{"id":395,"date":"2010-10-20T15:48:00","date_gmt":"2010-10-20T18:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=395"},"modified":"2017-11-02T14:09:21","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:21","slug":"nacionalismo-linguistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/nacionalismo-linguistico\/","title":{"rendered":"Nacionalismo Lingu\u00edstico"},"content":{"rendered":"<p>Dizer que nacionalismo n\u00e3o \u00e9 uma boa coisa \u00e9 praticamente um artigo de f\u00e9 da esquerda e da direita. Pelo lado esquerdo, ele \u00e9 visto como o grande monstro que causa as guerras, desune a humanidade e aliena o povo da luta por condi\u00e7\u00f5es de igualdade. Pelo lado direito ele \u00e9 visto como um entrave \u00e0 livre movimenta\u00e7\u00e3o dos interesses e dos capitais. No entanto, enigmaticamente, elementos nacionalistas est\u00e3o presentes em ambos os discursos.<\/p>\n<p>Se existe um campo onde o nacionalismo ainda encontra terreno livre para expressar-se, este \u00e9 o da cultura, no qual cada pa\u00eds tenta defender-se do &#8220;estrangeiro&#8221; e assegurar a continuidade de sua pr\u00f3pria heran\u00e7a cultural. Para o nacionalista cultural n\u00e3o existe, de fato, a troca de ideias e elementos entre as diversas culturas: o que h\u00e1, em vez disso, \u00e9 a influ\u00eancia assim\u00e9trica de l\u00ednguas hegem\u00f4nicas (como o ingl\u00eas, globalmente falando). Eu tendo a acreditar que isto \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Dificilmente voc\u00ea encontrar\u00e1 muitos voc\u00e1bulos de origem portuguesa, por exemplo, em qualquer outra l\u00edngua do mundo. Em ingl\u00eas eles praticamente n\u00e3o existem, e os que existem t\u00eam sentido muito espec\u00edfico, sendo em alguns casos herdados de s\u00e9culos passados. No entanto, existe uma abund\u00e2ncia de anglicismos em uso no portugu\u00eas. Como acreditar na livre troca das ideias diante deste quadro. N\u00e3o existe &#8220;troca&#8221; quando o movimento \u00e9 num sentido \u00fanico.<\/p>\n<p>Claro que o tema dos anglicismos pode ser exagerado. No caso do futebol, por exemplo, houve um tempo em que todos os termos relacionados ao esporte eram importados: <em>goalie, back, half-back, center-forward, corner, penalty, free kick, goal kick, foul, jersey, trunks, referee, linesmen, scratch<\/em>\u2026 Hoje todos estes termos foram substitu\u00eddos por termos em portugu\u00eas ou ent\u00e3o adaptados, na medida do poss\u00edvel: goleiro, zagueiro, volante, centro-avante, escanteio, penalidade, cobran\u00e7a de falta, tiro de meta, falta, camisa, cal\u00e7\u00e3o, \u00e1rbitro, bandeirinhas, escala\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, portanto, imposs\u00edvel que em um futuro n\u00e3o muito distante vejamos a substitui\u00e7\u00e3o de termos hoje &#8220;insubstitu\u00edveis&#8221; da inform\u00e1tica, por exemplo: <em>mouse, driver, notebook, webcam<\/em>\u2026 A substitui\u00e7\u00e3o at\u00e9 j\u00e1 come\u00e7ou: placa-m\u00e3e, disco r\u00edgido, teclado, gabinete, porta, etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, devemos supor que o nacionalismo lingu\u00edstico \u00e9 uma besteira, certo? Talvez seja. Mas h\u00e1 muitos casos nos quais uma ideia parece equivocada n\u00e3o por estar errada, mas por identificar o alvo errado. No caso, eu acredito que o alvo do nacionalismo lingu\u00edstico n\u00e3o deveria ser a introdu\u00e7\u00e3o de anglicismos, que pode ter um efeito tempor\u00e1rio, mas sim a subalterniza\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas diante do ingl\u00eas no imagin\u00e1rio da juventude.<\/p>\n<p>Digo isso porque \u00e9 cada vez comum, os jovens recorrerem ao ingl\u00eas para efeito est\u00e9tico. Eles querem dar nomes em ingl\u00eas aos textos que escrevem, provavelmente porque acham que fica &#8220;mais bonito&#8221;. Eles querem dar nomes ingleses aos seus filhos, porque chamam mais a aten\u00e7\u00e3o. Eles querem usar express\u00f5es inglesas em sua fala porque elas d\u00e3o um &#8220;diferencial&#8221;, uma distin\u00e7\u00e3o pessoal. Pelo menos \u00e9 o que imaginam eles.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fica claro que n\u00e3o estamos diante da supress\u00e3o de lacunas pela introdu\u00e7\u00e3o de termos estrangeiros, mas de uma rela\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica na qual o portugu\u00eas \u00e9 visto como insuficiente e o ingl\u00eas se apresenta como o elemento definidor de um discurso superior. Algo n\u00e3o muito diferente do que ocorria, na antiguidade, em terras sob o dom\u00ednio romano. E l\u00e1 se foram o gaul\u00eas, o helv\u00e9cio, o p\u00fanico, o celtibero, o turdetano, o etrusco, o falisco, o volsco, o sabino, o brit\u00e2nico\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o ouso afirmar que o portugu\u00eas ser\u00e1 suprimido pelo ingl\u00eas, como o gaul\u00eas o foi pelo latim. Afirmar isso seria esticar demais os fatos, possivelmente at\u00e9 a l\u00f3gica arrebentar. Mas \u00e9 certo que isso, a longo prazo, tem tido efeitos negativos sobre a preserva\u00e7\u00e3o de nosso l\u00e9xico, sobre a auto-estima de nosso povo e sobre o processo de inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto, bem, um dia, metido em um curso de mestrado ou doutorado, eu vou tentar avaliar. At\u00e9 l\u00e1, me reservo ao direito de supor, com base nos dados parciais que tenho, que a coisa certa a fazer \u00e9 trabalhar em prol da preserva\u00e7\u00e3o de minha l\u00edngua. Entre outras medidas neste sentido, tento evitar o quanto poss\u00edvel empregar palavras de origem estrangeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que nacionalismo n\u00e3o \u00e9 uma boa coisa \u00e9 praticamente um artigo de f\u00e9 da esquerda e da direita. Pelo lado esquerdo, ele \u00e9 visto como o grande monstro que causa as guerras, desune a humanidade e aliena o povo da luta por condi\u00e7\u00f5es de igualdade. Pelo lado direito ele \u00e9 visto como um entrave \u00e0 livre movimenta\u00e7\u00e3o dos interesses e dos capitais. No entanto, enigmaticamente, elementos nacionalistas est\u00e3o presentes em ambos os discursos. 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