{"id":378,"date":"2010-11-26T21:50:00","date_gmt":"2010-11-27T00:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=378"},"modified":"2017-11-02T14:09:20","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:20","slug":"papel-pedra-tesoura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/11\/papel-pedra-tesoura\/","title":{"rendered":"Papel, Pedra, Tesoura"},"content":{"rendered":"<p>Pedra quebra tesoura que corta o papel que embrulha a pedra. \u00c9 sutil que a for\u00e7a bruta da pedra n\u00e3o seja quebrada nem cortada, mas apenas embrulhada. O papel \u00e9 uma entidade poderosa, creiam-me. O papel \u2014 que pode ser uma folha de of\u00edcio, um peda\u00e7o de papel de p\u00e3o ou a desafiadora e ilus\u00f3ria p\u00e1gina eletr\u00f4nica de um blogue \u2014 \u00e9 a verdadeira n\u00eamesis de quem escreve.<\/p>\n<p>Talvez lhes cause algum espanto que o papel seja inimigo do autor, que tanto depende dele para materializar sua obra, mas eu explico. O papel \u00e9 traidor e dissimulado, um verdadeiro corruptor das menores boas ideias. Sob seu jugo milenar n\u00e3o h\u00e1 inspira\u00e7\u00e3o que resista inc\u00f3lume, e nada tem sido feito para impedir isso.<\/p>\n<p>Quando o autor concebe sua obra, ela existe desde j\u00e1, imaterial e imaculada, no terreno da perfei\u00e7\u00e3o. A obra apenas imaginada \u00e9 fluida, coerente, cheia de personagens interessantes, de frases de impacto, de narrativa ajustada, de ritmo adequado. O problema est\u00e1 quando o autor se mete a tentar fixar em letras aquilo que s\u00f3 existe na mat\u00e9ria de que s\u00e3o feitos os sonhos.<\/p>\n<p>A\u00ed come\u00e7a a rebeli\u00e3o da sintaxe, que n\u00e3o se entende com as v\u00edrgulas, as palavras parentes se procuram para fazer sua p\u00e1gina parecer uma sucess\u00e3o de inaparentes repeti\u00e7\u00f5es que entendiam a quem entende. O teclado, este ser detest\u00e1vel, exime-se em retardar a sucess\u00e3o das palavras, em fazer trope\u00e7ar o projeto. A caneta, quando efetivamente escreve, acaba se recusando a desenhar corretamente certas palavras, fazendo com que depois sejam lidas de outra forma imprevista. O texto que aparece no fim \u00e9 uma sombra p\u00e1lida do chamejante edif\u00edcio n\u00e3o verbal que brotara da imagina\u00e7\u00e3o do autor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o pobre art\u00edfice tentar\u00e1 em v\u00e3o marretar as arestas, pintar os arranh\u00f5es, preencher as gretas e botar um vaso de flores na janela. Mas tudo isso sempre ficar\u00e1 pat\u00e9tico se o comparamos \u00e0 pot\u00eancia do que n\u00e3o existe. Por isso a fama das obras perdidas, dos autores perdidos, das mulheres perdidas.<\/p>\n<p>Pensando bem, a delas n\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros, desleixados, ou talvez incapazes de suportar a tortura de sua ideia original no pau de arara da l\u00edngua escrita, abandonar\u00e3o os pobres textos \u00e0 m\u00edngua de carinho, de revis\u00e3o, talvez at\u00e9 de uma simples leitura que permitisse ver que foram numerados dois cap\u00edtulos cinco.<\/p>\n<p>Entre as duas posi\u00e7\u00f5es trafegam tragicamente os autores, com suas cabe\u00e7as cheias de sonhos maravilhosos que nunca ser\u00e3o entendidos por ningu\u00e9m, visto que a mat\u00e9ria dos sonhos s\u00f3 pode aparecer no papel como um borr\u00e3o que aos poucos esfria e muda de cor, perdendo o sangu\u00edneo tom de novidade at\u00e9 se transformar na poeira inerte que s\u00f3 deixa uma n\u00f3doa.<\/p>\n<p>Estes perfeccionistas sofrem mais. Sofrem porque, por mais que se dediquem a limar as rebarbas de suas obras podem um dia, no alto do palco de um concurso, perceber uma horrenda e manquitolante falha de concord\u00e2ncia verbo-nominal no \u00faltimo par\u00e1grafo do texto que o lan\u00e7a para a vida!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedra quebra tesoura que corta o papel que embrulha a pedra. \u00c9 sutil que a for\u00e7a bruta da pedra n\u00e3o seja quebrada nem cortada, mas apenas embrulhada. O papel \u00e9 uma entidade poderosa, creiam-me. O papel \u2014 que pode ser uma folha de of\u00edcio, um peda\u00e7o de papel de p\u00e3o ou a desafiadora e ilus\u00f3ria p\u00e1gina eletr\u00f4nica de um blogue \u2014 \u00e9 a verdadeira n\u00eamesis de quem escreve. 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