{"id":417,"date":"2010-09-19T19:35:00","date_gmt":"2010-09-19T22:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=417"},"modified":"2017-11-02T14:09:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:23","slug":"a-montanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/a-montanha\/","title":{"rendered":"A Montanha"},"content":{"rendered":"<p>De qualquer ponto da cidade se pode ver a Montanha com sua ampla face de granito, uma larga presen\u00e7a a esconder o horizonte. Seu cume coberto de ralas \u00e1rvores e rochas menores n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o imponente, a n\u00e3o ser por estar t\u00e3o alto. Subindo imponente como uma muralha, firmeza de s\u00e9culos, sem flores nem poemas, \u00e9 mais que um acidente geogr\u00e1fico, tornou-se parte da personalidade de Santa Cruz do Monte.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da montanha cresceu a cidade, contemplando o granito e se agarrando \u00e0 lama incerta do vale do Pardo. Santa Cruz do Monte sempre foi lembrada como uma cidade \u00e0 sombra de uma montanha, n\u00e3o pelo rio nem pela floresta. Formou-se \u00e0 base da Montanha como outras se formaram ao longo de rios, \u00e0 margem de lagos ou no encontro de estradas.<\/p>\n<p>Os primeiros habitantes, gente religiosa e nem sempre imune a lendas, aprenderam dos \u00edndios que o imenso rochedo guardava mist\u00e9rios e era o lar de seres sombrios que n\u00e3o andavam pelos caminhos de Deus. Houvesse outra op\u00e7\u00e3o eles teriam mudado seu pouso para mais longe, mas a l\u00f3gica do mundo n\u00e3o obedece aos impulsos da f\u00e9. Aquele lugar que transpirava a paganismo era um marco de refer\u00eancia vis\u00edvel desde muitas l\u00e9guas, por ele as tropas de burros que varavam o sert\u00e3o do s\u00e9culo XIX entre o Rio de Janeiro e o interior de Minas Gerais precisavam orientar-se. Ali os tropeiros acampavam, reuniam-se a contar hist\u00f3rias e a fazer seus neg\u00f3cios. Por isso nasceu a cidade: a servi\u00e7o das tropas, fruto do com\u00e9rcio desafiando as supersti\u00e7\u00f5es e os s\u00e9culos fechados nas matas ainda virgens do Sudeste de Minas, que um dia viria a ser chamado de Zona da Mata justamente por isso.<\/p>\n<p>A gente que ia ficando era uma gente sem grande anseio de aventuras: eram pessoas que ganhavam suas vidas pacatas vendendo e comprando em torno das rotas do sert\u00e3o. Lar de gente simples, o lugar era abrigo f\u00e9rtil para velhas lendas e supersti\u00e7\u00f5es, facilitadas pela presen\u00e7a feminina das matas e pela proximidade intensa daquela gigante rocha de f\u00fanebre aspecto.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Da inevitabilidade da conviv\u00eancia surgiu cedo a necessidade de conquista. Os homens que viviam junto \u00e0quele grandioso monumento natural n\u00e3o se sentiam tranquilos ao olhar para cima e ver apenas na crista do morro a f\u00edmbria do c\u00e9u e as cores das nuvens. Por isso trataram de arranjar-se com Cristo para apor sua marca vis\u00edvel no sert\u00e3o, aquela cruz de madeira negra que teve de ser tantas vezes refeita.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem hist\u00f3rias de como ou quando pela primeira vez desbravaram as perigosas encostas ocidentais, atrav\u00e9s das quais, unicamente, se pode subir, a custo e ao longo de quil\u00f4metros, at\u00e9 o topo da Montanha. N\u00e3o existem estas hist\u00f3rias, mas imagina-se que tenha sido h\u00e1 muito tempo que algu\u00e9m teve a ideia de estender os caminhos at\u00e9 o cume e l\u00e1 plantar uma cruz bem grande, vis\u00edvel desde muitas l\u00e9guas, uma interven\u00e7\u00e3o divina na paisagem pag\u00e3 e natural do interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe se foi antes ou depois da primeira capela, o que sabemos \u00e9 que a primeira cruz estava l\u00e1 muito, muito antes de algu\u00e9m pela primeira vez deixar escrito algum relato, antes at\u00e9 de haverem resolvido mudar o antigo e terr\u00edvel nome \u00edndio do lugar para o cristian\u00edssimo Santa Cruz do Monte.<\/p>\n<p>A f\u00e9 daqueles homens rudes levou-os a cumprir estes des\u00edgnios, batizando a machado e a fogo a terra antiga e \u00famida, arrancando as \u00e1rvores que vestiam a terra e expondo ao c\u00e9u o vermelho de sua carne o negro de seus ossos de granito. No ano de 1917 a povoa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 chamada Santa Cruz do Monte, erguia um pequeno templo, que futuramente seria a par\u00f3quia de S\u00e3o Jer\u00f4nimo e comemorava seu jubileu de diamantes. No alto da Montanha homens piedosos implantaram a marca definitiva da conquista daqueles sert\u00f5es para a Igreja: o primeiro cruzeiro, simples estrutura de madeira enegrecida a fogo, obra tosca de marceneiros que n\u00e3o estavam acostumados a sutilezas, foi substitu\u00eddo por um potente e duradouro outro, gigantesco monumento feito de concreto e feiura, assentado sobre uma irremov\u00edvel base de rochas prisioneiras do cimento.<\/p>\n<p>A cruz, por\u00e9m, como toda obra humana, foi pequena diante da imensa extens\u00e3o que se descortinava desde a Montanha. Mesmo medindo cinco metros de altura e gastando mais cimento que muitas casas, s\u00f3 mesmo de muito perto podiam os viajantes perceber sua exist\u00eancia. Mas ainda assim ele dava aos habitantes a boa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a no rega\u00e7o do Senhor. J\u00e1 haviam passado os antigos tempos em que os homens cruzavam com medo os sert\u00f5es e as primeiras estradas j\u00e1 estavam riscando com suas cicatrizes cor-de-rosa a pele do pa\u00eds. Quando a catedral foi constru\u00edda, d\u00e9cadas depois, a Montanha j\u00e1 n\u00e3o inspirava aquele velho receio e se transformara meramente em uma atra\u00e7\u00e3o particular do munic\u00edpio, apenas outro ponto a ser admirado pelos que passavam pela rec\u00e9m-constru\u00edda rodovia.<\/p>\n<p>Muito tempo passou e a cidade foi crescendo aos p\u00e9s da Montanha, ocupou outros vales e outros montes, nenhum deles mais alto que a sombra dela. Com as d\u00e9cadas a paisagem foi se despindo de \u00e1rvores, de p\u00e1ssaros, de brejos, daquele perfume doce \u00famido de mata. Ficou mais quente, predominou o cheiro impuro das pessoas e de suas coisas, de seus animais trazidos de longe. Vacas conquistaram as colinas, galinhas eram mais abundantes que jacus, camundongos competiam com as pre\u00e1s e mesmo as vidas das pessoas foram se normalizando, sua fala perdeu o jeito antigo e ganhou modismos trazidos pelo r\u00e1dio, iguais aos que h\u00e1 em todo lugar.<\/p>\n<p>A primeira vez em que vi a Montanha eu devia ter meus seis anos ou pouco mais ou menos. Lembro-me de t\u00ea-la acompanhado da janela do \u00f4nibus que me levava a Santo Ant\u00f4nio. Observei com maravilha nos olhos at\u00e9 que n\u00e3o fosse mais poss\u00edvel virar o pesco\u00e7o. No caminho havia outras montanhas, havia serras imponentes e vales largos. Mas n\u00e3o havia nenhuma montanha majestosa como o Morro da Cruz. Por isso guardei cada detalhe de sua fisionomia, fui lembrando atrav\u00e9s da viagem e por muito tempo ainda pensava no tamanho daquela selvagem beleza que as crian\u00e7as n\u00e3o entendem quando veem, apenas veem e lembram.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos passei ainda muitas vezes por Santa Cruz do Monte. Eu era uma crian\u00e7a pobre e doente e nunca pude passear muito, a n\u00e3o ser nas vezes em que ia a Santo Ant\u00f4nio consultar um m\u00e9dico famoso que dizia que eu tinha uma doen\u00e7a de nome estranho e fazia meus pais me darem muitos rem\u00e9dios de nomes compridos, um luxo que muitas vezes nos p\u00f4s em graves dificuldades financeiras mas n\u00e3o me curou.<\/p>\n<p>Nunca entrava na cidade nessas vezes em que viajava \u2014 a n\u00e3o ser nas raras vezes em que d\u00e1vamos o azar de embarcar num \u00f4nibus comercial. Minha m\u00e3e detestava quando isto acontecia porque a viagem demorava tr\u00eas horas ou mais, de tanto irmos parando em cada cidadezinha, em cada guarita de beira de estrada. Eu confesso que gostava, pois s\u00f3 assim podia ver ainda mais gente, ver mais lugares diferentes, \u00e0s vezes at\u00e9 crian\u00e7as brincando felizes. Nunca entendi porque a minha m\u00e3e sempre tinha tanta pressa de chegar. Para mim, e para todas as crian\u00e7as felizes, a pressa ainda era um mau h\u00e1bito que s\u00f3 o futuro ensinaria; naquela \u00e9poca eu ainda tinha tempo para ver as belezas do mundo em seu pr\u00f3prio ritmo.<\/p>\n<p>No entanto, a minha inf\u00e2ncia infeliz, para minha felicidade, acabou por durar bastante tempo, pelo menos o suficiente para que eu conseguisse vir a ser feliz, embora n\u00e3o o bastante para que eu pudesse ser saud\u00e1vel. Ela acabou bem tarde, num belo dia em que descobri que namorar e montar robozinhos com pinos m\u00e1gicos n\u00e3o eram atividades compat\u00edveis\u2026<\/p>\n<p>Um dia um m\u00e9dico bem menos famoso descobriu que eu n\u00e3o tinha nenhuma doen\u00e7a de nome complicado, que n\u00e3o precisava tomar nenhum rem\u00e9dio de nome comprido. Ele dispensou-me de tudo aquilo e me permitiu fazer Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica pela primeira vez. Depois disso eu cresci, terminei os meus estudos e fui trabalhar. Minha vida passou a ser uma vida adulta e eu n\u00e3o tinha mais tempo para coisas tolas como enxergar a beleza do mundo. Piorou ainda mais depois que comecei a namorar. Tantas mulheres, tantos lugares para ir, tantas noites de s\u00e1bado e nenhum tempo para olhar estrelas. Fui esquecendo as belezas velhas do mundo, as coisas tr\u00e1gicas e incr\u00edveis que existem desde sempre. Precisei ficar pobre para perder um pouco destas manhas e mumunhas de adulto e poder ver de novo o que h\u00e1 de bom em coisas simples.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 poucos anos que a Montanha voltou a fazer parte de minha vida. Havia deixado um emprego de muitos anos e estava ganhando a vida como um simples professor contratado. Era uma vida com bem menos dinheiro, mas eu tinha bem mais tempo para pensar em coisas boas como amar, gostar de Deus e ver a beleza das coisas. Tamb\u00e9m acabei vivendo rela\u00e7\u00f5es em v\u00e3o, me esquecendo de Deus e outros medos de inf\u00e2ncia e enxerguei a fenomenal feiura que pode haver, especialmente nas cidades. Tive bons amigos nesta \u00e9poca, pude fazer com bem pouco dinheiro muita coisa que eu sempre sonhava e n\u00e3o tinha tempo. Aprendi a gostar de Guilherme Arantes e de gente que canta boas m\u00fasicas, com letras cheias de sentido e melodias agrad\u00e1veis aos cinco sentidos.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca eu tinha muitos empregos, nenhum que me prendesse. Um deles era justamente em Santa Cruz do Monte e ele me dava a chance de ir l\u00e1 algumas vezes por semana, geralmente nas ter\u00e7as, quintas e s\u00e1bados. Minhas idas repetidas, quase quotidianas, fizeram de Santa Cruz um lugar como qualquer outro. Por isso eu deixei de ver a Montanha com aqueles olhos maravilhados de quando eu era crian\u00e7a: eu passava tanto tempo l\u00e1, conhecia tanta gente de l\u00e1, fazia tantos lanches no bar da esquina olhando para a parede de granito que n\u00e3o via nada de mais naquela presen\u00e7a toda que l\u00e1 estava a fazer sombra sobre metade da cidade, emparedando um lado do horizonte. E de repente a Montanha n\u00e3o era mais nada de estranho, de repente ela fazia parte da paisagem, como uma coisa qualquer em que ningu\u00e9m quase prestava aten\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca tamb\u00e9m eu j\u00e1 sabia que a Montanha n\u00e3o era t\u00e3o maravilhosa quanto fora. N\u00e3o era mais aquela impon\u00eancia virgem do passado: haviam derrubado a maior parte das matas, haviam feitos cercas que subiam pelas encostas \u00edngremes, haviam posto postes, torres e antenas em sua crista alta, mais alto at\u00e9 que o cruzeiro. Essa vis\u00e3o de natureza profanada derrubava um pouco o poder de atrair que antes l\u00e1 houvera.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era mais sentido como aventura haver visitado o topo da Montanha. Na verdade eram bem poucos os jovens santa-cruzenses que n\u00e3o o haviam feito. Namorando ou para outras finalidades menos saud\u00e1veis e felizes, muitos subiam pelas estradinhas de terra que levavam ao cume para aproveitar a cada vez mais rara solid\u00e3o de l\u00e1. Frequentemente viam-se far\u00f3is brilhando l\u00e1 no alto quando era alta madrugada, indicando alguma travessura em curso. Nessas circunst\u00e2ncias os pais se desesperavam querendo que as filhas j\u00e1 tivessem voltado para casa.<\/p>\n<p>Naquele tempo ainda se usava ir de carro a lugares ermos para ouvir m\u00fasica e namorar. Parece que hoje j\u00e1 n\u00e3o ousam mais fazer isto, pois em cada lugar parece que pende uma inseguran\u00e7a, um clima de amea\u00e7a que n\u00e3o havia ent\u00e3o. Ou talvez f\u00f4ssemos apenas jovens e loucos, incapazes de enxergar perigos. Bastava entrar pela Avenida Get\u00falio Vargas e l\u00e1 pela terceira ou quarta esquina chegava-se ao entroncamento da estrada que, sab\u00edamos, subia at\u00e9 l\u00e1 em cima, a estrada por onde todos os carros passavam r\u00e1pido, tarde da noite, com os vidros erguidos mesmo no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia foi o meu carro que subiu por l\u00e1, mais ou menos no come\u00e7o da fase louca de minha segunda adolesc\u00eancia. Dirigi pela estrada \u00edngreme, estreita, empoeirada e deserta. Subindo sempre, at\u00e9 sentir a press\u00e3o do ar contra os t\u00edmpanos. O \u00faltimo relance de subida era perigoso, um escorregadio lance cal\u00e7ado de paralelep\u00edpedos, ainda por cima estreito de caber um carro s\u00f3. A minha namorada respondia com risos a cada derrapada, no nervosismo alegre de estar numa aventura. Fl\u00e1via tinha dessas coisas, talvez por isso eu gostava tanto dela: gosto dos que mudam o seu medo em respeito e usam de cautela para brigar contra os limites. Ao lado dela eu tive coragem de acelerar sem medo, hoje penso se faria de novo, numa noite \u00famida de sereno como aquela, junto a um barranco medonho como aquele. E eu n\u00e3o estava b\u00eabado. Talvez s\u00f3 de amor.<\/p>\n<p>Do alto uma vis\u00e3o quase que m\u00e1gica: salpicadas pelo horizonte as luzes das cidades vizinhas rompiam o manto negro dos campos na lua nova. Uma, duas, tr\u00eas, quatro. Dependendo da transpar\u00eancia da atmosfera se poderia, talvez, contar mais delas. Pelo menos uma das cidadezinhas deixava transparecer a teia de ruas de um bairro. Dava para imaginar porque os primeiros brancos a andar por esses sert\u00f5es tinham tanto receio.<\/p>\n<p>A cruz de concreto n\u00e3o estava no cume, ao contr\u00e1rio do que pens\u00e1vamos. Se estivesse, seria bem pouco vis\u00edvel l\u00e1 de baixo. Por isso haviam-na colocado \u00e0 beira do rochedo em um lance de descida da \u00faltima escarpa do lado mais \u00edngreme, abrindo seus bra\u00e7os brancos para saudar o vale amplo que de l\u00e1 se abria. E ela que parecia estar contra o c\u00e9u, posta no alto mais alto da Montanha, inalcan\u00e7\u00e1vel e t\u00e3o imensa quando vista de baixo, vista de perto era apenas um pequeno monumento de concreto, sem beleza nem impon\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi muito boa a sensa\u00e7\u00e3o de sentar no ch\u00e3o da encosta, acima do cruzeiro, sentindo um pouco como se estiv\u00e9ssemos acima de tudo e de l\u00e1 pud\u00e9ssemos contemplar um leque bem grande da superf\u00edcie plana do mundo. Fl\u00e1via teve naquele momento uma sensa\u00e7\u00e3o parecida com a minha, parece que fomos crian\u00e7as por algumas horas l\u00e1, ou anjos. Andamos por todo o terreno semiplano, coberto de pasto ralo, sob o escuro da lua nova. V\u00edamos muito mais estrelas naquela noite sem l\u00e2mpadas, silenciosa e escura; n\u00e3o ouv\u00edamos, al\u00e9m de nossos risos, nada que pudesse assustar. Eu sorri quando disse a Fl\u00e1via que a felicidade \u00e9 bem perto do abismo. Ela sorriu de volta e me chamou para bem perto da escarpa de trezentos metros pelo menos, de l\u00e1 olhamos a cidade l\u00e1 embaixo, parecendo t\u00e3o murcha e adormecida.<\/p>\n<p>Tivemos coragem de beijar por muito tempo, de fazer amor, de demorar por l\u00e1, de cheirar bastante o perfume imaculado daqueles ventos frios \u00e0 beira do abismo. Mas n\u00e3o tivemos coragem de ligar o r\u00e1dio do carro. Por mais bela que fosse a m\u00fasica, n\u00e3o seria mais bela que aquela oportunidade t\u00e3o rara de escutar o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 Montanha ainda algumas vezes, cada vez mais fascinados por aquele escuro sil\u00eancio, l\u00e1 mais perto das nuvens, longe das pacatas vidas das pessoas. Mas come\u00e7amos a perceber que n\u00e3o \u00e9ramos os \u00fanicos, e aos poucos fomos perdendo a coragem de ficar mais tempo, de sair andando pelo pasto admirando estrelas, de fazer amor no carro ouvindo a calada da noite. Nas \u00faltimas vezes nem tivemos mais coragem de chegar. Foi nessa \u00e9poca que fizeram as primeiras constru\u00e7\u00f5es, para abrigar os instrumentos autom\u00e1ticos das torres de transmiss\u00e3o de televis\u00e3o e de telefone.<\/p>\n<p>Visitamos algumas vezes durante o dia, mas a m\u00e1gica n\u00e3o era a mesma, parecia nem existir. Claro, se podia ver um horizonte enorme, uma luz intensa e as cores da dist\u00e2ncia graduadas como numa pintura da Renascen\u00e7a. Mas a impon\u00eancia da montanha ficava menor porque n\u00e3o pod\u00edamos ver os fantasmas das luzes das cidades, porque n\u00e3o pod\u00edamos perceber que ali havia mais estrelas que as que v\u00edamos das janelas quadradas de nossas casas no vale.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca a Montanha perdeu seu resto de selvageria. Depois das torres de transmiss\u00e3o vieram as casas de fazendas e as cancelas nas estradas. Ent\u00e3o puseram mirantes, constru\u00edram quiosques e fizeram do lugar um ponto tur\u00edstico; o que quase sempre significa destruir o encanto e transformar a paisagem em um &#8220;cercadinho&#8221; para gente que n\u00e3o vem sonhar, mas gastar dinheiro. A beleza sempre \u00e9 de gra\u00e7a, mas o turismo custa dinheiro.<\/p>\n<p>O \u00faltimo golpe contra a montanha foi quando algum desses rica\u00e7os construiu sua mans\u00e3o junto \u00e0 escarpa, de forma a dominar o vale com sua feia impon\u00eancia arquitet\u00f4nica. Uma destas casas feitas para gordos fins de semana de churrascos, para a cria\u00e7\u00e3o de c\u00e3es de ra\u00e7a e para festas com mulheres ou amantes. Aquela constru\u00e7\u00e3o feiosa, com suas telhas e janelas pseudo coloniais, apareceu l\u00e1 em cima como um castelo medieval dominando uma plan\u00edcie. Para que a fizessem foi preciso cortar a trator um trecho plano na encosta, deixando uma cicatriz vermelha que desmoronou manchando o granito milenar, e foi preciso derrubar bastante da \u00faltima mancha de mata para que da varanda o propriet\u00e1rio pudesse contemplar a paisagem, como um bar\u00e3o a vigiar os seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p>Nesta \u00e9poca minha tristeza coincidiu com muitas coisas, com o fim dos dias de ing\u00eanuo amor com Fl\u00e1via, breve intervalo infantil e feliz que eu pude ter de novo aos trinta anos. Cada vez que eu olhava para o alto e via aquela casa eu me sentia como se algu\u00e9m houvesse invadido e destru\u00eddo o meu mundinho, se assenhorado de meus antigos sonhos e me despejado deles. Aos poucos fui detestando aquela constru\u00e7\u00e3o, mesmo sem nunca t\u00ea-la visto de perto e sem nunca ter conhecido o seu dono. Na verdade eu comecei a perceber que odeio cada coisa que muda o mundo, cada coisa que me lembra de que a vida passa, que os dias de inoc\u00eancia acabaram e agora tudo que me resta \u00e9 ter momentos de beleza em meio a aridez do dia, flores brotando do cal\u00e7amento, sujas da poeira, prestes a serem arrancadas pela primeira m\u00e3o que passe.<\/p>\n<p>E de repente vemos surgirem estas coisas mundanas e sem esp\u00edrito, casas feitas segundo riscos de arquitetos que copiam de outros arquitetos, torres e antenas fabricadas com pe\u00e7as de montar que v\u00eam de longe e s\u00e3o feitas, id\u00eanticas, em milh\u00f5es de unidades. E percebemos que elas venceram com sua torpe e grandiosa monstruosidade, que conseguiram marcar com mais for\u00e7a a presen\u00e7a da m\u00e3o humana que dominou e destr\u00f3i aquele gesto de pot\u00eancia que Deus deixou no meio desta terra que um dia foi chamada de &#8220;sert\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Imperceptivelmente, por\u00e9m, uma mudan\u00e7a maior aconteceu. Talvez um velho esp\u00edrito que por l\u00e1 vivia resolveu mudar-se, ou talvez morreu. Temos visto nos \u00faltimos anos que o granito j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o negro, que o verde das encostas desbotou em cinza. E neste \u00faltimo abril uma fenda se partiu na face do rochedo, uma lasca desprendeu-se e desceu a trovejar. Oficialmente dizem que a \u00fanica v\u00edtima foi uma vaca infeliz. Sabemos, por\u00e9m, no fundo de n\u00f3s mesmos, que h\u00e1 outras v\u00edtimas pelo menos: a beleza do velho marco que j\u00e1 n\u00e3o resiste a ser domado como outra montanha qualquer e a velha gra\u00e7a de uma cidade ousada que o homem plantou no meio do sert\u00e3o e que hoje \u00e9 apenas uma cidade comum, at\u00e9 bem perto da civiliza\u00e7\u00e3o gra\u00e7as aos trens, \u00e0s estradas e aos avi\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 os que, como eu, olham para a parede de granito e veem na cicatriz da pedra que caiu a evid\u00eancia de que a saudade n\u00e3o \u00e9 inofensiva.<\/p>\n<p>Leopoldina, 20 a 22 de julho de 2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De qualquer ponto da cidade se pode ver a Montanha com sua ampla face de granito, uma larga presen\u00e7a a esconder o horizonte. Seu cume coberto de ralas \u00e1rvores e rochas menores n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o imponente, a n\u00e3o ser por estar t\u00e3o alto. 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