{"id":392,"date":"2010-10-27T21:19:00","date_gmt":"2010-10-28T00:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=392"},"modified":"2017-11-02T14:09:21","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:21","slug":"inocencia-assassina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/inocencia-assassina\/","title":{"rendered":"Inoc\u00eancia Assassina"},"content":{"rendered":"<p>Jamais compreendi a origem das hist\u00f3rias de fantasmas, embora tenha sempre entendido a vontade, quase necessidade, que o ser humano tem de encontrar no mundo algo que v\u00e1 al\u00e9m do concreto e do absurdo de nossas vidas uniformizadas. Por \u00f3dio \u00e0 rotina \u00e9 que tentamos beirar a transcend\u00eancia, tentamos atingir o &#8220;algo mais&#8221;, romper o cimento cinza que recobre o jardim de inverno e encontrar terra \u00famida, cheia de vida, ali sepulta.<\/p>\n<p>Mas da\u00ed a crer em formas espectrais que vagam pelas noites, sem destino e sem explica\u00e7\u00e3o\u2026 Ah, isso j\u00e1 \u00e9 coisa diferente. \u00c9 f\u00e1cil imaginar Deus, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acreditar em assombra\u00e7\u00f5es sem desligar o c\u00e9rebro. Na qualidade de cientista, sempre me recusei a crer nessas coisas \u2014 na verdade, ainda reluto.<\/p>\n<p>Meu ceticismo, por\u00e9m, ficou menos agressivo de uns anos para c\u00e1. Posso n\u00e3o ter ainda aceitado como reais certas experi\u00eancias que vivi, posso ainda sustentar que foram ilus\u00f5es no meio de uma noite mal dormida, alucina\u00e7\u00f5es de um c\u00e9rebro vitimado por uma contus\u00e3o; mas, como cientista, vejo-me for\u00e7ada a ser imparcial em meu relato. Tenho ainda como quase um dever a rejei\u00e7\u00e3o de tudo isso e preciso seguir na expectativa, quase esperan\u00e7a, de achar uma explica\u00e7\u00e3o materialista. Como ainda n\u00e3o tenho esta explica\u00e7\u00e3o, me limitarei a registrar o que vi. Pode ser que a minha mem\u00f3ria futuramente falhe, levando-me a harmonizar o as coisas com as ideias em que creio, fazendo com que, a longo prazo, a minha viv\u00eancia seja marretada na f\u00f4rma de uma teoria preconcebida. Para evitar isso, narro ainda no calor dos fatos.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou na noite de quinze de abril deste ano. Eu estava acamada com uma gripe mais forte do que o normal e a febre alta me fazia tremer e delirar. Isso me levava ao desespero, pois sou uma mulher sozinha, em uma cidade estranha, e nem sempre os telefones s\u00e3o confi\u00e1veis, por causa da pol\u00edcia tentando espionar subversivos e causando curto-circuitos. Foram horas terr\u00edveis que passei. Horas de enjoos e v\u00f4mitos, vividas com a ajuda f\u00e1cil de um saco de p\u00edlulas subtra\u00eddas da farm\u00e1cia do hospital. Houve instantes em que eu simplesmente ingeria p\u00edlulas ao acaso, sem sequer saber o que estava tomando. Fui irrespons\u00e1vel, fui louca, fui quase uma suicida. Os m\u00e9dicos n\u00e3o s\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que o povo pensa, pessoas dotadas de mais ju\u00edzo. Eles apenas t\u00eam um diploma e uma pose. De resto, sangram, sofrem e enlouquecem como qualquer um.<\/p>\n<p>Na noite de quinze de abril foi que eu comecei a melhorar. O meu nariz descongestionou quase totalmente, a febre baixou a um n\u00edvel suport\u00e1vel e os enjoos pararam definitivamente. Eu ainda me sentia muito fraca por causa de um misterioso sangramento que ocorrera na manh\u00e3 daquele dia, mas tinha tomado dois pratos fundos de sopa de feij\u00e3o com alho e lingui\u00e7a no almo\u00e7o, mais um na janta, e isso tinha ajudado a repor a hemoglobina.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se minha melhora tinha algo a ver com a sens\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o do peso do saco de comprimidos. Sei que eu me sentia estranha, eu quase sentia o meu corpo fora de mim, ou me sentia fora de meu corpo, sei l\u00e1, algo assim. Minhas extremidades estavam dormentes, meus dentes pareciam maiores que a boca, a minha l\u00edngua estava mole e enorme e eu sentia no meu corpo um cheiro forte de cloro e am\u00f4nia, como se eu me tivesse urinado toda e tentado me lavar durante horas usando apenas \u00e1gua, essa \u00e1gua fortemente clorada que vem nos encanamentos.<\/p>\n<p>Deixei a televis\u00e3o ligada e deitei-me escutando o suave cicio das v\u00e1lvulas. Ent\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Acordei tremendo convulsivamente, como se o meu corpo estivesse debatendo-se na agonia da morte. Como peixe fora d\u2019\u00e1gua. Digo &#8220;meu corpo&#8221; porque eu me sentia fora dele, embora sentisse as mesmas coisas que ele e tamb\u00e9m encarasse para a parede com olhos arreganhados. Minhas m\u00e3os estavam agarradas \u00e0 coberta e o colch\u00e3o pulava sobre o estrado como a sela de um cavalo de rodeio. De repente, senti uma m\u00e3o fria tocar a minha nuca. A sensa\u00e7\u00e3o passou de todos os limites do suport\u00e1vel e eu me debatia com todas as minhas for\u00e7as, a ponto de as minhas unhas entrarem na carne da palma da m\u00e3o, a ponto de meus p\u00e9s baterem na madeira da cama. Calafrios sucessivos desciam e subiam pela minha coluna como se algum torturador a estivesse percorrendo com uma pedra de gelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo estive presa neste momento. Talvez minutos, talvez meros segundos. A custo, voltei ao meu corpo e o instru\u00ed a dirigir todas as energias que pudesse ter ao esfor\u00e7o de virar-se para ver o que havia \u00e0s minhas costas. Foi como tentar p\u00f4r de p\u00e9 um caminh\u00e3o tombado, mas finalmente aconteceu.<\/p>\n<p>No momento em que as minhas costas bateram contra o colch\u00e3o, com o peso do corpo de um elefante sedado que cai na savana, eu pude ver, apenas de relance, a imagem fugidia de uma mulher. Ela era alta, branca como arroz e tinha cabelos pretos, avermelhados. Usava algum tipo de roupa negra muito comprida e difusa e estava de p\u00e9 ao lado da cama, parecendo surpresa que eu tivesse conseguido me virar. Assim que a vi ela j\u00e1 n\u00e3o estava mais l\u00e1. Como se nunca tivesse estado.<\/p>\n<p>Por todo o resto daquela noite, estive deitada de costas em minha cama, com um medo at\u00e1vico de pensar em p\u00f4r os p\u00e9s no ch\u00e3o. Senti-me novamente crian\u00e7a, lembrando do tempo em que eu tinha pesadelos nos quais a minha cama era uma jangada num lago cheio de monstros aqu\u00e1ticos, que me veriam e me comeriam se eu me mexesse muito ou se tocasse a &#8220;\u00e1gua&#8221; fora do colch\u00e3o.<\/p>\n<p>Amanheci curada da febre, mas estava p\u00e9ssima como se tivesse bebido todo o rum do Caribe e atravessado o Oceano a bordo de um bote. Certamente era efeito colateral de alguns dos rem\u00e9dios que tinha tomado sem cuidado, ou a soma de v\u00e1rios efeitos colaterais, de associa\u00e7\u00f5es medicamentosas esdr\u00faxulas e perigosas, de qu\u00edmicas misteriosas que meu corpo havia misturado e estava eliminando pelo meu suor.<\/p>\n<p>Logo que me vi de p\u00e9, apesar de toda a &#8220;ressaca seca&#8221; que eu sentia, percebi-me presa a um desejo incontrol\u00e1vel de purifica\u00e7\u00e3o. Abri as janelas do apartamento, lavei-o obsessivamente com \u00e1gua, cloro e sab\u00e3o, tr\u00eas vezes. Lavei at\u00e9 os m\u00f3veis, usando uma espuminha e todo um tubo de detergente. Lavei at\u00e9 as minhas roupas, depois de ferv\u00ea-las como se eu as tivesse roubado de um leproso.<\/p>\n<p>Passei o dia praticamente sem comer e sem companhia. S\u00f3 fui lembrar que ainda era humana e precisava de alimento quando j\u00e1 anoitecia. Carlos tinha me ligado com perguntas gen\u00e9ricas sobre como eu estava e eu fui suficientemente evasiva para n\u00e3o lhe causar escr\u00fapulos. Detesto a ideia de que o interesse possa ser movido pelo remorso. Entendo perfeitamente a necessidade, muito humana, de agredir e fazer sofrer quem nos faz bem: nada \u00e9 t\u00e3o odioso quanto a compaix\u00e3o. Carlos me ligar \u00e0quela altura era uma humilha\u00e7\u00e3o. Se ele tivesse sido insens\u00edvel e me convidado para sair como se nada tivesse acontecido, eu teria achado mais digno da parte dele. Melhor ser um babaca do que um babaca que se acha na obriga\u00e7\u00e3o de ter &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o&#8221;. Mandei Carlos \u00e0 merda ao desligar o telefone e fui fazer sandu\u00edches improvisados, que comi acompanhados de leite gelado e ch\u00e1 mate. E fui dormir bem cedo.<\/p>\n<p>Como a noite de dezesseis de abril transcorreu praticamente sem sustos, foi f\u00e1cil creditar os meus del\u00edrios, especialmente a vis\u00e3o da mulher, a algum tipo de efeito maluco daquele coquetel do inferno que eu havia tomado. Felizmente n\u00e3o tive que enfrentar a apari\u00e7\u00e3o de Carlos. Ao contr\u00e1rio de fantasmas, ele n\u00e3o teria conseguido sair de perto de mim sem pelo menos uma facada na jugular. N\u00e3o naquele dia. Hoje j\u00e1 o perdoei. Quem se vingou, perdoa f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Voltei a trabalhar, apesar do ar de espanto dos colegas. Aqueles putos nunca me haviam aceitado mesmo, sempre haviam visto com desconfian\u00e7a uma mulher bonita, solteira e diplomada. Nesse cu de mundo onde vim parar, tem muita gente que acha que mulher s\u00f3 serve para parir e cozinhar. Eu n\u00e3o sei cozinhar, encomendo marmitas de um restaurante. Eu n\u00e3o quero parir. Sou m\u00e9dica, j\u00e1 botei muito menino no mundo, mas gosto mais de receitar anticoncepcionais do que de fazer partos.<\/p>\n<p>Os dias seguintes foram tranquilos. Minha nova autoestima me ajudou a enfrentar a frieza de alguns de meus &#8220;amigos&#8221; e o ar palerma e calhorda do Carlos, com seu rid\u00edculo escr\u00fapulo de fingir diante de mim que ele e a Aparecida n\u00e3o est\u00e3o noivando para casar. Aparecida n\u00e3o tem diploma, \u00e9 secret\u00e1ria. Ela tem cintura larga, de quem vai parir muito, e gosta de cozinhar. Ela nasceu para fazer as vontades de um macho, ela \u00e9 o que Carlos andava procurando e n\u00e3o achou comigo: eu fa\u00e7o o que quero. Estou sozinha, mas n\u00e3o sirvo de incubadeira para os herdeiros de um filhinho de papai interiorano. N\u00e3o foi para terminar diante do fog\u00e3o que meu pai se sacrificou para me dar esse diploma. Ele me pedia que eu ajudasse a curar as mis\u00e9rias do mundo. Ele achava que a mis\u00e9ria era uma doen\u00e7a. Pobre homem. Talvez o \u00fanico homem que eu realmente amei.<\/p>\n<p>A tranquilidade n\u00e3o durou, por\u00e9m. Dia seis de maio tive outra reca\u00edda da febre, inexplicavelmente. Fiz uma s\u00e9rie de exames, nenhum indicando qualquer altera\u00e7\u00e3o no meu sangue. Comecei a ficar preocupada, mas n\u00e3o tinha nenhum colega em quem pudesse confiar. N\u00e3o ainda.<\/p>\n<p>Passei o dia em casa, fazendo escalda-p\u00e9s. N\u00e3o para a febre, mas tentei me distrair fazendo as unhas, e nada melhor do que \u00e1gua quente com sab\u00e3o para amolec\u00ea-las. No fim do dia eu estava com p\u00e9s de ninfa e a cabe\u00e7a rodava em cima do pesco\u00e7o como se fosse um pi\u00e3o que algu\u00e9m soltara no terreiro.<\/p>\n<p>Quando me levantei do sof\u00e1, cambaleei e ca\u00ed, entornando a bacia d\u2019\u00e1gua e batendo a cabe\u00e7a no bra\u00e7o da poltrona. Fiquei encostada na parede, vendo a sala rodar, durante um longo tempo, at\u00e9 finalmente criar coragem e ir para minha cama. No meio de todo o terror de estar delirando, eu senti outra vez aquela m\u00e3o gelada me tocando. Desta vez, j\u00e1 preparada para o que viria a seguir, consegui virar-me com mais facilidade e pude encarar a vis\u00e3o da mulher-fantasma com mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o tinha nenhuma roupa negra, ao contr\u00e1rio do que eu tinha pensado. Eram os seus cabelos imensamente longos, muito abundantes, que a pareciam vestir. Estava nua e sua apar\u00eancia era totalmente irreal, de alguma forma caricatural e desarm\u00f4nica. N\u00e3o sei se eram os membros excessivamente magros, a pele excessivamente clara, os pelos pubianos excessivamente crescidos\u2026 ou aqueles olhos redondos que pareciam po\u00e7os profundos. Alguma coisa nela berrava, esgoeladamente, &#8220;morte&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Eu venho procurando h\u00e1 muito tempo algu\u00e9m como tu \u2014 ela disse.<\/p>\n<p>Ela sorria e parecia uma caveira. Mas quando parava de sorrir, estava bel\u00edssima e viva outra vez, ou parecia.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos que busco. Minha tortura \u00e9 cada vez mais insuport\u00e1vel. Vem, salva-me! S\u00f3 tu podes perdoar-me e aceitar-me!<\/p>\n<p>Ela punha a m\u00e3o em minha testa para dizer isso e esse toque era como um eletrochoque no meu sistema nervoso. Enquanto ela falava eu me debatia na cama, babava e gemia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podes morrer sem vir at\u00e9 mim! N\u00e3o morrer\u00e1s, decerto n\u00e3o morrer\u00e1s! Vem e salva-me!<\/p>\n<p>Por fim ela se ergueu de onde estava e me deu as costas para ir, permitindo que eu visse os sulcos de suas costelas e a cicatriz negra de uma marca feita a ferro em sua pele, com dizeres que n\u00e3o tive tempo de reconhecer.<\/p>\n<p>Depois disso eu n\u00e3o consegui mais me concentrar no trabalho. N\u00e3o tinha mais cabe\u00e7a para ouvir as repetitivas hist\u00f3rias de pobres mulheres oprimidas, com seus males incompreendidos, seus maridos incompreens\u00edveis e suas gravidezes. Cada vez que olhava pela janela e via uma tira de c\u00e9u azul eu me sentia engaiolada. Sentia-me como quem sabe que h\u00e1 um espet\u00e1culo na pra\u00e7a, mas permanece em casa.<\/p>\n<p>A mulher fantasma voltou a assombrar os meus sonhos, sempre com a viol\u00eancia imperativa de uma crise epil\u00e9ptica. E foram muitas as vezes, ainda em maio e junho, piorando \u00e0 medida em que o inverno se aproximava, tornando-se cada vez mais lamurienta:<\/p>\n<p>\u2014 Vem logo, que o inverno \u00e9 a pior parte do ano. Esse frio me enregela! Vem, salva-me!<\/p>\n<p>Por fim meus nervos n\u00e3o suportaram mais. Resolvi tirar f\u00e9rias antes que os meus colegas me diagnosticassem como louca e me pusessem no manic\u00f4mio para servir de exemplo \u00e0s suas filhas para que logo arranjassem marido e parassem de pensar em estudar. Tinha oito anos quase que eu trabalhava sem f\u00e9rias, seis deles naquele hospital. Trabalhava em todos os plant\u00f5es poss\u00edveis, aceitava todas as cirurgias e todas as consultas. Se fosse homem, teria j\u00e1 um nome respeit\u00e1vel e uma bonita cl\u00ednica. Se pelo menos eu fosse obstetra ou ginecologista\u2026 Mas n\u00e3o, eu era pneumologista. Especialidade &#8220;de homem&#8221;. Estava condenada a ser plantonista assalariada, pelo menos at\u00e9 criar coragem e partir para um lugar maior, de mentes mais abertas. Talvez J\u00fapiter.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o tinha esquecido Carlos, e na verdade eu ainda n\u00e3o sabia o que fazer de minhas f\u00e9rias. Tinha medo de chegar ao trevo, parar o carro, deitar a cabe\u00e7a ao volante e chorar sem saber aonde ir. Meus pais, adotivos, estavam mortos. O resto de minha fam\u00edlia posti\u00e7a me desprezava, achavam que tinha sido uma usurpa\u00e7\u00e3o eu estudar tanto \u00e0s custas do dinheiro de meu pai. Filha adotiva \u00e9 para ficar analfabeta, solteira e cuidar dos seus benfeitores na velhice. Eu estudei, casei cedo, me divorciei daquele est\u00fapido e efeminado do Roberto depois de tra\u00ed-lo com um colega de trabalho, e pus meus pais no asilo para poder trabalhar. Com essa ficha corrida, voltar a Santana do Monte seria quase risco de vida.<\/p>\n<p>Por isso eu prolonguei meus preparativos durante dois dias. Dois dias em que eu maquinei se devia convidar algum homem para ir comigo. Eu tinha muita vontade de ir com algum, mais pela companhia do que por sexo, mas\u2026 bem, sejamos sinceros aqui: pelo sexo tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 crime dizer isso, pelo menos n\u00e3o ainda.<\/p>\n<p>Mas eu me sentia uma colegial t\u00edmida, incapaz de decidir. Sabia que n\u00e3o poderia gastar muitos cartuchos. Recusas iniciais significariam, para quem fosse lembrado por \u00faltimo, a inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de ser lembrado como &#8220;\u00faltima esperan\u00e7a&#8221;. Era preciso refletir bem. Por fim resolvi ser conservadora e liguei para o Francisco.<\/p>\n<p>Francisco era <em>office-boy<\/em> no hospital. Tinha doze anos menos do que eu, era bonito e parecia t\u00e3o t\u00edmido que eu n\u00e3o me surpreenderia se ele ainda fosse virgem. Era poss\u00edvel que ele n\u00e3o pudesse ir por raz\u00f5es al\u00e9m de sua vontade, mas eu tinha, pelo menos, a certeza de que nem lhe passaria pela cabe\u00e7a recusar o meu convite. E n\u00e3o me decepcionei. Ele disse que topava antes que eu tivesse tempo de terminar. Acredito que ele teria ido comigo mesmo que eu estivesse indo \u00e0 puta que o pariu.<\/p>\n<p>Mas ele estava engaiolado tamb\u00e9m. E quando voc\u00ea tem dezoito anos \u00e9 muito dif\u00edcil ter a liberdade para viver o que quer. Mais tarde voc\u00ea conquista a liberdade, mas da\u00ed j\u00e1 nem lembra mais para qu\u00ea. Eu cheguei ao trevo, parei o carro, encostei a cabe\u00e7a no volante e comecei a chorar, me perguntando &#8220;para onde&#8221; e &#8220;para qu\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tinha decido ir sozinha. Estava enfrentando isso, mas estava me saindo derrotada do grande combate contra minha pr\u00f3pria car\u00eancia. Maldito Carlos, ele nem sabe que eu poderia t\u00ea-lo feito feliz! Tomara que a Aparecida engorde at\u00e9 virar uma broa, que fique de calcanhares rachados e papo triplo!<\/p>\n<p>Por fim, liguei o motor, acelerando at\u00e9 ouvir os pist\u00f5es assobiarem, e sa\u00ed \u00e0 toda pela estrada, seguindo o rumo que meu nariz apontava. Tinha sido dona de meu nariz por muito tempo, resolvi deixar ele ser dono de meu destino um pouco.<\/p>\n<p>As estradas andavam mal sinalizadas naquela \u00e9poca, e tamb\u00e9m esburacadas. Eu dirigia dividindo minha aten\u00e7\u00e3o entre o pavimento danificado e as placas poucas que apareciam escondidas na vegeta\u00e7\u00e3o densa do acostamento. Tinha deixado para sair no fim da tarde, para viajar \u00e0 noite, evitando o tr\u00e1fego e o calor do veranico, mas acabei me vendo diante de um sono que amea\u00e7ava me derrubar. Para meu azar ele se abateu sobre mim num trecho deserto da estrada, longe de cruzamentos, sem luzes de casas pontilhando o horizonte e com apenas clar\u00f5es de cidades \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>De repente, senti outra vez em minha nuca o toque familiar e frio de algo que parecia uma m\u00e3o. E ao meu lado apareceu outra vez a mesma mulher que eu vira em meus del\u00edrios e em sonhos. Daquela vez parecia at\u00e9 mesmo ter um corpo. Estava t\u00e3o p\u00e1lida como sempre e mais bela do que nunca, levava um ensaio de sorriso no rosto e, ao contr\u00e1rio do que fizera nas vezes anteriores, j\u00e1 n\u00e3o tentava cobrir sua nudez hirsuta com as m\u00e3os \u2014 e ousava aparecer diante de mim sem esperar eu dormir.<\/p>\n<p>\u2014 Que bom que vens ajudar-me!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se foi a solid\u00e3o da estrada, o meu medo de dormir ou o que, mas senti vontade de falar-lhe \u2014 pela primeira vez desde que a vira em meu quarto em quinze de abril. &#8220;Se \u00e9 capaz de falar e de me ouvir \u2014 eu pensava \u2014 ent\u00e3o \u00e9 uma companhia como outra qualquer nessa viagem&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou entendendo, n\u00e3o estou indo te ajudar. Vou passar uns dias na praia, e \u00e9 s\u00f3.<\/p>\n<p>Ela ignorou o que eu tinha dito e insistiu, com uma express\u00e3o s\u00e9ria:<\/p>\n<p>\u2014 Eis o que achas, mas n\u00e3o \u00e9 o que fazes agora. A estrada que segues n\u00e3o se dirige ao litoral, mas ao interior!<\/p>\n<p>Um ligeiro calafrio me percorreu a espinha quando olhei com o canto do olho uma placa \u00e0 beira da estrada onde se podia ler, muito mal por causa da ferrugem, &#8220;Barbacena 30km.&#8221;<\/p>\n<p>Freei imediatamente e a mulher desapareceu. Desci do carro e me pus a andar em torno dele, desorientada. Ainda havia um resto de lusco-fusco no c\u00e9u, um vermelh\u00e3o que se refletia nas coisas, dando-lhes uma apar\u00eancia meio irreal.<\/p>\n<p>\u2014 Como foi que perdi tanto o caminho que devia seguir? \u2014 perguntei-me sem pronunciar as palavras.<\/p>\n<p>Entrei no carro, dei meia-volta, e resolvi tentar outra vez. &#8220;Se Barbacena \u00e9 para l\u00e1&#8221;, refletia, &#8220;ent\u00e3o devo chegar ao estado do Rio de Janeiro se for para o outro lado&#8221;. E assim fiz. Mas, duas horas depois, para minha grande surpresa, me vi diante de outra placa que indicava &#8220;Barbacena 42km&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura o desespero me atingiu. O carro estava quase sem gasolina, porque n\u00e3o tinha visto nenhum posto durante todo aquele tempo. Eu n\u00e3o sabia onde estava, nem para onde estava indo. Certamente para quem n\u00e3o sabe aonde vai, todos os caminhos servem igualmente, mas somente at\u00e9 acabar o combust\u00edvel. Da\u00ed voc\u00ea se iguala a qualquer perdido. E precisa aguardar que a pol\u00edcia venha te socorrer.<\/p>\n<p>Mantendo a cabe\u00e7a fria, decidi estacionar onde houvesse espa\u00e7o limpo \u00e0 beira da estrada e dormir at\u00e9 o amanhecer. Com o dia claro haveria tr\u00e2nsito e pessoas dispostas a dar informa\u00e7\u00f5es. Era uma decis\u00e3o arriscada, ainda mais para uma mulher sozinha, mas eu ia fazer o que?<\/p>\n<p>Segui em dire\u00e7\u00e3o a Barbacena \u2014 se \u00e9 que a estrada realmente ia dar em Barbacena \u2014 e por volta de dez e meia da noite encontrei um lugar que parecia apropriado. Estacionei, fechei as janelas e acionei as travas das portas, depois reclinei o banco e tentei dormir.<\/p>\n<p>Acordei com o zumbido de um vento forte e um c\u00e9u carregado de negras nuvens que cobriam o luar. Uma voz cheia de pigarro parecia tentar me dizer alguma coisa. Olhei em volta e n\u00e3o havia nada. A n\u00e3o ser aquela sensa\u00e7\u00e3o de que uma m\u00e3o tocava minha nuca. Mas daquela vez uma m\u00e3o estranha, grande e bruta.<\/p>\n<p>Abri a porta do carro e sa\u00ed correndo de medo pelo asfalto afora, sabendo que seria in\u00fatil. Um homem alto, de barba grisalha, peito largo e m\u00e3os enormes, trajando um uniforme militar de s\u00e9culos atr\u00e1s estava parado exatamente sobre a longa faixa amarela. Ele tinha uma express\u00e3o cansada e certamente inofensiva no rosto, muito embora sua figura parecesse amea\u00e7adora. Em parte porque seu abd\u00f4men estava manchado de escuro \u2014 talvez de sangue.<\/p>\n<p>\u2014 Encontrei-a finalmente! Deus, como a procurei, bruxa maldita! \u2014 ele parecia falar comigo, mas ao mesmo tempo n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Acompanha-me! Tenho algo que devo dar-te!<\/p>\n<p>Antes que eu pudesse dar meia volta ele j\u00e1 estava t\u00e3o junto a mim que n\u00e3o tive como me recusar a acompanh\u00e1-lo. S\u00f3 ent\u00e3o percebi que ele n\u00e3o estava s\u00f3: havia pelo menos quatro outros, tamb\u00e9m uniformizados, junto com ele.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 que vamos seguir juntos, seria interessante, para mim, saber com quem estou indo \u2014 aventurei-me.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te preocupes, sei quem \u00e9s. E sabes quem sou. Isso basta-nos.<\/p>\n<p>Chegamos a uma grota cheia de mato onde havia uma casa arruinada que, curiosamente, parecia menos arruinada \u00e0 medida em que cheg\u00e1vamos mais perto. Junto \u00e0 porta estava uma p\u00e1. O barbado, que parecia o chefe, indicou-a e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Para que n\u00e3o digas que sou impiedoso, tens todo o tempo do mundo para encontr\u00e1-la. Ela est\u00e1 dentro de uma arca perfeitamente lacrada que enterrei em algum lugar pr\u00f3ximo ao rio. Se a encontrares nas pr\u00f3ximas horas, ainda estar\u00e1 viva e deixar-vos-ei seguir livres e sem culpa. Se n\u00e3o a encontrares at\u00e9 o amanhecer, ela estar\u00e1 morta e tu tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>E desembainhou uma espada militar, que brandia no ar, enlouquecido.<\/p>\n<p>\u2014 Vai! Que te estou esperando aqui! Subitamente me dei conta da presen\u00e7a, nas cristas dos morros em torno, silhuetas escuras de soldados usando quepes coloniais e levando mosquetes espreitavam o vale, movendo-se orquestrados pelos gestos da brilhante l\u00e2mina da espada de quem devia ser seu comandante.<\/p>\n<p>Tomei a p\u00e1 em minhas m\u00e3os tr\u00eamulas e me pus a caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao marulho de uma \u00e1gua pr\u00f3xima que deveria ser o Rio. Uma voz feminina, j\u00e1 familiar, soou em meu ouvido.<\/p>\n<p>\u2014 Desta vez o enganaremos! Posso dizer onde estou!<\/p>\n<p>Mantive sil\u00eancio, mentalmente perguntando a quem quer que estivesse falando o que deveria fazer. Ent\u00e3o o meu p\u00e9 sentiu um trecho mais fofo na terra dura e est\u00e9ril daquela regi\u00e3o cheia de maldi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 aqui! Cava e encontrar-me-\u00e1s! O bode velho vai ter de encontrar outro modo de torturar-nos!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pode! Ele disse que era para cavar junto ao rio, que ainda est\u00e1 longe!<\/p>\n<p>\u2014 Cava! \u2014 sussurrou a voz em minha cabe\u00e7a, imperiosamente.<\/p>\n<p>Pus-me a cavar com uma energia que n\u00e3o sabia ter, causando uma agita\u00e7\u00e3o entre os soldados nos morros. P\u00e1s e mais p\u00e1s de terra amarela e visguenta eu atirava longe, como se fossem uma impureza que eu deveria dispersar enquanto eles murmuravam: eu tinha que ser r\u00e1pida, pois quando a not\u00edcia de minha sorte chegasse ao bode velho ele viria para me matar.<\/p>\n<p>Logo a p\u00e1 bateu contra metal e soou um som rouco e breve. Comecei a limpar em torno com as m\u00e3os e achei um cadeado negro e gigantesco. Bati nele a p\u00e1 com toda a for\u00e7a que queria ter, uma, tr\u00eas vezes. Ele partiu-se at\u00e9 com facilidade, como se fosse feito de ferro mal fundido.<\/p>\n<p>Dentro do ba\u00fa havia um esqueleto que j\u00e1 nem tinha mais cheiro de putrefa\u00e7\u00e3o. Nenhum sinal de roupas. Os cabelos, que pareciam ser negros, cresciam em torno do cr\u00e2nio como erva sufocando uma \u00e1rvore. Uma suave poeira subiu daquela urna improvisada, perdida por s\u00e9culos, fazendo-me tossir com o seu cheiro acre: poeira de pele e m\u00fasculos, restos mortais, mort\u00edferos.<\/p>\n<p>Olhei em torno, temendo a chegada do bode velho e seus capangas. Mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m por ali, apenas os bra\u00e7os magros das \u00e1rvores e uma lua redonda que sibilava no c\u00e9u como uma televis\u00e3o fora do ar.<\/p>\n<p>Fechei a tampa do caixote e olhei as minhas m\u00e3os sujas, sentindo-me est\u00fapida. Outro del\u00edrio, desta vez sem febre, talvez tivessem raz\u00e3o e eu estivesse perdendo meu ju\u00edzo. Caminhei at\u00e9 a fonte do ru\u00eddo molhado e encontrei um regato bem menor do que o &#8220;rio&#8221; que o velho mencionara. Lavei nele as minhas m\u00e3os e o meu rosto, mas n\u00e3o tive coragem de tomar de sua \u00e1gua. Ela podia ser bela sob aquele luar, refletindo aquelas estrelas que s\u00e3o apenas sombras das estrelas que existiram h\u00e1 muitas eras, mas podia estar contaminada, podiam aqueles reflexos ser enganosos de uma paz e de uma inofensividade que n\u00e3o eram reais. Tal como n\u00e3o fora real a sensa\u00e7\u00e3o de ter encontrado o fantasma que me fizera cavar aquela urna esquecida.<\/p>\n<p>Pus-me a chorar outra vez. Olhei para as minhas m\u00e3os: elas sangravam de calos e feridas. Algumas unhas partidas, nas outras o esmalte descascado. Olhei para mim mesma, coberta de terra amarela, suada e descabelada. Joguei mais \u00e1gua no meu rosto, nos meus cabelos. Tinha a terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de que a poeira morta daquele cad\u00e1ver secular tinha aderido \u00e0 minha pele, que eu tamb\u00e9m cheirava a morte e a s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o decidi que precisava voltar para casa, que minhas f\u00e9rias tinham sido um grande malogro, que a minha vida n\u00e3o tinha sentido algum \u2014 a n\u00e3o ser, talvez, trabalhar para manter vivas outras pessoas, todas elas infelizes de algum modo. Mas n\u00e3o podia me matar, j\u00e1 tinha d\u00edvidas demais com Deus para querer contrair mais uma.<\/p>\n<p>O caminho de volta passava pela curiosa grota onde estava o caix\u00e3o e seu esqueleto nu. Parei de novo ao lado dele e me detive por alguns instantes a pensar em quem estaria ali sepultado. Uma forma terr\u00edvel e humilhante de morrer: enterrado vivo e nu. Quem cometera essa maldade merecia bem mais do que o inferno pode oferecer. E enquanto isso, Deus se preocupa com quantas ora\u00e7\u00f5es fazemos e se n\u00e3o beijamos a pessoa errada.<\/p>\n<p>Tratei de fechar o caix\u00e3o o melhor poss\u00edvel e devolvi-o \u00e0 terra. No dia seguinte procuraria a Universidade. Os arque\u00f3logos ficariam felizes de achar aquilo, teriam muitas teorias e teses e artigos \u2014 como gostam muito de fazer. Mas eu n\u00e3o queria saber de nenhuma teoria, o susto real fora o bastante.<\/p>\n<p>No que me preparava para sair de l\u00e1, pegar o carro e retornar \u00e0 realidade, ouvi um som qualquer por perto. N\u00e3o sei dizer que som foi. Se foi um solu\u00e7o, se foi um choro, se foi galhos estalando com o peso de um p\u00e9. Foi uma sensa\u00e7\u00e3o morna, de presen\u00e7a humana, traduzida em algo que parecia um som, mas poderia ser s\u00f3 uma premoni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Procurei em torno, \u00e0 luz vaporosa da lua, e notei, outra vez, a casa antiga e quase arruinada. Era de l\u00e1 que vinha a sensa\u00e7\u00e3o arrepiante que eu tinha. N\u00e3o foi f\u00e1cil criar coragem para entrar l\u00e1, mesmo que eu n\u00e3o andasse dando muito valor \u00e0 vida. Eu n\u00e3o me importaria de morrer, isso era verdade, mas ainda tinha a mesma avers\u00e3o \u00e0 dor que sempre tivera. Cheguei com cuidado, mas logo notei que isso n\u00e3o era preciso: quem ali estava n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de me causar mal nenhum. Era uma mulher mi\u00fada e muito branca, com cabelos muito compridos, totalmente nua e muito magra, como se tivesse ficado sem comer por vinte dias ou mais \u2014 o tempo exato desde que eu come\u00e7ara a sentir as misteriosas apari\u00e7\u00f5es. Ela estava amarrada sobre uma cama e no len\u00e7ol, em torno de sua vagina, havia uma po\u00e7a de sangue.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o era realmente id\u00eantica \u00e0 assombra\u00e7\u00e3o p\u00e1lida que me visitava, apenas vagamente parecida, mas de alguma forma sentia, ou temia, que ela tivesse me levado at\u00e9 ali de alguma forma. Acendi um lampi\u00e3o de g\u00e1s sobre a mesa, usando os f\u00f3sforos que havia sobre ela, e fui desamarr\u00e1-la.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava morta, embora estivesse exangue e febril e muito debilitada. Ela abriu os olhos quando sentiu minhas m\u00e3os, t\u00e3o carinhosamente quanto poss\u00edvel, desamarrando os seus pulsos. Olhou-me com uma express\u00e3o que n\u00e3o guardava surpresa, apenas al\u00edvio:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea veio.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o falava em &#8220;tu&#8221;, ao contr\u00e1rio da mulher que me aparecia em pesadelos, mas isso n\u00e3o me parecia incongruente. S\u00f3 muito mais tarde eu consegui compreender o sentido de tudo aquilo.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe perguntei o que acontecera. N\u00e3o foi preciso. Vesti-a com suas pr\u00f3prias roupas, rasgadas e jogadas a um canto, e a amparei enquanto sa\u00edamos. Ao longe, far\u00f3is cortavam a noite: era a estrada real, afinal. Eu n\u00e3o estava perdida em uma Zona Amorfa, mas na Zona da Mata Mineira. Bastava seguir aqueles far\u00f3is e em algum lugar encontraria meu carro.<\/p>\n<p>Quando sa\u00edmos pela porta da frente, ela me apontou num canto o que parecia ser, e logo vi que era mesmo, um outro corpo, este morto, com sinais de dias de decomposi\u00e7\u00e3o. Era um homem grisalho e calvo, que morrera com um ricto de dor no rosto, e com as m\u00e3os comprimindo a pr\u00f3pria virilha. S\u00f3 ao v\u00ea-lo eu me dei conta, sob a luz azulada e sibilante do lampi\u00e3o, do horr\u00edvel odor de morte que empestava aquele lugar. Pobre mulher! Como ela conseguira sobreviver naquelas condi\u00e7\u00f5es, passando fome e sede naquele lugar, por tantos dias?<\/p>\n<p>Alcancei o carro. Antes que outro ve\u00edculo nos cruzasse, retirei de minha mala um vestido em melhor estado e cobri a nudez da desconhecida, cuja consci\u00eancia era bruxuleante como a luz de um lampi\u00e3o, cujo g\u00e1s vai acabando. Depois sa\u00ed dirigindo para um dos dois lados da estrada. N\u00e3o tentei nem escolher qual.<\/p>\n<p>N\u00e3o a levei \u00e0 minha cidade, mas a Barbacena, que afinal estava perto. Ali internei-a numa cl\u00ednica discreta at\u00e9 que estivesse em condi\u00e7\u00f5es de dar explica\u00e7\u00f5es. Mas acabei n\u00e3o as pedindo jamais: ao cuidar de seu corpo t\u00e3o maltratado descobri, para meu espanto, a justi\u00e7a po\u00e9tica que a natureza propiciara no caso dela.<\/p>\n<p>Pois aquela mulher, que aparentemente fora sequestrada por um man\u00edaco, para ser estuprada e morta da maneira mais horr\u00edvel, n\u00e3o tinha as cicatrizes de uma penetra\u00e7\u00e3o desastrada, mas aquilo que aterroriza os sonhos mais profundos dos homens, mesmo os que n\u00e3o s\u00e3o capazes de estuprar uma mulher: <em>vagina dentata<\/em>.<\/p>\n<p>Baseado no conto &#8220;<span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.leopoldina.com.br\/~jggouvea\/?n=ContosAntigos.HistoriaDeUnsFantasmas\">Hist\u00f3ria de uns Fantasmas<\/span>&#8220;, encontrado no meu antigo site. Data do original: 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jamais compreendi a origem das hist\u00f3rias de fantasmas, embora tenha sempre entendido a vontade, quase necessidade, que o ser humano tem de encontrar no mundo algo que v\u00e1 al\u00e9m do concreto e do absurdo de nossas vidas uniformizadas. Por \u00f3dio \u00e0 rotina \u00e9 que tentamos beirar a transcend\u00eancia, tentamos atingir o &#8220;algo mais&#8221;, romper o cimento cinza que recobre o jardim de inverno e encontrar terra \u00famida, cheia de vida, ali sepulta. 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