{"id":384,"date":"2010-11-10T22:33:00","date_gmt":"2010-11-11T01:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=384"},"modified":"2017-08-12T23:20:17","modified_gmt":"2017-08-13T02:20:17","slug":"o-sarau-do-valdir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/11\/o-sarau-do-valdir\/","title":{"rendered":"O Sarau do Valdir"},"content":{"rendered":"<p>>Texto classificado para a fase final do <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.festivalculturalbb.com.br\/?vis=conteudo.conteudo&amp;conid=25\">II Festival Cultural Banco do Brasil<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mulher, n\u00e3o \u00e9 justo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que n\u00e3o \u00e9 justo, Valdir?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tinha que chover? Justo hoje, agora!?<\/p>\n<p>A mulher deu de ombros, conformada:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Paci\u00eancia. Marque para outro dia.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Como assim? \u00abMarque para outro dia\u00bb? Vendi convites, reservei bar. N\u00e3o d\u00e1 para desmarcar em cima da hora e \u00abmarcar para outro dia\u00bb. Vai ser um fiasco.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o enfrente, homem.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0\u00c9 o que vou fazer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Valdir deixou a mulher em casa com as crian\u00e7as e se enfiou na capa de chuva, abotoou a gola bem firme e botou debaixo do bra\u00e7o o livro de partituras. O viol\u00e3o, esse j\u00e1 ia devidamente ensacado \u00e0s costas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Vai a p\u00e9, Valdir? Olha a chuva que vem a\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Vou sim. Perdido, perdido e meio \u2014 ele respondeu, enigmaticamente.<\/p>\n<p>Afinal, Valdir Jos\u00e9 da Silva, sambista interiorano, paladino da cultura nacional, n\u00e3o teria medo de qualquer chuva. N\u00e3o na noite de lan\u00e7amento do seu disco, gravado ao pre\u00e7o de quase um carro. Tinha de chegar ao bar, talvez houvesse gente \u00e0 espera. Mesmo que n\u00e3o houvesse, tinha de estar l\u00e1.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 rua o cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava apertado. N\u00e3o de medo, mas de decep\u00e7\u00e3o e tristeza. O c\u00e9u coriscava e as nuvens gordas regurgitavam trov\u00f5es e ame\u00e7as. Um ventinho frio soprava do sul. As primeiras gotinhas, ainda leves, ca\u00edam de um c\u00e9u que parecia pronto a rasgar-se num dil\u00favio.<\/p>\n<p>Valdir apertou o passo, pensando nos f\u00e3s que talvez esperassem. Andava apressado, por uma rua imensa de t\u00e3o vazia, povoada de corajosos c\u00e3es que aproveitavam a \u00faltima chance de revirar lixeiras e por est\u00fapidos carros que n\u00e3o sabiam aonde esconder-se. Um rel\u00e2mpago mais forte arrebentou no c\u00e9u, de um canto a outro, trazendo um rugido \u00e1spero. Estava escuro e o ar cheirava a umidade e a el\u00e9trons.<\/p>\n<p>Entrou na Avenida, rezando para o rio n\u00e3o subir com a chuva. Felizmente o rio era grande e vinha de bem longe. Mas a avenida, mesmo assim, virava outro rio se chovesse muito \u2014 e a chuva de ver\u00e3o prometia muita \u00e1gua. Enquanto pensava nisso a tempestade veio, grossa e gelada, batucando nos telhados como um milh\u00e3o de bolinhas de gude, molhando at\u00e9 a alma de quem estava na rua.<\/p>\n<p>Chegou mais triste e molhado que um pinto sem m\u00e3e. Os sapatos vazavam pelas solas que j\u00e1 descolavam, a barra da cal\u00e7a tinha meio metro de uma mancha de umidade escura que esfriava as canelas. Olhou em volta, sentindo a boca amarga como se tivesse andado mastigando boldo: n\u00e3o havia nenhuma viva alma. Estaria, ali\u00e1s, bem contente se houvesse alguma alma morta pelo menos, mas nem isso.<\/p>\n<p>Chovia a ponto de se poder perguntar se algu\u00e9m fizera uma arca. A enxurrada vermelha descia dos morros e afogava a avenida. Carros passavam esguichando \u00e1gua a dois metros de altura, entortando na correnteza. Os coriscos faiscavam de todo lado, transformadores explodiam e as \u00e1rvores loucamente balan\u00e7avam seus bra\u00e7os contra o c\u00e9u. Mas sobre o palco de madeira, calmamente, Valdir Silva desembrulhava seu viol\u00e3o, depositava o livro de partituras e abria o caixote cheio de discos que havia deixado l\u00e1 durante a tarde, ap\u00f3s o \u00faltimo ensaio.<\/p>\n<p>Depois de pigarrear para tentar ouvir o eco no sal\u00e3o vazio, folheou o \u00e1lbum de partituras e achou ali alguma inspira\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou a cantar um cl\u00e1ssico. Cl\u00e1ssicos fazem bem numa hora destas. Toda vez que terminava um verso, ouvia outro trov\u00e3o. Cada hiato trazia um rel\u00e2mpago, cada dedilhado respondia ao chu\u00e1-chu\u00e1 da tempestade. <\/p>\n<p>Valdir chorava. A garganta seguia firme, os dedos n\u00e3o se enrolavam, mas os olhos n\u00e3o aguentavam a decep\u00e7\u00e3o. As cinquenta mesas, cobertas de impec\u00e1vel branco, encaravam, cru\u00e9is, os seus olhos que j\u00e1 come\u00e7avam a empanar com a idade.<\/p>\n<p>Mas a chuva passou, meia hora ou quarenta minutos depois, tempo apenas o suficiente para acabar com o programa. Deixou no ar aquele delicioso cheiro de terra, e de sangue. A enxurrada foi passando, junto com a sexta can\u00e7\u00e3o. A s\u00e9tima encontrou l\u00e1 fora o sil\u00eancio, come\u00e7ando a ser cortado pelos primeiros carros. Valdir parou de cantar, pegou o copo de \u00e1gua mineral, como se estivesse diante de uma grande plateia, e ligou o viol\u00e3o \u00e0 tomada. <\/p>\n<p>O dono do bar se aproximou, t\u00e3o respeitosamente como quem visita um defunto: <\/p>\n<p>\u2014\u00a0Seu Valdir. Se o senhor n\u00e3o se importar, vou abrir para o meu p\u00fablico. O senhor sabe, eles talvez n\u00e3o venham mais\u2026 <\/p>\n<p>Valdir, impotente, assentiu com a cabe\u00e7a. Enquanto o dono do bar se afastava par ir dispensar o servi\u00e7o de portaria e levantar as portas, contemplou as cinquenta mesas, com suas impec\u00e1veis toalhas brancas. Continuou cantando, cada vez com a voz mais branda e o peito mais estreito. <\/p>\n<p>Chegaram alguns fregueses. Desconhecidos que ocuparam a mesa que seria da Ana e do Alfredo, colegas de ag\u00eancia. Chegaram mais pessoas, frequentadores normais do lugar. Sentaram-se na mesa do Jos\u00e9 Carlos e da Rute, vizinhos do pr\u00e9dio. Apareceram estudantes da faculdade, gente que nunca vira, com quem nunca falara. Trataram de juntar as mesas que Valdir tinha reservado para Jurema e Miguel, que tinham uma loja no mesmo pr\u00e9dio em que ele trabalhava de segunda a sexta feira. Valdir cantava para os desconhecidos, consolando-se em ter, pelo menos, quem o ouvisse \u2014 e eles o ouviam, distra\u00eddos, bebendo suas cervejas. <\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel continuar. Mas ele continuava desfiando sambas melanc\u00f3licos de Cartola, Clara Nunes, Paulinho da Viola e Jackson do Pandeiro. L\u00e1 pelas nove e meia, o sal\u00e3o estava quase cheio. Poucos rostos reconhec\u00edveis, nenhum realmente familiar. Todos ocupados com suas conversas e com suas cervejas.<\/p>\n<p>Terminou a d\u00e9cima can\u00e7\u00e3o, ouviu aplausos t\u00edmidos. Come\u00e7ou outra, acompanhada de um ligeiro murm\u00fario. Terminou-a ainda diante de palmas que tinham medo de se ouvir.<\/p>\n<p>O dono do bar se aproximou de novo. Pediu licen\u00e7a do palco. Valdir humildemente curvou a cabe\u00e7a, preparado para ser expulso. Mas quando j\u00e1 se empertigava para empacotar o viol\u00e3o, seus ouvidos o fizeram erguer de novo o rosto:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Amigos, como voc\u00eas sabem pelo cartaz l\u00e1 fora, hoje \u00e9 o lan\u00e7amento do primeiro disco de Valdir Silva, cantor e compositor de nossa terra, que est\u00e1 aqui se apresentando para voc\u00eas e autografando sua obra para os que vieram prestigi\u00e1-lo. O show vai ser interrompido agora para os aut\u00f3grafos, mas ele vai retornar mais tarde para voc\u00eas, se voc\u00eas aplaudirem o suficiente! Agora, aplausos para nosso artista, Valdir Silva!<\/p>\n<p>Aplausos soaram, densos como a chuva. Foi s\u00f3 ent\u00e3o que Valdir se deu conta de que o lugar estava quase cheio. Era a hora em que normalmente o bar abria para o movimento regular. Aquelas pessoas que ali estavam, nenhuma especialmente convidada para assisti-lo em sua grande noite, aplaudiam com a sinceridade dos desconhecidos. Valdir chorava ainda, mas n\u00e3o mais de decep\u00e7\u00e3o ou revolta contra deus e o mundo. Chorava a calma alegria dos desavisados que se surpreendem consigo mesmos.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>>Texto classificado para a fase final do II Festival Cultural Banco do Brasil \u2014\u00a0Mulher, n\u00e3o \u00e9 justo. \u2014\u00a0O que n\u00e3o \u00e9 justo, Valdir? \u2014\u00a0Tinha que chover? Justo hoje, agora!? A mulher deu de ombros, conformada: \u2014\u00a0Paci\u00eancia. Marque para outro dia. \u2014\u00a0Como assim? \u00abMarque para outro dia\u00bb? Vendi convites, reservei bar. N\u00e3o d\u00e1 para desmarcar em cima da hora e \u00abmarcar para outro dia\u00bb. Vai ser um fiasco. \u2014\u00a0Ent\u00e3o enfrente, homem. \u2014\u00a0\u00c9 o que vou fazer. 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