{"id":406,"date":"2010-09-28T20:01:00","date_gmt":"2010-09-28T23:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=406"},"modified":"2017-11-02T14:09:22","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:22","slug":"escrevendo-pelo-metodo-quebra-cabecas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/escrevendo-pelo-metodo-quebra-cabecas\/","title":{"rendered":"Escrevendo pelo \u00abM\u00e9todo Quebra-Cabe\u00e7as\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias eu escrevi sobre o m\u00e9todo de desenvolvimento de texto que eu desenvolvi inicialmente, ap\u00f3s alguns anos tentando tornar-me escritor. O chamado &#8220;<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/escrevendo-pelo-metodo-cebola\/\">m\u00e9todo cebola<\/a>&#8221; consistia em partir de um n\u00facleo b\u00e1sico e aperfei\u00e7oar a hist\u00f3ria atrav\u00e9s de revis\u00f5es sucessivas, cada uma com um foco diferente. O m\u00e9todo &#8220;cebola&#8221; \u00e9 sint\u00e9tico: ele analisa a obra liter\u00e1ria como um todo indivis\u00edvel, que deve ser trabalhado de forma global, com objetivos globais.<\/p>\n<p>O &#8220;m\u00e9todo quebra-cabe\u00e7as&#8221; (MQC, para simplificar) \u00e9 o oposto disso: uma maneira anal\u00f3gica de desenvolver a obra, construindo-a em peda\u00e7os independentes, que s\u00e3o depois unidos na revis\u00e3o final. Obras escritas por meio deste m\u00e9todo tendem a ter maior variedade de estilos, personagens mais ricos e trama mais aprofundada. Estas caracter\u00edsticas decorrem da facilidade que o MQC apresenta para trabalhar com obras de f\u00f4lego maior e a flexibilidade que ele oferece para separar e unir os peda\u00e7os como desejado.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>O passo inicial do MQC \u00e9 tamb\u00e9m a prepara\u00e7\u00e3o de uma boa sinopse, mas ele precisa que esta seja mais rica em indica\u00e7\u00f5es narrativas. A sinopse ser\u00e1, ent\u00e3o, dividida em uma s\u00e9rie de &#8220;cenas&#8221; ou &#8220;cap\u00edtulos&#8221;, de forma necessariamente cronol\u00f3gica. Se voc\u00ea estiver escrevendo no computador (ou seja, se estou sendo lido no s\u00e9culo atual), \u00e9 uma boa ideia que cada uma destas partes esteja em um arquivo independente.<\/p>\n<p>A maneira ideal para trabalhar com esse m\u00e9todo \u00e9 um organograma. Transformando a sua sinopse em uma figura de bal\u00f5es e setas que representam a sequencia das ideias voc\u00ea consegue organizar espacialmente em seu c\u00e9rebro como as coisas se encadeiam. N\u00e3o sei como funciona o SEU c\u00e9rebro, mas o meu c\u00e9rebro gosta disso. Outra maneira, ainda melhor, para organizar sua sinopse \u00e9 escrevendo-a como se fosse uma sucess\u00e3o de datas e de lugares. Assim voc\u00ea n\u00e3o correr\u00e1 o risco de fazer seu personagem noivar depois de j\u00e1 ter casado ou perder de novo a virgindade depois que j\u00e1 \u00e9 m\u00e3e. Ajuda tamb\u00e9m para evitar que sua av\u00f3 vire tia e depois acabe se casando com o filho de sua cunhada.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o precisa come\u00e7ar a escrever imediatamente ap\u00f3s tra\u00e7ar a sua sinopse. Se fizer isso certamente a sua obra ficar\u00e1 &#8220;quadrada&#8221;, ou seja, excessivamente sequencial e previs\u00edvel \u2014 e ningu\u00e9m mais tem paci\u00eancia para isso. Para evitar esse efeito, voc\u00ea deve refletir antes de escrever, procurando dar a cada parte um tratamento equivalente ao que voc\u00ea daria a um texto menor. Esta concentra\u00e7\u00e3o permitir\u00e1 que voc\u00ea conserve uma linguagem bem cuidada, ao mesmo tempo em que ter a sinopse em vista o ajudar\u00e1 a manter a coer\u00eancia geral da obra.<\/p>\n<p>Uma das maiores tenta\u00e7\u00f5es que pode lhe acontecer nesse momento \u00e9 mudar a hist\u00f3ria no meio do caminho. Isso \u00e9 tecnicamente poss\u00edvel, mas voc\u00ea ter\u00e1 de retroceder e mudar todos os cap\u00edtulos que j\u00e1 escreveu. Logo voc\u00ea perceber\u00e1 que \u00e9 melhor refletir longamente sobre o que deseja escrever ANTES de chegar a ter escrito mais que dois ou tr\u00eas cap\u00edtulos. Mas em geral dois ou tr\u00eas cap\u00edtulos j\u00e1 s\u00e3o suficientes para dar-lhe uma boa no\u00e7\u00e3o do que quer, e nesse ponto fazer as adapta\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que for escrevendo voc\u00ea perceber\u00e1 que certos cap\u00edtulos devem ocupar certas posi\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o dependem exatamente da ordem cronol\u00f3gica. Talvez seja interessante narrar um ap\u00f3s o outro dois epis\u00f3dios separados por um longo intervalo de tempo, por exemplo. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que voc\u00ea desista de escrever certas partes da hist\u00f3ria ou, como frequentemente eu fa\u00e7o, que escreva alguns par\u00e1grafos em vez de algumas dezenas de p\u00e1ginas. Nesse caso o que seria um cap\u00edtulo pode virar uma recorda\u00e7\u00e3o de um personagem ou as considera\u00e7\u00f5es iniciais de um epis\u00f3dio. Por fim, certamente surgir\u00e1 a necessidade de escrever um ou dois cap\u00edtulos adicionais, para preencher buracos que voc\u00ea inicialmente n\u00e3o tinha percebido ou que foram criados a partir dos detalhes que voc\u00ea acrescentou enquanto punha &#8220;carne&#8221; no esqueleto da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para fazer todas estas mudan\u00e7as, pode ser uma boa ideia trabalhar com fichas pautadas contendo resumos dos cap\u00edtulos. Embaralhando-as, rasgando-as, refazendo-as ou criando novas voc\u00ea manipula f\u00edsica e visualmente a sua hist\u00f3ria, facilitando a percep\u00e7\u00e3o das conex\u00f5es que ela possui. O organograma tamb\u00e9m pode ser impresso e pendurado na parede. Se voc\u00ea tem facilidade para isso, tenha um grande flanel\u00f3grafo, no qual voc\u00ea espetar\u00e1 com percevejos os cart\u00f5es que representam a sua hist\u00f3ria. Tudo isso pode muito bem ser feito com o computador, mas eu suspeito que a manipula\u00e7\u00e3o f\u00edsica da hist\u00f3ria tenha um valor mais do que sentimental, mnem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Quando tiver conclu\u00eddo todos os cap\u00edtulos, ou pelo menos uma boa quantidade deles, suficiente para dar forma \u00e0 sua hist\u00f3ria, pode ser o momento de fazer a revis\u00e3o. Se est\u00e1 escrevendo um romance, esse momento n\u00e3o dever\u00e1 chegar antes que tenha rompido a margem das duzentas laudas (que dever\u00e3o ser calculadas em folhas de papel A4, com espa\u00e7amento duplo e uma fonte relativamente compacta). Na primeira revis\u00e3o voc\u00ea fatalmente decidir\u00e1 descartar, no todo ou em parte, algum dos cap\u00edtulos que inicialmente escreveu \u2014 da\u00ed a necessidade de n\u00e3o dar a obra por terminada muito cedo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve fazer um n\u00famero excessivo de revis\u00f5es porque elas s\u00e3o contraproducentes. Todo autor ver\u00e1 uma quantidade absurda de erros no que escreve e nunca estar\u00e1 satisfeito. O momento ideal para trabalhar a qualidade \u00e9 durante a fase de conclus\u00e3o dos cap\u00edtulos, que deve ser a grande revis\u00e3o estil\u00edstica e gramatical feita pelo autor. Com todos os cap\u00edtulos j\u00e1 montados na obra terminada, a revis\u00e3o necess\u00e1ria \u00e9 apenas para detectar e corrigir contradi\u00e7\u00f5es ou erros gritantes demais.<\/p>\n<p>Minha hist\u00f3ria com o MQC \u00e9 relativamente recente: eu s\u00f3 o usei para escrever quatro obras at\u00e9 agora: o conto &#8220;Pre\u00e7o da Passagem&#8221;, o romance &#8220;Amores Mortos&#8221;, um ensaio sobre H. P. Lovecraft e uma novela chamada provisoriamente de &#8220;Serra da Estrela&#8221;, que pretende ser uma tentativa de dar uma face &#8220;pop&#8221; ao folclore brasileiro. Destas obras, somente as duas primeiras est\u00e3o acabadas.<\/p>\n<p>Mesmo assim, acredito que trabalhar desse modo \u00e9 muito mais vi\u00e1vel para textos longos do que pelo m\u00e9todo cebola. Mas n\u00e3o adianta mudar de m\u00e9todo se voc\u00ea n\u00e3o acabar com o excesso de perfeccionismo que o impede de liberar seu texto. Chega-se a um ponto, na revis\u00e3o de um texto, em que voc\u00ea passa a destruir o que havia feito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias eu escrevi sobre o m\u00e9todo de desenvolvimento de texto que eu desenvolvi inicialmente, ap\u00f3s alguns anos tentando tornar-me escritor. O chamado &#8220;m\u00e9todo cebola&#8221; consistia em partir de um n\u00facleo b\u00e1sico e aperfei\u00e7oar a hist\u00f3ria atrav\u00e9s de revis\u00f5es sucessivas, cada uma com um foco diferente. 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