{"id":390,"date":"2010-10-30T21:59:00","date_gmt":"2010-10-31T00:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=390"},"modified":"2017-11-02T14:09:21","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:21","slug":"traducao-uma-voz-na-noite-w-h-hodgson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/traducao-uma-voz-na-noite-w-h-hodgson\/","title":{"rendered":"[Tradu\u00e7\u00e3o] Uma Voz na Noite (W. H. Hodgson)"},"content":{"rendered":"<p>Era uma noite escura e sem estrelas. Est\u00e1vamos em uma calmaria no Pac\u00edfico Norte. Nossa exata posi\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o sei porque o sol estivera oculto, durante toda uma semana cansativa de trabalho, por uma n\u00e9voa fina que parecia flutuar acima de n\u00f3s, pouco acima da altura de nossos mastros, \u00e0s vezes descendo e envolvendo o mar ao redor.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o havia vento, prend\u00earamos o leme e eu era o \u00fanico homem no tombadilho. A tripula\u00e7\u00e3o, que consistia de dois homens e um garoto, dormia em suas cabinas enquanto Will, meu amigo e capit\u00e3o de nossa pequena embarca\u00e7\u00e3o, estava em sua tarimba, a bombordo de sua pequena cabina \u00e0 popa.<\/p>\n<p>De repente, sa\u00eddo da escurid\u00e3o que nos cercava, veio uma sauda\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&mdash; Ol\u00e1, escuna!<\/p>\n<p>O grito foi t\u00e3o inesperado que n\u00e3o lhe respondi de imediato, tanta minha surpresa.<\/p>\n<p>Ele soou de novo &mdash; uma voz curiosamente gutural e inumana, que chamava de algum lugar sobre o mar escuro a bombordo:<\/p>\n<p>&mdash; Ol\u00e1, escuna!<\/p>\n<p>&mdash; Al\u00f4! &mdash; eu declamei, depois de recuperar minha presen\u00e7a de esp\u00edrito &mdash; O que \u00e9 voc\u00ea? O que quer?<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o precisa ter medo &mdash; respondeu a estranha voz, provavelmente por notar algum sinal de confus\u00e3o no tom de minha voz &mdash; eu sou apenas um\u2026 homem\u2026 velho.<\/p>\n<p>A pausa soou fora de lugar, mas foi s\u00f3 depois que eu percebi seu significado.<\/p>\n<p>&mdash; Ent\u00e3o por que n\u00e3o vem a bordo? &mdash; indaguei, um tanto grosseiramente, por n\u00e3o ter gostado de tal sugest\u00e3o de que eu pudesse ter sido assustado, mesmo que s\u00f3 um pouco.<\/p>\n<p>&mdash; Eu\u2026 eu n\u00e3o posso. N\u00e3o seria seguro. Eu\u2026 &mdash; a voz se deteve e houve sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&mdash; O que quer dizer? &mdash; perguntei, mais at\u00f4nito ainda &mdash; Quem n\u00e3o estaria seguro? Onde est\u00e1 voc\u00ea?<\/p>\n<p>Eu ouvi por um momento, mas n\u00e3o veio nenhuma resposta. Ent\u00e3o, movido por uma s\u00fabita e indefinida suspeita de algo que n\u00e3o sabia o que era e que vinha at\u00e9 mim, eu fui rapidamente at\u00e9 a bit\u00e1cula e peguei a l\u00e2mpada acesa. Ao mesmo tempo, bati no tombadilho com o calcanhar para acordar Will. Logo em seguida, eu estava na beirada, derramando o cone de luz amarelada na imensid\u00e3o silenciosa al\u00e9m do parapeito. Ao fazer isso, ouvi um grito baixo, abafado, e depois o som de um chapinhar, como se algu\u00e9m tivesse deitado remos abruptamente. Mesmo assim eu n\u00e3o sei dizer, com certeza, se eu vi alguma coisa, exceto que, ao que me pareceu, com a primeira luz da lanterna havia algo sobre as \u00e1guas, onde pouco depois nada havia.<\/p>\n<p>&mdash; Al\u00f4, voc\u00ea a\u00ed! &mdash; chamei &mdash; que palha\u00e7ada \u00e9 essa?<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 se ouvia os sons indistintos de um bote sendo remado para longe na noite.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ouvi a voz de Will, vinda da dire\u00e7\u00e3o das escotilhas da proa:<\/p>\n<p>&mdash; O que est\u00e1 havendo, George?<\/p>\n<p>&mdash; Vem c\u00e1, Will &mdash; eu disse.<\/p>\n<p>&mdash; O que \u00e9? &mdash; perguntou, atravessando o tombadilho.<\/p>\n<p>Contei-lhe a estranha coisa que acontecera. Ele ent\u00e3o fez v\u00e1rias perguntas e, ap\u00f3s um momento de sil\u00eancio, levou as m\u00e3os aos l\u00e1bios e saudou:<\/p>\n<p>&mdash; Ol\u00e1, voc\u00ea do bote!<\/p>\n<p>De muito longe veio-nos uma resposta quase inaud\u00edvel e o meu colega repetiu seu chamado. Ent\u00e3o, depois de um curto per\u00edodo de sil\u00eancio, come\u00e7ou a crescer em nossos ouvidos o som de remos abafados, e ent\u00e3o Will saudou novamente.<\/p>\n<p>Dessa vez houve uma resposta:<\/p>\n<p>&mdash; Desliguem a luz.<\/p>\n<p>&mdash; O diabo \u00e9 que eu vou\u2026 &mdash; resmunguei, mas Will me convenceu a fazer o que a voz pedia, e eu a ocultei sob a armurada.<\/p>\n<p>&mdash; Vou me aproximar &mdash; ele disse, e o som dos remos continuou. Ent\u00e3o, aparentemente a uma dist\u00e2ncia de doze bra\u00e7as, eles pararam outra vez.<\/p>\n<p>&mdash; Venha para c\u00e1! &mdash; exclamou Will &mdash; n\u00e3o h\u00e1 nada para ter medo aqui a bordo.<\/p>\n<p>&mdash; Promete que n\u00e3o vai mostrar a luz?<\/p>\n<p>&mdash; O que aconteceu com voc\u00ea &mdash; interrompi &mdash; que tem um medo t\u00e3o infernal da luz?<\/p>\n<p>&mdash; Porque\u2026 &mdash; come\u00e7ou a voz, e logo parou.<\/p>\n<p>&mdash; Por que o que? &mdash; logo perguntei.<\/p>\n<p>Will p\u00f4s sua m\u00e3o no meu ombro:<\/p>\n<p>&mdash; Fique em sil\u00eancio, um pouco, camarada &mdash; disse numa voz baixa &mdash; deixa que cuido dele.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se inclinou mais sobre a borda:<\/p>\n<p>&mdash; Veja aqui, senhor &mdash; ele disse &mdash; esse \u00e9 um neg\u00f3cio bem esquisito, voc\u00ea chegar at\u00e9 n\u00f3s desse jeito, bem no meio do bendito Oceano Pac\u00edfico. Como podemos saber que n\u00e3o \u00e9 um tipo de trapa\u00e7a para nos enganar? Voc\u00ea diz que est\u00e1 sozinho. Como vamos saber se n\u00e3o pudermos dar uma olhada, hem? Qual \u00e9 o seu problema com a luz, por falar nisso?<\/p>\n<p>Quando ele terminou, ouvi o ru\u00eddo dos remos outra vez, e ent\u00e3o a voz do homem, mas ent\u00e3o a uma dist\u00e2ncia maior, e soando extremamente desesperada e pat\u00e9tica.<\/p>\n<p>&mdash; Desculpem-me, desculpem-me! Eu n\u00e3o devia ter perturbado voc\u00eas, mas eu s\u00f3 estou faminto, e tamb\u00e9m\u2026 tamb\u00e9m ela.<\/p>\n<p>A voz sumiu, e o som dos remos, irregularmente agitando a \u00e1gua, chegava at\u00e9 n\u00f3s.<\/p>\n<p>&mdash; Pare! &mdash; gritou-lhe Will &mdash; N\u00e3o queremos espantar voc\u00ea. Volta aqui! Vamos ficar com luz abaixada, j\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o gosta dela!<\/p>\n<p>Will se dirigiu a mim:<\/p>\n<p>&mdash; \u00c9 um trato muito esquisito esse, mas eu acho que n\u00e3o h\u00e1 nada do que ter medo?<\/p>\n<p>Havia uma indaga\u00e7\u00e3o em seu tom de voz, e eu respondi:<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o. Eu acho que o pobre-diabo naufragou perto daqui e ficou louco.<\/p>\n<p>O som dos remos se aproximava.<\/p>\n<p>&mdash; Enfia aquela lampa de volta na bit\u00e1cula &mdash; disse Will, e ent\u00e3o se inclinou sobre a amurada e ouviu. Eu recoloquei a l\u00e2mpada e voltei para o seu lado. O bater dos remos parou a cerca de doze jardas de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&mdash; O senhor n\u00e3o vai se aproximar agora? &mdash; perguntou Will, numa voz calma &mdash; pus a l\u00e2mpada de volta na bit\u00e1cula.<\/p>\n<p>&mdash; Eu\u2026 n\u00e3o posso &mdash; repetiu a voz. Eu n\u00e3o ouso chegar mais perto. N\u00e3o ouso nem mesmo pagar-lhes pelas\u2026 provis\u00f5es.<\/p>\n<p>&mdash; Tudo bem &mdash; disse Will, e hesitou. Voc\u00ea pode pegar o quanto quiser levar.<\/p>\n<p>&mdash; Voc\u00eas s\u00e3o muito bons! &mdash; exclamou a voz. Que deus, que a tudo compreende, recompense-os\u2026<\/p>\n<p>E ele parou subitamente de falar.<\/p>\n<p>&mdash; A\u2026 a senhora? &mdash; perguntou Will abruptamente &mdash; ela est\u00e1\u2026?<\/p>\n<p>&mdash; Deixei-a l\u00e1 na ilha &mdash; respondeu a voz.<\/p>\n<p>&mdash; Que ilha? &mdash; perguntei.<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o sei o nome dela &mdash; respondeu a voz &mdash; e queria que Deus\u2026 &mdash; ele come\u00e7ou, mas logo parou de novo.<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o podemos mandar um bote ir busc\u00e1-la? &mdash; perguntou Will nesse ponto.<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o! &mdash; exclamou a voz, com extraordin\u00e1ria \u00eanfase &mdash; Meu Deus, n\u00e3o!.<\/p>\n<p>Houve um momento de pausa e ent\u00e3o ele acrescentou, em um tom que parecia uma reprimenda de si mesmo:<\/p>\n<p>&mdash; Foi por causa de nossa necessidade que me aventurei, pois a agonia dela me tortura.<\/p>\n<p>&mdash; Sou um brutamontes desmemoriado! &mdash; exclamou Will &mdash; Espere um minuto, seja quem for, e j\u00e1 lhe trarei alguma coisa.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois retornou, trazendo uma bra\u00e7ada de comida. Ele parou na amurada:<\/p>\n<p>&mdash; Voc\u00ea n\u00e3o pode vir at\u00e9 junto \u00e0 amurada para buscar? &mdash; ele perguntou.<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o\u2026 eu n\u00e3o ouso &mdash; respondeu a voz, e me parecia que, em sua entona\u00e7\u00e3o, se podia detectar um sinal de desejo reprimido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o entendi que a pobre criatura l\u00e1 na escurid\u00e3o estava realmente sofrendo a falta daquilo que Will tinha em seus bra\u00e7os mas, por algum temor inintelig\u00edvel, se recusava a abordar a nossa escuna e receb\u00ea-lo. E com essa percep\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, veio a no\u00e7\u00e3o de que o Invis\u00edvel n\u00e3o era um louco, mas algu\u00e9m muito s\u00e3o que enfrentava algum horror intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p>&mdash; Foda-se, Will! &mdash; eu disse, cheio de consterna\u00e7\u00e3o e de uma vasta simpatia pelo ser na noite. Busque uma caixa e vamos deixar isso flutuar at\u00e9 ele.<\/p>\n<p>Assim fizemos, propelindo-a para longe do nosso barco, para dentro da escurid\u00e3o, por meio de um gancho.<\/p>\n<p>Em um minuto ouvimos a voz quase inaud\u00edvel do Invis\u00edvel chegar at\u00e9 n\u00f3s, e soubemos que ele apanhara a caixa.<\/p>\n<p>Pouco depois se despediu de n\u00f3s com uma b\u00ean\u00e7\u00e3o t\u00e3o emocionada que tenho a certeza de que nos sentimos muito melhores por causa dela. Ent\u00e3o, sem mais tardar, ouvimo-lo remando atrav\u00e9s da escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&mdash; Muito r\u00e1pido &mdash; observou Will, com uma certa inten\u00e7\u00e3o de ofender.<\/p>\n<p>&mdash; Espere &mdash; respondi &mdash; acho que de alguma forma ele voltar\u00e1. Ele parecia mesmo precisar daquela comida.<\/p>\n<p>&mdash; E a mulher? &mdash; disse Will, parando por um momento em sil\u00eancio, antes de continuar &mdash; \u00e9 a coisa mais esquisita com que trombei desde que comecei a pescar.<\/p>\n<p>&mdash; \u00c9 &mdash; disse, e fiquei pensando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o tempo passou. Uma hora, logo outra, e Will continuava comigo, porque a estranha aventura acabara com toda a sua vontade de dormir.<\/p>\n<p>J\u00e1 se haviam passado quase tr\u00eas quartos da terceira hora quando ouvimos de novo o som de remos no oceano silencioso.<\/p>\n<p>&mdash; Ou\u00e7a! &mdash; disse Will, com uma discreta nota de excita\u00e7\u00e3o em sua voz.<\/p>\n<p>&mdash; Est\u00e1 voltando, como pensei &mdash; eu murmurei.<\/p>\n<p>O bater dos remos foi se aproximando, e notei que o rimo era mais firme e mais amplo. A comida fora bem aproveitada.<\/p>\n<p>Os remos pararam de bater a uma dist\u00e2ncia bem pequena de nossa amurada, e a estranha voz veio forte atrav\u00e9s da escurid\u00e3o:<\/p>\n<p>&mdash; Ol\u00e1, voc\u00eas da escuna!<\/p>\n<p>&mdash; \u00c9 voc\u00ea? &mdash; perguntou Will.<\/p>\n<p>&mdash; Sim &mdash; respondeu a voz. Eu os deixei muito r\u00e1pido, mas\u2026 era porque a necessidade era grande.<\/p>\n<p>&mdash; A mulher? &mdash; perguntou Will.<\/p>\n<p>&mdash; A\u2026 a mulher lhes est\u00e1 muito grata neste momento aqui na Terra. Mas ela lhes ser\u00e1 ainda mais grata dentro em breve\u2026 no C\u00e9u.<\/p>\n<p>Will come\u00e7ou a tentar responder, com uma voz perplexa, mas ficou confuso e parou. Eu n\u00e3o disse nada. Estava a pensar nas curiosas pausas e, al\u00e9m de meu espanto, estava cheio de certa simpatia.<\/p>\n<p>A voz continuou:<\/p>\n<p>&mdash; N\u00f3s\u2026 ela e eu\u2026 n\u00f3s conversamos, enquanto divid\u00edamos o resultado da gra\u00e7a de Deus e da bondade de voc\u00eas\u2026<\/p>\n<p>Will interrompeu, mas incoerentemente.<\/p>\n<p>&mdash; Pe\u00e7o-lhes que n\u00e3o\u2026 n\u00e3o subestimem seu ato de caridade crist\u00e3 esta noite &mdash; disse a voz &mdash; e estejam certos de que este feito n\u00e3o escapar\u00e1 ao julgamento dEle.<\/p>\n<p>Ele parou, e houve um minuto inteiro de sil\u00eancio. Ent\u00e3o come\u00e7ou de novo:<\/p>\n<p>&mdash; N\u00f3s conversamos sobre isso\u2026 isso que nos sobreveio. Pens\u00e1ramos em partir, sem contar a ningu\u00e9m do terror que aconteceu em nossas\u2026 vidas. Ela concorda comigo em que os fatos dessa noite s\u00e3o parte de uma decis\u00e3o especial de Deus, e que ele deseja que contemos a voc\u00eas tudo quanto sofremos desde\u2026 desde\u2026<\/p>\n<p>&mdash; Sim &mdash; perguntou Will, suavemente.<\/p>\n<p>&mdash; Desde o naufr\u00e1gio do Albatroz.<\/p>\n<p>&mdash; Ah! &mdash; exclamei involuntariamente &mdash; Saiu de Newcastle para Frisco uns seis meses atr\u00e1s e n\u00e3o se ouviu falar dele mais.<\/p>\n<p>&mdash; Sim, &mdash; respondeu a voz &mdash; alguns graus ao norte da Linha, ele encontrou uma tempestade terr\u00edvel e perdeu os mastros. Quando o tempo acalmou, percebemos que estava a fazer muita \u00e1gua e ent\u00e3o, por causa da calmaria, os marinheiros pegaram os botes, deixando uma\u2026 uma jovem senhora, minha noiva, e eu, sozinhos no barco.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1vamos no por\u00e3o, pegando alguns de nossos pertences, quando sa\u00edram. Ficaram totalmente insens\u00edveis, por causa do medo e, quando n\u00f3s subimos ao tombadilho, s\u00f3 os vimos como pequenas sombras, ao longe no horizonte. Mesmo assim n\u00e3o perdemos a esperan\u00e7a: fizemos uma pequena jangada e sobre ela pusemos tudo que podia carregar, inclusive uma boa quantidade de \u00e1gua e alguns biscoitos de marear. Ent\u00e3o, j\u00e1 com o navio bem afundado na \u00e1gua, pulamos para a jangada e demos impulso.<\/p>\n<p>Mais tarde observei que parec\u00edamos estar no caminho de algum tipo de corrente, que nos afastava do navio em diagonal, de forma que ap\u00f3s tr\u00eas horas, pelo meu rel\u00f3gio, seu casco ficou fora de nossa vis\u00e3o, embora seus mastros quebrados ainda pudessem ser vistos por um pouco mais. Ent\u00e3o, ao entardecer, ficou nebuloso e continuou assim durante a noite. No dia seguinte ainda est\u00e1vamos envoltos na n\u00e9voa e o tempo continuava calmo.<\/p>\n<p>Por quatro dias flutuamos por entre a estranha bruma, at\u00e9 que, no anoitecer do quarto, come\u00e7amos a ouvir o murm\u00fario de ondas quebrando \u00e0 dist\u00e2ncia. Gradualmente ficou mais claro e, pouco depois de meia-noite, parecia soar tanto a bombordo como a estibordo, e \u00e0 pequena dist\u00e2ncia. A jangada foi erguida por ondas de arrebenta\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes, e ent\u00e3o entramos em \u00e1guas calmas e o barulho das ondas quebrando ficou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Quando amanheceu, descobrimos que est\u00e1vamos em um tipo de grande lagoa, mas s\u00f3 notamos isso depois, porque diante de n\u00f3s, em meio \u00e0quela neblina opressora, assomava o casco de uma embarca\u00e7\u00e3o enorme. No mesmo ato ca\u00edmos de joelhos e agradecemos a Deus, porque imaginamos que tinham acabado os nossos perigos. T\u00ednhamos muito a descobrir.<\/p>\n<p>A jangada aproximou-se do navio e gritamos para que f\u00f4ssemos levados a bordo, mas ningu\u00e9m respondeu. Ent\u00e3o a jangada tocou o lado do navio e, vendo uma corda pendurada, agarrei e comecei a subir. Mas eu tive muito trabalho para subir, por causa de um tipo de fungo ou l\u00edquen que crescera na corda e que tamb\u00e9m manchava o casco do navio.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 amurada e a saltei, pisando o conv\u00e9s. Ali eu vi que o tombadilho estava coberto de grandes manchas de massa cinza, algumas delas criando n\u00f3dulos de metro de altura; mas naquele momento n\u00e3o dei tanta import\u00e2ncia a isso quanto \u00e0 possibilidade de haver gente a bordo. Chamei, mas ningu\u00e9m respondeu. Ent\u00e3o fui at\u00e9 a porta abaixo do conv\u00e9s da popa, e a abri para olhar dentro. Havia um grande cheiro de podrid\u00e3o, de forma que soube no mesmo instante que n\u00e3o havia nada vivo l\u00e1 e, tendo descoberto isso, fechei a porta r\u00e1pido, porque me senti subitamente s\u00f3.<\/p>\n<p>Voltei para o lado de onde tinha subido. Minha\u2026 minha querida ainda estava sentada quieta na jangada. Ao ver-me olhando para baixo ela perguntou se havia algu\u00e9m no navio. Respondi que a embarca\u00e7\u00e3o parecia estar h\u00e1 muito deserta, mas que se ela pudesse esperar, eu procuraria alguma coisa que pudesse servir de escada, para que ela pudesse subir ao conv\u00e9s, a fim de fazermos uma busca completa juntos. Um pouco depois, no lado oposto do conv\u00e9s, achei uma escada de corda. Levei-a ao outro lado e minutos depois ela estava l\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>Juntos exploramos as cabinas e apartamentos da popa do navio, mas em parte alguma havia qualquer sinal de vida. Aqui e ali, at\u00e9 dentro das cabinas, encontramos aquelas manchas incomuns daquele fungo estranho; mas isso, minha querida disse, poderia ser limpo.<\/p>\n<p>Por fim, tendo nos assegurado que a popa do navio estava vazia, nos dirigimos \u00e0 proa, por entre os feios n\u00f3dulos cinzentos daquela infesta\u00e7\u00e3o estranha, e ali fizemos outra busca, que nos mostrou que n\u00e3o havia mesmo ningu\u00e9m a bordo, al\u00e9m de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Como isso estava estabelecido al\u00e9m de qualquer d\u00favida, voltamos \u00e0 popa do navio e come\u00e7amos a tentar nos acomodar como poss\u00edvel. Juntos n\u00f3s desobstru\u00edmos e limpamos duas das cabinas, e depois disso eu investiguei se havia qualquer coisa comest\u00edvel no navio. Isso logo confirmei, e agradeci a Deus por Sua bondade. Al\u00e9m disso, eu descobri uma bomba de \u00e1gua doce e, tendo-a consertado, vimos que a \u00e1gua era pot\u00e1vel, apesar de ter um gosto um pouco desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rios dias ficamos no navio, sem tentar chegar \u00e0 margem. N\u00f3s est\u00e1vamos ocupados tentando fazer o lugar habit\u00e1vel. Mas mesmo assim n\u00f3s logo notamos que nosso lugar era bem menos desej\u00e1vel do que t\u00ednhamos imaginado, pois embora tiv\u00e9ssemos, inicialmente, arrancado todas as manchas de infesta\u00e7\u00e3o que tinham coberto o ch\u00e3o e as paredes das cabines e do sal\u00e3o, elas sempre retornavam, em seu tamanho original quase, no espa\u00e7o de meras vinte e quatro horas, o que n\u00e3o apenas nos desmotivava, mas nos dava uma vaga sensa\u00e7\u00e3o de desconforto.<\/p>\n<p>Mesmo assim n\u00f3s n\u00e3o nos d\u00e1vamos por vencidos e recome\u00e7\u00e1vamos o servi\u00e7o, e n\u00e3o apenas arranc\u00e1vamos os fungos, mas ensop\u00e1vamos os lugares onde eles tinham estado com \u00e1cido carb\u00f3lico, de que eu achara um lat\u00e3o cheio no armaz\u00e9m. Mas, ao final da semana, a infesta\u00e7\u00e3o crescera com toda for\u00e7a e tinha se espalhado para outros lugares, como se ao toc\u00e1-la tiv\u00e9ssemos permitido que seus esporos viajassem pelo ar.<\/p>\n<p>Na s\u00e9tima manh\u00e3, minha querida acordou e achou uma pequena mancha de mofo crescendo em seu travesseiro, bem perto de sua face. Com isso, veio at\u00e9 mim, t\u00e3o r\u00e1pido quanto p\u00f4de se vestir. Eu estava ent\u00e3o na cozinha, acendendo o fogo para o desjejum.<\/p>\n<p>\u201cVem c\u00e1, John\u201d, ela disse, e me levou \u00e0 popa. Quando vi a coisa no seu travesseiro, estremeci e naquele momento e lugar n\u00f3s concordamos em sair do navio e ver se pod\u00edamos achar um lugar melhor em terra.<\/p>\n<p>Rapidamente reunimos nossos poucos pertences e entre eles vi que o fungo estivera trabalhando, pois uma de suas mantilhas tinha uma pequena bolha dele perto da bainha. Atirei a coisa pela amurada sem nem lhe dizer nada.<\/p>\n<p>A jangada ainda estava ao lado, mas era desajeitada de guiar. Ent\u00e3o baixei um pequeno bote que ainda estava na popa e por ele fizemos nossa viagem \u00e0 terra firme. Mas quando nos aproxim\u00e1vamos dela, percebi gradualmente que o fungo maligno, que nos expulsara do navio, ali crescia descontroladamente. Em alguns lugares se erguia em montes fant\u00e1sticos, horr\u00edveis, que pareciam quase se mover quando o vento soprava neles, como se houvesse neles uma silenciosa intelig\u00eancia. Aqui e ali tomava a forma de vastos dedos, e em outra ele se espalhava pelo ch\u00e3o plano, suave e trai\u00e7oeiro. Em outros lugares, parecia \u00e1rvores grotescamente enfeitadas, extraordinariamente curvadas e contorcidas. A coisa toda parecia tremer, maligna, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio nos pareceu que n\u00e3o havia sequer um trecho da costa que n\u00e3o estava escondido pelas massas do horrendo l\u00edquen, mas nisso logo vi que est\u00e1vamos enganados, porque a seguir, margeando a costa a pouca dist\u00e2ncia, discernimos uma mancha clara do que parecia ser areia fina, e ali desembarcamos. N\u00e3o era areia. O que era, eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>O que observei foi que sobre aquilo o fungo n\u00e3o crescia, embora em todo o resto, exceto onde a coisa que parecia areia chegasse, em meio \u00e0 desola\u00e7\u00e3o cinzenta do l\u00edquen, n\u00e3o houvesse nada al\u00e9m de nojentos fungos.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil faz\u00ea-los entender o quanto fiquei feliz de achar um lugar que estava absolutamente livre da infesta\u00e7\u00e3o, e nele depositamos os nossos pertences. Ent\u00e3o n\u00f3s voltamos ao navio para pegar coisas que pareciam necess\u00e1rias. Entre outras coisas, eu consegui trazer \u00e0 margem comigo uma das velas do navio. Com ela constru\u00ed duas pequenas tendas que, embora muito malfeitas, serviam aos prop\u00f3sitos para os quais haviam sido feitas. Nelas vivemos e guardamos nossas posses, de forma que, por um espa\u00e7o de quatro semanas, tudo correu calmamente e sem nenhuma infelicidade. De fato, eu posso at\u00e9 dizer que foi com grande felicidade, porque\u2026 porque ficamos juntos.<\/p>\n<p>Foi no polegar direito dela que a infesta\u00e7\u00e3o apareceu pela primeira vez. Era s\u00f3 um pequeno ponto circular, como uma pequena verruga cinza, meu Deus! Como o medo saltou sobre meu cora\u00e7\u00e3o quando ela me mostrou. N\u00f3s o limpamos, juntos, lavando-o com \u00e1cido carb\u00f3lico e \u00e1gua. Na manh\u00e3 do dia seguinte ela me mostrou sua m\u00e3o outra vez. A coisa verrugosa e cinza voltara. Por um momento n\u00f3s nos entreolhamos em sil\u00eancio. Ent\u00e3o, ainda sem palavras, come\u00e7amos a remov\u00ea-la de novo. No meio da opera\u00e7\u00e3o, ela disse subitamente:<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 isso na sua face, querido?\u201d<\/p>\n<p>A voz dela saiu aguda de tanta ansiedade. Eu levei a m\u00e3o para sentir.<\/p>\n<p>\u201cA\u00ed, debaixo do cabelo, perto de sua orelha. Um pouco mais \u00e0 frente.\u201d<\/p>\n<p>Meu dedo pousou sobre o lugar, e ent\u00e3o eu soube.<\/p>\n<p>\u201cVamos cuidar do seu polegar primeiro\u201d, disse. E ela se submeteu, apenas porque tinha muito medo de me tocar at\u00e9 que estivesse limpo. Terminei de lavar e desinfetar seu polegar, ent\u00e3o ela come\u00e7ou em minha face. Depois que terminamos, sentamo-nos juntos e conversamos um pouco sobre muitas coisas, porque haviam sobrevindo \u00e0s nossas vidas pensamentos s\u00fabitos e verdadeiramente terr\u00edveis. Est\u00e1vamos, de repente, temerosos de algo mais grave que a morte. Falamos em carregar o bote com provis\u00f5es e \u00e1gua e sair para o mar, mas est\u00e1vamos sem esperan\u00e7a, por v\u00e1rias raz\u00f5es, e\u2026 e a infesta\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos atacara. Decidimos ficar. Que Deus fizesse de n\u00f3s o que fosse Sua vontade. Esperar\u00edamos.<\/p>\n<p>Um m\u00eas, dois meses, tr\u00eas meses passaram e os lugares cresceram um pouco, e surgiram outros. Mas n\u00f3s lutamos t\u00e3o incansavelmente por causa do medo que o seu crescimento foi lento, comparativamente falando.<\/p>\n<p>Ocasionalmente nos aventur\u00e1vamos no navio para buscar as provis\u00f5es de que precis\u00e1vamos. Ali notamos que o fungo crescia persistentemente. Um dos n\u00f3dulos no conv\u00e9s principal logo ficou t\u00e3o alto quanto a minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Abandon\u00e1ramos todo pensamento de abandonar a ilha. Compreend\u00earamos que seria inadmiss\u00edvel ir para o meio de humanos s\u00e3os levando a coisa de que sofr\u00edamos.<\/p>\n<p>Com esta determina\u00e7\u00e3o e conhecimento em mente, soubemos que dever\u00edamos cuidar de nossa comida e \u00e1gua, pois n\u00e3o sab\u00edamos, \u00e0quela altura, quantos anos ainda poder\u00edamos viver.<\/p>\n<p>Isso me lembra que lhes disse que sou um velho. A julgar pelos anos isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Mas\u2026 mas\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Ele interrompeu, mas depois continuou, de forma um tanto abrupta:<\/p>\n<p>&#8220;Como dizia, descobrimos que dever\u00edamos usar de economia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comida. Mas n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma ideia de qu\u00e3o pouco restava para economizar. N\u00e3o foi sen\u00e3o uma semana depois que descobri que todos os outros tanques de provis\u00f5es &mdash; que supusera cheios &mdash; estavam vazios e que, a n\u00e3o ser por algumas latas de vegetais e carne e coisas assim, n\u00e3o t\u00ednhamos nada de que depender a n\u00e3o ser o tanque que j\u00e1 t\u00ednhamos aberto.<\/p>\n<p>Depois de descobrir isso, esforcei-me para fazer o que pudesse e comecei a pescar na lagoa, mas sem sucesso. Com isso fiquei um pouco inclinado ao desespero, at\u00e9 que tive a ideia de tentar fora da lagoa, no mar aberto.<\/p>\n<p>Aqui, \u00e0s vezes, eu pego um peixe, mas t\u00e3o raramente que se provaram de pouca utilidade para nos salvar da fome que nos amea\u00e7ava. Pareceu-me, ent\u00e3o, que nossas mortes deveriam ocorrer mais provavelmente por causa da fome do que pela infesta\u00e7\u00e3o da coisa que surgira em nossos corpos.<\/p>\n<p>Pens\u00e1vamos assim quando o quarto m\u00eas passou. Ent\u00e3o fiz uma descoberta horr\u00edvel. Uma manh\u00e3, um pouco antes do meio-dia, voltei do navio com uma por\u00e7\u00e3o dos biscoitos que sobravam. \u00c0 entrada de sua tenda, vi a minha querida sentada, comendo algo.<\/p>\n<p>\u2018O que \u00e9 isso, meu amor?\u2019 Perguntei ao saltar para a praia. Mas, ao ouvir minha voz, ela ficou confusa e, ao voltar-se, sutilmente jogou alguma coisa na dire\u00e7\u00e3o da margem da clareira. Ela caiu perto e uma vaga suspeita me surgira ent\u00e3o fui at\u00e9 l\u00e1 e a recolhi. Era um peda\u00e7o do fungo cinzento.<\/p>\n<p>Quando fui at\u00e9 ela com aquilo na m\u00e3o, ela ficou mortalmente p\u00e1lida e ent\u00e3o vermelha.<\/p>\n<p>Fiquei estranhamente atordoado e amedrontado.<\/p>\n<p>\u2018Meu amor, meu amor!\u2019 eu dizia e n\u00e3o podia dizer mais nada. Mas com as minhas palavras ela se descontrolou e chorou amargamente. Gradualmente, enquanto se acalmava, soube que experimentara no dia anterior e\u2026 e gostara. Fi-la prometer de joelhos que nunca o tocaria outra vez, por maior que fosse nossa fome. Depois da promessa ela me disse que a vontade de com\u00ea-lo aparecera subitamente, e que antes do momento de desejo, nada sentira em rela\u00e7\u00e3o ao fungo, sen\u00e3o a mais extrema repulsa.<\/p>\n<p>Mais tarde naquele dia, sentindo-me estranhamente inquieto e muito abalado pelo que descobrira, eu seguia por um dos sinuosos caminhos formados pela subst\u00e2ncia branca e arenosa que seguia por entre a infesta\u00e7\u00e3o fungosa. Eu j\u00e1 me aventurara uma vez por ali, mas n\u00e3o muito longe. Daquela vez, por\u00e9m, muito distra\u00eddo com um pensamento perturbador, acabei indo mais longe do que antes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a minha aten\u00e7\u00e3o voltou quando ouvi um som estranho e \u00e1spero \u00e0 minha esquerda. Virando r\u00e1pido, vi que havia movimento em meio a uma massa de fungos de formato extraordin\u00e1rio, bem perto de meu cotovelo. Ela se agitava descontrolada, como se possu\u00edsse uma vida pr\u00f3pria. Abruptamente, ao olhar, me sobreveio o pensamento de que a coisa tinha uma semelhan\u00e7a grotesca com a figura distorcida de uma criatura humana. Ao mesmo tempo em que a ilus\u00e3o percorria meu c\u00e9rebro, houve um suave e doentio ru\u00eddo de coisa se rasgando e vi que uma das ramifica\u00e7\u00f5es parecidas com galhos se destacava das massas em torno. A cabe\u00e7a da coisa, uma bola cinzenta e amorfa, inclinou-se em minha dire\u00e7\u00e3o. Fiquei estupefato e o bra\u00e7o maligno percorreu minha face. Dei um grito assustado e retrocedi alguns passos. Havia um sabor adocicado em meus l\u00e1bios, onde a coisa me tocara. Lambi e fui imediatamente preenchido por um desejo inumano. Virei-me e arranquei uma massa do fungo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o mais, e\u2026 mais. Eu era insaci\u00e1vel. Enquanto devorava, a lembran\u00e7a da descoberta da manh\u00e3 apareceu em meu c\u00e9rebro atordoado. Foi enviada por Deus. Eu atirei ao ch\u00e3o o fragmento que segurava. Ent\u00e3o, desgra\u00e7ado e sentindo uma culpa terr\u00edvel, voltei para o acampamento.<\/p>\n<p>Creio que ela soube, por uma intui\u00e7\u00e3o maravilhosa que o amor nos d\u00e1, t\u00e3o logo p\u00f4s os olhos em mim. Sua silenciosa solidariedade tornou mais f\u00e1cil para mim, e lhe contei de meu s\u00fabito fraquejar, mas lhe omiti a coisa extraordin\u00e1ria que houvera antes. Desejava poupar-lhe de todo terror que n\u00e3o fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas a mim mesmo eu adicionara um conhecimento intoler\u00e1vel, que criava um terror incessante em meu c\u00e9rebro, pois n\u00e3o duvidava ter visto o fim de um daqueles homens que chegaram \u00e0 ilha no navio da laguna, e naquele monstruoso fim antevira o nosso pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o evitamos o alimento abomin\u00e1vel, embora a fome dele tivesse entrado em nosso sangue. Mas a nossa l\u00fagubre puni\u00e7\u00e3o estava sobre n\u00f3s, pois dia a dia, com monstruosa rapidez, a infesta\u00e7\u00e3o fungosa tomava conta de nossos pobres corpos. Nada que tent\u00e1ssemos conseguia retir\u00e1-la materialmente e ent\u00e3o\u2026 e ent\u00e3o n\u00f3s, que\u2026 que t\u00ednhamos sido humanos, nos tornamos\u2026 bem, isso importa cada vez menos a cada dia. Somente que\u2026 que fomos um homem e uma donzela.<\/p>\n<p>Cada dia a luta \u00e9 mais terr\u00edvel para resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da fome do terr\u00edvel l\u00edquen. H\u00e1 uma semana comemos o \u00faltimo biscoito e desde ent\u00e3o pudemos pescar tr\u00eas peixes. Estava aqui hoje a pescar quando sua escuna apareceu sobre mim no meio da neblina. Saudei-os. O resto voc\u00eas sabem, e que Deus, do fundo de Seu grande cora\u00e7\u00e3o, aben\u00e7oe-os por sua bondade para com\u2026 um pobre par de almas perdidas.\u201d<\/p>\n<p>Houve o bater de um remo, depois outro. Ent\u00e3o a voz veio outra vez, e pela \u00faltima vez, soando atrav\u00e9s da bruma que nos cercava, fantasmag\u00f3rica e lamentosa.<\/p>\n<p>&mdash; Deus os aben\u00e7oe! Adeus!<\/p>\n<p>&mdash; Adeus! &mdash; gritamos juntos, desajeitadamente, com os nossos cora\u00e7\u00f5es cheios de muitas emo\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o percebi que a aurora surgia sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p>O sol penetrou com um raio solit\u00e1rio o mar oculto, perfurando o nevoeiro precariamente, e brilhou sobre o barco que se afastava com um fogo tenebroso. Indistintamente vi algo balan\u00e7ando entre os remos. Eu pensei em uma esponja &mdash; uma grande e cinzenta esponja que balan\u00e7ava. Os remos continuaram a bater. Eles eram cinzentos assim como o barco, e meus olhos procuraram em v\u00e3o onde era a separa\u00e7\u00e3o entre m\u00e3o e remo. Meu olhar se dirigiu, ent\u00e3o, \u00e0 nuca. Ela se movia para frente quando os remos vinham para tr\u00e1s. Ent\u00e3o os remos bateram, o bote avan\u00e7ou, saindo do raio de luz e a\u2026 coisa, a coisa seguiu balan\u00e7ando atrav\u00e9s do nevoeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma noite escura e sem estrelas. Est\u00e1vamos em uma calmaria no Pac\u00edfico Norte. Nossa exata posi\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o sei porque o sol estivera oculto, durante toda uma semana cansativa de trabalho, por uma n\u00e9voa fina que parecia flutuar acima de n\u00f3s, pouco acima da altura de nossos mastros, \u00e0s vezes descendo e envolvendo o mar ao redor. Como n\u00e3o havia vento, prend\u00earamos o leme e eu era o \u00fanico homem no tombadilho. 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