subjuga\u00e7\u00e3o do povo pela elite, quando incomodada.<\/p>\n<p>Criado o mito do BOPE como reserva incorrupt\u00edvel dos valores da \u00abboa pol\u00edcia\u00bb e fixada a imagem do Capit\u00e3o Nascimento como verdadeiro super-her\u00f3i brasileiro, a Rede Globo entregou, de bandeja, nas m\u00e3os de um dos poucos governadores competentes que o Rio de Janeiro j\u00e1 teve desde que me entendo por gente, um cartucho de legitimidade para as for\u00e7as da ordem, uma pot\u00eancia que poderia ser usada para terraplenar o crime organizado sem necessidade de ser politicamente correto. O povo carioca queria sangue, estava cansado de dar o pr\u00f3prio sangue e exigia o sangue dos bandidos (mas urina nas cal\u00e7as tamb\u00e9m serviria).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio entrar nos detalhes de cada ato ou de cada pol\u00edtica que foi levada a efeito no Rio de Janeiro desde que o primeiro Tropa de Elite invadiu a cultura de massas com sua mensagem clara de que, para o carioca e para o brasileiro, j\u00e1 bastava, j\u00e1 havia bastado h\u00e1 muito tempo, j\u00e1 havia bastado h\u00e1 muito tempo mesmo, s\u00f3 faltava os pol\u00edticos, esses eternos maridos tra\u00eddos, finalmente conseguirem enxergar, antes que dessem com a verdade como quem d\u00e1 com o nariz na parede. O plano para matar Brizola, que aparece nessa hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 detalhe desimportante: ele significa que \u00e9 necess\u00e1rio matar o legado do caudilho ga\u00facho que introduziu a pol\u00edtica de toler\u00e2ncia com a favela. <\/p>\n<p>Quando Tropa de Elite saiu, alguns articulistas ventilaram na imprensa que o filme tinha uma mensagem fascista. Possivelmente. Mas poucos articulistas ventilaram que o crime organizado que se estabelecia em pseudoestado impunha, tamb\u00e9m, um totalitarismo manco. <\/p>\n<p>Por isso Tropa de Elite 2 foi al\u00e9m do livro e colocou o Capit\u00e3o Nascimento, j\u00e1 grisalho, tentando executar, atrav\u00e9s da pol\u00edtica, o que n\u00e3o pudera executar com um fuzil na m\u00e3o. Mas o poder do crime subornava deputados, ju\u00edzes e sabe deus quem mais. Com o sucesso ainda maior, do segundo filme, ficou bem claro que todos que ventilassem qualquer coisa contra a arremetida inevit\u00e1vel contra o crime s\u00f3 poderiam estar mancomunados. Todos precisavam aplaudir, mesmo que tivessem as m\u00e3os sujas de sangue e o nariz entupido de coca\u00edna.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando enfim, com apoio de blindados e bazucas, de marinha e de ex\u00e9rcito e de aeron\u00e1utica, o BOPE subiu a favela deixando atr\u00e1s de si as crian\u00e7as (em sua inoc\u00eancia) cantando o poderoso refr\u00e3o, n\u00e3o foi inesperado que os \u00abmachos\u00bb do crime mijassem nas cal\u00e7as. Imaginar que dois mil homens treinados para matar est\u00e3o subindo o morro atr\u00e1s de voc\u00ea e que cada vizinho ou conhecido, de oito a oitenta anos, est\u00e1 com o dedo pronto para apontar seu esconderijo deve ser uma das coisas mais desesperadoras que se possa conceber. Tanto assim que o l\u00edder do Afro-Reggae chegou a declarar \u00e0 imprensa que muitos chef\u00f5es do tr\u00e1fico estariam dispostos a render-se, que sabiam que pegariam \u00abcana longa\u00bb, alguns sabiam que at\u00e9 seriam mortos, mas eles pediam apenas que n\u00e3o fossem humilhados. Os fac\u00ednoras se renderiam, at\u00e9 se entregariam \u00e0 morte, diante de apenas a promessa de uma r\u00e9stia de dignidade. Nenhum queria terminar como o Zeu, descal\u00e7o e seminu, com as cal\u00e7as molhadas da pr\u00f3pria urina e um olhar perdido, endurecido de medo, levado morro abaixo por um PM grisalho que tinha idade para ser seu pai. Em algum momento aquele jovem deve ter pensado na figura do pr\u00f3prio progenitor, de cita \u00e0 m\u00e3o, pronto para marcar suas n\u00e1degas de rebelde.<\/p>\n<p>E assim a Rede Globo inspirou, guiu e cobriu um epis\u00f3dio quase orwelliano. Em que pese a necessidade de se destruir o crime, de se pacificar a cidade, de se destronar a ditadura do t\u00f3xico; \u00e9 tamb\u00e9m verdade que esta destrui\u00e7\u00e3o foi mais em ef\u00edgie do que em fato, que ela foi preparada como espet\u00e1culo politicamente correto e funciona como exemplo do poder que Rede Globo ainda tem, apesar do sonho f\u00fatil de grandeza a que a Record aspira apenas. A Globo mostrou que tem o poder de produzir mais do que bord\u00f5es de novela: ela produziu um mito que funcionou como instrumento de um fato hist\u00f3rico. Algum dia os historiadores se referir\u00e3o a este ano de 2010 como o ano no qual um imp\u00e9rio midi\u00e1tico, ofendido em sua honra pela ousadia de matarem um protegido seu, orquestrou fria e meticulosamente, um fen\u00f4meno de massas de grande envergadura que terminou em uma cobertura jornal\u00edstica de um fato real (embora transcrito da fic\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>E ficou o bord\u00e3o, como um mantra a amea\u00e7ar doravante os que ousarem tentar criar outro pseudoestado ou que se opuserem \u00e0 clara hegemonia cultural de que se fala: \u00abTropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, tamb\u00e9m vai pegar voc\u00ea.\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas o Brasil assistiu ao surgimento e ao crescimento do poder paralelo do tr\u00e1fico no Rio de Janeiro, \u00e0 sombra de um coquetel de incompet\u00eancia, indiferen\u00e7a e conveni\u00eancia. 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