{"id":403,"date":"2010-10-02T13:23:00","date_gmt":"2010-10-02T16:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=403"},"modified":"2017-11-02T14:09:22","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:22","slug":"o-louco-e-seu-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/o-louco-e-seu-deus\/","title":{"rendered":"O Louco e Seu Deus"},"content":{"rendered":"<p>O louco dan\u00e7ava \u00e0 beira do rochedo, desafiando as ondas com seus versos:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Vamos para o c\u00e9u, ou talvez\u2026 pulem, pulem! Andem logo, ele espera. Voc\u00eas n\u00e3o tem escolha! Pulem, pulem para os bra\u00e7os do drag\u00e3o que esconde suas asas e seus dentes na maciez das ondas.<\/p>\n<p>Os homens continuavam construindo o barco sobre o gramado. Enquanto as mulheres colhiam frutas e preparavam carne-seca \u2014 provis\u00f5es para a viagem. O louco observava e cantava seus versos desafinados:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00eas n\u00e3o tem escolha, as velas ser\u00e3o rasgadas pelos ventos. Os mastros ser\u00e3o destro\u00e7ados pelas ondas. Em vez da Torre ou da Terra Prometida voc\u00eas ser\u00e3o mortos e seus corpos trespassados pelos espinhos longos do drag\u00e3o.<\/p>\n<p>O contramestre cansou-se da litania e raspou a garganta:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Cale-se, est\u00fapido. Esta ilha \u00e9 teu destino, por blasfemar desta maneira contra a esperan\u00e7a. P\u00e1ra de gritar, pelo menos, enquanto nos preparamos para cruzar o mar.<\/p>\n<p>Mas o louco n\u00e3o tinha medo do poder, quem teve a morte diante de si e viveu, mesmo que por um tempo, perde esse pudor, da dor. Com uma l\u00e1grima solit\u00e1ria no olho, o louco dirigiu-se a uma das mulheres:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Madame, voc\u00ea veja o que diz seu marido. Oh, cuidado o homem que acha que sabe o que quer. Ele nunca para em lugar nenhum. Sempre haver\u00e1 outro mar, sempre haver\u00e1 outros bra\u00e7os. Alguma promessa da grande cidade perdida, da grande vida que n\u00e3o houve, e nada \u00e9 t\u00e3o favorito do aventureiro quanto o desejo de partir outra vez.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Cala-te, louco. Ningu\u00e9m mais suporta tuas dores. Guarde-as para ti.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Como, madame, se eu tampouco as suporto?<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio na colina. O sil\u00eancio da compreens\u00e3o. Mesmo os loucos falam a verdade, precisamente. E quando os s\u00e3os a entendem, uma dor profunda, dessas que exigem um assassinato, passa pelos cora\u00e7\u00f5es dos sensatos.<\/p>\n<p>O contramestre pegou um machado e amea\u00e7ou outra vez.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Some de nossa presen\u00e7a, besta!<\/p>\n<p>O louco amansou um pouco e continuou os versos num outro tom:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o v\u00e3o, viagem, v\u00e3o para o c\u00e9u, ou o inferno. Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam escolha. Por favor, me deixem aqui, prometo fechar meus olhos quando o Grande Polvo surgir. \u00c9 bom e \u00e9 seguro estar perdido no mato, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mau quanto estar triste na praia. O mato n\u00e3o me diz nada, n\u00e3o me mata. E o que eu digo l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ouvido por ningu\u00e9m que me odeie. Ent\u00e3o v\u00e3o, viagem, iscas vivas, crian\u00e7as lambuzadas de mel andando entre as colmeias.<\/p>\n<p>O louco deixou escapar uma gargalhada cortantemente triste e correu pela praia, trope\u00e7ando na areia.\u2014 Por favor, deixe-nos em paz \u2014 berrou um rapaz que parecia sensato.<\/p>\n<p>O louco mirou-o com olhos agudos e disse:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Prometo fechar os meus olhos, mas como fechar meus ouvidos?<\/p>\n<p>O vento soprou e as folhas das \u00e1rvores lamentaram os troncos cortados pelos homens para fazer os barcos.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por favor, n\u00e3o me ponham na bagagem \u2014 insultava o louco.<\/p>\n<p>O contramestre deu por terminada a obra. Uma garrafa de antiga cerveja, choca pelas d\u00e9cadas, mas ainda cerimonialmente \u00fatil, foi quebrada no casco. O cheiro doce do levedo estragado preencheu o ar com saudades. Um discurso. A bruxa da tribo subiu na proa, desafiadoramente penetrando a mar\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Os mares alcan\u00e7am o mundo, amados. Eles continuam, apesar de tudo, iguais. N\u00e3o precisamos voar, nem morrer nesta ilha miser\u00e1vel. Quanto mais ficamos, menores somos. Vamos embora, chega de arrastar-nos pela areia. O calor do vento \u00e9 nosso amigo, nossas cantigas nos dar\u00e3o for\u00e7a para cruzar o mar. Venham, todos, amigos, amantes, maridos. Ponham-se a bordo e vamos!<\/p>\n<p>Do alto de uma pedra, o louco chorava. Era um homem ainda jovem e razoavelmente belo. Em sua loucura amava a donzela cujo nome n\u00e3o sabia. Por ela chorava, mais do que pelos outros, porque ela n\u00e3o ia por querer, mas por for\u00e7a da vontade do seu pai \u2014 segundo contramestre.<\/p>\n<p>E na tarde do quinto dia o barco foi empurrado para dentro do mar, e navegou suavemente at\u00e9 os arrecifes, deixando o louco na praia, derramando-se em l\u00e1grimas e versos de p\u00e9 quebrado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os tent\u00e1culos do monstro surgiram das profundezas, cheios de agulhas longas e penetrantes, e abra\u00e7ou o barco, diante dos gritos da tribo inteira. O louco descobriu o ombro e olhou a cicatriz que tinha sob a clav\u00edcula, lembrando da dor e do desespero, da sorte de ser trazido, esquecido, at\u00e9 aquela praia.<\/p>\n<p>Ergueu-se ali e estendeu um punho fechado contra o c\u00e9u, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tu j\u00e1 foste bastante surdo ou bastante mau. J\u00e1 me convenci o suficiente de ambas as coisas. Mas tenho duvidado se devo mesmo ter medo de voc\u00ea, mais do que do Polvo. Porque ele, ele eu sei que existe e vai me matar um dia, quando tiver aprendido a cercar-se da terra pouca dessa ilha. Mas tu, tu podes ser somente uma ilus\u00e3o que sobrou, de um mundo que n\u00e3o existe mais. Mas se existes, ent\u00e3o salva justamente Ela, como salvaste justamente a mim. Salva-a n\u00e3o por miseric\u00f3rdia, mas porque \u00e9s mau e te deleitar\u00e1s mais no sofrimento da morte dela adiada. Salva-a para minha lux\u00faria, como me salvaste para ser palha\u00e7o dos ignorantes.<\/p>\n<p>O louco deixou-se cair na areia, chorando sem controle, esperando que sua prece fosse ouvida. E o mar rugia, e dezenas de impotentes gritos se ouviam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O louco dan\u00e7ava \u00e0 beira do rochedo, desafiando as ondas com seus versos: \u2014\u00a0Vamos para o c\u00e9u, ou talvez\u2026 pulem, pulem! Andem logo, ele espera. Voc\u00eas n\u00e3o tem escolha! 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